domingo, 17 de julho de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXIII


As viagens de minha imaginação e memória são totalmente erráticas, vem e vão no tempo, acendem à medida que uma lembrança surge em meu pensamento e sinto vontade de escrever sobre o assunto. Parece que sempre tem alguma coisa que ficou para trás, algo que valeria a pena narrar, mesmo sem autorização para fazê-lo. Claro que quero contar histórias interessantes, falar das coisas boas que me aconteceram, ressiginificar, de forma positiva, meu passado e de algumas pessoas que rodeiam minha vivência. Já ouvi da boca de historiadores que o bom da História é que podemos contá-la de outra maneira, da nossa maneira, e assim mudar nosso passado. Ele já passou, então modificá-lo não tem importância. Claro, existem os fatos marcantes, e as narrativas dos milhares de pessoas precisam convergir em alguma coisa que se aproxima da verdade sobre os fatos, mas, isoladamente ninguém, nenhum narrador, tem compromisso com a verdade dos outros, apenas com a sua própria verdade. E a verdade de cada um é aquilo que o constrói, que faz dele um cidadão respeitável. Sem querer estou justificando minha aventura, a de contar, à minha maneira, ou à maneira desse narrador desautorizado, acontecimentos de minha vida.

Durante três anos, entre os quinze e quase dezoito anos, eu frequentei o Colégio Estadual Augusto de Lima, em Nova Lima. Cursei o então chamado curso científico, hoje correspondente ao Ensino Médio. Algumas de minhas lembranças são difusas,  a gente se lembra de acontecimentos marcantes, e eles estão fugindo de minha memória, provavelmente porque deixaram de ser marcantes. Como assim? Como um acontecimento marcante de nossa juventude desaparece aos poucos de nosso pensamento? Aquela fase de minha juventude não existe mais? O que mais lembro desses três anos, é de minha total irresponsabilidade com a vida. Isso mesmo, eu era um irresponsável incorrigível. Sem querer analisar mas esboçando uma análise provisória, meus pais eram tão exigentes, tão ameaçadores, tão severos, que o contraponto a isso era viver uma vida o mais irresponsável possível para não se sentir vazio. Porque a responsabilidade era deles, não minha. Bom, eu não fumei maconha, pitava um cigarrinho escondido, um holiude (hollywood) com filtro, naquela época surgiram os cigarros com filtro para diminuir a nicotina (será?), maconha eu provei só mais tarde, já adulto, sabendo o que fazia e aquilo não teve a menor importância. Eu também não bebia, apenas de vez em quando, aos fins de semana eu tomava uma cerveja com os colegas. Isso não significa que não tenha tomado uns porres, sim me embebedei algumas vezes, não muitas, e sabia que a repreensão em casa seria severa. Minha atitude de rebeldia doméstica era tramada aos poucos, não era coisa de rompantes, eu pensava o que iria aprontar e como enganar meu pai para ele nem ficar sabendo ou para ele ter ideia do acontecido sem ter a dimensão exata de minhas experiências. Porque a essa altura eu já estava cansado de tomar porradas, então eu precisava de coisas para enganar o velho e ele ficar na dúvida se aquilo aconteceu ou não. Isso até me dava certa satisfação e não fazia de mim um marginal desvairado, daqueles dos filmes de James Dean, de Juventude Transviada, o termo era esse, eu não era um transviado (palavra perdida no túnel do tempo, um dos significados de transviado no dicionário online de minha preferência diz: “Que se opõe aos padrões comportamentais preestabelecidos ou vigentes”).  Curiosamente, eu tinha uma grande admiração pelos transviados de minha geração, mas não me comprometia com eles, não era um deles. Eu apenas os acompanhava à distância, como se as transgressões às regras que eles cometiam fosse ter efeitos colaterais em mim, ou como se eu pudesse aproveitar desses efeitos colaterais na sociedade. Aliás, foi exatamente o que aconteceu. Como, por exemplo, deixar os cabelos crescerem, usar calças jeans (eram importadas na época), ouvir e cantar rock’n roll (Beattles, Rolling Stones, Jethro Tull, Genesys, Moody Blues e outras, todas elas formadas lá nos anos sessenta, eram minhas bandas favoritas). E esse era um dos pilares da rebeldia. Em minha casa não tinha TV, essa coisa que se implantou como uma praga na nossa vida social na segunda metade dos anos sessenta, no Brasil, e o rádio, único rádio construído aos poucos com peças vindas pelo correio, era propriedade do patriarca, então só se escutava aquela merda de Rádio Itatiaia e as porcarias da Rádio Inconfidência, como Hora do Fazendeiro. Música, só caipira, preferidas de meu pai, e boleros, preferidos de minha mãe.

Aqui sou obrigado a fazer um parêntesis. Hoje eu rendo homenagem às duas estações de rádio citadas, adoro música caipira mineira de raiz, as vozes daqueles cantores de bolero e samba-canção me encantam, muito embora o rock’n roll continue no sangue. E ainda agreguei o samba, o jazz e o blues, além dos clássicos. Aliás, hoje, até mesmo o rap e o funck, porque não? A música evolui, transvia-se, e nós nos transviamos juntos, claro.

No Colégio Estadual eu estudava à noite e as lembranças boas da época vão se esvaindo aos poucos, como nuvens, as ruins também, se existiram já se evaporaram. Haviam lances desagradáveis, com o tempo eu superei qualquer tipo de trauma que eles puderam ter provocado em mim. Eu sei que sendo um jovem feio, magrelo, alto, de espinhas na cara, cabeçudo, pobre, mulato, morando longe e estranhamente  inteligente (isso já era demais para muitos colegas) as minhas chances de passar ileso sem sofrer provocações de colegas eram nulas. Hoje chama-se a isso de bullying. Mas eu penso que era tão gente boa, ou tão ingênuo, que nada disso me incomodava. Felizmente os registros de incidentes por isso são pequenos, quase nada. Às vezes me encontro com um antigo colega que me reconhece e vem me cumprimentar e eu o provoco: você era aquele que rabiscou minha caderneta escolar, transformou meu retrato em careta, e rasurou minhas notas boas o que me obrigou a passar umas horas na sala da diretora ouvindo um sermão? Ou você era aquela professora que reduziu minha nota porque dizia que minha letra era feia embora eu não tivesse errado nada? Minha pequena vingança é deixar essas pessoas sem graça, meu máximo de malvadeza. Nem sei se isso me dá prazer ou se apenas aviva minha memória, mas não tenho muita paciência com hipocrisias. Mais triste é lembrar daquela irmã de uma colega boazuda, a irmã, a colega nem tanto, a quem eu lancei uma cantada com muito custo, superando uma timidez quase infinita e ela me deu uma esnobada grandiosa, me colocando no chão a rastejar como calangos. Penso que vem daí minha predileção pelos calangos, esses animaizinhos rastejantes e sobreviventes entre pedras do jardim. Mais tarde eu me vinguei também grandiosamente namorando sua irmã mais nova só para provocar. Ela nem me deu bola, nem antes nem depois. Eu também não importei com isso, fiz o gênero ‘você não gosta de mim mas sua irmã gosta”.

A nossa predileção nessa época de escola era enganar o disciplinário, que fincava os olhos vigilantes nos alunos do científico, pois gostávamos de chegar atrasados e sair antes da hora, pela porta principal era impossível, então fizemos uma passagem secreta pelos fundos do colégio. De vez em quando resolvíamos fugir em massa no último horário, o professor do dia chegava e não encontrava ninguém. Atrás do muro havia um matagal por onde desbravamos um caminho que chegava ao Rego Grande que ultrapassávamos através de uma ponte improvisada, de madeira, escondida no mato. Nunca fomos descobertos pelo possesso e intrigado disciplinário. Ele chegou a implorar a colegas que o mostrassem nossa passagem secreta, nenhum de nós foi traidor no processo. Curioso é que os colegas de outras séries também não sabiam do caminho.

O principal motivo de nossas fugidas, meu pelo menos, era ir ao cinema, Cine Ouro ou ao cinema do Teatro Municipal. Como eu adorava cinema, era muito comum eu assistir aos filmes interessantes no meio da semana, nos fins de semana minhas obrigações trabalhistas e domésticas eram muito grandes. Dinheiro quase nunca eu tinha, o que me valia era a cumplicidade do porteiro do cinema que me passava escondido ou fingia receber de minhas mãos um ‘bilhete’. Sem ele minha cultura cinematográfica não seria a mesma. Eu era irresponsável, mas tinha bons amigos também. Esses amigos, perdidos no passado, foram o que de melhor ficou de todas as minhas vivências. A irresponsabilidade para algumas questões também. Não nego que minha tranquilidade de hoje é um pouco herdeira da irresponsabilidade daquela época, transformada pelas experiências da vida (por experiência pode-se traduzir as inúmeras porradas que a existência me concedeu e me fizeram amadurecer como banana caturra no cesto de palha envolvida no  jornal).

  

sábado, 2 de julho de 2016

O MISTÉRIO DA MOCHILA VERDE



Eu não sei se os mistérios estão ficando mais frequentes em minha vida ou se eu estou deixando de prestar atenção em alguns detalhes do entorno e do meu cotidiano, o fato é que coisas acontecem e eu não encontro explicações aceitáveis pela minha racionalidade lógica. Isto porque talvez eu tenho sido por demais condescendente com as pessoas. A crise moral que assola o país pode estar a deixar mais sequelas que podemos imaginar.

Bom, deixo de especulações filosóficas e passo aos fatos. Semana passada eu e sete de meus oito irmãos cumprimos um planejamento: visitar, em surpresa, o oitavo irmão (nove comigo), residente em Goiânia. Eu e uma irmã viajamos de Belo Horizonte a Goiânia via Brasília e, chegando ao destino, ficamos esperando um outro mano que fez o trajeto via São Paulo. Ficamos um pouco mais de uma hora a esperar no aeroporto, eu portava uma mala e uma mochila verde. Meus pertences na mochila eram aqueles pessoais, próprios de se carregar em mochilas: agenda, documentos, um caderno, um bloco de notas, um livro de ler em viagens, um óculos de reserva, uma máquina fotográfica com pilhas e carregador de pilhas, um carregador de celular, duas canetas, um lápis, pente de pentear cabelos finos e ralos, um perfume, chaves de casa e uma ou outra coisa, de pequeno valor, que posso estar esquecendo agora. Quando nosso mano chegou, abraços, emoções, alegrias, casos, etc., saímos para pegar um taxi e, ONDE ESTÁ MINHA MOCHILA? Volto aos lugares por onde transitei, encontro o chefe da segurança do aeroporto, ele comunica pelo rádio com outros funcionários, vou ao guichê da Infraero e registro a ocorrência, dou mais uma volta e como não mais tenho notícias de minha mochila verde, entramos no taxi e fomos embora.

Desapega, Paulo, foi o que ouvi dos manos e de minha voz interior, insistente e sempre pertinente voz, felizmente, não vou estragar o fim de semana programado por causa disso, vamos que vamos. Telefono ao banco para notificar a perda dos cartões bancários, débito e crédito, tinha dinheiro no bolso suficiente para o fim de semana.

E o fim de semana foi maravilhoso. A surpresa do oitavo irmão (somos nove), morador de Goiânia, foi enorme, ele não cabia em si de tanta emoção, emoção aliás compartilhada por todos, como disséramos nós, foi uma operação de resgate da união fraternal após a morte de nosso pai. Cervejas e uma boa cachaça de Salinas, queijo Minas da Chapada, a ótima mandioca do quintal do mano, bom caldo com carne de sol à noite para acalmar a friagem, muito riso e papo, frango com guabiroba no almoço de sábado, sono em colchões de ar que havíamos levado, tudo lindo e maravilhoso, não me incomodei com a perda porque o ganho com a reunião com os irmãos foi muito maior. Tirando a chateação de ter que solicitar segunda via de carteira de motorista e de cartões de banco, o resto não era nada. Coisas materiais substituíveis.  

Segunda-feira, hora de voltar para casa, chego cedo ao aeroporto, despacho a mala e vou de novo ao escritório da Infraero, era outro funcionário, relato de novo o ocorrido, novos telefonemas, o setor de Achados e Perdidos fecha para o almoço de meio-dia a uma hora, era meio-dia e meio e meu voo era uma e vinte, não daria tempo de esperar abrir o setor. O funcionário telefona para um e outro, seguranças e funcionários de qualquer lugar, nunca se sabe, não, nenhuma notícia de uma mochila verde. Minha esperança era de que o sujeito que tivesse se apoderado ou simplesmente encontrado minha mochila tivesse levado o que havia de valor e deixado o que era importante apenas para mim e mais ninguém. Vã esperança. Senhoras e senhores, última chamada para o voo três mil duzentos e noventa e dois com destino a Congonhas, (a volta foi por São Paulo), lá vamos nós, lá se foi minha mochila verde. Meu irmão de Goiânia ficaria mais um pouco para esperar abrir o escritório da Achados e Perdidos, enviou depois um Whatsapp informando que lá ficou até duas horas e, segundo o funcionário que o atendeu, não havia nenhuma mochila verde no setor.

Ok, de volta para casa, a vida continua, agora é trabalhar para esquecer o ocorrido, vai para a lista de perdas e danos não reclamáveis judicialmente, na terça de manhã minha agenda perdida deveria estar marcando um compromisso às dez horas, ainda bem que a memória é boa, esse compromisso durou até o meio-dia. Antes de sair para almoçar dou uma olhada em minha caixa de entrada de  correio eletrônico e lá estava registrado o seguinte e-mail:

Caro Senhor,
“Foi localizado no Aeroporto de Goiânia, mochila VERDE Targos, com máquina fotográfica FUJI S9100 e documentos diversos (Agenda de anotações, livro Segredos da Mente Milionária, Passagem LATAM trecho BHZ/GYN), com indicação de seu endereço de e-mail, no qual é feito contato, para que em retorno a Goiânia, faça procuração dos bens mencionados, no setor de Achados/Perdidos localizado no térreo do aeroporto, sala: Supervisores Aeroporto, no horário comercial de 08:00 às 17:00hs.
PSA K…”

Várias trocas de e-mail em poucas horas e ficou acertado que o mano goiano pegaria a mochila e a enviaria por Sedex para meu endereço em Belo Horizonte.  Dá para entender o ocorrido? Onde estava esta mochila verde? Com quem? Se quem a pegou não tinha intenção de furtar, já que TODO o conteúdo da mesma estava lá, nada foi tirado, porque não a entregou no setor de Achados e Perdidos imediatamente? Ou a entregou e o serviço do aeroporto não é dos melhores e a mochila ficou em um canto qualquer e não foi vista quando procurada?

O conteúdo da mochila verde chegou via correios e a mochila, por não caber dentro da caixa do Sedex, está em posse de meu irmão que vai trazê-la no próximo mês quando vier nos visitar.

Mas o mistério da mochila verde continuará sendo um mistério.



quarta-feira, 22 de junho de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXII


Quero dar um passo atrás, como um caranguejo, para narrar mais um pouco sobre os garotos da Vila da Cemig, nós que morávamos naquele espaço chamado subestação, totalmente cercado de arames altos e com uma placa no portão onde se lia: “Atenção, alta tensão, perigo de morte”. Perigo de morte e éramos quatro famílias, cheias de crianças, a morar no interior desse aramado. Torres altas, fios eletrificados a cento e quarenta e quatro mil volts de tensão, transformadores, painéis com sensores a indicar dados a serem transmitidos para outras subestações, via rádio, Os quatro pais das quatro famílias eram os funcionários do local e se revezavam no trabalho em horários alternados. Um ambiente técnico, responsável pela distribuição de energia elétrica na cidade de Nova Lima e cidades vizinhas, e a pergunta que sempre faço é o quanto esse ambiente marcou nossas vidas. Posso não ter a resposta definitiva, talvez as respostas sejam muitas, diversificadas e fragmentadas, certamente cada um de nós tem respostas diferentes, o fato é que nós crescemos naquele meio que nos isolava do mundo, de certa forma, e nos dava uma liberdade que não teríamos se crescêssemos em outros lugares.

Eu era o mais velho dos jovens, adorava futebol, então organizamos um espaço para o jogo, ajudados por um dos patriarcas que também adorava futebol e jogou o esporte bretão até mais de sessenta anos, enquanto aguentou. Na hora de dividir a turma para o racha, era eu para um lado e Santiago (o senhor) para o outro. Jogamos futebol juntos por mais de dez anos e nunca jogamos no mesmo time: era eu num time, ele sempre adversário. Quem mais ganhou, não sei. Sempre dependíamos da boa vontade dos outros em participar da pelada. E tinha uns que faziam hora, fingiam não gostar do jogo para negociar, talvez, sua participação. Com um meu irmão, por exemplo, eu deveria brincar de outras brincadeiras que ele gostava para ter sua presença no campo. Depois ele foi para o seminário, aí vieram outros meninos ganhando corpo e manha com a bolinha. Alguns se tornaram bons jogadores, divertimos muito.

Mas o que me move nesta narrativa é o que aquele ambiente significava para nós? Significava espaço, brincadeiras variadas, confusão e barulho em tempestades, porque o mal tempo provocava distúrbios nas instalações técnicas locais. Transformadores explodiam de vez em quando, arregalavam nossos olhos de crianças, e nos dava assunto para o dia seguinte em nossas reuniões para brincadeiras. As brincadeiras mais animadas eram descer o morro em nossos carrinhos de rolimã, soltar pipas que chamávamos de papagaio, na verdade, papagaios esses que nós mesmos fazíamos com folhas de papeis coloridos, brincar de pega-pega, de esconde-esconde, de contar histórias, de pular corda, de equilibrar em cima dos muros, de correr atrás de vacas e bois segurando o rabo deles, de equilibrar em cima de carreteis enormes descendo o morro, de subir na caixa d’água (uns trinta metros de altura, nossos pais só ficaram sabendo quando nós, adultos, resolvemos contar) e nadar nela, escondido dos pais, lógico.

Nem tudo era brincadeira, evidentemente, porque meus pais exigiam também que estudássemos para termos notas boas, e trabalhar na horta para termos alimentos saudáveis para todos. E nisso meus velhos eram exigentes. Deu certo pelo menos. Poucos meninos moradores externos a nosso condomínio se arriscavam a entrar pelo portão da cerca, devido à placa. “Perigo de morte” não é um aviso a ser desrespeitado. Só alguns que nos viam e nos acompanhavam para a escola sabiam que o perigo era supervalorizado na placa, mas se nós morávamos lá dentro eles podiam nos visitar de vez em quando. E havia o campo de futebol, terreno aplainado por nós em tamanho de uma quadra de futebol de salão, cinco para cada lado, dois times no campo e um ou dois na espera, quinze minutos ou dois gols, o time perdedor saía e ia para a espera. E de vez em quando colocávamos uma rede no meio e jogávamos vôlei. Mas a nossa praia era o futebol. E as meninas nos acompanhavam em várias brincadeiras, algumas até mesmo no futebol.


Quanto às questões técnicas sabíamos que nossos pais eram operadores eletricistas daquele pedaço, crescemos com uma noção básica de eletricidade, alguns se tornaram técnicos e/ou engenheiros, eu me tornei físico, outros artesãos, e muitos viradores. Quer dizer, deixa que eu chuto e ainda corro para cabecear. E todos temos muitas histórias para quando nos reunimos em torno de uma mesa regada a cerveja e petiscos, com muita contação de causos. Essa vida plena em nossa infância nos marcou profundamente. E não temos medo de trovão, nem de tempestade. Thor mora em nossos corações e os deuses das chuvas e das descargas elétricas nos protegem. Para sempre, espero.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XXI


Eu não tive uma vida de estudante muito movimentada, como outros estudantes contemporâneos. Meu tempo era muito curto para tudo que eu tinha vontade de fazer. Eu era um caboclo de interior, protegido pela família que, de repente, se vê largado no mundo. Além de frequentar a universidade, estudar o mínimo para obter boas notas, eu tinha que trabalhar. Não tinha mesada, pelo menos não me era cobrada ajuda financeira em casa. Eu não teria dado conta. Eu gostava do curso, Física, mas não era daqueles ratos de laboratório, nem de biblioteca. Fazia o mínimo. Dava aulas em colégios de ensino médio, tinham outro nome na época, mas como escrevo hoje para leitores de hoje, fica nominado assim mesmo: ensino médio. Comecei em duas escolas estaduais em Rio Acima (MG), e uma escola estadual em Nova Lima (MG). Dava aulas de Física, Matemática e Desenho Geométrico. Depois comecei em uma escola do Sindicato dos Hidrelétricos, o sindicado dos funcionários da Cemig, empresa em que meu pai trabalhava. Aliás, foi ele quem me arrumou esse trabalho. Gostei de lá. Tinha uma amiga legal lá, professora de Português, cujo nome era Maria da Luz (creio), apelidada Malu. Mais velha que eu, mas nos dávamos muito bem. Ela me acompanhava pela cidade de BH, poderíamos ter namorado, mas eu tinha uma namorada que me ocupava todos os fins de semana. Era ingênuo, só bem mais tarde caiu a ficha de que a Malu se interessava por mim. Nunca mais a vi. Incrível como isso acontece tantas vezes em nossa vida. Pessoas que um dia amamos e que desaparecem sem deixar vestígio. Confesso que a culpa é minha. Creio que eu as abandono.

Depois comecei a dar aulas em um colégio no bairro Padre Eustáquio, em Belo Horizonte, no Colégio Padre Machado e no Izabela Hendrix. Nesses dois últimos tive experiências marcantes. Um tanto negativa no primeiro e muito positiva no segundo. No Izabela Hendrix vivi histórias interessantes. Namorei duas alunas e uma professora. Quase ao mesmo tempo. Com a professora, de Física, tive um relacionamento muito interessante. Nos dávamos muito bem, éramos muito amigos e procurávamos estar sempre juntos. Descobrimos que éramos melhor amigos que namorados e passamos a ser apenas amigos. E durou. Até quando fui para a França, muitos anos depois. Escrevíamos cartas bem alegres e engraçadas, mostrando nosso lado bem humorado. Depois as cartas sumiram. Totalmente. Quando voltei eu a procurei. Não encontrei. Algum tempo depois fiquei sabendo que tinha falecido. De câncer. Fiquei muito bravo com ela. Morreu e não me avisou. Eu não conhecia sua família, então não houve, certamente, como me avisar. Sua família não me conhecia, sequer sabia de minha existência. E amigos em comum também não tínhamos. Mais uma perdida na passarela do tempo.

Eu sempre jantava no restaurante escola de Engenharia. Era perto de minha moradia. Lá conheci várias pessoas, fiz muitos amigos. Alguns eram militantes políticos. Lembrem-se, era ditadura militar e a vigilância aos estudantes era muito pesada. Tive amigos e colegas que foram presos, outros morreram. Eu não participava muito, estudava, trabalhava e tinha uma namorada em Rio Acima, onde passava os fins de semana. Esta era, é ainda, uma cidade pequena, com belos lugares para passear, com pessoas amigas e também conversadeiras sobre a vida alheia. Era uma vidinha descansada, às vezes boa, às vezes monótona. Vivi bons momentos lá, casei-me com essa namorada assim que me formei, um dos meus equívocos grandiosos. Tive uma filha e um filho. Amo os dois. A ex-mulher é mais uma que sumiu de minha vida, hoje a vejo de vez em quando porque somos avós dos mesmo netos. Nos tempos de estudante eu a via nos fins de semana, no meio de semana estávamos em cidades diferentes, eu aproveitava sua ausência para curtir outras mulheres.

O que eu mais gostava de fazer nesses tempos era ir ao cinema, mais de uma vez por semana. Eu conhecia filmes, atores, diretores, diretores de fotografia, roteiristas, tudo que dizia respeito a meus filmes favoritos. Alguns nome me vem à cabeça: Caubói da Meia Noite, Easy Rider, Alice’s Restaurant, A Hora e a Vez de Augusto Matraga (assisti esse várias vezes), Deus e o Diabo na Terra do Sol e outros filmes de Glauber Rocha. Claro, tinha também as chanchadas brasileiras, onde vimos as primeiras cenas de nudez no cinema brasileiro.  Éramos cabeças inteligentes mas assistíamos tudo. O fato de morar no centro de BH, na Rua dos Caetés número cem, me facilitava a vida. Era perto de tudo que eu fazia, não perdia tempo em transporte (baita saudade), restaurantes do centro funcionavam vinte e quatro horas, alguns deles, a vida cultural acontecia ao lado, as notícias desencontradas de desaparecidos políticos chegavam até nós.


Mas eu queria mesmo era namorar. A memória me traz as visagens dessas moças, mas não me lembro do nome de muitas delas. Perderam-se no túnel quântico da vida. Algumas eu procuro hoje nas mídias sociais. Fico surpreso como algumas desapareceram mesmo, viraram fumaça interativa, em outros lugares. Não sei onde. Quem sabe um dia ainda as encontro? Encontrei tantas pessoas depois de tanto tempo. Como sabemos, a Internet não trouxe nenhuma novidade do ponto de vista comunicacional, apenas tecnológico e emocional. Minha narrativa chegará até lá, espero. Ainda bem que não estou autorizado a escrevê-la. Escrevo de teimoso. E curioso.


O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...