domingo, 5 de abril de 2020

RETROSPECTIVA BEM HUMORADA 05


Aventura 03: Viagem de 20 dias pela Patagônia Argentina e Chilena. Fiquei impressionado com a Terra do Fogo, extremo sul continental do planeta. E com as geleiras.
Professoras primárias queridas: Laila Abalen e Léa Giorgini.
Maiores lembranças da infância: Minha mãe cantando Francisco Alves e Sílvio Caldas no tanque; descida de carrinho de rolimã, construído por nós mesmos, na rampa da rua onde morávamos, em Nova Lima; passeios pela Mata do Jambreiro desde a manhã até quase noitinha (conhecíamos a mata inteira e até fomos usados como guias pelo corpo de bombeiros quando um grupo de jovens se perdeu e os bombeiros não o encontraram); as partidas de futebol, aos fins de tarde, no campinho privativo dos moleques da rua, eu prum lado e Santiago pro outro no par ou ímpar (éramos os maiores); futebol no campo do Montanhês, bairro Cabeceiras, Nova Lima, aos domingos; subir na caixa d’água de mais de 30 m de altura para tomar banho dentro dela sem que nossos pais nos vissem; ir aos domingos ao cinema do Teatro Municipal de Nova Lima (hoje um patrimônio) assistir filmes de Mazzaropi, levado por meu pai; soltar papagaio (ou pipa, ou flecha) do pátio da Cemig no meio daquele emaranhado de fios elétricos e torcer para que o vento estivesse soprando para o outro lado; jogar bolinha de gude; namorar as meninas da escola primária; descer a rampa gramada, e muito inclinada, sentado em cima de um papelão, ou saco de linhagem, e ficar esperto para não dar de cara no muro; passar férias na Fazenda Potreiro, em Rio Piracicaba/MG, com meu avô Juquinha e andar a cavalo, tirar leite de vaca, pescar no rio à tardinha, subir no pé de jaca do quintal, chupar laranja do pomar, etc., etc.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

RETROSPECTIVA BEM HUMORADA 04


O que já escutei sobre mim: dizem que sou chato. Respondo que sou chato, mas sou genial, como outros chatos geniais – Caetano Veloso, Paulo Francis, Nelson Piquet, etc.
O que também já escutei sobre mim: que sou sereno, tranquilo e que transmito confiança. Concordo.
Aventura 02: viajar de carro na França, Espanha, Portugal, Suíça, Itália, Alemanha, e outros lugares, sem destino certo.
Línguas: só aprendo línguas no calor das conversas com nativos. Assim aprendi francês e espanhol.
Prazeres: Uau, são tantos! Os melhores prazeres da vida são aqueles minúsculos prazeres cotidianos, que tornam a vida mais leve. O primeiro gole da cerveja na temperatura certa; comer a ponta do pão quentinho quando sai do forno; acordar com tesão de madrugada e sua mulher também; ligar o rádio e estar tocando sua música preferida; comer um pão de queijo com café em silêncio; ver uma criança lendo seu livro e se deliciando; ouvir uma poesia sua sendo declamada por um desconhecido; sentar na beira do rio só para escutar o murmurinho da água; andar descalço em riacho pedregoso; ver o por do sol; levantar bem cedo para ver o sol nascer na montanha; ver a lua cheia aparecer no alto da mesma montanha no mesmo dia que viu o sol nascer pela manhã; surgir uma pequena inspiração e minutos depois ter um poema escrito; comer angu e couve fina com feijão tropeiro e ovo; beijos; abraços; abraços e sorrisos de filhos e netos; sentir-se amado; amar; andar de bicicleta; tomar banho de cachoeira; uma boa prosa com amigos; caminhar em silêncio ao lado de pessoa amiga e perceber que a fala é desnecessária; receber uma mensagem daquela pessoa que você gosta muito e não vê há tempos; dançar coladinho; ouvir música de manhã ao acordar; etc.; etc.; etc..


RETROSPECTIVA BEM HUMORADA 03


Diploma: tenho vários. Certificado de conhecimento.
Amigos: um monte: certificado de sabedoria
Profissão: professor durante mais de 40 anos
Formação formal: Física e Ciência da Comunicação
Formação não formal: poesia, conversa afiada, resposta pronta, pedalada, banho de cachoeira, amizade, carrinho de rolimã, culinária, fotografia, pintura imaginária, desenho com dedos no ar, orelha boa para ouvir pessoas, aldravias, clássicos da literatura e outros nem tão clássicos, histórias em quadrinhos, passeios às margens do Sena e do São Francisco e das Velhas e do Cipó, degustação de cachaça, um pouco de alpinismo, escaladas em torres da Cemig, assistir Marília Pera e Katerine Ross no cinema, leitura continuada e eterna de Grande Sertão Veredas e Dom Casmurro, caçada de estrelas cadentes, busca do tesouro no fim do arco-íris, passeios na mata do Jambreiro, passeios na mata de Rambouillet, remo na Lagoa dos Ingleses, mordida de piranha no calcanhar, beijos na boca, por do sol pelo Brasil afora e outros lugares do mundo, nascer do sol nas montanhas e na beira mar, assistir O Corpo em Paris, pedalar na Inglaterra e na França, fazer o Caminho do Sertão, gostar da música do Makely Ka, Sérgio Pererê e Maurício Tizumba, o cordel do Olegário Alfredo, entre outros milhares de coisas que me ensinaram a ser o que eu sou.


DIÁRIO DA QUARENTENA I – 03/04/2020


Estou em quarentena. Isso não é novidade. Eu e milhares de outros. Há quem diga que é uma medida desnecessária, que a economia vai falir. Mas a economia é um ente abstrato, eu não. Eu sou concreto, de carne e osso e um poço de emoções. Estou em quarentena há duas semanas. Em princípio, comecei com um resfriado estranho: tosse, espirros, dor de cabeça, dor no corpo, dor de garganta. Sem febre. Com os anúncios dos sintomas mais genéricos da COVID-19, fiquei com um certo temor de estar covidiado. Parece que não, ou que sim, não tenho certeza. O fato é que meus sintomas foram mudando ao longo dos dias, e se afastando dos casos clássicos de pessoas contaminadas. Meu resfriado foi embora, fiquei mais tranquilo.
Eu me mudei para um novo endereço uns dias antes da deflagração da quarentena e isso foi uma sorte. Moro em uma casa ampla, grande, onde instalei meu escritório, biblioteca, cozinha e quarto. E tenho um grande espaço externo para trabalhar. Tenho também um vizinho que me empresta ferramentas para trabalhos genéricos, tipo passatempo. Aliás, trocamos ferramentas. A casa dele é em cima da minha e temos uma passagem comum.
Esta casa onde moro fica em um bairro sossegado e ela está no final do bairro e perto das trilhas na mata, onde posso caminhar sempre que não chove. E como chove aqui. Parece que estou em uma cidade amazônica, onde chove todos os dias. Hoje, por exemplo, choveu o dia inteiro. E esfriou.
Outra grande vantagem de minha mudança é que não moro mais sozinho. Tenho a companhia de minha namorada. Estávamos os dois começando um relacionamento e ele foi esquentando, esquentando, já ficávamos a maior parte do tempo juntos. Então resolvemos ficar em quarentena juntos. Logo, moro em um lugar super agradável e com ótima companhia. Ela, minha companheira, é alegre, acorda sorrindo, sorri o dia todo, cozinha maravilhosamente e toca violão muito bem. Ela veio com seu violão, seus livros e sua caixa de sapatos. Como é possível uma pessoa ter tantos sapatos? Ela tem mais sapatos que eu tenho de chapéus. Talvez ela pergunte: como é possível uma pessoa ter tantos chapéus? E com o frio que faz aqui, imagino que terei chances de usá-los, o que não fazia antes por causa do calor. Há anos não fazia frio e este ano parece que ele virá com vontade.
Hoje estou escrevendo mais que o normal. Tirei o dia para ler e escrever. Tive um pouco de dor de cabeça, mas foi ressaca mesmo. Ontem à noite eu e minha companheira fomos convidados para tomar um vinho com nosso vizinho de cima, em quarentena como nós. Tomamos duas garrafas enquanto minha companheira se dedicou ao violão nos presenteando com um belo repertório de música brasileira. E terminou em samba.
Em casa parece que o vinho subiu, ou desceu, não sei. O que sei é que nosso movimento na cama foi fora do normal. O que havia terminado em samba continuou em transa, das melhores dos últimos tempos, em nosso quarto. Uau! Que maravilha de sexo. Desse jeito a quarentena pode virar cinquentena ou mais. Estou me acostumando com a pessoa, a convivência tem sido das melhores. Creio que nos daremos muito bem. Já nos damos muito bem. Um amor diferente do que já senti antes está no ar. E não é vírus. Não morre com sabonete e álcool em gel.
Com relação ao trabalho, já que tenho a responsabilidade de conduzir uma editora, confesso que estou relaxado e relapso. Isso precisa mudar a partir de amanhã. Assumo aqui, no papel, o compromisso de mudar meu comportamento profissional. Preciso sobreviver ao vírus física, psíquica e economicamente. Sigamos, então.



terça-feira, 24 de março de 2020

RETROSPECTIVA BEM HUMORADA 02


Briga com irmãos: quem tem 8 irmãos tem que impor respeito.
Surra de pai: não cabe nos 100 dedos de pés e mãos.
Briga com vizinho: Na rua, meu caro, quem não bate apanha.
Primeiro emprego: aos sete anos vendia verdura na rua e ganhava comissão pela venda – uma lambada se não vendesse tudo.
Primeira poesia: quando ganhei o primeiro beijo na boca.
Primeiro beijo: aos sete anos (não foi na boca) de coleguinha de sala.
Primeira trepada: sua pele era de ébano e foi debaixo de um caramanchão.
Primeira visita na zona: aos sete anos, vendendo verdura.
Música que assobio no chuveiro: submarino amarelo.
Brincadeiras de menino: carrinho de rolimã, futebol, papagaio.
Grandes amores da juventude: Katherine Ross e Marília Pera.
Namorada perdida: quando eu voltar de férias vou pedir aquela garota para namorar comigo.


RETROSPECTIVA BEM HUMORADA 01


Filhos:  4
Livros: 4 publicados, uns 10 no prelo e uns 20 planejados
Árvores: uma florestinha inteira
Osso quebrado: uns dez, só lembro deles na chuva de lua cheia quando todos doem ao mesmo tempo.
Tornozelo torcido: como fui peladeiro de toda semana, já aconteceu N vezes.
Namoradas: não contei não.
Projetos inacabados: centenas.
Primeiro carro: um Passat 1974.
Tombos de bicicleta: como pedalo desde os 15 anos, imagino que uma porrada.
Banho pelado de cachoeira: uma delícia até o dia em que quase perdi o saco por não o segurar com a mão ao pular do alto da cachoeira.
Praia de nudismo: só fui uma vez.
Susto no avião: uma vez, chegando em Floripa em tarde de tempestade; outra vez, chegando em Ilhéus ao perceber o tamanho e a localização do aeroporto à beira mar.
Sexo no avião: nunca
Sexo em viagem de ônibus: entre São Paulo e Juiz de Fora, e entre Belo Horizonte e São Paulo.
Sexo na praia: que saudade de Nova Almeida/ ES.
Susto na estrada: quase morri uma vez, em viagem de Belo Horizonte a Viçosa. E muitos outros sustos menos assustadores.
Aventura 01: pedalada entre Londres e Paris – 420 km em 7 dias.
Partos: nunca assisti a nenhum, eu caia no sono na hora do nascimento de meus filhos.
Arrependimento 01: comer pão de queijo em lanchonete em Manaus. Jeito de mineiro viver perigosamente.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

MEIA SETE


Meia sete. Parece o ano daquele fusquinha que fez sucesso entre os garotos de minha idade, mas lá pelos anos oitenta, noventa. De vez em quando a gente ainda vê um fusquinha meia sete, ou meia oito. Meia oito foi o ano do AI-5. Terrível. Em nome dessa loucura muita gente boa foi presa e algumas mortas simplesmente por não concordarem com o regime vigente. E tem umas bestas inumanas que querem reviver essas loucuras. Em nome de quê? De um patriotismo besta? De privilégios para alguns às custas da miséria de outros? Isso é assunto para mais de metro. Comecei a escrever aqui para falar de minha idade. Meia sete. É que hoje é meu aniversário. Estou sossegado em casa. Devo ter conversado com no máximo umas cinco pessoas hoje. Mudei de endereço e trabalho para dar uma mínima organização a meu esconderijo novo. E também porque recomeço a vida. Novo lugar para morar, novas pessoas em minha vida, nova forma de conduzir o trabalho e, espero, melhores resultados. Minha vida tem sido caótica, totalmente aleatória, um verdadeiro movimento browniano. Ainda bem que Einstein desvendou os enigmas do movimento browniano, então nem posso falar mal dele. Quando jovem eu queria ser gente grande, com grana, com sucesso. Lá pelos anos meia sete eu, com quinze anos, entrei para o que hoje denominam de ensino médio, fui logo convidado para ser tesoureiro da união novalimense de estudantes secundários, nos reuníamos aos sábados à tarde no Liceu de minha cidade. Não durou muito, o tal de AI-5 caçou nossa associação, nos colocou na clandestinidade e, jovens que éramos em uma cidade cheia de delatores (nem premiados eram), desistimos de continuar. Minha iniciante vida política se esfacelava logo de saída. E meu pai, vigiado que fora por ser sindicalista, impediu que seus filhos se enveredassem pela política. Teve medo por nós. Só desabrochou minha verve política de esquerda mais tarde, bem mais tarde, quando fui parar na universidade. E hoje, com os malucos que temos no poder, a luta retoma seus momentos mais cruciais. Temos que lutar por nossos parcos direitos adquiridos. Ainda nem sabemos o que é democracia e temos que reunir forças para mantê-la, aos pedaços que seja, em fragmentos, ora bolas. É o que temos.

Meia sete. Que número feio! E minha cara começa a mostrar as marcas do tempo, em forma de rugas, pelancas, manchas, flacidez. Uma barriguinha bem cuidada com muita ginástica insiste em sair de sua forma ondulada e tomar a forma arredondada. E a memória, essa danadinha, cisma de me abandonar nos momentos mais importantes. Justamente quando estou na presença, que muito me alegra, daquela pessoa que não vejo há algum tempo e seu nome desaparece no meio de minha barafunda mental. Quanto ao sexo, nem falo nada. Meu pênis adquire vontade própria e quando a vontade dele coincide com a minha é uma festa. Estou reaprendendo a transar. Emagreci uns quilos, mudei a alimentação, mais saudável agora, bebo menos hoje, caminho, pedalo, faço musculação, leio muito, escrevo bastante, tenho uma boa parceira, etc. e tal. Tento me manter informado e conectado com o mundo, ouço música boa, assisto filmes. Tudo isso para envelhecer com dignidade e autonomia, pois como disse Rita Lee, não é para os bananas, é para os fortes. Então, forte quero ser.

Meia sete. Quando encontro pessoas de minha idade eu fico, muitas vezes, chateado em perceber que a vida não é muito camarada para alguns. Vida sofrida? Trabalho demais? O que faz com que alguns envelheçam mais rápido ou mais devagar que outros? Porque eu também trabalho muito, dei muito duro na vida, nada foi fácil para mim. Uma vez encontrei um colega que não via havia tempos, ele me olhou nos olhos e disse quase com raiva. Você não envelhece porque sempre foi um irresponsável. Aquilo me chocou um pouco de início, mas depois fiquei me colocando no lugar e refutei a afirmação tão assertiva dele. Irresponsável uma ova! Sempre tive muitas responsabilidades e penso que dei conta delas. O que sou, na verdade, é bem humorado, alegre mais que na medida do possível, e nunca me deixei levar pelo pessimismo, pela tristeza, pelas palavras cheias de negatividade. Minha mãe ensinava, quando eu era criança, que não devia falar de desgraças porque desgraça sempre atrai desgraça. Segui seus conselhos. Muitos anos depois, em Paris, eu ouvi a escritora Lígia Fagundes Teles discursando, em francês, que devemos ter cuidado com as palavras. Elas têm uma força muito grande e alteram a vida daqueles que as pronunciam. Minha mãe é uma sábia. A fonte da juventude está, deduzo, em ter pensamentos e ações positivas, alegres, que espalhem sorrisos nos olhos dos outros. Mas aí reside também uma contradição importante. Eu espalhei também muita tristeza na vida de pessoas, principalmente de pessoas que eu amei e amo.

Meia sete. Nesse tempo todo quantas tristezas e lágrimas fiz derramar em olhos alheios? Quantos sorrisos consegui desenhar nas bocas de pessoas conhecidas e desconhecidas? Não se trata apenas de números, mas de profundidade. Uma tristeza profunda apaga quantos sorrisos? Esta conta é simplista assim? Não creio. Espero apenas que as pessoas tristes me perdoem. Que as pessoas tristes por minhas ações me perdoem em dobro. E que as outras sorriam quando me virem flanando na rua com meu rosto sereno. Porque sereno eu sou.


O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...