sábado, 30 de outubro de 2021

AO TOQUE DOS SINOS


Ninguém soube dizer de onde, como e quando ele veio. Alguns dizem que ele simplesmente apareceu numa das grandes portas de casarões próximo ao solar dos Neves quase em frente à Funerária Ávila. Seus passos não foram seguidos nas ruas, ninguém sentiu o cheiro de seu perfume e tampouco se escutou bater nenhuma porta de carro. Apenas apareceu.

Lá estava ele. Alto, moreno, barba curta e negra. Cabelos negros e anelados com alguns fios brancos brilhando levemente à luz dos lampiões acesos ao anoitecer. Olhos também negros vigiavam calmamente carros, bicicletas e pessoas. Trajava um bleiser de linho negro sobre uma camisa vermelha, calças bege claro e sapatos marrons. Elegante. De uma elegância que não feria aos olhos, mas também não o deixaria anônimo em meio a uma multidão. Ao cair da noite as pessoas indo e vindo olhavam-no indistintamente. Olhares intrigados e admirados. As mulheres fitavam-no ao menos pelo canto dos olhos. Algumas voltavam pelo mesmo caminho para observá-lo mais uma vez.

Com o cair da noite e o surgimento da lua cheia, o movimento no Largo do Rosário aumentou. Era uma sexta-feira de uma semana de muitas novenas, rezas, procissões, missas festivas tocadas pela orquestra Ribeiro Bastos, toalhas de renda nas janelas, enfeites nas ruas. Os sons dos sinos das igrejas se misturavam a foguetes e corais. Ele continuava em seu posto de observação. Calmo. Nenhum sinal de cansaço em seus olhos. Nenhuma urgência em seus gestos. Apenas observava.

De onde estava via-se todo o movimento do início da rua Santo Antônio, do beco da Romeira e da rua Direita. Escutava-se também o fervoroso murmúrio vindo da Igreja do Pilar, onde se realizava uma festa religiosa, como sempre ocorre na cidade.

De repente, uma das muitas mulheres que o olharam nesta noite chama-lhe a atenção. Era morena clara, olhos verdes indefinidos, cabelos longos e ondulados brilhando à luz da lua cheia e dos lampiões. O corpo bem feito oscilava harmoniosamente aos passos em calçamentos irregulares. Usava um pequeno decote que delineava os seios. A blusa sem gola deixava seu belo pescoço à mostra. Este detalhe e a firmeza do olhar que ela lhe lançou trouxe-o do mundo dos sonhos por onde seu pensamento transitava.

Uma troca de olhares por longos segundos. Daqueles cuja linguagem só seus donos entendem. O corpo da mulher tremeu levemente e ela não soube, por um instante, o que fazer com o véu e o terço em sua mão direita. Apressou os passos e entrou na igreja. Deu uma última e rápida olhada para trás, na escadaria, enquanto cobria desajeitadamente com o véu branco a cabeça. O suficiente para perceber que ele havia saído do lugar onde estava havia algumas horas.

Terminada a cerimônia religiosa, ela foi uma das últimas a sair da igreja. Não queria correr o risco de encontrá-lo de novo. Aquele leve tremor denunciava sua fragilidade diante daquele olhar penetrando-lhe até a alma. Se ele de novo a olhasse ela não teria coragem de negar-lhe seja lá o que seu olhar a pedisse.

Ao descer as escadarias, sentiu-se aliviada por não o ver. Já não havia muita gente na rua. Era tarde, mas os sinos ainda repicavam. Caminhou apressada em direção à rua Santo Antônio. Ao chegar ao beco atrás da igreja do Rosário, de onde se avistam as torres iluminadas da Matriz de São Francisco, um arrepio gelado percorreu sua espinha dorsal, das nádegas à nuca. Virou para os lados e viu uma figura saindo das sombras. Não sabia se corria ou se voltava. Seu corpo tremia. Deixou cair o véu e o terço. Sua boca entreaberta não emitiu nenhum som.

Ele lhe apanhou gentilmente o véu e o terço, sorriu-lhe e sugeriu que seguissem. Ela então começou a caminhar a seu lado. Apesar de todo seu fervor durante as orações viu-se prestes a cometer o que, para seus familiares, era pecado. Para ela nem tanto. Já o cometera outras vezes. Em algumas vezes sentira um misto de paixão e culpa.

Os dois caminharam pela rua Santo Antônio até desaparecerem em suas curvas antigas e envoltas em sombras. No exato instante que os sinos calaram ouviu-se um grito. Logo depois o silêncio das cidades do interior, quebrado apenas por latidos e miados.

Nunca mais viram o desconhecido. Mas a mulher, por alguns dias, andou com um lenço cobrindo o pescoço. Amigas íntimas disseram que era para esconder duas marcas redondas lado a lado, como que desenhadas por lápis violeta. E ninguém conseguiu entender o sorriso sempre presente em seus lábios e a leveza de seu andar de sábado em diante.

 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

JUCA E O JILÓ DA VIDA - ALMA

 

Juca teve um piripipaco e realizou vários exames. Um deles, o ecodopplercardiograma mostra uma sinédoque de sua alma: ela funciona bem, mas não se pode afirmar que está tudo bem. Juca é uma sinédoque de si mesmo ao se compreender pelas metades.

https://www.youtube.com/user/MrPcventura/videos.

JUCA E O JILÓ DA VIDA - ACUSADO

 

Juca carrega poucas mágoas da vida. Na verdade, já se desconectou de todas elas, menos uma. Certa vez, muitos anos atrás, foi acusado de sedução de menores. Logo ele, que considera crianças e adolescentes como filhos e morreria por eles. Seu acusador teve que engolir as palavras. Os próprios jovens o desmentiram. Essa mágoa, no entanto, ainda fere sua alma.

domingo, 3 de outubro de 2021

QUAL FOI O ÚLTIMO FILME RUIM A QUE ASSISTIU?

Hoje a gente escolhe os filmes que quer assistir nas plataformas online de cinema. Eu também faço isso. E escolho no Netflix e YouTube Filmes. Sempre tem filmes bons nessas plataformas. O Netflix é pago e barato pela quantidade de filmes e séries que assisto. No YouTube tem alguns filmes gratuitos e outros pagos. Mas valem a pena. Ir ao cinema é algo que há tempos não faço. Primeiro devido à pandemia. Evito aglomerações. Nesta data de hoje, apesar da vacinação e da abertura gradual dos locais de eventos eu ainda prefiro ficar na minha.

Apesar da facilidade de escolhas, ainda faço escolhas erradas. A propaganda nem sempre condiz com a real qualidade do filme. Pelo menos, nas plataformas posso desistir, sair da sala e escolher outro. Minhas escolhas são os filmes de ação, de ficção científica e alguns reflexivos. As séries de minha preferência são as boas séries policiais e outras que fogem completamente do senso comum. Não farei nenhuma publicidade aqui, não é o caso. Minhas escolhas são minhas e de quem está comigo. E pronto.


sábado, 11 de setembro de 2021

O QUE EU TENHO A PERDER?

Esta é uma boa pergunta. Afinal o que eu ainda tenho a perder a esta altura de minha vida, aos sessenta e tantos anos, além de me perder de mim mesmo? Posso responder a essa pergunta partindo de variados aspectos de minha vida, de ontem e de hoje. Primeiro, comentamos sobre o tempo: sou um homem muito saudável, não tenho e nunca tive doenças complicadas, nem tomo medicamentos, só algumas vitaminas. Tenho uma mãe de noventa e cinco anos que também não toma medicamentos. Está velha, em alguns dias levanta-se com dores nas pernas, mas creio ser apenas uma leve depressão, normal para a idade, ou uma artrose própria da velhice. Nesses dias ela gosta de ficar na cama. E só a esta altura de sua vida começa a perder a memória, não a lucidez. Significa que, do ponto de vista do tempo, eu ainda posso ter uns vinte e cinco a trinta anos de vida pela frente. E se eu continuar me cuidando e, seguindo as práticas saudáveis para o bom envelhecimento, eu posso chegar lá. Quero cuidar desse tempo que ainda tenho pela frente. Quero ganhar mais tempo. E não perder tempo, a esta altura da vida, é não fazer o que não quero. Não devo nada a ninguém, então uso meu tempo como quiser. E quero usar o tempo a meu favor.

Em segundo lugar, eu gosto de escrever e desde adolescente eu sonhava em ser escritor. A vida me levou para outros caminhos, precisava trabalhar em algo que me garantisse a sobrevivência logo. Aos dezoito anos meu pai me deu um

“se vira, malandro”,

ou seja, a partir dali eu estava por minha conta. Logo fui chamado para ser professor e segui essa carreira por mais de quarenta anos. Comecei a lecionar aos dezoito e parei aos sessenta e um anos. Foi um belo trabalho, eu sei, não o faço mais. Agora conto histórias de outras formas: principalmente escrevendo. Se terei público eu não sei, mas quero continuar contando histórias enquanto eu for vivo. Quero manter e aumentar estas oportunidades. Essa motivação eu a manterei a todo custo.

Terceiro, eu tenho muitos afetos. A dar e a receber. Tive dois casamentos que fracassaram por inabilidade minha, por culpa minha, embora não exclusivamente. Já perdi o afeto delas e no caso da segunda esposa, perdi também o afeto dos filhos dela, a quem ajudei a criar, na vida de quem tive uma enorme participação. Hoje tenho dois filhos, dois netos, ainda uma mãe, vários irmãos, sobrinhos e alguns bons amigos. E uma nova companheira e uma nova enteada. Minha nova companheira é uma mulher muito carinhosa, alegre e dedicada. Quero tê-los a meu lado. Todos. Quero ter todos os afetos comigo. Por perto, se possível. E, se estiverem longe fisicamente, que estejam perto, em minha mente.

Quarto, eu não tenho muito dinheiro. Tenho uma aposentadoria que me garante a sobrevivência com dignidade, mas deixei para trás, com minhas ex-mulheres, meu patrimônio construído com muito trabalho. Não me importo muito com bens, meu maior bem é minha vida. No entanto, eu poderia estar muito melhor financeiramente se soubesse e me dedicasse a cuidar mais de minha vida financeira, ou, como dizem hoje, de minha saúde financeira. Não fiz isso. Hoje as chances são ainda menores de criar patrimônio. Só tenho como bens, poucas coisas, que cabem no baú de um caminhão de mudanças. Só isso. Penso até em comprar um caminhão e morar nele, tantas mudanças eu já fiz e ainda vou fazer. Então, quero manter minha saúde financeira atual, por mais débil que ela seja. Eu ainda quero ganhar dinheiro, ainda quero ter um patrimônio mais sólido.

Quinto, eu sou um homem muito tranquilo, inteligente, de bom humor. Consigo sair de situações complicadas da vida com elegância e sabedoria. Já me afundei muitas vezes e, até hoje, consegui me levantar de novo. E consegui manter minha calma, consegui manter meu olhar na busca da profundidade das coisas. E minha alegria. Minha alegria, minha calma, minha inteligência são meus maiores patrimônios. Eu resumiria isso definindo-me como um homem sábio. E isso eu quero manter, sempre. Minha sabedoria. Essa ninguém me tira. E quero manter minha lucidez, para manter minha sabedoria ativa.

Resumindo, tenho cinco pontos, características, patrimônios, que quero manter sempre comigo e me lembrar sempre de nunca me esquecer de me lembrar o quão importante essas coisas são: o tempo e a vida que ainda tenho pela frente, com saúde; as histórias que conto e que ainda tenho para contar, em vários suportes diferentes, com grande motivação; os afetos, todos os afetos que guardo comigo, inclusive recuperar os afetos perdidos; minha saúde financeira, que quero melhorar, sem dúvida; minha sabedoria, alegria e bom humor. Simples? Sim, simples assim.

E o que quero com esta narrativa que se inicia aqui? Quero viver uma experiência de vida na maturidade. Aliás, quero viver. Muito, ainda. Meu objetivo é ter uma vida longa e saudável e contar o que faço para isso, e em que eu aposto. Convido leitores a acompanhar comigo esta experiência. O que devo fazer, ou até mesmo perder, para ganhar uma vida longa e saudável? Perdas e ganhos, não é isso?


  

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

AUTOBIOGRAFIA BREVE

Nasci grande, magrelo e feio, segundo minha própria mãe. Estava todo enrugado e minha pele só se desenrugou depois de uns dias. Já nascemos perdendo e ganhando. Sim, perdendo o calor do útero, perdendo a alimentação fácil, a atenção das pessoas àquela barriga bonita e redonda da mãe. Por isso nascemos chorando e provavelmente assustados? Por outro lado, ganhamos os olhares carinhosos e felizes dos familiares, o amor das pessoas. E eu nasci em um hospital de cidade de interior, bem cuidado. E saí para o mundo, pus os pequenos pés na estrada.

O inquieto do meu pai pediu demissão na empresa onde trabalhava quando eu tinha apenas um mês. Trabalhou em uma construtora de estradas no interior de Minas Gerais. Pé na estrada por aí afora. Em quatro anos eu provavelmente andei alguns milhares de quilômetros. Por onde as máquinas iam, a gente ia atrás. De Belo Horizonte a Teófilo Otoni fomos e voltamos várias vezes. Com algumas paradas em Rio Piracicaba (MG), onde meu avô tinha uma pequena fazenda. Entre uma casa e outra pelos caminhos, parávamos lá por vários dias, semanas, até por meses. Tenho boas memórias dessa época, desde que um pequeno consiga se lembrar. E minha memória vai até os dois anos, quando me lembro de uma casa perto de um aeroporto em Teófilo Otoni. Isso porque, um dia, tivemos que correr da pista onde um pequeno avião pousaria.

Aos quatro anos, quase cinco, chegamos em Nova Lima (Minas Gerais), quando finalmente meu pai parou de viajar. Eu nem havia completado cinco anos, e nascera o quarto filho da família: uma menina. Foi quando moramos em uma casa com quintal grande, por alguns meses, e depois mudamos para outra, onde morei dos cinco aos vinte anos. E assim começa minha vida de perdas e ganhos. Aos cinco anos eu começo a trabalhar. É quando meu pai começa a me ensinar a ler e fazer contas e a cuidar da horta e do jardim de nossa casa.

Esta é uma ótica interessante sobre como encarar sua história de vida: enumerando perdas e ganhos ao longo do tempo. As perdas e os ganhos acontecem todos os dias. Pequenas e grandes perdas e pequenos e grandes ganhos, muitas vezes variando de posição conforme o olhar, dependendo do foco. Algumas perdas se transformam em ganhos dias depois. O contrário também acontece: quantas vezes pensamos que saímos ganhando em alguma empreitada, em algum jogo, para depois percebermos que aquele ganho de ontem se transformou em uma grande perda. Neste jogo da vida tudo acontece.

Aos cinco anos aprendi a ler. Isso me custou algumas horas por dia sem brincar, algum tempo tendo que pousar os olhos naquelas letras cabulosas e decifrar significados naquelas palavras que, naquele momento, podiam não fazer sentido nenhum. “Eu me chamo Lili” era meu martírio. Porém, saber ler tinha algumas vantagens. Quando chegava visitas em casa, meu orgulhoso pai me pedia para ler para as visitas. E isso acabava em afagos das senhoras visitantes. Aprendi a gostar cedo daquele carinho de seios das mulheres roçando meu rosto. Perdas e ganhos.

Quando fiz sete anos e fui para a escola primária, os cartazes da sala que devíamos ler até cansar, traziam as frases: “Eu me chamo Lili”, que meus colegas suavam para soletrar até aprenderem a decorar as palavras. Não sei se aprendiam assim. Novamente, que martírio! Pelo menos a professora percebeu minhas qualidades de leitor e pediu-me que ensinasse os colegas a ler os cartazes. Isso me valeu a admiração das meninas e ganhei uma namorada. De nome Eliane. E que saia de sua posição do outro lado da sala e vinha me dar um beijo quando a professora, por algum motivo, saia da sala. Novos ganhos.

E o trabalho na horta de nosso quintal era outra atividade que me tirava o tempo de brincar. Eu devia me agachar nos canteiros e arrancar com as mãos todos os matinhos que insistiam em nascer ao lado dos pés de couve, alface e outras verduras. E molhava as plantas também uma vez por dia. E se fazia errado ganhava as tradicionais porradas e cascudos que os pais daquela geração insistiam em dizer que eram preventivas e corretivas. Esses cascudos são uma perda total. Perda de afeto, perda de identidade, perda de autoestima, que tem um custo altíssimo em nossas vidas. Só com análise, bem mais tarde, quando a gente descobre o quanto de mal aquilo nos fez. Essa perda não tem recuperação fácil. Ganhei, no entanto, um apego à natureza, um conhecimento do gesto e do ofício de plantar, coisa que sempre fiz na vida. Grandes perdas, grandes ganhos.

A vida, no entanto, me levou a viver as grandes mudanças do século XX e cheguei na infância do século XXI justamente com o advento de minha maturidade. E como eu tive a oportunidade de fazer um curso superior na área de Ciências (graduei-me em Física) eu pude também acompanhar os grandes avanços científicos e tecnológicos dos últimos tempos. Como professor de Física trabalhei em cursos de Engenharia e de formação de professores em várias instituições. E como Doutor em Ciências da Comunicação e Informação participei de inúmeros projetos de pesquisa em cursos de Mestrado em Educação Tecnológica e de Estudos de Linguagem. Coordenei mais de cinquenta projetos de pesquisa na área de Ciências Humanas e mais de mil projetos de produtos tecnológicos em Engenharia. Isso me deu uma experiência enorme na gestão de projetos. Grandes ganhos. Mas a idade avança e um dia a gente resolve mudar de ares. É onde a vida pessoal e profissional se embaralham. Perdas ou ganhos?

Esse relato inicial é só mesmo para falar de perdas e ganhos na vida, que começam logo cedo. Para irmos aprendendo que “viver é muito perigoso”. E a gente precisa ganhar um bom jogo de cintura logo cedo para não sair só perdendo. Cresci assim. “Vivendo e aprendendo a jogar”. Nunca ganhei grandes coisas na vida, em termos materiais, mas ganhei muita experiência, muita sabedoria. E é essa sabedoria que me ajuda a viver hoje.

 

 

Eu sou UM INDIVÍDUO

 

Não pertenço a tribos nem a escolas

não me escondo em trincheiras

não habito em guetos não frequento igrejas

não caibo em panelas

 

Meu mundo cabe em minha mochila

onde tem um livro, um canivete

(todo homem devia ter um canivete

símbolo fálico poderoso

que trazemos desde a infância vivida no interior)

uma chave de fenda uma caneta

um caderno de anotações

(poesia não avisa quando vem)

um par de óculos (presente do portal do tempo)

uma agenda (sou homem de compromissos)

e muitas lembranças.

 

Não sou politicamente correto

sou a favor de cotas para negros, indígenas, pobres

e da distribuição de rendas.

odeio patrulhas não filio a partidos

voto sempre nos contrários.

 

Não sou branco não sou preto não sou índio.

Sou pardo sou mestiço aquele que não é nada

por ser mistura de tudo.

E o mestiço, lá na origem do nome,

muito provavelmente, é um filho bastardo.

 

Preciso aprender sempre

para me desvencilhar de rótulos

das amarras e ter pensamento livre.

Não sei rezar nem orar: sou animista.

Meus animais de estimação: uma onça pintada –

encontro-a regularmente, ensinou-me sutilezas

de observação e convivência;

um casal de saíras – visitantes de meu jardim,

uma família de calangos – predadores de insetos de meu quintal.

 

Não me apego a objetos

não consigo carregá-los

em viagens e mudanças:

não moro três anos no mesmo endereço.

Não sei dar nó em gravata

evito cair em armadilhas reais ou intelectuais.

AMO AS MULHERES!


 

O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...