sexta-feira, 10 de junho de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXI


Eu não tive uma vida de estudante muito movimentada, como outros estudantes contemporâneos. Meu tempo era muito curto para tudo que eu tinha vontade de fazer. Eu era um caboclo de interior, protegido pela família que, de repente, se vê largado no mundo. Além de frequentar a universidade, estudar o mínimo para obter boas notas, eu tinha que trabalhar. Não tinha mesada, pelo menos não me era cobrada ajuda financeira em casa. Eu não teria dado conta. Eu gostava do curso, Física, mas não era daqueles ratos de laboratório, nem de biblioteca. Fazia o mínimo. Dava aulas em colégios de ensino médio, tinham outro nome na época, mas como escrevo hoje para leitores de hoje, fica nominado assim mesmo: ensino médio. Comecei em duas escolas estaduais em Rio Acima (MG), e uma escola estadual em Nova Lima (MG). Dava aulas de Física, Matemática e Desenho Geométrico. Depois comecei em uma escola do Sindicato dos Hidrelétricos, o sindicado dos funcionários da Cemig, empresa em que meu pai trabalhava. Aliás, foi ele quem me arrumou esse trabalho. Gostei de lá. Tinha uma amiga legal lá, professora de Português, cujo nome era Maria da Luz (creio), apelidada Malu. Mais velha que eu, mas nos dávamos muito bem. Ela me acompanhava pela cidade de BH, poderíamos ter namorado, mas eu tinha uma namorada que me ocupava todos os fins de semana. Era ingênuo, só bem mais tarde caiu a ficha de que a Malu se interessava por mim. Nunca mais a vi. Incrível como isso acontece tantas vezes em nossa vida. Pessoas que um dia amamos e que desaparecem sem deixar vestígio. Confesso que a culpa é minha. Creio que eu as abandono.

Depois comecei a dar aulas em um colégio no bairro Padre Eustáquio, em Belo Horizonte, no Colégio Padre Machado e no Izabela Hendrix. Nesses dois últimos tive experiências marcantes. Um tanto negativa no primeiro e muito positiva no segundo. No Izabela Hendrix vivi histórias interessantes. Namorei duas alunas e uma professora. Quase ao mesmo tempo. Com a professora, de Física, tive um relacionamento muito interessante. Nos dávamos muito bem, éramos muito amigos e procurávamos estar sempre juntos. Descobrimos que éramos melhor amigos que namorados e passamos a ser apenas amigos. E durou. Até quando fui para a França, muitos anos depois. Escrevíamos cartas bem alegres e engraçadas, mostrando nosso lado bem humorado. Depois as cartas sumiram. Totalmente. Quando voltei eu a procurei. Não encontrei. Algum tempo depois fiquei sabendo que tinha falecido. De câncer. Fiquei muito bravo com ela. Morreu e não me avisou. Eu não conhecia sua família, então não houve, certamente, como me avisar. Sua família não me conhecia, sequer sabia de minha existência. E amigos em comum também não tínhamos. Mais uma perdida na passarela do tempo.

Eu sempre jantava no restaurante escola de Engenharia. Era perto de minha moradia. Lá conheci várias pessoas, fiz muitos amigos. Alguns eram militantes políticos. Lembrem-se, era ditadura militar e a vigilância aos estudantes era muito pesada. Tive amigos e colegas que foram presos, outros morreram. Eu não participava muito, estudava, trabalhava e tinha uma namorada em Rio Acima, onde passava os fins de semana. Esta era, é ainda, uma cidade pequena, com belos lugares para passear, com pessoas amigas e também conversadeiras sobre a vida alheia. Era uma vidinha descansada, às vezes boa, às vezes monótona. Vivi bons momentos lá, casei-me com essa namorada assim que me formei, um dos meus equívocos grandiosos. Tive uma filha e um filho. Amo os dois. A ex-mulher é mais uma que sumiu de minha vida, hoje a vejo de vez em quando porque somos avós dos mesmo netos. Nos tempos de estudante eu a via nos fins de semana, no meio de semana estávamos em cidades diferentes, eu aproveitava sua ausência para curtir outras mulheres.

O que eu mais gostava de fazer nesses tempos era ir ao cinema, mais de uma vez por semana. Eu conhecia filmes, atores, diretores, diretores de fotografia, roteiristas, tudo que dizia respeito a meus filmes favoritos. Alguns nome me vem à cabeça: Caubói da Meia Noite, Easy Rider, Alice’s Restaurant, A Hora e a Vez de Augusto Matraga (assisti esse várias vezes), Deus e o Diabo na Terra do Sol e outros filmes de Glauber Rocha. Claro, tinha também as chanchadas brasileiras, onde vimos as primeiras cenas de nudez no cinema brasileiro.  Éramos cabeças inteligentes mas assistíamos tudo. O fato de morar no centro de BH, na Rua dos Caetés número cem, me facilitava a vida. Era perto de tudo que eu fazia, não perdia tempo em transporte (baita saudade), restaurantes do centro funcionavam vinte e quatro horas, alguns deles, a vida cultural acontecia ao lado, as notícias desencontradas de desaparecidos políticos chegavam até nós.


Mas eu queria mesmo era namorar. A memória me traz as visagens dessas moças, mas não me lembro do nome de muitas delas. Perderam-se no túnel quântico da vida. Algumas eu procuro hoje nas mídias sociais. Fico surpreso como algumas desapareceram mesmo, viraram fumaça interativa, em outros lugares. Não sei onde. Quem sabe um dia ainda as encontro? Encontrei tantas pessoas depois de tanto tempo. Como sabemos, a Internet não trouxe nenhuma novidade do ponto de vista comunicacional, apenas tecnológico e emocional. Minha narrativa chegará até lá, espero. Ainda bem que não estou autorizado a escrevê-la. Escrevo de teimoso. E curioso.


quarta-feira, 25 de maio de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XX



Já que fiquei devendo devo narrar algumas das muitas aventuras do Zé Luiz “Siqueira”, um colega de faculdade morador do mesmo hotel em que repousava minha juventude, nos tempos de estudante universitário. Como escrevi antes, o Zé Luiz começou a fazer aulas de karatê numa escola em frente ao hotel em que habitávamos, o Hotel Belo Horizonte, um dos primeiros de BH, inexistente hoje (em seu lugar tem um estacionamento de um banco). Umas três vezes por semana ele tinha aulas e o karatê passou a integrar seu modo de vida. Ficou tão entusiasmado que não só imitava a fala do japonês seu instrutor como apropriou-se de algumas delas em seu vocabulário. De repente, Zé Luiz, um metro de quarenta e cinco de altura, negro, conversava com sotaque japonês, sem mais nem menos, em mesa de bar ou em sala de aula de Física Geral ou Cálculo Diferencial e Integral. Para risos de muitos e nervosismo do dito cujo.

Uma bela noite enluarada, depois de sessão de cinema na Rua Curitiba, em uma sala onde se passava filmes artísticos, hoje inexistente, claro, caminhávamos para casa, e o “Siqueira” ficou intrigado com uma sombra que nos perseguia e crescia atrás de nós. De repente a sombra dá um salto, como se fosse nos atacar, e o Zé Luiz vira-se para trás em um salto, faz uma pose de lutador de karatê e dá um berro daqueles. Eu e o dono da sombra quase morremos de susto. Esse apenas descia a rua tranquilamente atrás de nós, aproximava-se porque caminhava mais rápido e repentinamente dá um pequeno salto simplesmente para tapear uma placa de uma loja. Brincadeira de quem está tranquilo caminhando na rua a caminho de casa. O carinha, um moleque novinho, cai no chão de susto e pede pelamordedeus, não faça nada comigo, eu não fiz nada. E eu caí na gargalhada. Ele também, claro, não se conteve.

Uma outra aventura de Zé Luiz foi mais bizarra e engraçada ainda. Nosso amigo gostava de frequentar casas de prostitutas. Para tirar a água do joelho, era a frase jargão da época para uma transa com prostituta. E lá se foi o Zé Luiz, junto com um amigo conterrâneo, morador da mesma cidade no interior de Minas, para casa da Zezé, um bordel que ficava na Avenida Francisco Sales com Avenida Assis Chateaubriand, na Floresta, um endereço para lá de nobre para um prostíbulo. E era bem frequentado o local. Eu mesmo já havia visitado o local quando ainda morador em Nova Lima, estudante de Ensino Médio, menor de idade, levado por um de meus professores, pasmem. Voltando ao Zé Luiz, ele afirmava que seu amigo era ainda jovem e nunca havia transado na vida, ele estava lá para tirar o “cabaço”, gíria da época para virgindade. O Zé Luiz deu a maior força ao amigo, incentivo, motivação e tudo, vai lá camarada e mostra que é macho, pois em nossa cidade não tem desse vacilo, não, ou você mete hoje ou eu conto para todos em nossa cidade. Baita incentivo, esse. Aliás a expressão da época não era trepar, era meter. O gajo entrou no quarto e o Zé Luiz saiu da casa e foi espiar a performance do amigo pela janela, que não era baixa e foi preciso trepar (no sentido lato, subir) pela grade da janela e ficar pendurado lá. Eis que passa na avenida um carro da Polícia Militar que vendo a cena, joga o farol alto e desça logo daí senão atiro. O zé Luiz obedece e gagueja para o policial: eu estava só espiando meu amigo que está metendo pela primeira vez. O policial pega o Zé pelo colarinho, entra na casa da Zezé, respeitosamente (até a polícia respeitava a Zezé), abre a porta do quarto onde estava o amigo do Zé e vai perguntando em alta voz, ei, é você que está metendo pela primeira vez? Eu não, seu guarda, já sou experiente nisso, não é a primeira vez não, mentiu o gajo. Com essa negativa a polícia conduziu o Zé Luiz “Siqueira” para a delegacia prestar esclarecimentos. E lá fomos nós, seus amigos de hotel, dar uma força ao colega e depor que ele era gente boa e, de fato, apenas espiava o colega. Conversa vai, conversa vem, o delegado de plantão os liberou a todos, acusado e testemunhas. Agora o dilema do Zé era outro. Segundo ele seu pai assinava O Estado de Minas e o lia da primeira à última página e se saísse algo no jornal ele estava fudido, seu pai tiraria sua mesada e ele teria que voltar para a terra natal. E lá fomos nós para a porta do jornal, na Rua Goiás, bem no centro da cidade, esperar a saída do jornal mais lido do estado, o que aconteceu por volta das cinco horas da manhã. Leitura do jornal e nem uma linha sobre o feito do amigo. Fomos dormir tranquilos.

Tranquilos? Eis que as onze horas mais ou menos o Zé Luiz nos acorda com um número do Diário da Tarde, que dedicava um pedaço de coluna ao fato: um gajo de nome José Luiz “Siqueira” (seu sobrenome era outro, claro, mas não cometerei aqui a indelicadeza de contar a todos, mesmo sendo esta uma autobiografia desautorizada pelo autobiografado) foi pego em flagrante na janela de um famoso bordel da cidade durante a madrugada. Segundo o mesmo ele foi espiar um colega que estava a cometer atos libidinosos no interior do recinto. Apesar do flagrante o gajo foi liberado. Onde já se viu uma coisa dessas. Era uma coluna de fatos anedóticos e bizarros. Ele estava aliviado porque o Diário da Tarde não chegava em sua cidade. Mas cópias da notícia foram devidamente colocadas em um quadro na entrada do Hotel Belo Horizonte, no mural da escola de karatê e no Diretório Acadêmico do ICEX, na UFMG. Para desespero do Zé porque a chacota foi grande.
Muitas outras histórias do amigo Zé Luiz foram comentadas durante sua permanência em Belo Horizonte. De estudante de Física ele passou para Engenharia Elétrica e foi sumido de vista aos poucos. Depois de formado nunca mais o vi. Recentemente o encontrei nas redes sociais, mora do outro lado do país, mas ainda não fiz contato com a figura. Eu o farei, sem dúvida. E deixo aqui um registro de como era nossas vidas de estudante, seu lado alegre, pois o lado político era dureza, os tempos eram de ditadura, pesados. Voltaremos ao tema.


domingo, 1 de maio de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XIX


O Hotel Belo Horizonte ficava na Rua dos Caetés número cem, entre as ruas São Paulo e Rio de Janeiro. Foi o primeiro hotel da nova capital, fundada ainda no século dezenove. Fins do século dezenove, ano de mil oitocentos e noventa e sete, para ser exato. O mesmo ano da inauguração do metrô de Londres, e não compreendo porque uma cidade de dois milhões e seiscentos mil habitantes tem apenas uma linha de metrô. O elevador do hotel, no entanto, era uma peça rara. Tinha uma porta sanfonada, duas aliás, a de dentro e a de fora. E uma manivela que o fazia subir e descer os três andares. Parar no terceiro andar, ou no primeiro, era fácil, era o fim da linha. Mas para quem morava no segundo andar, acertar o nível do pavimento para não ficar um degrau perigoso ao sair do mesmo era um problema quando os moradores chegavam cansados ou meio bêbados. Outro detalhe do elevador era o fato de não ter teclas de envio e chamada automáticos. A gente assobiava para o porteiro e ele conduzia o elevador até nós. E quando subíamos para o nosso pavimento tínhamos que amarrar a manivela em uma corrente forçando o elevador a descer até o térreo. Uma raridade. Outra raridade era o zelador diurno. Ele parecia aqueles personagens de filme de Zé do Caixão. Um vampiro de tão pálido e magro. Um hóspede chegando de manhãzinha devia se assustar com a figura. Simpático apesar de draculesco. E como porteiro de um hotel no centro da cidade tinha histórias interessantes para contar. Outro detalhe do hotel era sua feijoada de sábado. Fantástica. Creio que uma das melhores que já comi em toda minha vida, se a minha memória continua boa. A família e a namorada moravam em outra cidade e eu fazia hora para viajar somente para não perder a famosa feijoada. Famosa para os poucos e fieis fregueses.

Em meus tempos de morador desse hotel haviam quatro hóspedes permanentes extremamente curiosos. Um deles era um senhor vendedor de pedras preciosas oriundas da região de Teófilo Otoni. Alto, educado, com um chapéu sempre na cabeça, dentes de ouro no sorriso, uma mulher bonita acompanhando, esse senhor era analfabeto e usava os serviços de um advogado, também morador do hotel, que, de tão educado, o chamávamos de Dr. Bonzinho. Ele era tão bonzinho que só faltava pedir licença de passar perto da gente. O Dr. Bonzinho era o segundo morador extravagante do hotel. Sempre presente, sempre simpático, sempre acompanhando o pedrista, até que um belo dia desapareceu com todas as pedras preciosas e com a mulher do chucro senhor das pedras. Muito bonzinho, o cara.

A terceira pessoa era a Dona Ilka. Provavelmente em torno dos quarenta e poucos anos, era solteira e morava sozinha no hotel. Funcionária pública. Para nosso desespero hospedava-se no mesmo corredor dos estudantes e no sábado às seis horas da manhã começava a fazer zoeira no corredor. Segundo ela era para descontar a zoeira que fazíamos quando chegávamos à noite. Ela era totalmente implicante conosco, mas não nos perdia de vista. Uma de suas manias era entrar repentinamente nos nossos quartos (nem sempre trancados) para puxar assunto. Dizíamos que na verdade era para nos pegar pelados. Em uma dessas manhãs meu colega de quarto saiu apressado e deixou a porta aberta. Eu ainda estava debaixo das cobertas, com aquela preguiça de levantar, mas tendo que levantar, e entra Dona Ilka, senta em uma cadeira ao lado da cama e começa a conversar. Conversa daqui, conversa dali, e nada de ir embora para que eu me levantasse. Por fim eu disse: Dona Ilka, acho melhor a senhora sair para que eu possa me levantar. Ela – Pode levantar, sem problema. – É que eu estou em estado interessante. – Que estado interessante, rapaz? – Dona Ilka, eu estou de pênis erectus. E fui levantando os lençóis e exibindo o dito cujo na posição vertical. Ela ficou entre assustada e admirada e saiu resmungando para não perder a pose de rabugenta.


O quarto extravagante morador era nosso colega Zé Luiz “Siqueira”. Como éramos três estudantes de Física, sempre que podíamos estudávamos juntos. Só que o Zé Luiz deixava os estudos para a véspera das provas e vivia com o livrão de Física Geral do Halliday debaixo do braço onde íamos. Um dos lugares de nossa frequentação era o Gaivota, um bar aberto vinte e quatros horas exatamente ao lado do hotel. O Gaivota era bem frequentado, tinha música ao vivo, bons garçons que já nos conheciam porque lá era nosso ponto de encontro à noite antes de entrarmos em casa, ou mesmo para uma fuga de madrugada depois de resolver os problemas de Cálculo solicitados pelo professor. É que lá tinha aquele caldo rico para matar a fome madrugadoura.  E sempre uma boa conversa. E o Zé Luiz nos acompanhava com o livro de Física e ficava estudando no Gaivota, em nossa mesa, enquanto jogávamos xadrez ou conversávamos com as mulheres que o frequentavam.  O Zé Luiz ainda me renderá assuntos, muitas histórias divertidas aconteciam com ele, em parte por causa de sua pequena estatura, em parte porque ele era engraçado mesmo e eventos curiosos o perseguiam. Mais histórias sobre ele virão.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XVIII


Em mil novecentos e setenta e um entrei na Universidade. Na UFMG, para estudar Física. Não sei exatamente porque escolhi esse curso. Até o momento da inscrição eu tinha dúvidas entre vários cursos. Principalmente entre Física e Jornalismo, que ficou como segunda opção. Jornalismo porque eu gostava de escrever, e tinha escrito alguns roteiros para peças de teatro. Não sei o que Jornalismo tem a ver com escrever peças para teatro, mas na época pareceu-me pertinente. Já a Física eu creio que era uma disciplina interessante, eu tinha boas notas e havia um professor legal, um incentivador. Mais tarde, na Universidade, descobri que ele era mau aluno, enrolado e eu formei antes dele. Funcionou, no entanto, como um motivador. O primeiro ano de faculdade foi uma tragédia, principalmente o primeiro semestre. Porque eu não tinha renda, meu pai cortou minha mesada, e eu tinha que trabalhar. Apareceram aulas para lecionar em dois colégios na cidade de Rio Acima, e no colégio que eu estudara no ensino médio, em Nova Lima. Com isso eu corria para cá e para lá e, com dezoito anos recém completos, descobri também a gandaia, os namoros, as mulheres, a cervejinha, e as aulas de Cálculo e Geometria Analítica foram para o espaço. Eu as assistia mas não estava atento às matérias.

A Universidade é um mundo à parte. Colegas novos, professores mais instruídos, cabeças diferentes. Os tempos eram duros, a ditadura militar era brava, e os alunos eram constantemente vigiados em suas atividades extraclasse. Porque lá era um reduto de oposição ao regime, tanto entre professores como entre alunos, principalmente entre os alunos. Aprendi a ler livros anarquistas, às escondidas, os livros eram clandestinos. Conheci a Mafalda, a personagem do Kino, em espanhol, também proibida no Brasil, exemplares clandestinos chegavam às nossas mãos. Algumas músicas eram censuradas e não podiam ser cantadas publicamente, mas tínhamos a chance de ouvi-las pela boca de seus compositores nos pátios da universidade. Uma delas foi Cálice, de Chico Buarque e Milton Nascimento, cantada por Gilberto Gil, no horário de almoço, no pátio do ICEX, Instituto de Ciências Exatas. 

Durante os quatro anos em que fui estudante morei em dois endereços na cidade de Belo Horizonte. Primeiro na Avenida Paraná, depois em hotel chamado Hotel Belo Horizonte, na Rua dos Caetés, os dois endereços no centro da cidade. Em cada um deles vivi momentos interessantes. No primeiro, era uma residência familiar, um grande apartamento ode viviam uma senhora e sua filha. Eram três quartos alugados para quatro rapazes cada um, um quarto menor com três camas e o quarto das duas mulheres. No quarto em que eu morava, havia um moço estudante de Engenharia, desses bem calados, apenas me cumprimentava e nunca tinha assuntos comigo. Ele conversava apenas com as senhorias, principalmente a filha. Um segundo morador era um moço já não tão moço que trabalhava na Rodoviária durante o dia e estudava à noite em uma faculdade privada em Itaúna. Viajava todo os dias para essa cidade a uns oitenta quilômetros de Belo Horizonte. Logo, eu quase não o via. A quarta cama era ocupada apenas esporadicamente por um rapaz parente da dona da pensão, talvez filho ou sobrinho, viajante, apenas uma ou duas noites na semana ele dormia no quarto. Ao lado de minha cama tinha uma mesa para estudo, uma porta de guarda-roupas para minhas coisas e só. A vantagem era o silêncio durante o dia. Eu e um outro estudante silencioso às tardes, pela manhã eu tinha aulas e à noite, algumas vezes por semana, eu trabalhava. Eu já atuava como professor em escolas privadas de BH, dava aulas de Física.

O outro endereço foi o do hotel Belo Horizonte. Carregava esse nome por ser o primeiro hotel construído na cidade. Era um prédio de três pavimentos, com uns vinte quartos em cada um deles (o térreo eram menos), um banheiro masculino e outro feminino, coletivos. Os banhos tinham vários chuveiros, várias privadas e uma pia. E moradores muito divertidos e alguns malucos. Lá moravam estudantes, funcionários públicos e vendedores de pedras preciosas oriundos da região de Teófilo Otoni. Os quartos eram grandes e morávamos dois estudantes em cada quarto. Eu dividia quarto com outro estudante de Física, muito simpático e também reservado (mais reservado que calado). Havia um terceiro estudante de Física no quarto ao lado, que tinha uma característica que o diferenciava dos demais. Ele tinha menos de um metro e meio e era cheio de complexos por isso. Enfezava-se à toa. Seus apelidos eram “sen30º”, “pintor de rodapé” e um outro mais intelectualizado, nomeado por estudantes de Cálculo Diferencial e Integral, que era “Siqueira”. Isso porque a professora de Cálculo, ao ensinar as famosas derivadas, escrevia no quadro, ou apenas dizia, “para entender isso, toma-se um h tão pequeno quanto se queira”, sendo h a variável da fórmula matemática. E o nosso amigo e vizinho ficou sendo Siqueira, para desespero dele e cumplicidade nossa. Para compensar isso, nosso vizinho “Siqueira”, na verdade José Luiz, tomava aulas de karatê em uma escola bem em frente ao hotel. E era personagem de várias histórias cômicas, episódios para o próximo capítulo.



sexta-feira, 15 de abril de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XVII


Pois é, os tempos de hoje, dia em que escrevo, estão incertos, alguns ratos invadem a sala de jantar, não se contentam em dominar os jardins da casa, querem desalojar os cuidadores da cozinha. Porque donos a casa não tem, habitamos em um condomínio com direção colegiada. Com isso lembrei-me de acontecimentos dos anos oitenta e cinco, para ser mais preciso, ou impreciso, nem sei, entre oitenta e cinco e noventa, mais ou menos. Em oitenta e cinco tivemos o fim dos governos militares, algo que a mídia política costuma chamar de redemocratização do país, coisa que, agora fica tão claro, nunca aconteceu de fato. E relembro de um caso acontecido com uma pessoa amiga minha que vem a demonstrar aquilo que vou começar a narrar agora, que os donos do poder nunca mudaram de lugar.
Pois bem, esse meu amigo era bancário, tinha cargo de gestão em banco estatal e, como pessoa politizada e inconformada que era, atuava também no sindicato dos bancários e ajudava as associações de bairro a se constituírem e se legalizarem. Essas ações não foram muito bem digeridas pelos chefes dos bancos e meu amigo foi demitido por justa causa. Ser demitido por justa causa significa, ainda hoje, perder todos os direitos trabalhistas e ainda ficar com a carteira profissional manchada. Quer dizer, ninguém mais o contrata. Essa pessoa passou a trabalhar em pequenos expedientes, teve um infarto sério que lhe deixou sequelas cardíacas e nunca mais conseguiu um trabalho nas mesmas condições que tinha antes. Passou a trabalhar em serviços sem carteira assinada, ou como porteiro de prédio, faxineiro, coisas assim. De gerente e tesoureiro de banco terminou os dias como porteiro de prédio. E para não ser preso teve que tirar uma foto ao lado de um político influente da época, porque os amigos da ditadura o perseguiam.

Aí que a história fica interessante, porque esse bravo lutador entra com uma ação na maravilhosa e neutra “justiça” brasileira, numa vã tentativa de obter sua aposentadoria, dada a sua condição de pessoa com a saúde debilitada. Ação contra o estado sabemos como são, ganha-se na primeira instância, vai para a segunda, terceira e assim por diante, até chegar no Supremo Tribunal Federal muitos anos depois. E assim aconteceu. A ação teve início ainda nos anos setenta e, em oitenta e cinco, com a tal redemocratização, novas esperanças surgiram. A ação já estava em última instância e esperava-se uma sentença conclusiva para breve, por breve entenda-se uns dois ou três anos mais. Mas eram tempos de esperança, que nem a morte de Tancredo apagou, já que Sarney jurou manter o rumo traçado pelo primeiro. E o ministro da Previdência Social era um jornalista conceituado no mundo da política que jurou acabar com os altos salários de alguns aposentados, chamados na época de “marajás” do INSS.

E foi então que dois fatos inusitados aconteceram. Primeiro, o ministro publicou com alarde, nos grandes jornais do país, a tal lista de marajás. E não é que o nome de meu amigo estava na lista? Demitido por justa causa, sem saúde, trabalhando de porteiro de prédio com um salário mínimo por mês, com uma ação na justiça para conseguir se aposentar por invalidez, era agora um marajá da Previdência Social. Ele e muitos outros que também acionavam o governo. Segundo fato, mais inusitado ainda, a sala do Supremo onde estavam arquivados os processos em julgamento, em Brasília, foi incendiada e todos aqueles processos se perderam. Ou seja, o tal novo governo democrático não era democrático porra nenhuma.


Claro que rimos muito, uma das características dessa pessoa era seu bom humor. Claro também que ele não viveu muito tempo mais. E para não perder o humor nem na tragédia veio a falecer no Natal. Silenciosamente. O encontramos no quintal, de manhazinha, depois de uma noite muito agradável, de boas conversas. Claro também que nossa democracia não avançou, hoje temos certeza. As diferenças sociais continuam, houve um disfarce nos três governos petistas, um disfarce muito frágil, tanto que os velhos donos do poder voltam a querer tomá-lo, na marra, no golpe baixo. E com o aplauso de metade da população brasileira. Prenúncios de novo caos social. Veremos.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

PASSEIO ALEATÓRIO


Fazia uma caminhada aleatória pelas ruas de Fortaleza e descubro o Centro Dragões do Mar de Arte e Cultura, no centro da cidade, próximo à famosa praia de Iracema. Um oásis no caos da cidade, como são os centros de todas as grandes cidades brasileiras (de outros países também). No caminho entre Aldeota e o Centro a gente vê todas as contradições sociais das grandes cidades. Em Aldeota elevam-se prédios modernos e mansões com vigilância armada, enquanto no Centro se observa a diversidade social, cultural e arquitetônica, normal também nas grandes cidades.

Das exposições que vi nos vários espaços do Centro Dragões do Mar gostei de algumas. A arte contemporânea tem a virtude de propor questionamentos aos visitantes. Geralmente os artistas confrontam suas artes com o pensamento mais básico do cidadão comum. Há os que gostam, há os que detestam. Quando me encontro defronte uma instalação pop art, sempre procuro encontrar a linha lúdica e emocional do artista, porque sei que seu raciocínio não segue, em geral, uma vereda racional. Ele procura mostrar, através da emoção compartilhada, algo que foge do lugar comum, algo que o observador comum não vê em seu cotidiano. Às vezes não encontro nada de mais, às vezes encontro uma mensagem que tem alguma coisa a ver comigo, uma mensagem que eu poderia dizer de alguma forma. Assim é a arte de mostrar e a arte de observar. Procurar pensamentos comuns.

As fotos abaixo são de pinturas nos muros externos do Centro












terça-feira, 1 de março de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XVI


Viajo alguns anos no tempo passado até chegar no passado mais recente, dois dias antes do momento em que resolvo escrever sobre um momento mais atual de minha autobiografia desautorizada para registrar impressões atuais. Porque? Simplesmente porque estas impressões, que brotarão no decorrer do relato que segue, ainda não sei onde vou chegar com isso, elas podem mudar os rumos das coisas que virão, não só na minha vida, como também nos relatos que farei aqui, mesmo sem autorização declarada. Claro, não vou usar esse espaço de desobediência civil, já que escrevemos à revelia de mim mesmo, como espaço de desabafo, ou como lavagem de roupas sujas ou limpas. Tudo que quero é deixar impressões de alguém que viveu um pedaço da história, mais como observador que como protagonista, o protagonismo se restringe aos fatos de minha própria vida permeados pelos acontecimentos. Sim, não fui ativista político dos acontecimentos, os fatos é que me atropelam o tempo todo. Essa é a questão. Eu bem que gostaria de escrever atos de heroísmo, mas isso não aconteceu. Nunca fui herói. Cultuei alguns heróis, como o Homem Aranha e o National Kid, esse muito antigamente, assisti a Jornada nas Estrelas, provavelmente quase todas os filmes da série, muito embora eu não tenha sido daqueles que se vestem como os personagens na hora de ir para a frente da tela. Meus heróis são mais mortais, mais humanos, como Vladimir Herzog, como Rubens Paiva, como Dazinho, como Lula, e uma grande massa de outros, anônimos, que sustentaram a esperança no Brasil nos momentos mais duros da ditadura. Anônimos que aqui ficaram e trabalharam para criar possibilidades pela “volta do irmão do Henfil”, para lembrar a letra de música símbolo de uma época de lutas.

fato é que eu completei, dois dias atrás, sessenta e três anos de vida. Isso não tem nenhuma importância, o tempo passa para todos, sou mais um no balaio de gatos que reúne seres humanos, em vez de gatos. A idade que avança apenas nos faz refletir sobre as bobagens que fizemos, as que não fizemos, e sobre as que ainda faremos. O que pesa nesse momento, e pesa mais hoje que dez anos atrás, é o tamanho da encruzilhada em que me posiciono agora. Vivo um paradoxo sem igual. A maioria das pessoas com quem convivo manifesta amor e carinho por mim, menos aquela pessoa de quem eu mais gostaria de receber atenção, carinho e, creiam-me, paciência. Paciência por parte das pessoas é o que uma pessoa mais precisa e solicita. Principalmente porque sabemos que daqui para frente nossa lentidão aumenta, nossa capacidade de agir diminui, nossa memória começa a nos enganar.


E aí recebo uma declaração de falta de paciência comigo. É dose. Não pensem que sou vítima, coitadinho ou qualquer coisa assim. Não sou. Sou o grande responsável por isso. Negligenciei acontecimentos, fatos que não vou entrar em detalhes porque não se trata apenas de mim. Uma coisa é relatar, desautorizadamente, acontecimentos de minha vida, outra coisa é analisar acontecimentos que influenciam meu relacionamento com terceira pessoa, principalmente uma pessoa que eu amo. Ela pede uma decisão de minha parte: ou eu mudo como pessoa, como ator e protagonista do relacionamento, ou eu mudo de casa. Porque ela não me aguenta mais. Essa frase é dura, não é? “Eu não te aguento mais como você é”. Preciso dizer mais alguma coisa? Percebem o tamanho do dilema? Não peço a opinião de ninguém. Escrevo para pensar. Claro que prefiro mudar de mim até tornar-me suportável, que mudar de endereço solitariamente. Eu não me sinto preparado para ser solteiro a esta altura de minha vida. Estou me preparando para a velhice e seria duro estar velho, insuportável e só. Porque chato eu sempre soube que sou, não me imaginava chato intolerável. E então cara pálida?


O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...