segunda-feira, 31 de outubro de 2022

OS SINOS AINDA DOBRAM

 

Os sinos da matriz tocam sempre quando um evento, às vezes bem sinistro, ocorre na cidade. Tocam para chamar fiéis à missa, tocam anunciando casamento ou morte, tocam em datas importantes para os rituais das igrejas da cidade. Nessa cidade onde os sinos ainda dobram, residi por três anos apenas. Os sinos da matriz nunca saíram de meu pensamento. Dobrando os toques dos rituais, se tornaram meu inferno.

Foi num instante desses, com os sinos repicando festivamente, em uma tarde do mês de abril, que pela última vez bati os olhos em Adriana. Apenas sua imagem ficou em mim. Quando os sinos tocam, ainda vejo seu rosto emoldurado naquele retrato que um dia joguei na fogueira para não me lembrar mais dela. Mero engano. A foto se queimou na fogueira, mas sua imagem ainda me queima por dentro.

Ela nunca mais deu notícia, mesmo as pessoas suas conhecidas não sabem por onde ela anda. Por vezes faço uma busca na Internet, onde a gente sempre encontra informações de pessoas que não vemos há tempos, e nada. O senhor Google não sabe de Adriana. Como alguém pode não ter uma vida com pelos menos alguns dados que sejam públicos?

Esquecê-la é impossível, o jeito foi deixar sua imagem armazenada em minha memória RAM, ocupando o mínimo de espaço, porque a vida continua.

Foi então que conheci Marieta, que namorava comigo, escondido, pois era noiva de um cara que jogava futebol e vivia viajando. Quando ele viajava, ela vinha se enroscar comigo. Penso que ele sabia e imaginava que ela estava sendo bem cuidada, pois alguns de seus amigos sabiam. Isso durou até que ele se machucou seriamente e teve que mudar de profissão. Casaram-se e me deram o primeiro filho como afilhado.

Conheci também Salete que fazia brochetes para vender na feira das manhãs de domingo. Juntava no espeto o pimentão, a cebola e o pedaço de carne. Dizia ser alcatra, mas, na verdade, era acém e me pedia para confirmar, pois eu havia participado da preparação. Salete gostava de cantar, mas cantava em falsete e dizia ser cantora lírica. Aprendera em um cabaré quando esteve passando uns tempos com a tia na capital.

Mas o que terá acontecido com Adriana? Tinha parentes no Rio de Janeiro, em Santa Tereza. Em uma viagem ao Rio, peguei o bonde e me bandeei para a casa deles. Quem sabe eles me informariam sobre ela? Ninguém sabia. Como ela tinha uma ascendência judia, imaginavam que ela teria ido para Israel. Se fosse isso, ela devia estar bem e trabalhando em alguma comunidade de trabalhadores rurais, formada que era em Agronomia.

Salete continuou vendendo brochetes na feira, mas não quis mais que eu a acompanhasse. Começou a namorar um cozinheiro e agora vendem outras guloseimas mais, além do brochete.

Foi então que conheci Alice. Diziam ser doida, porque recitava sem parar o poema de Alphonsus de Guimarães:

“Quando Ismália enlouqueceu

Pôs-se na torre a sonhar

Viu uma lua no céu

Viu outra lua no mar”

 

Alice era fascinada pela lua cheia. Cantava para a lua, fazia versos para a lua e rezava para a lua num estranho ritual. Doida, diziam. Eu acreditava que ela fosse mesmo doida, mas doida comigo.

Em uma noite de lua cheia, Alice se pôs a cantar na beira do rio. Não havia mar na cidade entre montanhas. Portanto, não havia riscos de Alice pular no mar, pensava eu, como Ismália fez, no poema:

“E como um anjo pendeu

As asas para voar

Queria a lua do céu

Queria a lua do mar”

 

A lua cheia, no entanto, foi eclipsada e o céu escureceu. Aí foi que Alice se inquietou. Que terá acontecido com a lua cheia, assim, tão de repente? Pensou logo que seria uma maldição pairando no horizonte e que algo ruim aconteceria. Tirou as roupas e entrou no rio. Lembrou-se de Ismália que foi buscar a lua no fundo do mar e imaginou que ela poderia estar escondida numa grota do rio.

 

"As asas que Deus lhe deu 

Ruflaram de par em par

Sua alma subiu ao céu

Seu corpo desceu ao mar”

 Eclipses passam. Mas, Alice, tão doidamente, ficou procurando-a no fundo do rio e não viu que a lua voltara ao céu. E ninguém mais a viu também.

Resolvi não ter mais ninguém comigo. A imagem de Adriana me bastaria. Anos depois, quando eu já havia mudado da cidade do interior, vi Adriana com seus cabelos brancos andando pelas ruas de São Paulo, calmamente. Hesitante fiquei, mas dei uma apressada nos passos e a alcancei. Interroguei-a. Queria, mesmo anos depois, uma resposta.

- Estava ficando doida naquela cidade. Não aguentava mais aqueles sinos. Não queria escutá-los anunciando a minha morte, ou a sua. Parti.

- Partiu, e era abril. Semana santa, quando os sinos dobram mais alucinadamente. Meu destino era amar essas mulheres loucas? Ou um pouco desarranjadas mentalmente? Se for para ser assim, eu me entrego.


 

terça-feira, 6 de setembro de 2022

A LADEIRA DE MARIA

Todas as manhãs Maria descia a ladeira e todas as tardes subia a ribanceira. A cidade foi construída num pé de serra. As ruas foram se formando como pernas de uma aranha-caranguejeira, com a praça da Matriz de Nossa Senhora bem no corpo da aranha brejeira. Ao longo dos anos, décadas, as casas foram subindo os morros e a caranguejeira ficou um tanto monstruosa, cheia de pernas estranhas sobressaindo de seu corpo peludo. Maria, morando no alto, descia e subia ladeira para trabalhar e voltar.

Mas Maria gostava mesmo era de dançar. Aos sábados descia o morro com alegria, pois havia música na danceteria, única de seu bairro, e dançava com pés descalços no barro do chão. E no baile conheceu João. Mancebo bonitão, cheio de galhardia, João tirou os sapatos e isso encantou Maria, que dele se enamorou. João seduziu Maria e a engravidou. Em terra de aranha, caiu na teia se mosqueia.

Maria desceu o morro, e a alegria, em princípio em jorro, logo se transformou em melancolia. Mas, música ela ainda ouvia. A ladeira não mais subia, continuava a lida tendo o filho em companhia. E o João, entre o boteco e a danceteria, chegava bêbado e ainda nela batia se encontrava a comida fria.

Resignada? Não, mas para onde seguir? Subir novamente o morro sua família não iria permitir. Comeu a fruta antes? Agora se vira com o caroço. Cada um com sua carne de pescoço.

“Mas é preciso ter manha,

é preciso ter graça,

é preciso ter sonho sempre”[i].

 

Assim seguia Maria. Dançava sozinha em casa quando João saia. Como ele estava sempre fora, a música do rádio acompanhava Maria em seus passos inventados como podia. E o filho? Esse crescia vendo a mãe sofrer e dançar, sua única alegria. Com ela aprendeu a trocar uns passos na sala vazia. A vida passava como barulho de ventania. A fé que a dor um dia sumiria a ajudava a viver seu dia a dia. Durante o dia trabalhar e à noite na sala dançar até seu marido voltar. Até gostava de sua ausência, à sua lida e dança não dava audiência. Quando a porta ele transpassava ela com um sorriso o aguardava e a seu lado ainda dormia.

“Quem traz na pele essa marca

possui uma estranha mania

de ter fé na vida”.[ii]

 

Uma briga de bar levou embora o seu João. Uma faca atravessou seu coração. Maria não chorou, nem uma lágrima derramou. No sábado seguinte, na danceteria, ela dançou com todos e com gosto, mas não queria um novo encosto, sozinha para casa voltou. Quando chegou fevereiro, Maria e seu filho foram para o Rio de Janeiro. O jovem virou passista do pandeiro e Maria abriu um terreiro onde dança até Iansã lhe baixar sorrateiro.



[i] Trecho de Maria, Maria: letra e música de Fernando Brant e Milton Nascimento

[ii] Idem. 

sábado, 27 de agosto de 2022

EM MEIO AO REDEMOINHO

O redemoinho estava lá, no meio do caminho. Um vento esquisito o criara, assim, do nada. Saulo, caminhante atento naquela região do cerrado, sabia perfeitamente que aquele evento seria comum em sua trajetória. O clima seco da região àquela época do ano, mais a brisa que soprava vindo das veredas ainda resistentes, favorecia a formação do redemoinho. O povo da região sugeria cuidado porque também era comum o diabo surgir no meio dele.

Os relatos dos moradores, supersticiosos, informavam que o diabo costumava transitar e surgir no meio daqueles redemoinhos. O diabo é ótimo negociante. Sua intenção, ao surgir do nada, era aproveitar dos medos e dos desejos dos caminhantes e negociar suas almas. Assim surgiam violeiros especialistas na moda de viola de um dia para o outro. Todo violeiro sabe disso.

O violeiro Paulo Freire tem uma música em que ele narra como isso é feito. Perguntado se ele havia feito o pacto com o demo, ele diz que não. Seus ouvintes sabem, no entanto, que ele ficou dez anos aprendendo a viola caipira com os violeiros do Mucuri. Saulo, que já o ouviu, diz que ele faria uma bela dupla com o Trindade, personagem famoso de outras paradas, do Pantanal.

Saulo, não era da viola, era da caneta. Se o diabo aparecesse naquele redemoinho, ele bem seria capaz de um pacto. Queria escrever o conto perfeito, o poema épico, ou o romance ganhador do Jabuti. O capeta, entretanto, não apareceu. A narrativa perfeita, que encantaria os leitores, só acontecerá com muito esforço, sem pacto. Pelo menos manterá sua alma e sua calma no interior de si, como estava.

Em vez de pactos, ele precisaria enfrentar seus problemas cotidianos. Considerava a necessidade de sempre se segurar nos rabos de foguetes que surgiam no céu do seu cotidiano. Era ali que deveria fazer a gestão de seus medos e desejos, e transformar seus medos em coragem nem que fosse de susto, o mesmo susto em frente ao redemoinho de antes.

Morador de montanhas, o trabalho com suas canetadas surge durante escaladas reais e imaginárias. Subir e descer serra sempre o ajuda a criar frases bonitas, rimas coloridas e personagens simples e fortes. Como no dia em que surgiu em sua frente, no meio da subida de uma serra, uma jaguatirica, ou oncinha pintada. Chegou até a pensar que seria o capeta travestido de animal que pudesse realizar seus desejos em troca da alma. Estava mesmo disposto a negociar se fosse o caso. Ficou parado, olhando o bicho que também o olhou com olhos luminosos.

A jaguatirica, no entanto, desviou o caminho e desapareceu na mata. A única coisa a fazer foi acrescentar o evento em suas narrativas, em suas histórias. Nesta região, redemoinhos não são comuns como no cerrado. As montanhas provocam as pessoas de outras maneiras, e as lendas tomam outras configurações. Os ventos daqui sopram diferentemente dos ventos de lá. Em sua briga com as montanhas eles assobiam em outras notas musicais, fazendo música em outras tonalidades.

Ao subir e descer montanhas, Saulo sempre encontra corredeiras em vez de veredas, algumas pequenas cachoeiras aqui e ali. Banhos de cachoeira são permitidos. E peixes, pequenos, não nos olham como se encarnasse o diabo em seus olhares. Sem pacto com eles, apenas convivência nas águas.


terça-feira, 2 de agosto de 2022

AMAZÔNIA, ENQUANTO DURE

 

Pode-se chamar de sorte, pode-se desejar cuidado, mas uma estadia de seis meses na Amazônia, essa antes desconhecida de minha vida, foi surpresa, em primeiro lugar, mas também merecimento. São coisas que uma carreira de pesquisador pode oferecer. Poxa, seis meses neste mundo verde é uma oportunidade de ouro. Penso mesmo em conhecer essa terra onde os indígenas têm trinta e duas palavras diferentes só para diferenciar os diversos tons de verde. Já pensou nisso, quanta riqueza linguística? Trinta e duas palavras! Contei vantagens para uma amiga chinesa e ela me confidenciou: as tribos da Sibéria chinesa, gelada, têm também trinta e duas palavras para diferenciar as diversas tonalidades de branco. Coincidência, ou trinta e dois é um número cabalístico em questões de comunicação tribal?

Apenas mais um assunto para conferir in loco, porque uma viagem como essa precisa ser bem programada. E foi, no meu caso. O tempo foi curto, mas o suficiente para eu traçar um plano de viagem, um roteiro cultural além do trabalho. Pegar um barco e subir o Rio Negro até São Gabriel da Cachoeira estava em meu roteiro, lógico. Comprei uma rede nova e confortável para minhas noites no barco, mal dormidas, já sabia disso. Porque não é fácil dormir em um barco em movimento, com aquele calor úmido típico, além da paisagem, lógico.

E chega o dia marcado para a viagem mais multi transporte que já fiz. Trem, ou melhor, metrô de superfície, avião, ônibus na chegada em Manaus e depois barco, aquele esperado para subir o Rio Negro. De Brasília a Manaus a vista aérea foi a mais variada possível. O marrom e verde do cerrado (ex-cerrado, hoje agronegócio puro, que enriquece uns e empobrece outros, além da terra) vai sendo substituído aos poucos pelo verde e azul, mata e água. Apesar do desmatamento, a mata teima em sobreviver. Precisa sobreviver.

E a mata amazônica precisa sobreviver. Ela me chama como se eu fosse uma criança perdida que deixou a casa, aos sobressaltos, anos atrás. Mas, minha memória de infância, com os sonhos de meus antepassados distantes, me chama, aos sussurros de mãe abandonada que espera a volta de sua criança. Eu me perdi, no entanto. Ali, subindo os poucos degraus do barco que me conduzirá rio acima, ouvi a voz da mãe e me senti em casa. A visão daquela cachoeira cortando a montanha como faca na carne, me fez lembrar de minhas origens, como se eu já estivesse naquele lugar, como se o lamento coletivo de uma nação nativa saísse de meu peito, como se a voz fosse a minha, e meu animismo renasceu ali. Eu no meio do rio.

Hora de aprender o nheengatu, uma das línguas faladas em São Gabriel da Cachoeira, e começar a pensar como um indígena e lutar contra o mundo que só pensa no nióbio da região. Tentar impedir que a região se torne mais uma mina geral vendida às Vales da vida, com seus brumadinhos marrons nos verdes amazônicos.

Não aprendi a falar a língua, a não ser alguns sinais tão comuns aos viajantes do mundo. Pelo menos convivi com a tribo algum tempo, participei de seus rituais, fui aceito como ser humano ao modo indígena, me vesti como um deles, tomei seus chás, alguns alucinantes, participei de longas caminhadas, acampei nas beiras de rios, encontrei cobras enormes pelos caminhos, acordei com uma delas em minha rede. Na verdade, sonhei com a Cobra Grande, cuja lenda nos informa de olhos luminosos como dois faróis, pronta a engolir visitantes desavisados que se aventuram sem cuidado nas fortes corredeiras. Foi apenas susto e medo.

Quase me esqueci que eram apenas férias auto concedidas para visitar aquele mundo desconhecido que tanto me atraia. Que, apesar do desapego e da vontade, tenho algo aqui em baixo desse brasil que também me chama: uma família, um amor, alguns amigos, pessoas carentes de histórias, aquelas que devo escrever e contar ao mundo: minha história, a real e a inventada, embora eu não saiba qual delas é a real. Além disso, um livro esquecido apareceu em minha mochila e me trouxe de volta. Carl Gustav Jung e sua frase: “a análise é um experimento de laboratório e não realidade”.

Jung, seu filho da mãe. Só pra te chatear, afirmo que a realidade é um experimento da mente. Com isso quero te dizer que não dá nem para afirmar que meu relato seja uma análise de meus sonhos ou de imaginação simples e pura. Além disso, trouxe um pouco da cura da terra, em forma de música (Yube Mana Ibubu)[i]. Te peguei?

 

Não são verdades!

De incertas saudades

Pessoas-coisas são.

 Assim diria Riobaldo[ii].


[i] https://www.youtube.com/watch?v=m45EoWrlNEg (a música é dos povos Kaxinawá, que não habitam na região de São Gabriel da Cachoeira, mas fala da cura da terra.

[ii] Haicais do Riobaldo

quinta-feira, 9 de junho de 2022

ESCREVER, PUBLICAR, VENDER

Quinze anos. Espinhas no rosto deixando marcas na timidez e na autoestima. Cabelos anelados e despenteados antecipavam um movimento que corria pelo mundo e logo chegaria ao Brasil. Era 1968, “o ano que não terminou”. Ano também em que conheci os Beatles e dei meu primeiro beijo na boca. A timidez era tanta que o beijo foi iniciativa dela, uma menina de nome Soninha. Meu primeiro poema foi para ela.

E como surgiu esta coisa, espantosa, de escrever poemas? Meu pai comprou uma enciclopédia (o google físico da época), o Tesouro da Juventude. Que eu li do primeiro ao décimo oitavo volume. Ele era dividido em Livros, entre eles o Livro da Poesia. O primeiro poema do Livro da Poesia do primeiro volume da enciclopédia era “SE”, poema que Rudyard Kipling escreveu para seu filho.

“Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses, no entanto, achar uma desculpa...”

Quando eu li esse poema bateu minha primeira vontade de escrever. Eu já me saia bem na escrita, minhas notas em Português eram melhores nas redações, o que me garantia boa média nas avaliações. No entanto, foi a partir das leituras dos poemas do Tesouro da Juventude que me senti impulsionado a escrever.

Curiosamente, Kipling era o gênio dos contos curtos. E, hoje, escrevo poemas e contos curtos, microcontos, embora sem a influência direta dele. Meus primeiros poemas eram simplórios, lógico. Não fiz carreira na literatura, escolhi a Ciência porque minha outra paixão, provavelmente mais forte na época, ou mais prática, era a Matemática. Escrever, entretanto, foi um passatempo contínuo. Fui professor, criei filhos e escrevi poemas. Guardados nas gavetas até o advento dos computadores. Da gaveta foram para os disquetes, para os pen drives, para os blogues, para as nuvens. E para os livros que começaram a surgir com a aposentadoria profissional.

A poesia, em mim, é imprescindível. Não vivo sem ela. O tempo, no entanto, me ensinou a escrever em outros tons, outras letras. Escrevi crônicas como exercício de escrita e linguagem. E a crônica se tornou também imprescindível. Cheguei, depois, aos microcontos, que também se tornaram imprescindíveis.

Poemas, crônicas e microcontos. Estas são minhas letras. O que pretendo com isso? Escrever cada vez mais e melhor. Escrever, publicar, vender. É o lema que chamo de meu. É o que quero fazer o resto de minha vida. E que minha vida seja longa.

 

terça-feira, 3 de maio de 2022

MEMÓRIAS PARA DEPOIS DO ANOITECER – V

V – Pedalada de Londres a Paris

Foi uma viagem e tanto, daquelas inesquecíveis. Aconteceu em setembro de 2013, com um clima de fim de inverno início de primavera no Brasil, fim de verão início de outono na Europa. A partida foi no aeroporto de Confins com destino em Paris e uma parada obrigatória em Lisboa apenas para troca de voo. O aeroporto de destino foi Orly e de lá rumei para a casa dos amigos Bernard e Helene em Sainte Genéviève sur Bois, cidade a uns trinta quilômetros ao sul de Paris. Eles me hospedaram por uns dias e ainda me emprestaram a bicicleta com a qual eu pedalei quatrocentos e vinte quilômetros entre Londres e Paris.

Depois de uns dias de preparação, pedaladas no entorno da casa deles como preparação física, rumei à estação de trem Gare du Nord para tomar o Eurostar, trem rápido que circula entre Paris e Londres. A bicicleta seguiu em vagão de carga a ser retirada uma vez chegando ao destino. E da estação, metrô de Londres até o hotel onde eu encontrei meus amigos acompanhantes naquela empreitada. E no dia seguinte, bem cedo, lá vou eu carregando uma bicicleta na mala: Sainte Genéviève sur Bois a Paris, de RER, trens da região metropolitana de Paris; metrô até a Gare du Nord; despacho da bicicleta; Eurostar até Londres; metrô até a estação próxima ao hotel. À noite e no dia seguinte, uma badalada em Londres, e as últimas preparações principalmente com relação ao trajeto.

Levantamos cedo, mochilas prontas, bicicletas em ordem e, lá vamos nós. A viagem durou sete dias, uma média de sessenta quilômetros por dia. E teve de tudo na viagem: chuva, sol quente, dúvidas no trajeto em locais com pouca informação, pedal no meio da mata, no campo, em fazendas tanto na Inglaterra quanto na França e travessia do Canal da Mancha em barco. Todos os dias saímos dos hotéis por volta de nove horas da manhã, e previsão de chegada em hotel de alguma pequena cidade no caminho em torno de cinco horas da tarde.

Um único contratempo no caminho: em um lugarejo ainda na Inglaterra não encontramos pousada. Tivemos que pegar um trem e voltar uns vinte quilômetros até uma cidade um pouco maior e procurar um hotel. No dia seguinte pegamos novamente o trem e voltamos ao local próximo de onde paramos no dia anterior e seguimos viagem.

O melhor da festa foi chegar em Paris, na Catedral de Notre Damme, debaixo d euma chuva torrencial e pegar o trem de volta para Sainte Genéviève sur Bois, onde eu era esperado. Sete dias de viagem passando por locais simplesmente maravilhosos e três quilos a menos. Maravilha de lembrança para depois do anoitecer.

sábado, 30 de abril de 2022

MEMÓRIAS PARA DEPOIS DO ANOITECER - IV

 IV - OS OLHARES

Recuso-me a esquecer. Depois dos 60 anos, memória e esquecimento travam uma luta ferrenha. Cada um querendo a primazia da ocupação dos espaços. Já que o esquecimento ganha quase sempre, quero pelo menos discernir sobre o que esquecer e o que lembrar. Então, prefiro esquecer datas de aniversários, hora de fazer pequenas e desimportantes coisas, local onde o carro está estacionado, onde ficou a chave, os óculos, a mochila, o tênis para a caminhada, o chapéu, quem mandou bater o portão sem se certificar que a chave da casa está no bolso? Como entramos em casa agora? A procura pode ser divertida se guardamos o bom humor, e depois é só chamar o chaveiro, mesmo as duas da manhã a gente encontra um aberto. Depois dos 60, que razões para perder o humor?

Tanta coisa para esquecer, menos do sorriso, da voz, da boca no momento do beijo, da língua que passeia sorrateira pelo corpo, como uma serpente escolhendo o local onde meter o veneno, do olhar. Ah, do olhar. Que olhar. São sempre dos olhos que me lembro. Aquele olhar que me procura, assim, olhando de esquina, fingindo que não procura, não olha e não vê. Olhares da mulher amada. Não dá para esquecer.

O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...