Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escrever coisas parecidas. Nunca mais parei.
Mas, crônicas, comecei a escrevê-las bem mais tarde. A
primeira cujo registro está no meu blog “Crônicas da Maturidade”, tem a data de
dezenove de outubro de dois mil e treze (19/10/2013), o ano da morte de meu
pai, e tem o nome de “Um Sábado Qualquer”. Nesse blog escrevo coisas triviais
como: a presença de dois filhotes de passarinho em minha janela querendo alçar
seu primeiro voo; o fim de utilidade de minhas botinas de caminhada; o que comi
no café da manhã; a noite que eu passaria dedicado aos cuidados de meu pai; e
as perguntas óbvias que nos fazem e as minhas respostas não tão óbvias, mas só
para parecer engraçado.
Com o tempo a gente vai aprimorando a linguagem, procurando
temas menos triviais, criando um estilo particular. Uma característica de
minhas crônicas é o seu tom bem humorado, o bom humor é minha marca pessoal. Além
do humor uso também minha formação em Ciências, meu trabalho como professor
(agora ex), e meus relacionamentos com pessoas e com o mundo.
E preventivas
(Paulo Venthura)
Eu não tenho uma rotina de escrita, do tipo faço sempre tudo
igual. Na verdade, faço sempre tudo diferente, meus dias nunca são iguais. Mas
tenho uma série de ações que são inerentes às atividades do escritor, que se
somam aos meus outros papéis sociais, que são: marido de uma companheira também
escritora, e também musicista, compositora, professora de violão, cantora de
coral, membro de uma banda de choro e outra de cordas e mãe de uma dentista
cantora; pai de alguns filhos e filhas; avô de alguns netos e netas, irmão de
muitos; filho de uma mulher centenária. Faltou a tutoria de três cães e quatro
gatos. Impossível definir horas de fazer as coisas.
Mesmo assim, há coisas que faço todos os dias, mesmo em
horários variados, pois são necessárias e inerentes ao processo criativo:
atividade física (uma caminhada e mais uma série de ginásticas) para colocar o
corpo em movimento; respiração controlada e meditação, para manter o equilíbrio
emocional; um banho frio (ou melhor, dois ou três por dia) para manter o ânimo;
muita leitura, pelo menos umas cinquenta páginas por dia; audição de música
variada, para meu deleite e também para coparticipar do processo criativo de
minha companheira; alimentação bem balanceada, pois preciso de mais proteínas e
menos carboidratos; momentos de absoluto silêncio, que vem de dentro, o que me
permite escutar até minha pulsação. E, claro, escrever todos os dias quantas
páginas eu der conta.
Como a minha proposta no programa IncentivArte foi a escrita
de crônicas de memória social contando as histórias de pessoas, preciso de
tempo para muita conversa. Isso eu adoro fazer, conversar. E ler autores
especialistas em crônicas. Tenho, portanto, me dedicado especialmente à
releitura de alguns bons cronistas: Fernando Sabino, Luís Eduardo de Carvalho,
Leandro Bertoldo, Humberto Gessinger, Lya Luft, Oswaldo França Júnior, Evaldo
Balbino, entre tantos outros. Mas quem mais tem influência sobre minha escrita,
hoje, é uma contista excepcional, totalmente desconhecida, porque seu primeiro
livro será publicado agora, quando ela chega aos noventa e três anos, e tenho a
sorte de ser seu primeiro leitor, o cara que revisa seus textos. Seu nome:
Maria de Lourdes Guanabarino de Souza e Mello, ou simplesmente Maria Simello.
Vocês terão notícias dela.
Caras e caros, é assim que passo a maior parte dos meus
dias, só para cumprir o papel, escolhido por mim, de escritor. No entanto, nos
últimos seis meses, a rotina teve uma grande mudança. Como bolsista residente
do programa IncentivArte, tive o compromisso, registrado em contrato, de
escrever sobre os saberes escondidos entre montanhas, relatando histórias
interessantes ouvidas de personagens nova-limenses.
As escolhas, obviamente, foram pessoais, ou indicações de
pessoas de meus relacionamentos. Geraldo Adão faz parte de meu grupo de
meditação e rodas de conversa; Caio Carvalho é livreiro e meu amigo; Magali eu
conheci por causa de sua atividade; Alejandra também faz parte da roda de
conversa da qual participo e foi ela quem me indicou a Fátima Borges; Enilde é
minha amiga há mais de sessenta anos; Edna Jacinto foi indicada por sua irmã,
Mônica, uma escritora minha amiga e Cássio eu o conheci em um evento sobre
história da cidade.
Minha lista era bem maior, mas alguns desencontros
aconteceram e o processo foi (é) mais lento que eu imaginava. O envolvimento
com as entrevistas, gravações, escrita e revisão é muito grande e emocionante.
Seguramente o projeto não termina aqui. Como o livro teve o aceite de uma
editora que publica livros sobre as histórias da cidade, um volume II já está
programado para ser publicado no próximo ano.
Tenho que registrar também, a qualidade da equipe de
mentores, curadores e gestores do Programa IncentivArte. Além de uma presença
constante no processo com a escuta e as orientações, nos apresentaram também a
pessoas incríveis que estiveram conosco em seções de imersão em culturas
diferentes.
Registro também meu agradecimento a todos os colegas que
estiveram comigo no programa. Fomos vinte artistas residentes com muita gana,
garra e vontade, cada um dando o seu melhor.
(Paulo
Venthura)