segunda-feira, 26 de setembro de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXVII



Jandira, minha mãe, faz noventa anos em um mês.  Hoje é segunda-feira, manhã, e estou em sua casa esperando a entrega de materiais para que se conserte o telhado da casa, que anda precisando de reparos antes da próxima chuva. A madeireira deu-nos o “cano” e ficamos a conversar de coisas da vida enquanto esperamos os que não chegam. Ela gosta de conversar, quando encontra alguém com paciência de ouvir, já que ela escuta pouco, ela aproveita para contar seus inúmeros casos acontecidos, vivenciados ou simplesmente ajuntados durante sua rica e longa vida, divertida vida segundo seus relatos. O “divertida” fica por conta de sua imaginação, ela sempre faz os casos parecerem divertidos, pelo seu jeito alegre de contá-los.

Jandira, minha mãe, mora sozinha apesar da idade. Acaba de me confessar que não vai morar com  nenhum dos filhos por várias razões, embora alguns de seus nove pimpolhos insistam para que ela se mude para a casa de um deles. E eu lhe dou razão, seus motivos são óbvios. Ela mora em uma casa grande, duzentos metros quadrados de área construída, em lote de trezentos e sessenta metros quadrados, com quintal e jardim e algazarra de pássaros pela manhã, para os quais joga cangiquinha para alegria deles. E em qualquer casa que for morar, ela se confinaria em um quarto apenas, não teria grande liberdade. Ela afirma, ainda, que morar na casa dos outros significa seguir regras dos outros, e, a esta altura da vida não quer seguir outras regras senão as suas próprias. E aqui onde está ela recebe as pessoas, conversa com toda a vizinhança, entra e sai a hora que quer, deita e levanta quando quer, faz sua própria comida, come nas horas certas por força de hábito.

Jandira, minha mãe, adora contar casos. Depois de tantos anos ouvindo-a eu já conheço a maioria dos casos que ela conta, escuto-os de novo como se primeira vez fosse, rio de novo, comento para que ela pense que á a primeira vez que o ouço, faço perguntas para ver se não há acréscimos na narrativa, alguma coisa que ela não tenha contado antes, em geral não, até as posições das vírgulas no texto falado são as mesmas. De vez em quando tem um caso inédito. Como da vez em que ela soltou a história de qual seria meu nome se meu pai me registrasse segundo sua sugestão. Essa eu nunca tinha ouvido falar nos mais de sessenta anos que eu a escuto. Segundo ela, o nome sugerido por ela para meu registro civil seria Álvaro Francisco, nome de um radialista da rádio Itatiaia dos tempos em que ela tinha vinte e poucos anos e morava em Belo Horizonte no bairro Santa Efigênia. Meu pai, que se chamava Francisco, alegou que era Francisco demais, a concorrência seria grande. E, ainda, ele tinha ciúme de seus tempos de jovem, não seria nada agravável para ele saber que minha mãe pensava em um desconhecido (para ele) radialista toda vez que me chamasse pelo nome completo. Por isso não me chamo Álvaro Francisco.

Jandira, minha mãe, repetir os casos que conta não é novidade para nenhum de seus filhos e amigos. Hoje, no entanto, surgiu algo novo. Ela me contou o mesmo caso, duas vezes, em um intervalo de uma hora. Uma senhora vizinha, quase tão idosa quanto ela, veio lhe fazer uma visita, como sempre, entrou para me conhecer, contou casos, riu, e ficaram numa delongada conversação, dessas em que um desentendido como eu não faz ideia de que elas estão falando, embora falem alto devido a dupla deficiência auditiva. Muito engraçado quando ficamos a ouvir, mas os assuntos são tão particulares das duas, melhor não ouvir. A vizinha tem um marido doente e veio pedir conselhos à minha mãe sobre que atitudes tomar com relação aos cuidados de seu marido que não sai da cama e precisa da atenção de uma cuidadora especializada, e a relação dela com a cuidadora não anda muito profícua. Conselho dado, anotado na memória talvez, o assunto se diversifica. E sobre qual seria esse conselho foi o caso que minha mãe me contou por duas vezes seguida.

Porque isso merece uma página de minha desautorizada autobiografia? Porque, aos noventa anos, ela começa a dar alguns sinais de que sua memória não anda tão boa, de que, finalmente, o desgaste imposto pela idade traz algumas dificuldades. E que, segundo ela, está chegando a hora de sua partida desse mundo, já que seu acordo com o divino foi de permitir que ela viva bem até os noventa anos, depois disso, a vontade dele será feita. Vale registrar que ele, o divino, seja lá quem seja, tem cumprido à risca sua parte do acordo. Jandira vive bem, tem saúde, não toma medicamentos, faz sua visita médica mais para contar casos para o médico que para efetivamente se medicar. E, como ela mesma diz, está enrugada por fora, mas por dentro é lisinha. Embora lisinha, embora vivendo bem, de vez em quando a pegamos tristezinha, com uma angústia Roseana, dessas que pega sem mais nem menos as pessoas do bravo sertão, que tiveram ou tem uma brava vida, de pegar em boi pelo chifre e jacaré pelo rabo. Será que o acordo se cumprirá? Fiz essa pergunta a ela e tive como resposta: o que tiver que ser será, já vivi tudo que eu queria. E seus casos repetidos à extravagância? Quem continuará contando?



sábado, 3 de setembro de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXVI


E Santiago fez noventa anos. A vida dele se liga à minha como eu mesmo, talvez, jamais imaginasse. Ele esteve presente na minha infância e juventude e seus filhos se ligaram a mim por toda a vida. Éramos vizinhos, morávamos em um pátio isolado dentro de uma subestação de distribuição de energia elétrica, sem muito contato cotidiano com a vizinhança, que era pouca, e nos víamos todos os dias. Aquelas coisas de vizinhos, encontrar na rua, brincar junto, brigar uns com os outros mas correr uns para perto dos outros em qualquer pequeno contratempo. Mas Santiago, vinte e sete anos mais velho que eu, adora futebol. Como eu. E, à medida que os pequenos iam crescendo, íamos formando nosso time de pelada. Era ele para um lado, eu para o outro. Porque éramos os mais velhos, tínhamos mais intimidade com a redonda e éramos donos da “caixa de ferramentas”. Depois tinha Marcinho e Júlio, os mais novos, nos dois gols e os demais eram distribuição conforme o dia e as presenças. Edilson, Eduardo e Guilherme, os mais técnicos, de maior domínio das jogadas, mais dribladores, e armadores de boas jogadas. Zezé, Edison e José Roberto mais durões, mais raçudos e necessários em qualquer time. Se tínhamos seis em campo já dava uma boa disputa. Às vezes contávamos com alguns meninos da vizinhança, mas nem sempre. E todos os dias, mais tarde ou mais cedo conforme a estação, nos reuníamos no pátio para uma pelada. Até escurecer.

Crescemos, mudamos, nossas casas foram demolidas, cada um foi para um canto da vida, mas a reunião esporádica nos enche de alegria e emoção. Nunca vi turma mais emotiva e chorona. Homens e mulheres. Não tem como encontrar um deles e não derramarmos algumas lágrimas. Dizem que amizade se mede com esses indicadores objetivos: quanta comida comemos juntos, quantas lágrimas derramamos juntos e quantas risadas demos juntos. Temos todas essas medidas no limite máximo.


Hoje foi um desses dias, Santiago fez noventa anos, uma boa desculpa para nos encontrarmos. E comemos juntos, e choramos juntos e rimos juntos. E hoje dançamos juntos também. Todos dançamos. Dancei com as matriarcas, Alzerina e Jandira, dancei com os amigos de infância, dancei junto e dancei sozinho. Santiago se lembra de uns e não se lembra de outros, normal para a idade. Alzerina está feliz como uma menina, forte e lutadora como uma jaguatirica. E o time de pelada se reuniu completo, mais uma vez. Ninguém aguenta mais correr atrás da bola, corremos atrás das alegrias e corremos para manter longe, bem atrás de nós, nossas tristezas. Mas estávamos lá. Só faltou o Zezé Rodrigues, com sua alegria e sua porra-louquice doce de sempre. Mais uma vez comemos, rimos e choramos. E dançamos. Meus irmãos de sangue e de vida, eu vos amo.

sábado, 30 de julho de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXIV


No meio do caminho entre minha casa, no bairro Cabeceiras, na época considerado a beirada do fim do mundo, terra de estranhezas e de pobrezas, e o centro da cidade, tinha uma venda. Venda de bairro, dessas que vendia de um tudo, na verdade o que mais se vendia era a cerveja, a cachaça da boa (?) e tira-gostos bem preparados. Como o dono da venda parecia ser um sujeito de bem, a casa estava sempre cheia de gente. O que me chamava a atenção, no entanto, era uma foto na prateleira da venda. Uma mocinha sorridente, bela, um sorriso de flor em desabrocho. Todos os dias interrompia minha caminhada vigorosa a rumo de casa, vigorosa porque minhas recomendações eram de não perder tempo na rua, a rua como um depositário de más companhias e de provocações à mente e à alma de um jovem mancebo. Eu nem me lembro que idade tinha, uns quatorze, quinze anos, a libido começando a fazer parte de minha biografia, e tinha aquele sorriso particular na prateleira da venda. 

Se não fosse a timidez escandalosa eu entraria e pediria que me apresentassem à proprietária daquele sorriso, certamente ela me receberia com alegria, ninguém com aquele sorriso tornado público pelo próprio pai seria indelicada e deselegante com um jovem admirador. Aquele era, no entanto, meu trajeto cotidiano, às vezes mais de uma vez por dia, ia e vinha entre minha casa e outras atividades como trabalho e escola, certamente um dia coincidiria que aquele sorriso pudesse se encontrar com minha boca aberta de espanto e admiração, meu queixo caído. O tempo passou e a esperada coincidência veio de uma forma melhor ainda que eu pudesse esperar. As aulas começaram no primeiro ano do científico no Colégio Estadual e lá estava ela, só que tinham duas turmas de primeiro ano, uma voltada para estudos em Ciências Físicas, onde eu me matriculei, e ela na turma que privilegiava os estudos em Ciências Biológicas. 

Se chegamos a conversar nos intervalos, não me lembro. Ela vivia cercada de rapazes e moças, como imaginava era uma pessoa alegre e querida pelas pessoas em volta, as chances de me aproximar continuavam as mesmas de quando era apenas um sorriso em uma foto na parede da venda. Aliás, a foto continuava lá, só não causava mais a mesma sensação, uma vez que eu era conhecedor da dona do sorriso, ao vivo, na escola noturna. E porque eu não me aproximava? Aí entra aquele espírito de cão vira-lata, pobre e feio que eu tinha de mim mesmo. Essa foi a pior herança que meus pais me deram, difícil de largar ao longo da vida. Nem sei se de vez em quando este espírito maligno ainda não baixa em mim. E a escandalosa timidez, que nem timidez era, eu sei, era mesmo o espírito de cão, que se transformava , vez ou outra, em cão chupando manga: terrível.

O fato é que a moça crescia diante de meus olhos, eu comecei a namorar outras moças e nem pensava mais nela. Porque ao namorar as moças das proximidades eu entrei em outro mundo que muito me agradou: o mundo das mulheres. As interessadas em me namorar se aproximavam, algumas me pediam em namoro, percebi logo que eu não era feio e o espírito de cão na chuva foi se dissipando aos poucos. E sempre que eu ia aos bailes na cidade e cidades vizinhas eu encontrava moças interessadas em dançar comigo (não que eu fosse bom dançarino, até hoje não sou) ou ficar comigo. E aquela moça do sorriso sempre saia e namorava exatamente meus desafetos diretos ou indiretos, o que servia como uma barreira natural entre nós.

Mais tarde, no terceiro ano do ensino médio, essa aproximação aconteceu naturalmente. O vestibular passou a ser unificado, o número de alunos se reduziu, não havia razão para a existência de duas turmas, passamos a estudar na mesma classe. E como éramos os que morávamos mais longe do colégio era natural acontecer de irmos juntos no caminho até em casa. E veio a necessidade de estudar para o vestibular que se aproximava, até passamos a estudar juntos, era comum ela ir à minha casa para passar uma matéria, resolver uns problemas de matemática, meu forte, ou de biologia, forte dela. O mesmo destino que nos aproximou nos afastou, passamos no tal vestibular, entramos para a universidade em faculdades diferentes, ela continuava a namorar meus desafetos, casou-se com uma figura legal, casou-se depois com outro, exatamente com a representação de pessoas de uma classe social da cidade que eu, se não detestava, pelo menos ignorava solenemente. Só a amizade ficou, apesar de tudo, sempre que eu a vejo, raras vezes, ela tem sempre aquele mesmo sorriso da garota da foto na prateleira da venda. Não era a mesma garota, claro, era apenas o mesmo sorriso, e as mesmas lembranças de minha juventude.


domingo, 17 de julho de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXIII


As viagens de minha imaginação e memória são totalmente erráticas, vem e vão no tempo, acendem à medida que uma lembrança surge em meu pensamento e sinto vontade de escrever sobre o assunto. Parece que sempre tem alguma coisa que ficou para trás, algo que valeria a pena narrar, mesmo sem autorização para fazê-lo. Claro que quero contar histórias interessantes, falar das coisas boas que me aconteceram, ressiginificar, de forma positiva, meu passado e de algumas pessoas que rodeiam minha vivência. Já ouvi da boca de historiadores que o bom da História é que podemos contá-la de outra maneira, da nossa maneira, e assim mudar nosso passado. Ele já passou, então modificá-lo não tem importância. Claro, existem os fatos marcantes, e as narrativas dos milhares de pessoas precisam convergir em alguma coisa que se aproxima da verdade sobre os fatos, mas, isoladamente ninguém, nenhum narrador, tem compromisso com a verdade dos outros, apenas com a sua própria verdade. E a verdade de cada um é aquilo que o constrói, que faz dele um cidadão respeitável. Sem querer estou justificando minha aventura, a de contar, à minha maneira, ou à maneira desse narrador desautorizado, acontecimentos de minha vida.

Durante três anos, entre os quinze e quase dezoito anos, eu frequentei o Colégio Estadual Augusto de Lima, em Nova Lima. Cursei o então chamado curso científico, hoje correspondente ao Ensino Médio. Algumas de minhas lembranças são difusas,  a gente se lembra de acontecimentos marcantes, e eles estão fugindo de minha memória, provavelmente porque deixaram de ser marcantes. Como assim? Como um acontecimento marcante de nossa juventude desaparece aos poucos de nosso pensamento? Aquela fase de minha juventude não existe mais? O que mais lembro desses três anos, é de minha total irresponsabilidade com a vida. Isso mesmo, eu era um irresponsável incorrigível. Sem querer analisar mas esboçando uma análise provisória, meus pais eram tão exigentes, tão ameaçadores, tão severos, que o contraponto a isso era viver uma vida o mais irresponsável possível para não se sentir vazio. Porque a responsabilidade era deles, não minha. Bom, eu não fumei maconha, pitava um cigarrinho escondido, um holiude (hollywood) com filtro, naquela época surgiram os cigarros com filtro para diminuir a nicotina (será?), maconha eu provei só mais tarde, já adulto, sabendo o que fazia e aquilo não teve a menor importância. Eu também não bebia, apenas de vez em quando, aos fins de semana eu tomava uma cerveja com os colegas. Isso não significa que não tenha tomado uns porres, sim me embebedei algumas vezes, não muitas, e sabia que a repreensão em casa seria severa. Minha atitude de rebeldia doméstica era tramada aos poucos, não era coisa de rompantes, eu pensava o que iria aprontar e como enganar meu pai para ele nem ficar sabendo ou para ele ter ideia do acontecido sem ter a dimensão exata de minhas experiências. Porque a essa altura eu já estava cansado de tomar porradas, então eu precisava de coisas para enganar o velho e ele ficar na dúvida se aquilo aconteceu ou não. Isso até me dava certa satisfação e não fazia de mim um marginal desvairado, daqueles dos filmes de James Dean, de Juventude Transviada, o termo era esse, eu não era um transviado (palavra perdida no túnel do tempo, um dos significados de transviado no dicionário online de minha preferência diz: “Que se opõe aos padrões comportamentais preestabelecidos ou vigentes”).  Curiosamente, eu tinha uma grande admiração pelos transviados de minha geração, mas não me comprometia com eles, não era um deles. Eu apenas os acompanhava à distância, como se as transgressões às regras que eles cometiam fosse ter efeitos colaterais em mim, ou como se eu pudesse aproveitar desses efeitos colaterais na sociedade. Aliás, foi exatamente o que aconteceu. Como, por exemplo, deixar os cabelos crescerem, usar calças jeans (eram importadas na época), ouvir e cantar rock’n roll (Beattles, Rolling Stones, Jethro Tull, Genesys, Moody Blues e outras, todas elas formadas lá nos anos sessenta, eram minhas bandas favoritas). E esse era um dos pilares da rebeldia. Em minha casa não tinha TV, essa coisa que se implantou como uma praga na nossa vida social na segunda metade dos anos sessenta, no Brasil, e o rádio, único rádio construído aos poucos com peças vindas pelo correio, era propriedade do patriarca, então só se escutava aquela merda de Rádio Itatiaia e as porcarias da Rádio Inconfidência, como Hora do Fazendeiro. Música, só caipira, preferidas de meu pai, e boleros, preferidos de minha mãe.

Aqui sou obrigado a fazer um parêntesis. Hoje eu rendo homenagem às duas estações de rádio citadas, adoro música caipira mineira de raiz, as vozes daqueles cantores de bolero e samba-canção me encantam, muito embora o rock’n roll continue no sangue. E ainda agreguei o samba, o jazz e o blues, além dos clássicos. Aliás, hoje, até mesmo o rap e o funck, porque não? A música evolui, transvia-se, e nós nos transviamos juntos, claro.

No Colégio Estadual eu estudava à noite e as lembranças boas da época vão se esvaindo aos poucos, como nuvens, as ruins também, se existiram já se evaporaram. Haviam lances desagradáveis, com o tempo eu superei qualquer tipo de trauma que eles puderam ter provocado em mim. Eu sei que sendo um jovem feio, magrelo, alto, de espinhas na cara, cabeçudo, pobre, mulato, morando longe e estranhamente  inteligente (isso já era demais para muitos colegas) as minhas chances de passar ileso sem sofrer provocações de colegas eram nulas. Hoje chama-se a isso de bullying. Mas eu penso que era tão gente boa, ou tão ingênuo, que nada disso me incomodava. Felizmente os registros de incidentes por isso são pequenos, quase nada. Às vezes me encontro com um antigo colega que me reconhece e vem me cumprimentar e eu o provoco: você era aquele que rabiscou minha caderneta escolar, transformou meu retrato em careta, e rasurou minhas notas boas o que me obrigou a passar umas horas na sala da diretora ouvindo um sermão? Ou você era aquela professora que reduziu minha nota porque dizia que minha letra era feia embora eu não tivesse errado nada? Minha pequena vingança é deixar essas pessoas sem graça, meu máximo de malvadeza. Nem sei se isso me dá prazer ou se apenas aviva minha memória, mas não tenho muita paciência com hipocrisias. Mais triste é lembrar daquela irmã de uma colega boazuda, a irmã, a colega nem tanto, a quem eu lancei uma cantada com muito custo, superando uma timidez quase infinita e ela me deu uma esnobada grandiosa, me colocando no chão a rastejar como calangos. Penso que vem daí minha predileção pelos calangos, esses animaizinhos rastejantes e sobreviventes entre pedras do jardim. Mais tarde eu me vinguei também grandiosamente namorando sua irmã mais nova só para provocar. Ela nem me deu bola, nem antes nem depois. Eu também não importei com isso, fiz o gênero ‘você não gosta de mim mas sua irmã gosta”.

A nossa predileção nessa época de escola era enganar o disciplinário, que fincava os olhos vigilantes nos alunos do científico, pois gostávamos de chegar atrasados e sair antes da hora, pela porta principal era impossível, então fizemos uma passagem secreta pelos fundos do colégio. De vez em quando resolvíamos fugir em massa no último horário, o professor do dia chegava e não encontrava ninguém. Atrás do muro havia um matagal por onde desbravamos um caminho que chegava ao Rego Grande que ultrapassávamos através de uma ponte improvisada, de madeira, escondida no mato. Nunca fomos descobertos pelo possesso e intrigado disciplinário. Ele chegou a implorar a colegas que o mostrassem nossa passagem secreta, nenhum de nós foi traidor no processo. Curioso é que os colegas de outras séries também não sabiam do caminho.

O principal motivo de nossas fugidas, meu pelo menos, era ir ao cinema, Cine Ouro ou ao cinema do Teatro Municipal. Como eu adorava cinema, era muito comum eu assistir aos filmes interessantes no meio da semana, nos fins de semana minhas obrigações trabalhistas e domésticas eram muito grandes. Dinheiro quase nunca eu tinha, o que me valia era a cumplicidade do porteiro do cinema que me passava escondido ou fingia receber de minhas mãos um ‘bilhete’. Sem ele minha cultura cinematográfica não seria a mesma. Eu era irresponsável, mas tinha bons amigos também. Esses amigos, perdidos no passado, foram o que de melhor ficou de todas as minhas vivências. A irresponsabilidade para algumas questões também. Não nego que minha tranquilidade de hoje é um pouco herdeira da irresponsabilidade daquela época, transformada pelas experiências da vida (por experiência pode-se traduzir as inúmeras porradas que a existência me concedeu e me fizeram amadurecer como banana caturra no cesto de palha envolvida no  jornal).

  

O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...