terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

E SE O FIM FOR AMANHÃ?

  

— Pai, você está pronto para morrer?

— Sim, estou pronto. Minha vida foi rica, gostei de tudo que eu fiz. Quando minha hora chegar, irei feliz.

— Então, nem irei chorar quando você morrer.

Por incrível que pareça, o diálogo acima aconteceu. Meu pai havia se recuperado de uma cirurgia para a retirada de um tumor no intestino e se preparava para uma segunda cirurgia, pois um segundo tumor havia surgido. Era domingo e, como muitas vezes aconteceu nos anos finais de sua vida, eu fui almoçar com ele. Estávamos sentados em torno de uma mesa no quintal, próximo à janela da cozinha através da qual minha mãe nos passava alguns tira-gostos, porque ele não dispensava sua cachacinha “para abrir o apetite” nos almoços dominicais. Só nós três em casa, então o diálogo sobre a morte foi surgindo devagarinho. Como ele não se furtava a responder o que eu perguntava, o diálogo foi crescendo.

Não chorei em sua morte, mas a partir desse diálogo teve início minha jornada de preparação interna para o seu dia final, que aconteceu meses depois da tal segunda cirurgia. Essa preparação interna me permitiu cuidar dele em seu estado terminal e estar presente em seu último suspiro, com o dedo em seu pescoço sentindo a última pulsação de sua artéria. Era um trinta e um de dezembro e, nesse dia, quando perguntado sobre o que eu faria naquela noite festiva, eu disse à minha companheira:

— Irei ficar com meu pai, pois ele morre hoje.

— Como você sabe?

— Eu sei, ele me disse.

Sim, meu pai havia se preparado para sua própria morte em vários detalhes. Nos oito meses de agonia e dor entre o fracasso da segunda cirurgia, em abril, até o dia de seu falecimento, em dezembro, ele teve uma palavra de aconselhamento e de alegria para cada pessoa que o visitou, principalmente para seus nove filhos. Sua preparação se estendeu até aos detalhes práticos do sepultamento. Caixão, carro funerário, cerimonial com livro de presença e uma moça bonita cuidando de tudo no velório. Tudo previamente pago.

Em minha jornada de preparação para a morte e a morte de meu pai vivi várias experiências diferentes. Todas elas com o mesmo foco, o de querer entender a morte e não sofrer com ela. Li vários livros sobre a morte (entre eles A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver, de Ana Claudia Quintana Arantes; As Intermitências da Morte, de José Saramago; e Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião), frequentei Centros Espíritas e Terreiros de Umbanda, tive uma conversa séria com o Preto Velho, que durou mais de uma hora, para desespero dos presentes. Mas foi em um banho de mar que tive a resposta procurada.

Trôpego no fundo do mar entrei.
Na dança com golfinhos solicitei
à vida, em ciclos, que ele viva
sua morte que chega, ativa.

A partir desse mergulho eu tive serenidade para escutar sua voz que sumia, falar palavras de aconchego, narrar histórias que o conduziam a algumas viagens imaginárias a lugares desconhecidos, ou conhecidos, e estar presente nos momentos de cuidado.

E quanto à minha morte? Ela vem, cada dia que passa mais se aproxima. Já vivi experiências de risco, como um ônibus, na contramão, surgindo em minha frente em uma curva e eu tive poucos segundos para reagir e sair de sua frente e assistir, pelo retrovisor, sua colisão com o veículo de trás. Ou quando um barranco, em tempos de chuva, caiu atrás de meu carro, um segundo após minha passagem. Ou quando um caminhão sem freio em uma descida forte veio em minha direção e o motorista, ao me ver a pé na estrada, o jogou no barranco bem a meu lado. Estes sustos sempre nos deixam em alerta e nos fazem pensar em viver dias melhores.

Hoje, consultando meus arquivos, verifiquei que já escrevi muito sobre a morte, mas a morte como passagem, pois ela não é oposição à vida. A morte é apenas uma mudança de ciclo, ou uma mudança de fase dos jogos de vídeo game. Ela vem, sim, mas em forma de poesia.

 

A poesia existe
para nos fazer eternos:
enfrentar o mistério da morte
compreender o trágico da vida.
Registros de humanidades.

 

Mas, fica sempre a pergunta: e se o fim for amanhã? O meu fim, especificamente?

Um fandango nem sempre pensa na morte
nem espera sentado por ela.
Ele sonha com a vida, curte suas incertezas
para se lembrar da certeza do fim!

 

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

ENTRE MEMÓRIAS E ESQUECIMENTOS

 

Depois dos sessenta anos, memória e esquecimento travam uma luta ferrenha. Cada um querendo a primazia da ocupação dos espaços da mente. Já que o esquecimento ganha quase sempre podemos, pelo menos, discernir sobre o que esquecer e o que lembrar. Esquecemos, então, datas de aniversários, da hora de fazer pequenas e desimportantes coisas, do local onde o carro está estacionado, onde ficaram os óculos, a mochila, o tênis para a caminhada, o chapéu, etc. E quem mandou bater o portão sem se certificar que a chave da casa está no bolso? Como entramos em casa agora? Melhor se lembrar do tradicional bom humor, muito útil nessas horas. Depois dos sessenta, que razões para perder o bom humor? Tanta coisa para esquecer!

Jordelina, hoje com quase cem anos, começou a fazer teatro aos setenta. Algo escondido dentro dela, tanto tempo adormecido e que, de repente, brota em seu coração como roseira que esconde espinhos nas folhagens e mostra sua beleza a quem vê perfumes e cheira mistérios. Assim como disse Conceição Evaristo, a escritora, começou a se sentir viva aos setenta anos: “Nunca somos novas demais nem velhas demais para nada”.

Todos os mistérios vêm das sombras,
é na penumbra que nos desnudamos.
Tom pastel dos silêncios
brinca na memória dos bem vividos.

Moradora em uma cidade da região metropolitana, três vezes por semana tomava o ônibus que a conduzia à capital para ensaiar com seu grupo de teatro, todos os atores e atrizes já cheios de experiência de vida. O auge de Jordelina atriz foi na peça Morte e Vida Severina, baseado em obra de João Cabral de Melo Neto. Jordelina, mais de oitenta, brilhou. Cantou, dançou, representou provavelmente muitas das mazelas de sua própria vida. O grupo atuou em hospitais de crianças, em casas de repouso, em presídios até que foram convidados para atuarem em um grande teatro da capital. Eu estava lá, nos bastidores, porque me intrigava o fato de Jordelina estar quase surda. Como ela fazia para nunca perder a hora de entrar no palco, a hora de soltar a voz? Foi aí que entendi. Ela decorava a peça inteira e ficava na porta de entrada do palco observando e repetindo baixinho as falas dos atores e atrizes que estavam no palco. Assim não perdia sua vez.

Imagens são como sombras:

guardiãs de nossa memória

e de nosso medo da morte.

 Infelizmente, o grupo de teatro de atores e atrizes com “data de nascimento avançada” foi dissolvido pelos produtores, o diretor de cena demitido e as pessoas aconselhadas a irem para casa, como se mambembes fossem. O que fazer com aquele fogo na alma tanto tempo escondido e tardiamente aberto para todas as ardências de uma viva reconstruída? A depressão tomou conta de Jordelina, a solidão adquiriu dimensões devastadoras, as pernas de bailarina foram sendo tomadas pelas artroses, o esquecimento foi chegando devagarinho. A pandemia botou uma pá de gelo no que sobrou daquelas labaredas ainda insistentes.

Logo depois do Ano Novo deste ano de 2024, Jordelina recebeu a visita da neta e de alguns de seus bisnetos. Como vieram de longe, ficaram por alguns dias.

— Quem são essas pessoas que se instalaram em minha casa? Que crianças barulhentas e inquietas?

A memória dela, ausente, se juntou à quase ausência de sua audição. Jordelina, no entanto, continua contando causos, basta alguns ouvidos atentos se postarem em sua frente. Lembra da infância, dos tempos de juventude quando morou na capital. Na verdade, lembra-se de todos os momentos felizes de sua vida, aqueles mais antigos, menos dos tempos de teatro, os mais felizes de sua vida. Não teve diagnóstico de Alzheimer, apenas de perda continuada de memória.

Nossa memória é banco de dados
armazenados para quando tomarmos um vinho
diante do fogo das reminiscências.

Certo dia, uma de suas bisnetas, Maria, de uns cinco ou seis anos, sentou-se em sua frente e começou a fazer perguntas. Ela não as respondia, exatamente, mas contava causos que a menina ouvia atentamente. E Maria respondia com outros causos de sua curta existência, cheia de personagens das histórias que ouvia de seus pais. Foi um diálogo, fragmentado, maravilhoso entre duas pessoas com uma diferença de idade de mais de noventa anos, registrado apenas pelos olhares dos presentes admirados.

Maria voltou com seus pais para sua casa distante. Jordelina sempre pergunta por ela: — Cadê Maria? O avô de Maria, filho de Jordelina, recebe um telefonema da filha, dizendo que chegou bem e a anciã vê os bisnetos pela chamada de vídeo do aparelho celular. De quem ela se lembra? — Olha, é Maria.

Esquecer é sobreviver: lembrar?
O futuro começa
no instante depois do verso
no primeiro beijo depois do encontro
na estória que se conta agora.




quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

NEM BRANCO NEM PRETO

A vida sempre foi colorida, nunca em preto e branco. Olho de minha janela e vejo as montanhas em verde, os telhados das casas em marrom, as paredes multicoloridas com suas janelas em branco, ou azul. Em meu jardim vejo muito verde, cor natural da vegetação, com flores em cores tão diversas que fica a impressão que algumas acabaram de ser inventadas na paleta de cores do universo.

Algumas tribos da Amazônia têm trinta e duas palavras diferentes para identificarem os diversos tons de verde das matas. Coincidências à parte, os povos das planícies siberianas chinesas também têm trinta e duas palavras diferentes para distinguirem os diferentes tons de branco.

Então, por quê reduzir a cor da pele dos seres humanos em apenas quatro palavras: branco, preto, pardo e amarelo? Amarelo? Quem é amarelo? Amarela é minha roseira em flor. Quando a jovem recenseadora do IBGE me perguntou com qual dessas cores me identifico, respondi: — verde é minha cor na terra e azul quando estou voando. Sou preto na sombra e descolorido dentro d’água. — Essas cores não podem, não constam do formulário. — Então, sou pardo, ou “cor de burro fugindo”.

Meu avô paterno era branco, de cabelos claros e olhos azuis. Casou-se com uma mulher indígena filha de um português. Tiveram mais filhos brancos que pardos ou amarelos. Não conheci meus avós maternos. Minha mãe não nos falava sobre eles, pois foi criada por terceiros, muitos terceiros diferentes. Ela tem a pele clara, mas escolheu casar-se com um homem de pele clara porque, segundo ela, não queria ter filhos com cabelos crespos. Ledo engano. Entre seus nove filhos, sete têm os cabelos crespos.

Em minha casa era assim, o Brasil inteiro é assim. O racismo está entranhado na cultura. A cor da cultura familiar não é a cor dos ancestrais, mas a cor dos chefes das famílias. Branca, portanto. Só mais tarde na vida é que podemos fazer outras escolhas, inclusive que cor podemos dar a nosso passado e à nossa cultura. Amadurecer e envelhecer nos permite ressignificar o passado. Minha mãe não me deixava namorar moças pretas. Hoje frequento terreiros de umbanda e candomblé, tenho amigos quilombolas e participo de ambientes culturais das comunidades negras. Com isso posso afirmar: nossa cultura é preta e indígena, o Brasil é mais preto que branco. Minas Gerais, um estado com a aparência de uma cabeça, tem a cara preta. É o IBGE quem afirma isso.


O QUE ESPERAR PARA 2024, VOVÔ?

Todos os finais de ano e início do ano novo as histórias se repetem. Sempre queremos algo novo, perspectivas novas, alegrias novas: desejos que quase nunca são satisfeitos, porque a mesmice reaparece depois da Folia de Reis. Retiram-se as luzes extras colocadas nas praças, as vitrines das lojas readquirem seu aspecto anterior. O que muda é o barulho das ruas, agora com os ensaios exaustivos das escolas de samba e dos blocos de carnaval que cresceram como pragas (muitos gostam) pelo Brasil afora. Depois do Ano Novo, espera-se o Carnaval chegar. E quem sabe a vida volta ao normal de antes. Mas as nossas esperanças permanecem. Ainda bem.

Para o ano novo, desejo:
— que o tempo não se meta
na vida dos amantes.
Nem dos velhos.

 

Principalmente dos amantes idosos e das amantes idosas. De todos os gêneros. Afinal, o que todos desejam, por direito adquirido, é viver, amar, aprender e deixar um legado. Frase que, originalmente publicada em inglês, carrega uma sonoridade maravilhosa (live, love, learn, and leave a legacy) todas com a letra l.[i] É exatamente o que nós, pessoas idosas, também queremos para nossas vidas: viver em paz, dar e receber amor, ainda aprender e cuidar daquilo que queremos deixar para as gerações futuras, muito além dos patrimônios materiais.

— Que o sofrimento não atemorize corpos.
Que morte chegue suave
aos doentes terminais,
ao som dos Beatles.

 

Sim, um dia ela vem. Para todos. Tive a honra de acompanhar o meu pai durante o período crítico de sua vida, justamente na terminalidade dela. Foi um dos maiores aprendizados que tive ao longo de minha existência. E dele também. Eu, amante dos Beatles, usei a música dos rapazes de Liverpool como trilha sonora, principalmente Yelow Submarine. Mas poderia ser outra música. Trilhas sonoras são colocadas a gosto do diretor de cena, sempre com o intuito de, através da emoção, sugerir novos olhares.

— Que a luz dos olhos de minha morena
brilhe como faróis em tempestades
e enxergue bem longe.
Guiando. Como sempre.

 

É o que a gente sempre espera das mulheres: que elas iluminem nossas vidas e nos guiem nos principais momentos de tomada de decisões. O que devemos fazer é criar as condições necessárias para que elas exerçam seus poderes de magia com alegria e serenidade. O que todo homem deve almejar na vida é uma parceira, ou um parceiro, feliz. Porque a felicidade se expande, seduz e atrai outras pessoas felizes.

— Que ninguém perceba o negro pela cor,
mas:
Pela beleza intrínseca. 
Pela inteligência tão normal de qualquer cor.

 

O racismo ainda está longe de deixar de existir. Ele é estrutural em nossa sociedade, ainda escravocrata. Algumas mudanças começam a acontecer através de algumas redes de comunicação. Nunca vimos tantas pessoas pretas nas telas de televisão brasileiras, tanto nas novelas e séries quanto na publicidade. Antes eu pensava que algumas coisas eram privilégios de brancos: comprar um imóvel, por exemplo. Outras ainda são. Ser atendido com dignidade nos serviços de saúde ainda é diferenciado pela cor da pele. Gostaria que toda pessoa idosa preta fosse vista, e atendida, com alegria nos olhos, pois ela trás a sabedoria dos ancestrais, sabedoria adquirida no sofrimento da vida.

— Que a indignação não desapareça
dos semblantes éticos.
São poucos.
Precisam crescer como pragas boas.

Só a indignação pode levar à frente um projeto de verdadeira mudança no caos da vida. Porque as pessoas se acomodam e começam a acreditar que é normal o sofrimento, é normal a dor do outro, é normal a luta anormal empreendida pela maioria. O que nos salva é nossa indignação.

— Que a vida, 
e a alegria de viver,
sempre renasça no sorriso das helenas,
tão pequenas, serenas.

Nossas esperanças sempre são colocadas nos ombros de nossas crianças. Sempre colocamos em questão que mundo deixaremos para elas, mas precisamos pensar também em que crianças queremos que cresçam em nosso mundo. Se temos a mínima ideia do que queremos para o mundo e para elas no futuro, coloquemos todas as nossas fichas na educação delas. Qualquer gasto com a educação é pouco, porque educação tem que ser analisada como investimento para o futuro, não como gasto.

— Que a minha poesia sobreviva
a minhas botas e a minhas luvas
(creio ser melhor poeta que boxeador)
e meu bom humor permaneça
além das memórias.

Botas e luvas são símbolos de minha trajetória e de minha luta nesses mais de setenta anos em que permaneço neste planeta. Já caminhei muito e já dei muita porrada na vida (ambos literal e metaforicamente). Foi pouco? Deveria ter feito mais? Perguntas sem respostas adequadas. Briguei muito para ter acesso àqueles quatro direitos fundamentais de todo ser humano: viver, aprender, amar e deixar um legado. Porque a indignação permanece. Porque vi o mundo mudar tanto e tão pouco ao mesmo tempo. Fisicamente tanto, mentalmente e espiritualmente tão pouco.

Que venha um ano novo com renovadas esperanças, porque esta não morre, segundo o ditado popular.



[i] Covey, Stephen R.; Merril, A. Roger; Merril, Rebecca R. First Things First: To Live, to Love, to Learn, to Leave a Legacy. New York, Francis Covey Co, 1996.

 

 

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

O NOVEMBRO AZUL E NOSSAS ESCOLHAS

O Instituto Nacional do Câncer (INCA), órgão do Ministério da Saúde, estima mais de 70 mil novos casos de câncer de próstata, no Brasil, para o triênio 2023-2025. Este número representa 10,2% do total de novos casos de câncer esperados para o período. Um exagero.

O câncer de próstata é o segundo tipo de câncer mais comum em homens no Brasil, atrás apenas do câncer de pele não melanoma. A incidência é maior em homens com mais de 65 anos, sendo raro antes dos 40 anos. Por isso, os médicos consideram que a prevenção deve ter início nessa faixa etária, em torno dos 40 anos.

O diagnóstico precoce é essencial para o tratamento eficaz do câncer de próstata. O exame de toque retal é o método mais recomendado para a detecção do câncer em estágio inicial. O PSA (antígeno prostático específico) é outro exame que pode ser usado para o diagnóstico, mas não é tão preciso quanto o toque retal.

E por que os homens são tão resistentes ao exame clínico, o famoso toque retal? Meu pai teve uma prostatite aos 50 e poucos anos. A prostatite é uma inflamação na próstata, bacteriana ou não, tratada com medicamentos. Mas isso acendeu a luz amarela para ele. Machão e valentão que era, teve que se render aos cuidados de um urologista.

Pensa que morte

É só choro e sofisma?

Pensa errado!

(Paulo Cezar S. Ventura – “Haicais do Riobaldo”)

Ele se tratou e passou a colocar a atividade física em sua rotina diária. Por sorte não bebia além de sua dose diária, nem fumava. Começou a nadar, lembrando seus tempos de juventude morando em beira de rio, depois descobriu a dança. Frequentava, quase diariamente, as casas de dança com horários dedicados às pessoas idosas. Ele rejuvenesceu alguns anos. Faleceu aos 85, com sequelas de um outro tipo de câncer, o do intestino.

Voltando aos dados do INCA, algumas questões sobre as causas do câncer de próstata nos chamam a atenção. Em primeiro lugar, lógico, a idade. O câncer de próstata aparece mais em homens idosos. Mas, podemos envelhecer sem adoecer. Envelhecer é uma dádiva, com cuidados especiais à nossa própria pessoa fica melhor ainda. Eu, particularmente, não espero novembro chegar para me cuidar. Em fevereiro, mês de meu aniversário, dou-me de presente um checkup completo, incluindo o exame PSA, que se mantém estável há décadas, e o toque retal.

O segundo fator de risco é o histórico familiar. Se entre seus ancestrais, ou parentes mais velhos, há uma incidência de problemas na próstata, não deixe de se cuidar. O terceiro fator é a obesidade. Aquela história de que sua cintura deve ter menos de 1 metro é verdadeira. Na realidade, divida a medida de sua cintura pela medida de seu quadril, se o resultado for maior que 0,9, cuide-se. Sua barriga não pode ser maior que seu traseiro. Pessoas magras tem menos problemas de saúde que as obesas e vivem mais. Nunca vi um centenário obeso.

O quarto fator de risco é a alimentação rica em gorduras e carnes vermelhas. Se você é adepto daquele churrasco de picanha gorda todo fim de semana, atenção. Até pode ser, mas precisa colorir o prato em várias cores durante a semana. Todo prazer tem seu custo. Além do prato colorido, que tal uma caminhada, aqueles 10.000 passos diários? A inatividade física é o quinto fator de risco para esta e outras doenças, não apenas dos homens.

O sexto fator de risco é curioso e um tanto complicado em um país tão racista como o nosso: a cor da pele. Os homens negros (pretos e pardos) correm maior risco (mais de 50% a mais) de contrair câncer de próstata que homens brancos. As causas ainda não são bem conhecidas, mas sabemos bem que as condições de vida da população negra, no Brasil, são bem piores, em média, que as da população branca. Logo, os fatores ambientais superam, no caso, os fatores genéticos. Há ainda um fator hormonal. Os níveis de testosterona são mais altos nos homens negros. E esse hormônio masculino pode estar relacionado ao desenvolvimento de câncer, não só de próstata, segundo pesquisas mais recentes. Logo, homens pardos e pretos, precisamos ser duplamente cuidadosos.

O mês de novembro, ainda primavera, mas com temperaturas se elevando aos poucos, tem o céu às vezes azul, às vezes cinza, já que as chuvas são frequentes nesta data. Neste ano as previsões climáticas são turbulentas. No caso de nossa saúde, no entanto, temos escolhas. O novembro pode ser azul para as prevenções necessárias ao diagnóstico e tratamento do câncer de próstata. As escolhas são de duas naturezas: individual e social.

As escolhas individuais são mais óbvias e já muito comentadas no Portal do Envelhecimento. A prevenção individual nos coloca frente a escolhas que fazemos em relação ao nosso modo de vida. Manter um peso saudável, muito embora a obesidade seja também uma questão de saúde pública. Comer comida de verdade, seguindo uma dieta saudável, evitando produtos industrializados, é fundamental. Além de ser um fator importantíssimo na prevenção, ajuda a manter-se magro. Outras escolhas muito importantes são a atividade física regular, uso moderado ou nulo de bebidas alcóolicas e a ausência do fumo em sua rotina.

Já as escolhas coletivas, ou sociais, são as mais importantes e necessárias a serem feitas, e passam pelo poder público. Em artigo publicado recentemente neste Portal, em outubro passado, já coloca a prevenção como importante estratégia de controle do câncer (https://www.portaldoenvelhecimento.com.br/prevencao-e-a-estrategia-de-controle-mais-eficiente-para-a-epidemia-de-cancer/).

Algo que ainda não aprendemos, e precisamos fazê-lo forçosa e rapidamente, é que a prevenção é muito mais barata que os tratamentos contra o câncer. No Brasil, e em vários outros países, o gasto público com o atendimento especializado é muitas vezes maior que o gasto com a prevenção. Especializamo-nos cada vez mais no combate às doenças e menos aos cuidados preventivos da saúde. E a prevenção se faz com informação, com educação, com letramento nas questões de saúde e prevenção, com fácil acesso às unidades básicas de saúde, com melhores condições ambientais de vida e trabalho, principalmente para a população negra e pobre.

Só assim nossos futuros NOVEMBROS serão AZUIS.

O viver, mesmo,

É o aprender a viver.

Isso é mesmo.

(Paulo Cezar S. Ventura – “Haicais do Riobaldo”)


Paulo Cezar S. Ventura (pcventura@gmail.com - @paulocezarsventura)

 

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

O SETEMBRO AMARELO DA PESSOA IDOSA

 

Em março de 1998 estive presente no Espaço de Exposições da Porta de Versalhes, em Paris, porque ali acontecia o Salon du Livre que, naquele ano, homenageava a literatura brasileira. Tive a oportunidade de conferir o lançamento de obras de autores como Chico Buarque, Lygia Fagundes Teles e outros que, mesmo não sendo os meus preferidos, como José Sarney lançando Maribondos de Fogo, e Paulo Coelho com seu Alquimista, estavam ali representando nossa cultura. Fui assistir à palestra de Lygia Fagundes Teles, que discursava sobre o poder das palavras e o cuidado que os escritores devem ter ao fazer suas escolhas, quando os assentos livres a meu lado foram ocupados. Viro a cabeça e quem eu vejo? A atriz Catherine Deneuve, a Belle de Jour, e uma assessora. Fiquei com ouvidos em Lygia, nariz em Catherine, para sentir seu perfume, e olhos entre as duas.

Por que estou a lembrar-me disso? Anos mais tarde, já de volta ao Brasil e residindo em Belo Horizonte, fui chamado a correr até a casa de minha irmã, 2 km próximos, porque seu filho havia tentado se matar. Não corri, voei até lá e ajudei-a a conduzi-lo até a Unidade de Pronto Atendimento, por sorte bem perto. Ele se tratava de uma forte depressão e engoliu todos os medicamentos prescritos de uma vez. Uma lavagem estomacal deu conta de trazê-lo de volta à vida.

Comecei, então, a dedicar-lhe os poemas que passei a escrever sobre a importância dos pequenos prazeres. Cada um que escrevia eu lhe enviava e todos eles terminavam com uma reverência à vida e à importância de manter-se vivo. Em um deles eu comentava a respeito daquele famoso encontro entre Lygia, Catherine e eu.

 

Brindemos nossas musas, Cecéu,
pela eternidade delas através de nosso testemunho.
Viver nelas (como escreveu Yoko Ono)
é uma dádiva e uma necessidade.

 

Cecéu tinha menos de vinte anos, sobreviveu, formou-se em Psicologia e hoje cuida de pacientes mentais em situação de risco em uma cidade do interior de Minas Gerais. Mas, os suicídios continuam um grande problema. Enquanto os jovens suicidas são bem sucedidos no ato em 1 a cada 200 tentativas, as pessoas idosas suicidas têm sucesso em sua própria morte em 1 a cada 4 tentativas. Porque eles planejam melhor a própria morte e, em geral, vivem solitários. Quando são encontrados já estão mortos.

O que mais nos chama a atenção é o grande número de pessoas idosas que se matam: uma média de 1200 suicídios de pessoas idosas, por ano, no Brasil. O caso mais próximo a mim, foi a de um conhecido conterrâneo, ex-vereador e ex-secretário de cultura da cidade, que se matou recentemente, causando comoção. Em princípio, a família negou o suicídio, alegou infarto fulminante, o que foi desmentido pelo laudo médico. Esconder o fato apenas leva a subnotificações e esconde, na verdade, o grande problema.

Causas reais? O padrão, depressão. Outras causas são também o alcoolismo (o que justifica um número maior de suicídios entre pessoas idosas do sexo masculino, segundo professores do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG), as dores crônicas e o diagnóstico de demência. As mortes autoinfligidas de pessoas famosas como os atores Flávio Migliaccio (aos 85 anos) e Walmor Chagas (aos 82 anos) trouxeram o assunto à discussão, mas nada mudou, porque mudanças exigem ações mais contundentes, as quais não conseguimos realizar, ainda.

É possível reduzir, até mesmo evitar, a morte por suicídio de pessoas idosas? Entre os profissionais de cuidados, não apenas de pessoas idosas, há até um slogan conhecido que mostra um provável caminho - proteger as pessoas contra os 4 D: desespero; desesperança; desamparo; três fatores que levam ao quarto, a depressão. E a depressão, por sua vez, pode conduzir ao suicídio. Os primeiros sintomas visíveis desses 4 D são a tristeza, a falta de vontade de fazer as coisas de sempre e a falta de prazer no cotidiano.

Assisti recentemente um documentário sobre cinco lugares no mundo onde há um grande e incomum número de pessoas centenárias, os denominados Zonas Azuis. Esses lugares são: Okinawa, no Japão; Sardenha, na Itália; Nicoya, na Costa Rica; Loma Linda, na Califórnia; e Ikaria, na Grécia. Em cada um desses lugares fatores culturais e ambientais ajudam a promover a longevidade saudável, cada um deles com suas características especiais. Os documentaristas, no entanto, resumiram as regularidades dos casos em cinco, que descrevo aqui dando a minha interpretação.

O primeiro deles é o movimento. De novo, encabeçando a lista, a atividade física regular, leve, de todo dia. Aquela caminhada despretensiosa, o agacha-levanta das atividades comuns que, além de tudo, ajudam no sono regenerador das energias.

A visão do vale

depois de subir a montanha

ao pôr-do-sol que se apresentava

valeu alguns anos de minha existência.

 

O segundo é a presença de jardins e quintais. Eles têm múltiplos benefícios, pois ajudam na movimentação necessária e no cuidado com a alimentação. A boa alimentação é sempre o segundo fator de todas as listas de ajuda ao envelhecimento saudável.

 

Jeito mineiro de viver perigosamente:

comer couve longe de seu quintal,

roubar muda de flores em jardins alheios.

 

O terceiro tem a ver com os trabalhos manuais, quem diria? Fazer as coisas com as mãos é terapêutico, pode provocar movimentos, treina a concentração e ajuda a melhorar a saúde mental. Trabalhar com as mãos não é negar a tecnologia, mas pode ser também usar a tecnologia a favor de novas artes. Escrever, que é o meu caso, também se encaixa neste quesito.

Escrevo meus versos para aprender

a encontrar a inspiração para melhor escrever.

 

O quarto é viver com menos estresse. Todos os itens anteriores ajudam a se estressar o menos possível. Fazer uma boa gestão da ansiedade e do estresse exige uma mudança de paradigma no modo de vida que é, principalmente, fazer uma boa gestão do tempo e da energia necessária para todas as atividades. A saúde mental agradece, óbvio.

Tenho a calma artesanal
de quem fabrica vácuos
e cheira tolerâncias na atmosfera!

 

O quinto item da lista resume, a meu ver, todo este bem viver: fazer da vida um ritual sagrado. E isso vai muito além dos rituais religiosos. A oração é apenas uma das possibilidades. Os rituais sagrados incluem a respiração consciente, a meditação, a dança, a amizade, o cuidado com os outros, os risos, o ritual alimentar, o amor e a sedução, entre outras possibilidades.

 

Deuses, escambo mil vidas

por esses momentos mágicos

de convivência, amor e prazer.

 

É possível se tornar centenário sem as mazelas da idade? Sim, é possível, mas não sozinhos. É uma questão de vida em comum, de sociedade, de poder público, de cultura, de vida em família, de valorização da vida, de abraçar a causa em conjunto com a Urbis.

Não nos deixem sós. Gostamos, e precisamos, de viver com amigos e familiares. Felizes, enfim.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

A ARTE DE ENVELHECER COM PRAZER

 

Cícero, o filósofo romano nascido no ano 106 A.C., nos deixou obras importantes sobre as quais devemos nos reportar em vários assuntos, sendo uma delas sobre o envelhecimento. Chegou em minhas mãos, por aqueles acasos fortuitos não negligenciáveis, seu livro Saber Envelhecer, publicado em 2007 pela editora L&PM. Nesse livro Cícero desenvolve a tese de que a arte de envelhecer é encontrar o prazer que todas as idades proporcionam.

Gostaria de revisitar a obra do filósofo trazendo, para hoje, algumas hipóteses feitas por ele e, principalmente, trazendo para minha vida vários de seus ensinamentos. Um deles é um conjunto de respostas a um questionamento daquela época e, incrível, ainda muito comum atualmente:

por que muitas pessoas pensam que a velhice é detestável? 

        1. A velhice nos afastaria da vida ativa.

“Não são nem a força, nem a agilidade física, nem a rapidez que autorizam as grandes façanhas; são outras qualidades, como a sabedoria, a clarividência, o discernimento” (Cícero). Temos grandes exemplos de pessoas idosas ativas, que nunca desistiram de seu trabalho, de deixar de lado a sua competência adquirida durante a vida. Cícero cita generais romanos que viveram ativos por muitos anos, ou políticos, os senadores e cônsules romanos. Sabemos bem, no entanto, que a vida média do cidadão romano era em torno de quarenta anos. A vida mais longa era privilégio de quem vivia na riqueza e tinha escravos para o serviço pesado. As guerras eram constantes e as tubulações de água eram feitas de chumbo, metal pesado que adoecia a maioria das pessoas.

Hoje temos vários exemplos de pessoas longevas, passando dos noventa anos e chegando aos cem com vida ativa. Faltam-lhes a força, a memória os engana, mas ainda conseguem muitos feitos. Sobretudo se amados pelas pessoas que os cercam.

O que é preciso para ter uma vida ativa? Difícil dizer, mas Niemeyer desenvolveu alguns projetos arquitetônicos com quase 100 anos. Tenho uma vizinha com 96 anos que está bem, lúcida e ainda comanda sua casa. O corpo humano é um mistério, a vida é um mistério. Não há regras, mas muitos conseguem, hoje, ter uma mais vida longa e mais ativa que antes.

       2. A velhice enfraqueceria nossos corpos.

Cícero escreveu sobre a velhice com 59/60 anos (no calendário atual) e já se considerava um velho. Ele mesmo afirma isso em seu livro “Saber Envelhecer”. Vale lembrar que teve morte trágica, sendo decapitado aos 61 anos, a mando de Marco Antônio, cuja tirania ele combatia ferozmente com seus discursos. É considerado um dos mais influentes escritores e oradores romanos, deixando um enorme legado para o latim e todas as línguas europeias surgidas posteriormente.

É evidente que ficamos mais fracos com o tempo. Sinto isso na pele. Do futebolista amador que fui até os 50 anos, treinando durante a semana e jogando aos domingos, fui sendo obrigado a mudar de esporte, praticando outros com menos exigência de vigor físico. Passei ao remo, depois às corridas de rua, hoje contento-me com caminhadas e pedaladas e exercícios de solo. Mas como disse Cícero “se tu lamentas a perda dos bíceps, não são eles o problema, mas tu mesmo”.

“É preciso servir-se daquilo que se tem e, não importa o que se faça, fazê-lo em função de seus meios” (Cícero).

Já ouvi uma frase parecida durante uma palestra em um ginásio para uma plateia de aproximadamente mil pessoas.

“Para fazer tudo que quero fazer, primeiro procuro os meios e recursos que tenho à minha volta e os adapto às minhas necessidades” (Marcos Rossi).

Só que Marcos Rossi não tem braços nem pernas. E se ele consegue fazer o que quer, por que eu não conseguiria só porque sou pessoa idosa? Sem desculpas, meu velho. Olhe em volta e siga em frente.

Cícero já nos dizia, há 2070 anos, que “o exercício físico e a temperança permitem conservar, até a velhice, um pouco da resistência de outrora”, acrescentando ainda: “mas não basta estar atento ao corpo; é preciso ainda mais ocupar-se do espírito e da alma”.

Ele também nos brinda com uma receita infalível, segundo ele, para exercitar a memória. “Aplico o método caro aos pitagóricos: toda noite, procuro me lembrar de tudo o que fiz, disse e ouvi na jornada”.

       3. A velhice nos privaria dos melhores prazeres

Este é um ponto polêmico porque, afinal de contas, o que é o prazer? Cícero considerava como prazerosa a boa conversação, à mesa, com os amigos, ao trabalho na agricultura, ao prestígio que ele mesmo possuía como orador, ao debate intelectual. Em suas considerações não incluía o amor e o sexo, e dizia que a paixão seria uma obsessão sem controle. Mas, ao mesmo tempo, “se a velhice não os aproveita da mesma maneira, ela não está totalmente privada deles”.

Ah, os prazeres! Como são cantados e contados pelo mundo afora! Como são bons! É bom ser aberto a sentir os prazeres da vida e não se envergonhar de senti-los! Quem tem prazer na vida, e pela vida, não sofre dos males ligados à tristeza. Depressão? Angústia? Ansiedades? São todos sintomas da falta de prazer.

O prazer é sempre simples e direto. Não tem meias-palavras, nem segue meias verdades. É preciso estar conectado com o presente, com a vida hoje, com as alegrias do cotidiano. No último Dia dos Pais tive o privilégio de ter, a meu lado, filhos e netos, que vieram de longe para estar comigo. Meu último grande prazer deste ano.

“Deuses gregos, romanos, africanos, brasileiros, budas, escambo mil vidas por esses momentos mágicos de convivência, amor e prazer”

(Paulo Cezar S. Ventura).

 

       4. A velhice nos aproximaria da morte

A morte, ela, é incontestável. “Mas como é lastimável o velho que, após ter vivido tanto tempo, não aprendeu a olhar a morte de cima!” Com essa frase aforística, Cícero inicia seus comentários sobre a morte e eu, e qualquer um como eu, com muito mais passado que futuro, só posso concordar, depois de alguma reflexão. Na verdade, quem está seguro, mesmo sendo jovem, que não irá encontrá-la antes do anoitecer, na volta para casa com o trânsito maluco das cidades?

“Os frutos verdes devem ser arrancados à força da árvore que os carrega; quando estão maduros, ao contrário, eles caem naturalmente” (Cícero).

Contentemo-nos, então, com o tempo que nos for dado para viver, sem nos preocuparmos com o tempo passado. Perdido ou bem vivido, ele não tem retorno. Esse tempo que nos resta é sempre suficiente para vivê-lo com sabedoria, serenidade e honra. E se conseguimos assumir os encargos das funções que nos são ofertadas na vida, viveremos bem, sem nos preocuparmos com os pensamentos e ações alheias. A serenidade só possível com uma grande preparação.

Lembro-me perfeitamente bem da serenidade alcançada por meu pai em seus últimos momentos, após meses de dor e sofrimento. Eu estava a seu lado, sabíamos, os dois, que era chegado o momento de ele partir, e sua última palavra foi meu nome, com um sorriso. Assim também quero morrer, com sorriso nos olhos, mesmo com dor.

 

Finalmente

Não há uma espécie de tratado sobre a arte de envelhecer, cada um desenha sua tela como lhe aprouver. Como toda arte, essa também requer estudo, pesquisa, solução de problemas, desenvolvimento, técnica e muito trabalho. O trabalho de uma vida inteira, que exige conhecimento e cada vez mais sabedoria. Rabugice, mau-humor, chatice, mau-caratismo existem em todas as idades, não são defeitos inerentes às pessoas idosas. As características antônimas a essas, também, precisam ser lapidadas. Portanto, a arte de envelhecer com prazer é uma sabedoria (uma técnica) desenvolvida desde a infância. Quem tem prazer na juventude tem mais chances de envelhecer com prazer. Ou algo muito forte e importante precisa acontecer em algum momento de sua vida para uma ruptura comportamental acontecer. O prazer é, portanto, uma busca com criatividade.

Pessoas criativas são aquelas que se desprenderam de preconceitos instituídos, em qualquer domínio: ciência, arte, cozinha, relacionamentos, envelhecimento!

(Paulo Cezar S. Ventura)

O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...