sábado, 21 de fevereiro de 2026

O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escrever coisas parecidas. Nunca mais parei.

Mas, crônicas, comecei a escrevê-las bem mais tarde. A primeira cujo registro está no meu blog “Crônicas da Maturidade”, tem a data de dezenove de outubro de dois mil e treze (19/10/2013), o ano da morte de meu pai, e tem o nome de “Um Sábado Qualquer”. Nesse blog escrevo coisas triviais como: a presença de dois filhotes de passarinho em minha janela querendo alçar seu primeiro voo; o fim de utilidade de minhas botinas de caminhada; o que comi no café da manhã; a noite que eu passaria dedicado aos cuidados de meu pai; e as perguntas óbvias que nos fazem e as minhas respostas não tão óbvias, mas só para parecer engraçado.

Com o tempo a gente vai aprimorando a linguagem, procurando temas menos triviais, criando um estilo particular. Uma característica de minhas crônicas é o seu tom bem humorado, o bom humor é minha marca pessoal. Além do humor uso também minha formação em Ciências, meu trabalho como professor (agora ex), e meus relacionamentos com pessoas e com o mundo.

 

Objetos contra mau humor generalizado:
plástico-bolha para tratar impaciências;
livraria para saneamento de neuroses;
saco de pancada e luva de boxe
para boas porradas curativas.

E preventivas

(Paulo Venthura)

 

Eu não tenho uma rotina de escrita, do tipo faço sempre tudo igual. Na verdade, faço sempre tudo diferente, meus dias nunca são iguais. Mas tenho uma série de ações que são inerentes às atividades do escritor, que se somam aos meus outros papéis sociais, que são: marido de uma companheira também escritora, e também musicista, compositora, professora de violão, cantora de coral, membro de uma banda de choro e outra de cordas e mãe de uma dentista cantora; pai de alguns filhos e filhas; avô de alguns netos e netas, irmão de muitos; filho de uma mulher centenária. Faltou a tutoria de três cães e quatro gatos. Impossível definir horas de fazer as coisas.

Mesmo assim, há coisas que faço todos os dias, mesmo em horários variados, pois são necessárias e inerentes ao processo criativo: atividade física (uma caminhada e mais uma série de ginásticas) para colocar o corpo em movimento; respiração controlada e meditação, para manter o equilíbrio emocional; um banho frio (ou melhor, dois ou três por dia) para manter o ânimo; muita leitura, pelo menos umas cinquenta páginas por dia; audição de música variada, para meu deleite e também para coparticipar do processo criativo de minha companheira; alimentação bem balanceada, pois preciso de mais proteínas e menos carboidratos; momentos de absoluto silêncio, que vem de dentro, o que me permite escutar até minha pulsação. E, claro, escrever todos os dias quantas páginas eu der conta.

Como a minha proposta no programa IncentivArte foi a escrita de crônicas de memória social contando as histórias de pessoas, preciso de tempo para muita conversa. Isso eu adoro fazer, conversar. E ler autores especialistas em crônicas. Tenho, portanto, me dedicado especialmente à releitura de alguns bons cronistas: Fernando Sabino, Luís Eduardo de Carvalho, Leandro Bertoldo, Humberto Gessinger, Lya Luft, Oswaldo França Júnior, Evaldo Balbino, entre tantos outros. Mas quem mais tem influência sobre minha escrita, hoje, é uma contista excepcional, totalmente desconhecida, porque seu primeiro livro será publicado agora, quando ela chega aos noventa e três anos, e tenho a sorte de ser seu primeiro leitor, o cara que revisa seus textos. Seu nome: Maria de Lourdes Guanabarino de Souza e Mello, ou simplesmente Maria Simello. Vocês terão notícias dela.

Caras e caros, é assim que passo a maior parte dos meus dias, só para cumprir o papel, escolhido por mim, de escritor. No entanto, nos últimos seis meses, a rotina teve uma grande mudança. Como bolsista residente do programa IncentivArte, tive o compromisso, registrado em contrato, de escrever sobre os saberes escondidos entre montanhas, relatando histórias interessantes ouvidas de personagens nova-limenses.

As escolhas, obviamente, foram pessoais, ou indicações de pessoas de meus relacionamentos. Geraldo Adão faz parte de meu grupo de meditação e rodas de conversa; Caio Carvalho é livreiro e meu amigo; Magali eu conheci por causa de sua atividade; Alejandra também faz parte da roda de conversa da qual participo e foi ela quem me indicou a Fátima Borges; Enilde é minha amiga há mais de sessenta anos; Edna Jacinto foi indicada por sua irmã, Mônica, uma escritora minha amiga e Cássio eu o conheci em um evento sobre história da cidade.

Minha lista era bem maior, mas alguns desencontros aconteceram e o processo foi (é) mais lento que eu imaginava. O envolvimento com as entrevistas, gravações, escrita e revisão é muito grande e emocionante. Seguramente o projeto não termina aqui. Como o livro teve o aceite de uma editora que publica livros sobre as histórias da cidade, um volume II já está programado para ser publicado no próximo ano.

Tenho que registrar também, a qualidade da equipe de mentores, curadores e gestores do Programa IncentivArte. Além de uma presença constante no processo com a escuta e as orientações, nos apresentaram também a pessoas incríveis que estiveram conosco em seções de imersão em culturas diferentes.

Registro também meu agradecimento a todos os colegas que estiveram comigo no programa. Fomos vinte artistas residentes com muita gana, garra e vontade, cada um dando o seu melhor.

 

Na minha rua estão as mesmas casas.
No entanto, é outra rua.
Outros tempos: outros lugares.
A cidade de minha infância,
hoje, tem apenas o mesmo nome.

(Paulo Venthura)

 

 

O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...