quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XIII



XIII
Durante muitos anos morei em frente à mata do Jambreiro, em Nova Lima. Que deveria ser mata do jambeiro, pelos inúmeros pés de jambo, ou do Ingazeiro, pelos ingás. Duas frutas insonsas, de duvidoso sabor e que, no entanto, promoviam verdadeiras peregrinações entre nós moleque das imediações, para degustá-los. Era também um bom motivo para fugir de casa e embrenharmos pela floresta, apesar das recomendações de pais e mães e não irmos sozinhos. Mas onças, macacos, e cobras venenosas (de fato esses bichos trançavam por lá) não nos metiam medo. Onça só vi uma vez, de longe. Éramos muitos meninos e penso que ela teve mais medo que nós.

A mata do Jambreiro era densa, cheia de córregos. Ao lado dos córregos, caminhos, veredas, nos sentido roseano da palavra, nem era preciso fazer picadas. Mais de uma vez nos perdemos, sempre encontrávamos o caminho de volta. Quando em vez um grupo de caminhantes de Belo Horizonte se perdia entre jambeiros e ingazeiros. Não voltavam no mesmo dia, dia seguinte uma brigada dos bombeiros estava lá para os procurar. Quando não encontravam os perdidos vinham atrás de nós, os meninos, que já tínhamos fama de bons mateiros. Salvamos gente, certa vez até aparecemos nos noticiários da televisão. 

Atravessar a mata e subir a serra era brincadeira de um dia inteiro. Do alto da Serra do Curral a vista do belo horizonte que se vislumbrava à nossa frente era um prêmio para três horas de caminhada morro acima. Uma maravilha. A volta, mais descida que subida, era feita em menos tempo, malgrado o cansaço.

Pássaros, veados, pacas, micos, tatus, jaguatiricas, cobras, aranhas, eram os animais mais vistos no trajeto. Aliás, não eram sempre vistos. Eles sabiam se esconder, deixavam rastros. E alguns de nós sabiam ler os rastros. Era puro ensinamento e aprendizamento. Uns ensinavam os outros, com método didático mais antigo do mundo: perguntando. – Sabe de que bicho é isso? Sei não. Pisada de jaguatirica. E pelo jeito passou por aqui ontem. Veja as marcas, olha o mato pisado e amassado.  E esse assobiozinho repetido, sabe o que é? Esse tisc, tisc? É, esse mesmo. Sei também não. Assobio de jararaca. Ela avisa para sairmos do caminho dela. No mato tem que ter duas boas orelhas, além de bons olhos. E bons pensamentos. Maus pensamentos não combinam com esse silêncio quebrado pelo farfalhar de folhas e assobios de pássaros e parlamentamento de animais.

Cresci, atravessei a serra e fui para o belo horizonte estudar e trabalhar. Perdi muito daquela sabedoria, que necessita de ser estimulada sempre. E hoje não dá para entrar na mata. As mineradoras a minimizaram e cercaram. De vez em quando arrisco uma visita camuflada. Alguns caminhos ainda estão lá, escondidos. A mata chama nossa alma. E quase nos enfeitiça, como a iara dos rios. Certa vez, em Manaus, quase não voltei.



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

PENSAR RICO X PENSAR POBRE



Pensar rico ou pensar pobre não é uma questão de dinheiro, é uma questão de estilo de vida. E que faz toda a diferença. Vejamos alguns exemplos antes de maiores considerações ao tema. Quanto pagaríamos por um prato de arroz com ovo no Brasil e na França? Na França não é caro para os padrões locais, mas o prato pode se chamar “oeuf ponché à la provençale” e pode ser chique ou não dependendo do acompanhamento. No Brasil pagamos caro se formos comer em um restaurante francês, muito mais caro que na França. Mas isso não é pensar rico exatamente. Pode ser exibicionismo puro ou pode ser pensar rico se for dar um presente a si próprio e comer com um grande prazer, sem nenhum exibicionismo. E pode-se comer arroz com ovo, pagando barato em um restaurante simples, ou em casa, mas com grande estilo. Ter estilo significa sentar-se à mesa em boa companhia, com os melhores talheres, comer com prazer, devagar, saboreando e sentir-se em Paris comendo “oeuf ponché à la provençale”.

Outro exemplo, esse recente. Em férias em cidade goiana fomos, eu e ela, fazer compras em um supermercado para o almoço desses dias. Pensávamos em algo simples, para rápida elaboração, porque nem sempre gostamos de ir a restaurantes e também porque corremos o risco de, em cidade onde somos forasteiros, pagarmos caros por comida ruim. E o que comprar? As opções  nos supermercados são, geralmente, poucas. Mas aí surge o inusitado. Como imaginar que em um supermercado de cidade de interior iríamos encontrar um pernil de cordeiro? Aí entra a tal questão de estilo, de pensar rico em vez de pensar pobre. É claro que compramos, temperamos, assamos e tivemos umas três refeições regadas a pernil de cordeiro que, aliás, estava divino. Tenro, bem temperado, assado ao ponto. Maravilhoso. O preço? O que pagamos pela peça no supermercado não chega nem perto de qualquer refeição (uma refeição) que faríamos em qualquer restaurante da cidade turística, para duas pessoas. O tempo? Levar para casa, temperar, ligar o forno e assar por três horas. Enquanto isso fazíamos outras coisas.

Pensar rico, e saber administrar as ações seguidas a esse pensar, só trás lucros. Pensar rico é pensar em si, é pensar e agir em prol de seu lazer e prazer, sem prejudicar outros. Aliás, é convidá-los para participar da festa. Pensar rico é não se preocupar com o que outras pessoas estão pensando a nosso respeito, é não ser exibicionista, é não ter inveja (inveja é coisa de quem pensa pobre, não necessariamente de quem é pobre).


Pensar rico é dar-se um presente desejado e interessante, dentro de seu orçamento, claro, e imaginar-se como sendo a pessoa mais rica do mundo fazendo aquilo. Pensar rico é fazer o que gosta, é cultuar a si próprio, com estilo. É autovalorizar-se. É também pensar que, sendo grande, pode contribuir para o crescimento dos outros. Pensar rico é crescer para contribuir. É uma missão de vida. Pense rico.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XII


Entre os quinze e os dezoito anos eu não tinha a menor ideia do que era namorar. Para mim significava encontrar uma garota, dar uns amassos, trocar uns beijos, se fosse bom marcar um reencontro que poderia acontecer ou não. Ter uma namorada era ter alguém que nos desse a permissão para isso. O que não significava que eu não arrumaria outra no dia seguinte, na esquina seguinte. O que não significava que eu assumiria um compromisso de longa data. Minha mãe me ensinava, e insistia, que eu devia respeitar as meninas. O medo dela era apenas para eu não transar com moças de família, mesmo se elas quisessem transar comigo. Ô praga, viu? Aprendi que praga de mãe pega. Pega, não, prega. Como carrapicho. E por causa disso, e também porque eu não tinha dinheiro para sair com as namoradas para lugares apropriados à  prática do amor livre em moda na época, ganhei uns chifres. E morria de raiva por ser tão ingênuo.

Por isso eu gostava de viajar. Em viagens para a casa dos parentes eu tinha algumas chances. Como iria embora depois o descompromisso era confortável. Uma dessas viagens era ir para a casa da tia e madrinha em João Monlevade. Eu tinha o carinho e bajulação da tia e das primas e um brinde fenomenal. Meu tio tinha um mercadinho na garagem de sua casa e uma funcionária bonita e simpática. Nos fundos da garagem havia um depósito de mercadorias onde guardava sacas de arroz, feijão, milho e outras maravilhosas iguarias. Maravilhosas porque eram camas perfeitas. Findo o expediente do dia, cerrada a porta do armazém, era o momento da hora extra. Ninguém da casa nunca nos pegou nesse conluio amoroso, se pegou fingiu que não viu. O problema era a justeza das férias. Rapidamente chegava a hora de voltar para casa. E nas férias seguintes o armazém havia fechado definitivamente suas portas, não sei se prejuízo nos negócios ou outro motivo qualquer.

Outra viagem interessante era ir para a praia em Nova Almeida, casa de praia de um outro tio. Quase sempre casa cheia, eu dormia em uma rede na varanda. Isso dava uma grande liberdade de entrar e sair desde que, quando os adultos levantassem para o café da manhã seus carros estivessem limpos da poeira do lugar e da neblina da madrugada. O que eu fazia com prazer porque tinha uns trocados para meu gasto e comida de primeira, porque a mesa do anfitrião, o tio, era sempre farta. E, à noite, eu tinha companhia na praia. Uma namorada praiana, nem sei que idade ela tinha, sei que trabalhava como professora, sempre me acompanhava. Assim descobri o prazer de transar ao relento, com a brisa do mar e o sussurro das ondas. Areia às vezes incomodava, mas... A praga de mãe continuava pregando.


Minha mãe afastava as moças que me procuravam em casa, insistia para que eu não enrolasse (enrolar = transar) com moças de família, as mulheres da zona eram transmissoras de doenças contagiosas, o que me sobrava? A vulnerabilidade a um preconceito recorrente: nem moças de família, nem mulheres da zona. As maravilhosas (hoje eu sei) moças libertárias, de pensamentos desamarrados a uma moral vigente e que, por isso mesmo, me enchiam de medo para manter um relacionamento estável, mas de quem eu não abria mão de encontros nas horas mais altas da noite para a prática de meu treinamento amoroso-sexual. Hoje eu me envergonho da não retribuição do mesmo carinho, da mesma disponibilidade, do fazer escondido como se elas não tivessem dignidade. Hoje eu reconheço que foram essas maravilhosas mulheres que muito me ensinaram na vida e tinham, na época, essa esdrúxula classificação: nem “moças de família” nem “mulheres da zona”. E esse meu envergonhamento só vem a público porque esse relato ficará contido nessa autobiografia desautorizada, uma vez que expõe dois fatos nada simpáticos: a influência negativa da mãe em meu aprendizado amoroso-sexual (junto à ausência do pai nesses momentos) e a construção de um preconceito na minha jovem cabeça. O velho problema de gênero na formação dos jovens!

sábado, 12 de dezembro de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA XI


Uma vez mais dou um salto cronológico para escrever sobre narrativas fora de ordem, fora da ordem também do ponto de vista do politicamente correto, pois vou escrever sobre temas que normalmente escondemos. Possíveis, no entanto, em uma autobiografia desautorizada. E salto dos anos mil novecentos e sessenta e oito, caso fosse continuar na linha do tempo, para o ano de mil novecentos e oitenta e dois, creio, para narrar uma outra história. Estava lendo, hoje, em dezembro de dois mil e quinze, momento dessa escritura, um livro do Chico Buarque, recém lançado, O Irmão Alemão, em que ele descreve a existência de um filho clandestino de seu pai, do tempo em que ele viveu, ainda solteiro, na Alemanha. E esse foi um assunto escondido, jamais dito em voz alta, em sua família. Eu também um dia soube, também à boca miúda, através das indiscrições de minha mãe, que eu teria um irmão mais velho, clandestino. Segundo ela meu pai teve um romance com alguém, em algum lugar das Gerais, e desse romance frutificou um garoto que nem meu pai conheceu, a mãe do garoto, protagonista de tal romance, o escondeu. E ele, por falta de curiosidade ou de interesse em apresentar um filho de uma relação apócrifa, nunca procurou o tal garoto. Meu pai, que se apelidava Chico, assim como o pai do outro Chico, o Buarque, guardava esse segredo, confessado por minha mãe, no caso dela para justificar suas mal faladas palavras acerca de meu pai. Vamos à minha narrativa, entretanto.

A gente se encontrou em um restaurante macrobiótico em São Paulo. Bonita, estatura mediana, cabelos anelados e grandes, um nome extremamente simples, três letrinhas, uma mulher extremamente complexa. Os primeiros olhares já demonstraram uma simpatia biunívoca. Rapidamente a conversa escapou para assuntos pessoais, por exemplo, as solidões individualizadas de pessoas em situação de trabalho e de pesquisa. Pesquisa profissional, pausa apenas para refeições, não era pausa para afetos. Os afetos ocorrem naqueles intervalos de leituras, escrituras e correrias. E no meu caso, nas pausas das dinâmicas domésticas. Algo que me incomodava justamente porque eu não me sentia preparado para aquele clima de cobrança de presença constante na educação infantil, embora eu amasse a todos em minha volta. Havia sido um mal começo, apenas. E o que começa mal tem poucas chances de sobreviver.

Voltando à mulher complexa, depois desse dia de conversa, os encontros ao acaso no restaurante passaram a ser programados em sua casa, um pequeno apartamento quarto-sala-cozinha-banheiro no primeiro andar de um prédio também pequeno e próximo à universidade, com varanda. Tudo lá era simples. Trazia seu apreço pelas coisas nordestinas, alagoana que era, cheia de delicados apetrechos pelas paredes e nas prateleiras de sua estante improvisada. Coisas de estudante.

Foi nesse local que conheci o sabor e o prazer de uma outra mulher depois de muitos anos de monogamia estruturada. Não que minha vida fosse ruim, mas era um novo conhecimento do mundo, uma nova abertura para conhecer pessoas diferentes daquele mundo em que eu vivia, era a busca de experiências que eu nunca tive, uma busca pela vida. Sabedora de minhas dúvidas, a morena teve paciência e consciência de seus atos, esperou o momento certo. Ensinou-me, é verdade, a curtir o sexo pelo sexo, a não filosofar entre chupadas e brochadas. A saborear apenas. E a minha frequência naqueles atos delitosos aumentou consideravelmente até o dia que mudei de cidade e voltei para Minas. Mineiro fora de Minas é assim mesmo. Gosta de conhecer a diversidade. De experimentar novidades. De montar seu currículo em comunicação com as pessoas.

Após meu retorno eu ainda a vi três ou quatro vezes. Sempre que presente em São Paulo eu a visitava e era sempre bem recebido. Até que houve uma última vez. Era dezembro, próximo ao Natal, minha última noite na cidade naquele ano. Na verdade só voltei lá muitos anos depois e ela havia voltado para Maceió, uma vez terminado sua temporada de estudos em São Paulo. Encontramo-nos em uma festa, bebemos, dançamos, rimos e dormimos juntos. Sabíamos que passaríamos um bom tempo sem nos ver. De fato, foi a última vez que nos vimos. Lá pelo mês de março do ano seguinte ela me telefonou várias vezes. Queria me ver e falar comigo. Disse que era urgente. Eu não dei muita atenção pois tinha voltado à minha vida corriqueira, quieta e medíocre.

Anos mais tarde eu soube que ela teve uma filha e se casou. Nessa ordem. E que o marido adotou a paternidade da filha. Essa dúvida persiste até hoje. Principalmente porque, com a popularização da Internet e redes sociais eu a localizei no mundo virtual e enviei correios eletrônicos. Ela não respondeu e desapareceu do mundo virtual. É a segunda mulher com quem cruzei na vida, intimamente, que desapareceu. O mistério permanece. Eu teria ou não teria uma filha?




sexta-feira, 13 de novembro de 2015

UM OLHAR PARA TRÁS


Pela terceira vez na história a população do vale do Rio Doce sofre consequências de algum tipo de invasão tecnológica em suas terras. Primeiro, em meados do século XIX, veio a colonização portuguesa e com ela a criação de fazendas na região. Essa história bem conhecida de muitos é pouco comentada. A população indígena do vale foi expulsa aos poucos. Foi a tecnologia dos fazendeiros expulsando a população.

A segunda vez foi uma invasão mais longa historicamente. Começou no início do século XX com a construção da Estrada de Ferro Vitória Minas, inicialmente apenas no Espírito Santo para escoar a produção local, em seguida foi ampliada aos poucos para escoar a produção de minério de ferro. Com isso ela chega a Coronel Fabriciano na década de mil novecentos e vinte e a Nova Era e Itabira entre os anos trinta e quarenta. O transporte de passageiros entre Belo Horizonte e Vitória já existia antes da ligação direta entre Vitória e Belo Horizonte (só ocorreu na década de noventa) através de uma baldeação em Nova Era. Na década de mil novecentos e quarenta os trilhos já seguiam pelo vale do Rio Piracicaba até Nova Era, onde se trocava de trem e se seguia até Governador Valadares onde o Rio Piracicaba se encontra ao Rio Doce, e daí a Vitória. Essa segunda invasão pela tecnologia da estrada de ferro expulsou de vez a população indígena dos vales dos rios Piracicaba e Doce, não sem muita violência. O que resta hoje da população indígena da região está aldeiada próximo a Resplendor e atende pelo nome de Krenak. O processo de grilagem de terras de posseiros, quilombolas e indígenas da região do vale Rio Doce foi um dos muitos episódios de violência no Brasil, na primeira metade do século XX, com apoio de políticos, juristas e cartórios para oficializar a posse de terra.

Agora, a terceira invasão tecnológica vem na forma de lama de minério, metais e materiais inorgânicos que, se ainda não matou muitas pessoas (muitos ainda morrerão por consequência desse desastre), já tirou milhões de vidas de animais e plantas e destruiu a paisagem e a fertilidade das terras. Nesse momento temos a noção clara, fotografada, filmada, escrita e comentada da violência. Esse crime não tem perdão. Se já esquecemos as outras invasões anteriores (é esse o papel da história, construir uma estória de esquecimento) penso ser melhor não nos esquecermos dessa. Esse evento terá consequências funestas por décadas. Se meus antepassados, moradores da região, fizeram parte das duas invasões anteriores e não nos contaram nada, agora sou testemunha do fato e da história que contaremos. E uso minha habilidade de escrever para protestar. Pode ser chorar pelo leite derramado, sem dúvida, porque os protestos de alguns, meu inclusive, através da participação política contra governantes do estado apoiadores das mineradoras não teve nenhum impacto. Agora devo, no mínimo, contribuir para uma tomada de consciência de alguns leitores e agir para que governantes e juristas de hoje não fiquem em cima do  muro, muito menos pendam para o lado dos executivos engravatados das empresas. As empresas tem um aliado poderoso ao lado delas: o capital, que define quem manda e quem obedece. É hora do povo não obedecer ao capital e fazer com que ele seja usado a favor da reconstrução.


Hora de ir para a rua e defender uma nova política. Que surjam novos atores sociais.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O SILÊNCIO E AS VOZES DE TUDO


Barragens se romperam. Não foram barragens de contenção de água para produzir energia elétrica. Foram barragens de dejetos de mineração. Sobras, lixo, herança de um trabalho de invasão, de reviravolta de terra para se tirar de dentro dela minério de ferro vendido ao exterior por uma ninharia, cerca de cinquenta dólares a tonelada. Isso mesmo, cinquenta dólares a tonelada de minério de ferro com sessenta e dois por cento de pureza. O minério se vai e nós ficamos com o lixo: lama, sílica, metais pesados e componentes inorgânicos usados na separação do minério de ferro. Que ficam nessas barragens. E elas se rompem. Acidente? Fatalidade? Não. Negligência. Alguém ou alguns erram. Quase a totalidade dos acidentes acontecidos no mundo ocorre porque alguém errou. Alguém se esqueceu de fechar a torneira, alguém se esqueceu de fechar o gás, alguém se esqueceu de avisar, alguém se “esqueceu” dos riscos, alguém se “esqueceu” de averiguar, de consertar, de avisar, de gritar, de denunciar, de corrigir, de apagar. Alguém se calou, alguém levou vantagem, alguém tirou o dele da reta e deixou o de milhões de pessoas levando juntas as ferradas do caso. Alguém se... E foda-se o mundo, fodam-se os outros, foda-se o povo, fodam-se as águas, fodam-se os peixes, fodam-se os animais, foda-se a paisagem, foda-se a beleza, foda-se a Terra, foda-se o Universo, foda-se a vida, fodam-se homens e mulheres de todos os gêneros.

Nem consolo nos resta. Não há consolo. O Rio Doce está morto. Mais de oitocentos quilômetros de curso d’água sem mais água, sem mais vida. Toneladas de peixes mortos em decomposição nas margens do rio de lama. Milhares de animais mortos espalhando mau cheiro pelo ar, cidades sem água, pessoas sem casa, olhando uns aos outros sem ter o que falar, sem saber como se sair dessa, como sobreviver ao caos instalado, sem água, sem esperança. Milhares e milhares de pessoas vivem às margens da bacia do Rio Doce e se dão conta, agora, da importância das águas em suas vidas. Cuidássemos melhor de nossas águas e teríamos feito pressão para a não construção das barragens, teríamos dito NÃO às mineradoras, teríamos dito NÃO aos políticos, teríamos dito NÃO à depredação ambiental, teríamos dito NÃO, simplesmente. Nunca foi tão importante dizer NÃO.


Que se rompa o silêncio de tudo. Que as vozes de tudo e de todos digam NÃO. 


O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...