terça-feira, 29 de novembro de 2016

MEU PÉ DE ARRUDA MURCHOU!



Iniciei 2016 com o braço quebrado, janeiro todo gessado, perdi a forma física. Na ânsia de recuperá-la, tive uma taquicardia supra ventricular. Foram três meses de exames para averiguações do que eu já sabia mas a cardiologista não acreditava: eu não tinha nem tenho nada cardíaco, foi episódico. Ai veio o paralisante impedimento da presidenta da república, desconsiderando minha indignação, mais um tempo de paralisação, sem ação desmedida que me obrigasse a fazer algo: parei com o país. E minha vida privada quase desce pela mesma, que merda. E ainda, minha companheira de vida retira o útero, símbolo do renascimento já que nascimento é seu nome, mais dois meses de ocupação do tempo com cuidados humanos, essa sim, uma ação bem útil, finalmente. Para completar veio um implante de dente, cirurgia na boca, o Galo despencou pelas tabelas e a Chapecoense despencou do ar, faltou-lhe ar no céu de Medellin, porra, puta que pariu, hijo de una puta de aeroplano. E o ano não acabou, dezembro está aí na porta, esperando para novas más notícias? Arranquemos dezembro do calendário, apaguem a luz que eu quero dormir e só acordar ano que vem.
Mas em janeiro tenho nova cirurgia para retirada de um lipoma nas costas que só dói quando eu respiro, felizmente, isso porque tal tumorzinho do caralho se encontra colado em meu pulmão. Filho da puta, em português agora. 2017 repetirá o ano que termina?
Fora Temer, que eu não suporto mais sua cara amarrotada de golpista cínico, gozando com a nossa cara de brasileiros idiotas.

domingo, 16 de outubro de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXVIII


Escrevo essa página de minha autobiografia em um dia dedicado aos professores: quinze de outubro, considerado o dia do professor. Eu exerci este ofício durante quarenta e três anos e ainda hoje sou convidado para proferir palestras e ministrar oficinas para professores e alunos, e me pergunto: um professor aposentado ainda é professor? A resposta é sim. Entrou no sangue e agora faz parte do DNA.

Ainda me lembro do primeiro dia. Escrevi sobre isso em algum lugar anterior, mas não custa relembrar para introduzir a questão nesta narrativa. Eram cinco horas do entardecer de um dia de fevereiro do ano de mil novecentos e setenta e um (eu tinha dezoito anos), eu estava de calções pretos, sem camisa e de kichutes, no centro do campo de futebol, posição que eu jogava, suado, quando um carro para à beira do campo, desce uma mulher morena e bela, de óculos escuros e saias curtas. Ela me chama pelo nome. Eu a conhecia, ela havia sido minha professora em algum tempo de ensino médio e era amiga de minha namorada na época. Claro que a turma de futebolistas assobiou, gracejou e brincou comigo. Aproximando de minha acenadora, fui logo ouvindo: Tome um banho rápido pois preciso de você para dar aulas de matemática na escola que eu dirijo, em Rio Acima (MG). Eu? Sim, você mesmo. A primeira aula é as dezenove horas e temos uma pequena viagem a fazer (uns quinze quilômetros entre minha casa e a escola na cidade vizinha, por uma estrada de terra, na época). E foi assim que eu deixei de ser um jogador de futebol mediano e tornei-me professor. Em todos esses anos apenas uma vez tentei exercer outra profissão. Tentativa que durou oito meses. Quase sem perceber fui retornando à sala de aula.

Lembro-me também da última vez. Também fevereiro, dois mil e quatorze. Sem pompa, sem despedidas. Aquela retirada quase invisível, sem avisar a quase ninguém. Nos últimos anos de trabalho fui me acostumando à ideia de parar e tornei-me o mais transparente possível para não ser percebido na instituição em que trabalhava. Missão bem sucedida. Ninguém percebeu que eu me afastava. Descobri, tristemente, que ambiente de trabalho, como uma instituição de ensino, não é ambiente que favorece amizades. As vaidades e individualidades são enormes e ultrapassam e escondem o trabalho coletivo. Os amigos que ficaram são alguns alunos. Dois anos depois voltei à escola e encontrei nos corredores um ex-colega de trabalho. Ele se dirigiu a mim e perguntou porque eu havia sumido. Aposentei-me, disse. Verdade? Eu não sabia. E o assunto caminhou para amenidades.

A ideia de transparência está ligada ao desapego. Para fazer outras coisas na vida eu necessitava me desligar da profissão, do cotidiano das escolas, da proximidade emocional dos alunos. Faço outras coisas na vida, mas atuo como voluntário, em outras escolas, ajudando professores e alunos em seus projetos. Sinto-me bem com isso.

Tenho muitos episódios e histórias interessantes vividas nesse tempo de trabalho. Iniciarei com um episódio que talvez tenha sido o primeiro caso marcante em minha vida profissional e que me ajudou a definir algumas condutas pedagógicas. Em mil novecentos e setenta e cinco eu trabalhava como professor de Física de turmas do terceiro ano do Ensino Médio do Colégio Padre Machado, na Savassi, avenida Contorno, Belo Horizonte. Uma das turmas era extremamente interessante, instigadora, com alunos inteligentes e revolucionários. Esses alunos incentivaram-me a unir a dois outros professores: Eci, professor de Matemática, e Sebastião, professor de História, igualmente revolucionários. (Sebastião tornou-se uma figura pública, ligado a uma ong conhecida; de Eci não tenho notícias). Começamos a fazer um trabalho pedagógico diferenciado com esses exigentes alunos que se tornavam cada vez mais revolucionários, questionadores dos métodos de outros professores e da própria escola. Dois antigos professores da escola (Pudim, de Química, e Peninha*, de Matemática, seus apelidos) fizeram uma campanha devastadora contra nós três. Lembro-me de uma reunião de professores, convocada pela diretoria sob pressão dos dois, em que nós três fomos colocados no paredão de fuzilamento, na berlinda, para ser mais suave, e os dois professores citados até babavam de raiva. Defendemo-nos da melhor maneira possível, Eci e Sebastião eram ótimos argumentadores mas, ao final do ano fomos demitidos. Eu tinha vinte e dois anos. Conseguimos implantar algumas ideias nos alunos, eles fizeram a cobrança no ano seguinte. E os dois professores raivosos ficaram na história da escola como responsáveis pelas mudanças pedagógicas implementadas nos discursos e nas práticas dos professores e diretores. Copiadas de nós, é claro. Assim é a vida.

Hoje, quando perguntam minha profissão, ainda respondo: sou professor. Escondo que sou aposentado. Onde trabalha? Na escola da vida.


* Esclarecimento: esse Peninha não é meu querido amigo Carlos Afonso, com o mesmo apelido, também professor de Matemática, mas na UFMG, recentemente falecido.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXVII



Jandira, minha mãe, faz noventa anos em um mês.  Hoje é segunda-feira, manhã, e estou em sua casa esperando a entrega de materiais para que se conserte o telhado da casa, que anda precisando de reparos antes da próxima chuva. A madeireira deu-nos o “cano” e ficamos a conversar de coisas da vida enquanto esperamos os que não chegam. Ela gosta de conversar, quando encontra alguém com paciência de ouvir, já que ela escuta pouco, ela aproveita para contar seus inúmeros casos acontecidos, vivenciados ou simplesmente ajuntados durante sua rica e longa vida, divertida vida segundo seus relatos. O “divertida” fica por conta de sua imaginação, ela sempre faz os casos parecerem divertidos, pelo seu jeito alegre de contá-los.

Jandira, minha mãe, mora sozinha apesar da idade. Acaba de me confessar que não vai morar com  nenhum dos filhos por várias razões, embora alguns de seus nove pimpolhos insistam para que ela se mude para a casa de um deles. E eu lhe dou razão, seus motivos são óbvios. Ela mora em uma casa grande, duzentos metros quadrados de área construída, em lote de trezentos e sessenta metros quadrados, com quintal e jardim e algazarra de pássaros pela manhã, para os quais joga cangiquinha para alegria deles. E em qualquer casa que for morar, ela se confinaria em um quarto apenas, não teria grande liberdade. Ela afirma, ainda, que morar na casa dos outros significa seguir regras dos outros, e, a esta altura da vida não quer seguir outras regras senão as suas próprias. E aqui onde está ela recebe as pessoas, conversa com toda a vizinhança, entra e sai a hora que quer, deita e levanta quando quer, faz sua própria comida, come nas horas certas por força de hábito.

Jandira, minha mãe, adora contar casos. Depois de tantos anos ouvindo-a eu já conheço a maioria dos casos que ela conta, escuto-os de novo como se primeira vez fosse, rio de novo, comento para que ela pense que á a primeira vez que o ouço, faço perguntas para ver se não há acréscimos na narrativa, alguma coisa que ela não tenha contado antes, em geral não, até as posições das vírgulas no texto falado são as mesmas. De vez em quando tem um caso inédito. Como da vez em que ela soltou a história de qual seria meu nome se meu pai me registrasse segundo sua sugestão. Essa eu nunca tinha ouvido falar nos mais de sessenta anos que eu a escuto. Segundo ela, o nome sugerido por ela para meu registro civil seria Álvaro Francisco, nome de um radialista da rádio Itatiaia dos tempos em que ela tinha vinte e poucos anos e morava em Belo Horizonte no bairro Santa Efigênia. Meu pai, que se chamava Francisco, alegou que era Francisco demais, a concorrência seria grande. E, ainda, ele tinha ciúme de seus tempos de jovem, não seria nada agravável para ele saber que minha mãe pensava em um desconhecido (para ele) radialista toda vez que me chamasse pelo nome completo. Por isso não me chamo Álvaro Francisco.

Jandira, minha mãe, repetir os casos que conta não é novidade para nenhum de seus filhos e amigos. Hoje, no entanto, surgiu algo novo. Ela me contou o mesmo caso, duas vezes, em um intervalo de uma hora. Uma senhora vizinha, quase tão idosa quanto ela, veio lhe fazer uma visita, como sempre, entrou para me conhecer, contou casos, riu, e ficaram numa delongada conversação, dessas em que um desentendido como eu não faz ideia de que elas estão falando, embora falem alto devido a dupla deficiência auditiva. Muito engraçado quando ficamos a ouvir, mas os assuntos são tão particulares das duas, melhor não ouvir. A vizinha tem um marido doente e veio pedir conselhos à minha mãe sobre que atitudes tomar com relação aos cuidados de seu marido que não sai da cama e precisa da atenção de uma cuidadora especializada, e a relação dela com a cuidadora não anda muito profícua. Conselho dado, anotado na memória talvez, o assunto se diversifica. E sobre qual seria esse conselho foi o caso que minha mãe me contou por duas vezes seguida.

Porque isso merece uma página de minha desautorizada autobiografia? Porque, aos noventa anos, ela começa a dar alguns sinais de que sua memória não anda tão boa, de que, finalmente, o desgaste imposto pela idade traz algumas dificuldades. E que, segundo ela, está chegando a hora de sua partida desse mundo, já que seu acordo com o divino foi de permitir que ela viva bem até os noventa anos, depois disso, a vontade dele será feita. Vale registrar que ele, o divino, seja lá quem seja, tem cumprido à risca sua parte do acordo. Jandira vive bem, tem saúde, não toma medicamentos, faz sua visita médica mais para contar casos para o médico que para efetivamente se medicar. E, como ela mesma diz, está enrugada por fora, mas por dentro é lisinha. Embora lisinha, embora vivendo bem, de vez em quando a pegamos tristezinha, com uma angústia Roseana, dessas que pega sem mais nem menos as pessoas do bravo sertão, que tiveram ou tem uma brava vida, de pegar em boi pelo chifre e jacaré pelo rabo. Será que o acordo se cumprirá? Fiz essa pergunta a ela e tive como resposta: o que tiver que ser será, já vivi tudo que eu queria. E seus casos repetidos à extravagância? Quem continuará contando?



sábado, 3 de setembro de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXVI


E Santiago fez noventa anos. A vida dele se liga à minha como eu mesmo, talvez, jamais imaginasse. Ele esteve presente na minha infância e juventude e seus filhos se ligaram a mim por toda a vida. Éramos vizinhos, morávamos em um pátio isolado dentro de uma subestação de distribuição de energia elétrica, sem muito contato cotidiano com a vizinhança, que era pouca, e nos víamos todos os dias. Aquelas coisas de vizinhos, encontrar na rua, brincar junto, brigar uns com os outros mas correr uns para perto dos outros em qualquer pequeno contratempo. Mas Santiago, vinte e sete anos mais velho que eu, adora futebol. Como eu. E, à medida que os pequenos iam crescendo, íamos formando nosso time de pelada. Era ele para um lado, eu para o outro. Porque éramos os mais velhos, tínhamos mais intimidade com a redonda e éramos donos da “caixa de ferramentas”. Depois tinha Marcinho e Júlio, os mais novos, nos dois gols e os demais eram distribuição conforme o dia e as presenças. Edilson, Eduardo e Guilherme, os mais técnicos, de maior domínio das jogadas, mais dribladores, e armadores de boas jogadas. Zezé, Edison e José Roberto mais durões, mais raçudos e necessários em qualquer time. Se tínhamos seis em campo já dava uma boa disputa. Às vezes contávamos com alguns meninos da vizinhança, mas nem sempre. E todos os dias, mais tarde ou mais cedo conforme a estação, nos reuníamos no pátio para uma pelada. Até escurecer.

Crescemos, mudamos, nossas casas foram demolidas, cada um foi para um canto da vida, mas a reunião esporádica nos enche de alegria e emoção. Nunca vi turma mais emotiva e chorona. Homens e mulheres. Não tem como encontrar um deles e não derramarmos algumas lágrimas. Dizem que amizade se mede com esses indicadores objetivos: quanta comida comemos juntos, quantas lágrimas derramamos juntos e quantas risadas demos juntos. Temos todas essas medidas no limite máximo.


Hoje foi um desses dias, Santiago fez noventa anos, uma boa desculpa para nos encontrarmos. E comemos juntos, e choramos juntos e rimos juntos. E hoje dançamos juntos também. Todos dançamos. Dancei com as matriarcas, Alzerina e Jandira, dancei com os amigos de infância, dancei junto e dancei sozinho. Santiago se lembra de uns e não se lembra de outros, normal para a idade. Alzerina está feliz como uma menina, forte e lutadora como uma jaguatirica. E o time de pelada se reuniu completo, mais uma vez. Ninguém aguenta mais correr atrás da bola, corremos atrás das alegrias e corremos para manter longe, bem atrás de nós, nossas tristezas. Mas estávamos lá. Só faltou o Zezé Rodrigues, com sua alegria e sua porra-louquice doce de sempre. Mais uma vez comemos, rimos e choramos. E dançamos. Meus irmãos de sangue e de vida, eu vos amo.

sábado, 30 de julho de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXIV


No meio do caminho entre minha casa, no bairro Cabeceiras, na época considerado a beirada do fim do mundo, terra de estranhezas e de pobrezas, e o centro da cidade, tinha uma venda. Venda de bairro, dessas que vendia de um tudo, na verdade o que mais se vendia era a cerveja, a cachaça da boa (?) e tira-gostos bem preparados. Como o dono da venda parecia ser um sujeito de bem, a casa estava sempre cheia de gente. O que me chamava a atenção, no entanto, era uma foto na prateleira da venda. Uma mocinha sorridente, bela, um sorriso de flor em desabrocho. Todos os dias interrompia minha caminhada vigorosa a rumo de casa, vigorosa porque minhas recomendações eram de não perder tempo na rua, a rua como um depositário de más companhias e de provocações à mente e à alma de um jovem mancebo. Eu nem me lembro que idade tinha, uns quatorze, quinze anos, a libido começando a fazer parte de minha biografia, e tinha aquele sorriso particular na prateleira da venda. 

Se não fosse a timidez escandalosa eu entraria e pediria que me apresentassem à proprietária daquele sorriso, certamente ela me receberia com alegria, ninguém com aquele sorriso tornado público pelo próprio pai seria indelicada e deselegante com um jovem admirador. Aquele era, no entanto, meu trajeto cotidiano, às vezes mais de uma vez por dia, ia e vinha entre minha casa e outras atividades como trabalho e escola, certamente um dia coincidiria que aquele sorriso pudesse se encontrar com minha boca aberta de espanto e admiração, meu queixo caído. O tempo passou e a esperada coincidência veio de uma forma melhor ainda que eu pudesse esperar. As aulas começaram no primeiro ano do científico no Colégio Estadual e lá estava ela, só que tinham duas turmas de primeiro ano, uma voltada para estudos em Ciências Físicas, onde eu me matriculei, e ela na turma que privilegiava os estudos em Ciências Biológicas. 

Se chegamos a conversar nos intervalos, não me lembro. Ela vivia cercada de rapazes e moças, como imaginava era uma pessoa alegre e querida pelas pessoas em volta, as chances de me aproximar continuavam as mesmas de quando era apenas um sorriso em uma foto na parede da venda. Aliás, a foto continuava lá, só não causava mais a mesma sensação, uma vez que eu era conhecedor da dona do sorriso, ao vivo, na escola noturna. E porque eu não me aproximava? Aí entra aquele espírito de cão vira-lata, pobre e feio que eu tinha de mim mesmo. Essa foi a pior herança que meus pais me deram, difícil de largar ao longo da vida. Nem sei se de vez em quando este espírito maligno ainda não baixa em mim. E a escandalosa timidez, que nem timidez era, eu sei, era mesmo o espírito de cão, que se transformava , vez ou outra, em cão chupando manga: terrível.

O fato é que a moça crescia diante de meus olhos, eu comecei a namorar outras moças e nem pensava mais nela. Porque ao namorar as moças das proximidades eu entrei em outro mundo que muito me agradou: o mundo das mulheres. As interessadas em me namorar se aproximavam, algumas me pediam em namoro, percebi logo que eu não era feio e o espírito de cão na chuva foi se dissipando aos poucos. E sempre que eu ia aos bailes na cidade e cidades vizinhas eu encontrava moças interessadas em dançar comigo (não que eu fosse bom dançarino, até hoje não sou) ou ficar comigo. E aquela moça do sorriso sempre saia e namorava exatamente meus desafetos diretos ou indiretos, o que servia como uma barreira natural entre nós.

Mais tarde, no terceiro ano do ensino médio, essa aproximação aconteceu naturalmente. O vestibular passou a ser unificado, o número de alunos se reduziu, não havia razão para a existência de duas turmas, passamos a estudar na mesma classe. E como éramos os que morávamos mais longe do colégio era natural acontecer de irmos juntos no caminho até em casa. E veio a necessidade de estudar para o vestibular que se aproximava, até passamos a estudar juntos, era comum ela ir à minha casa para passar uma matéria, resolver uns problemas de matemática, meu forte, ou de biologia, forte dela. O mesmo destino que nos aproximou nos afastou, passamos no tal vestibular, entramos para a universidade em faculdades diferentes, ela continuava a namorar meus desafetos, casou-se com uma figura legal, casou-se depois com outro, exatamente com a representação de pessoas de uma classe social da cidade que eu, se não detestava, pelo menos ignorava solenemente. Só a amizade ficou, apesar de tudo, sempre que eu a vejo, raras vezes, ela tem sempre aquele mesmo sorriso da garota da foto na prateleira da venda. Não era a mesma garota, claro, era apenas o mesmo sorriso, e as mesmas lembranças de minha juventude.


O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...