quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

NEM BRANCO NEM PRETO

A vida sempre foi colorida, nunca em preto e branco. Olho de minha janela e vejo as montanhas em verde, os telhados das casas em marrom, as paredes multicoloridas com suas janelas em branco, ou azul. Em meu jardim vejo muito verde, cor natural da vegetação, com flores em cores tão diversas que fica a impressão que algumas acabaram de ser inventadas na paleta de cores do universo.

Algumas tribos da Amazônia têm trinta e duas palavras diferentes para identificarem os diversos tons de verde das matas. Coincidências à parte, os povos das planícies siberianas chinesas também têm trinta e duas palavras diferentes para distinguirem os diferentes tons de branco.

Então, por quê reduzir a cor da pele dos seres humanos em apenas quatro palavras: branco, preto, pardo e amarelo? Amarelo? Quem é amarelo? Amarela é minha roseira em flor. Quando a jovem recenseadora do IBGE me perguntou com qual dessas cores me identifico, respondi: — verde é minha cor na terra e azul quando estou voando. Sou preto na sombra e descolorido dentro d’água. — Essas cores não podem, não constam do formulário. — Então, sou pardo, ou “cor de burro fugindo”.

Meu avô paterno era branco, de cabelos claros e olhos azuis. Casou-se com uma mulher indígena filha de um português. Tiveram mais filhos brancos que pardos ou amarelos. Não conheci meus avós maternos. Minha mãe não nos falava sobre eles, pois foi criada por terceiros, muitos terceiros diferentes. Ela tem a pele clara, mas escolheu casar-se com um homem de pele clara porque, segundo ela, não queria ter filhos com cabelos crespos. Ledo engano. Entre seus nove filhos, sete têm os cabelos crespos.

Em minha casa era assim, o Brasil inteiro é assim. O racismo está entranhado na cultura. A cor da cultura familiar não é a cor dos ancestrais, mas a cor dos chefes das famílias. Branca, portanto. Só mais tarde na vida é que podemos fazer outras escolhas, inclusive que cor podemos dar a nosso passado e à nossa cultura. Amadurecer e envelhecer nos permite ressignificar o passado. Minha mãe não me deixava namorar moças pretas. Hoje frequento terreiros de umbanda e candomblé, tenho amigos quilombolas e participo de ambientes culturais das comunidades negras. Com isso posso afirmar: nossa cultura é preta e indígena, o Brasil é mais preto que branco. Minas Gerais, um estado com a aparência de uma cabeça, tem a cara preta. É o IBGE quem afirma isso.


O QUE ESPERAR PARA 2024, VOVÔ?

Todos os finais de ano e início do ano novo as histórias se repetem. Sempre queremos algo novo, perspectivas novas, alegrias novas: desejos que quase nunca são satisfeitos, porque a mesmice reaparece depois da Folia de Reis. Retiram-se as luzes extras colocadas nas praças, as vitrines das lojas readquirem seu aspecto anterior. O que muda é o barulho das ruas, agora com os ensaios exaustivos das escolas de samba e dos blocos de carnaval que cresceram como pragas (muitos gostam) pelo Brasil afora. Depois do Ano Novo, espera-se o Carnaval chegar. E quem sabe a vida volta ao normal de antes. Mas as nossas esperanças permanecem. Ainda bem.

Para o ano novo, desejo:
— que o tempo não se meta
na vida dos amantes.
Nem dos velhos.

 

Principalmente dos amantes idosos e das amantes idosas. De todos os gêneros. Afinal, o que todos desejam, por direito adquirido, é viver, amar, aprender e deixar um legado. Frase que, originalmente publicada em inglês, carrega uma sonoridade maravilhosa (live, love, learn, and leave a legacy) todas com a letra l.[i] É exatamente o que nós, pessoas idosas, também queremos para nossas vidas: viver em paz, dar e receber amor, ainda aprender e cuidar daquilo que queremos deixar para as gerações futuras, muito além dos patrimônios materiais.

— Que o sofrimento não atemorize corpos.
Que morte chegue suave
aos doentes terminais,
ao som dos Beatles.

 

Sim, um dia ela vem. Para todos. Tive a honra de acompanhar o meu pai durante o período crítico de sua vida, justamente na terminalidade dela. Foi um dos maiores aprendizados que tive ao longo de minha existência. E dele também. Eu, amante dos Beatles, usei a música dos rapazes de Liverpool como trilha sonora, principalmente Yelow Submarine. Mas poderia ser outra música. Trilhas sonoras são colocadas a gosto do diretor de cena, sempre com o intuito de, através da emoção, sugerir novos olhares.

— Que a luz dos olhos de minha morena
brilhe como faróis em tempestades
e enxergue bem longe.
Guiando. Como sempre.

 

É o que a gente sempre espera das mulheres: que elas iluminem nossas vidas e nos guiem nos principais momentos de tomada de decisões. O que devemos fazer é criar as condições necessárias para que elas exerçam seus poderes de magia com alegria e serenidade. O que todo homem deve almejar na vida é uma parceira, ou um parceiro, feliz. Porque a felicidade se expande, seduz e atrai outras pessoas felizes.

— Que ninguém perceba o negro pela cor,
mas:
Pela beleza intrínseca. 
Pela inteligência tão normal de qualquer cor.

 

O racismo ainda está longe de deixar de existir. Ele é estrutural em nossa sociedade, ainda escravocrata. Algumas mudanças começam a acontecer através de algumas redes de comunicação. Nunca vimos tantas pessoas pretas nas telas de televisão brasileiras, tanto nas novelas e séries quanto na publicidade. Antes eu pensava que algumas coisas eram privilégios de brancos: comprar um imóvel, por exemplo. Outras ainda são. Ser atendido com dignidade nos serviços de saúde ainda é diferenciado pela cor da pele. Gostaria que toda pessoa idosa preta fosse vista, e atendida, com alegria nos olhos, pois ela trás a sabedoria dos ancestrais, sabedoria adquirida no sofrimento da vida.

— Que a indignação não desapareça
dos semblantes éticos.
São poucos.
Precisam crescer como pragas boas.

Só a indignação pode levar à frente um projeto de verdadeira mudança no caos da vida. Porque as pessoas se acomodam e começam a acreditar que é normal o sofrimento, é normal a dor do outro, é normal a luta anormal empreendida pela maioria. O que nos salva é nossa indignação.

— Que a vida, 
e a alegria de viver,
sempre renasça no sorriso das helenas,
tão pequenas, serenas.

Nossas esperanças sempre são colocadas nos ombros de nossas crianças. Sempre colocamos em questão que mundo deixaremos para elas, mas precisamos pensar também em que crianças queremos que cresçam em nosso mundo. Se temos a mínima ideia do que queremos para o mundo e para elas no futuro, coloquemos todas as nossas fichas na educação delas. Qualquer gasto com a educação é pouco, porque educação tem que ser analisada como investimento para o futuro, não como gasto.

— Que a minha poesia sobreviva
a minhas botas e a minhas luvas
(creio ser melhor poeta que boxeador)
e meu bom humor permaneça
além das memórias.

Botas e luvas são símbolos de minha trajetória e de minha luta nesses mais de setenta anos em que permaneço neste planeta. Já caminhei muito e já dei muita porrada na vida (ambos literal e metaforicamente). Foi pouco? Deveria ter feito mais? Perguntas sem respostas adequadas. Briguei muito para ter acesso àqueles quatro direitos fundamentais de todo ser humano: viver, aprender, amar e deixar um legado. Porque a indignação permanece. Porque vi o mundo mudar tanto e tão pouco ao mesmo tempo. Fisicamente tanto, mentalmente e espiritualmente tão pouco.

Que venha um ano novo com renovadas esperanças, porque esta não morre, segundo o ditado popular.



[i] Covey, Stephen R.; Merril, A. Roger; Merril, Rebecca R. First Things First: To Live, to Love, to Learn, to Leave a Legacy. New York, Francis Covey Co, 1996.

 

 

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

O NOVEMBRO AZUL E NOSSAS ESCOLHAS

O Instituto Nacional do Câncer (INCA), órgão do Ministério da Saúde, estima mais de 70 mil novos casos de câncer de próstata, no Brasil, para o triênio 2023-2025. Este número representa 10,2% do total de novos casos de câncer esperados para o período. Um exagero.

O câncer de próstata é o segundo tipo de câncer mais comum em homens no Brasil, atrás apenas do câncer de pele não melanoma. A incidência é maior em homens com mais de 65 anos, sendo raro antes dos 40 anos. Por isso, os médicos consideram que a prevenção deve ter início nessa faixa etária, em torno dos 40 anos.

O diagnóstico precoce é essencial para o tratamento eficaz do câncer de próstata. O exame de toque retal é o método mais recomendado para a detecção do câncer em estágio inicial. O PSA (antígeno prostático específico) é outro exame que pode ser usado para o diagnóstico, mas não é tão preciso quanto o toque retal.

E por que os homens são tão resistentes ao exame clínico, o famoso toque retal? Meu pai teve uma prostatite aos 50 e poucos anos. A prostatite é uma inflamação na próstata, bacteriana ou não, tratada com medicamentos. Mas isso acendeu a luz amarela para ele. Machão e valentão que era, teve que se render aos cuidados de um urologista.

Pensa que morte

É só choro e sofisma?

Pensa errado!

(Paulo Cezar S. Ventura – “Haicais do Riobaldo”)

Ele se tratou e passou a colocar a atividade física em sua rotina diária. Por sorte não bebia além de sua dose diária, nem fumava. Começou a nadar, lembrando seus tempos de juventude morando em beira de rio, depois descobriu a dança. Frequentava, quase diariamente, as casas de dança com horários dedicados às pessoas idosas. Ele rejuvenesceu alguns anos. Faleceu aos 85, com sequelas de um outro tipo de câncer, o do intestino.

Voltando aos dados do INCA, algumas questões sobre as causas do câncer de próstata nos chamam a atenção. Em primeiro lugar, lógico, a idade. O câncer de próstata aparece mais em homens idosos. Mas, podemos envelhecer sem adoecer. Envelhecer é uma dádiva, com cuidados especiais à nossa própria pessoa fica melhor ainda. Eu, particularmente, não espero novembro chegar para me cuidar. Em fevereiro, mês de meu aniversário, dou-me de presente um checkup completo, incluindo o exame PSA, que se mantém estável há décadas, e o toque retal.

O segundo fator de risco é o histórico familiar. Se entre seus ancestrais, ou parentes mais velhos, há uma incidência de problemas na próstata, não deixe de se cuidar. O terceiro fator é a obesidade. Aquela história de que sua cintura deve ter menos de 1 metro é verdadeira. Na realidade, divida a medida de sua cintura pela medida de seu quadril, se o resultado for maior que 0,9, cuide-se. Sua barriga não pode ser maior que seu traseiro. Pessoas magras tem menos problemas de saúde que as obesas e vivem mais. Nunca vi um centenário obeso.

O quarto fator de risco é a alimentação rica em gorduras e carnes vermelhas. Se você é adepto daquele churrasco de picanha gorda todo fim de semana, atenção. Até pode ser, mas precisa colorir o prato em várias cores durante a semana. Todo prazer tem seu custo. Além do prato colorido, que tal uma caminhada, aqueles 10.000 passos diários? A inatividade física é o quinto fator de risco para esta e outras doenças, não apenas dos homens.

O sexto fator de risco é curioso e um tanto complicado em um país tão racista como o nosso: a cor da pele. Os homens negros (pretos e pardos) correm maior risco (mais de 50% a mais) de contrair câncer de próstata que homens brancos. As causas ainda não são bem conhecidas, mas sabemos bem que as condições de vida da população negra, no Brasil, são bem piores, em média, que as da população branca. Logo, os fatores ambientais superam, no caso, os fatores genéticos. Há ainda um fator hormonal. Os níveis de testosterona são mais altos nos homens negros. E esse hormônio masculino pode estar relacionado ao desenvolvimento de câncer, não só de próstata, segundo pesquisas mais recentes. Logo, homens pardos e pretos, precisamos ser duplamente cuidadosos.

O mês de novembro, ainda primavera, mas com temperaturas se elevando aos poucos, tem o céu às vezes azul, às vezes cinza, já que as chuvas são frequentes nesta data. Neste ano as previsões climáticas são turbulentas. No caso de nossa saúde, no entanto, temos escolhas. O novembro pode ser azul para as prevenções necessárias ao diagnóstico e tratamento do câncer de próstata. As escolhas são de duas naturezas: individual e social.

As escolhas individuais são mais óbvias e já muito comentadas no Portal do Envelhecimento. A prevenção individual nos coloca frente a escolhas que fazemos em relação ao nosso modo de vida. Manter um peso saudável, muito embora a obesidade seja também uma questão de saúde pública. Comer comida de verdade, seguindo uma dieta saudável, evitando produtos industrializados, é fundamental. Além de ser um fator importantíssimo na prevenção, ajuda a manter-se magro. Outras escolhas muito importantes são a atividade física regular, uso moderado ou nulo de bebidas alcóolicas e a ausência do fumo em sua rotina.

Já as escolhas coletivas, ou sociais, são as mais importantes e necessárias a serem feitas, e passam pelo poder público. Em artigo publicado recentemente neste Portal, em outubro passado, já coloca a prevenção como importante estratégia de controle do câncer (https://www.portaldoenvelhecimento.com.br/prevencao-e-a-estrategia-de-controle-mais-eficiente-para-a-epidemia-de-cancer/).

Algo que ainda não aprendemos, e precisamos fazê-lo forçosa e rapidamente, é que a prevenção é muito mais barata que os tratamentos contra o câncer. No Brasil, e em vários outros países, o gasto público com o atendimento especializado é muitas vezes maior que o gasto com a prevenção. Especializamo-nos cada vez mais no combate às doenças e menos aos cuidados preventivos da saúde. E a prevenção se faz com informação, com educação, com letramento nas questões de saúde e prevenção, com fácil acesso às unidades básicas de saúde, com melhores condições ambientais de vida e trabalho, principalmente para a população negra e pobre.

Só assim nossos futuros NOVEMBROS serão AZUIS.

O viver, mesmo,

É o aprender a viver.

Isso é mesmo.

(Paulo Cezar S. Ventura – “Haicais do Riobaldo”)


Paulo Cezar S. Ventura (pcventura@gmail.com - @paulocezarsventura)

 

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

O SETEMBRO AMARELO DA PESSOA IDOSA

 

Em março de 1998 estive presente no Espaço de Exposições da Porta de Versalhes, em Paris, porque ali acontecia o Salon du Livre que, naquele ano, homenageava a literatura brasileira. Tive a oportunidade de conferir o lançamento de obras de autores como Chico Buarque, Lygia Fagundes Teles e outros que, mesmo não sendo os meus preferidos, como José Sarney lançando Maribondos de Fogo, e Paulo Coelho com seu Alquimista, estavam ali representando nossa cultura. Fui assistir à palestra de Lygia Fagundes Teles, que discursava sobre o poder das palavras e o cuidado que os escritores devem ter ao fazer suas escolhas, quando os assentos livres a meu lado foram ocupados. Viro a cabeça e quem eu vejo? A atriz Catherine Deneuve, a Belle de Jour, e uma assessora. Fiquei com ouvidos em Lygia, nariz em Catherine, para sentir seu perfume, e olhos entre as duas.

Por que estou a lembrar-me disso? Anos mais tarde, já de volta ao Brasil e residindo em Belo Horizonte, fui chamado a correr até a casa de minha irmã, 2 km próximos, porque seu filho havia tentado se matar. Não corri, voei até lá e ajudei-a a conduzi-lo até a Unidade de Pronto Atendimento, por sorte bem perto. Ele se tratava de uma forte depressão e engoliu todos os medicamentos prescritos de uma vez. Uma lavagem estomacal deu conta de trazê-lo de volta à vida.

Comecei, então, a dedicar-lhe os poemas que passei a escrever sobre a importância dos pequenos prazeres. Cada um que escrevia eu lhe enviava e todos eles terminavam com uma reverência à vida e à importância de manter-se vivo. Em um deles eu comentava a respeito daquele famoso encontro entre Lygia, Catherine e eu.

 

Brindemos nossas musas, Cecéu,
pela eternidade delas através de nosso testemunho.
Viver nelas (como escreveu Yoko Ono)
é uma dádiva e uma necessidade.

 

Cecéu tinha menos de vinte anos, sobreviveu, formou-se em Psicologia e hoje cuida de pacientes mentais em situação de risco em uma cidade do interior de Minas Gerais. Mas, os suicídios continuam um grande problema. Enquanto os jovens suicidas são bem sucedidos no ato em 1 a cada 200 tentativas, as pessoas idosas suicidas têm sucesso em sua própria morte em 1 a cada 4 tentativas. Porque eles planejam melhor a própria morte e, em geral, vivem solitários. Quando são encontrados já estão mortos.

O que mais nos chama a atenção é o grande número de pessoas idosas que se matam: uma média de 1200 suicídios de pessoas idosas, por ano, no Brasil. O caso mais próximo a mim, foi a de um conhecido conterrâneo, ex-vereador e ex-secretário de cultura da cidade, que se matou recentemente, causando comoção. Em princípio, a família negou o suicídio, alegou infarto fulminante, o que foi desmentido pelo laudo médico. Esconder o fato apenas leva a subnotificações e esconde, na verdade, o grande problema.

Causas reais? O padrão, depressão. Outras causas são também o alcoolismo (o que justifica um número maior de suicídios entre pessoas idosas do sexo masculino, segundo professores do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG), as dores crônicas e o diagnóstico de demência. As mortes autoinfligidas de pessoas famosas como os atores Flávio Migliaccio (aos 85 anos) e Walmor Chagas (aos 82 anos) trouxeram o assunto à discussão, mas nada mudou, porque mudanças exigem ações mais contundentes, as quais não conseguimos realizar, ainda.

É possível reduzir, até mesmo evitar, a morte por suicídio de pessoas idosas? Entre os profissionais de cuidados, não apenas de pessoas idosas, há até um slogan conhecido que mostra um provável caminho - proteger as pessoas contra os 4 D: desespero; desesperança; desamparo; três fatores que levam ao quarto, a depressão. E a depressão, por sua vez, pode conduzir ao suicídio. Os primeiros sintomas visíveis desses 4 D são a tristeza, a falta de vontade de fazer as coisas de sempre e a falta de prazer no cotidiano.

Assisti recentemente um documentário sobre cinco lugares no mundo onde há um grande e incomum número de pessoas centenárias, os denominados Zonas Azuis. Esses lugares são: Okinawa, no Japão; Sardenha, na Itália; Nicoya, na Costa Rica; Loma Linda, na Califórnia; e Ikaria, na Grécia. Em cada um desses lugares fatores culturais e ambientais ajudam a promover a longevidade saudável, cada um deles com suas características especiais. Os documentaristas, no entanto, resumiram as regularidades dos casos em cinco, que descrevo aqui dando a minha interpretação.

O primeiro deles é o movimento. De novo, encabeçando a lista, a atividade física regular, leve, de todo dia. Aquela caminhada despretensiosa, o agacha-levanta das atividades comuns que, além de tudo, ajudam no sono regenerador das energias.

A visão do vale

depois de subir a montanha

ao pôr-do-sol que se apresentava

valeu alguns anos de minha existência.

 

O segundo é a presença de jardins e quintais. Eles têm múltiplos benefícios, pois ajudam na movimentação necessária e no cuidado com a alimentação. A boa alimentação é sempre o segundo fator de todas as listas de ajuda ao envelhecimento saudável.

 

Jeito mineiro de viver perigosamente:

comer couve longe de seu quintal,

roubar muda de flores em jardins alheios.

 

O terceiro tem a ver com os trabalhos manuais, quem diria? Fazer as coisas com as mãos é terapêutico, pode provocar movimentos, treina a concentração e ajuda a melhorar a saúde mental. Trabalhar com as mãos não é negar a tecnologia, mas pode ser também usar a tecnologia a favor de novas artes. Escrever, que é o meu caso, também se encaixa neste quesito.

Escrevo meus versos para aprender

a encontrar a inspiração para melhor escrever.

 

O quarto é viver com menos estresse. Todos os itens anteriores ajudam a se estressar o menos possível. Fazer uma boa gestão da ansiedade e do estresse exige uma mudança de paradigma no modo de vida que é, principalmente, fazer uma boa gestão do tempo e da energia necessária para todas as atividades. A saúde mental agradece, óbvio.

Tenho a calma artesanal
de quem fabrica vácuos
e cheira tolerâncias na atmosfera!

 

O quinto item da lista resume, a meu ver, todo este bem viver: fazer da vida um ritual sagrado. E isso vai muito além dos rituais religiosos. A oração é apenas uma das possibilidades. Os rituais sagrados incluem a respiração consciente, a meditação, a dança, a amizade, o cuidado com os outros, os risos, o ritual alimentar, o amor e a sedução, entre outras possibilidades.

 

Deuses, escambo mil vidas

por esses momentos mágicos

de convivência, amor e prazer.

 

É possível se tornar centenário sem as mazelas da idade? Sim, é possível, mas não sozinhos. É uma questão de vida em comum, de sociedade, de poder público, de cultura, de vida em família, de valorização da vida, de abraçar a causa em conjunto com a Urbis.

Não nos deixem sós. Gostamos, e precisamos, de viver com amigos e familiares. Felizes, enfim.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

A ARTE DE ENVELHECER COM PRAZER

 

Cícero, o filósofo romano nascido no ano 106 A.C., nos deixou obras importantes sobre as quais devemos nos reportar em vários assuntos, sendo uma delas sobre o envelhecimento. Chegou em minhas mãos, por aqueles acasos fortuitos não negligenciáveis, seu livro Saber Envelhecer, publicado em 2007 pela editora L&PM. Nesse livro Cícero desenvolve a tese de que a arte de envelhecer é encontrar o prazer que todas as idades proporcionam.

Gostaria de revisitar a obra do filósofo trazendo, para hoje, algumas hipóteses feitas por ele e, principalmente, trazendo para minha vida vários de seus ensinamentos. Um deles é um conjunto de respostas a um questionamento daquela época e, incrível, ainda muito comum atualmente:

por que muitas pessoas pensam que a velhice é detestável? 

        1. A velhice nos afastaria da vida ativa.

“Não são nem a força, nem a agilidade física, nem a rapidez que autorizam as grandes façanhas; são outras qualidades, como a sabedoria, a clarividência, o discernimento” (Cícero). Temos grandes exemplos de pessoas idosas ativas, que nunca desistiram de seu trabalho, de deixar de lado a sua competência adquirida durante a vida. Cícero cita generais romanos que viveram ativos por muitos anos, ou políticos, os senadores e cônsules romanos. Sabemos bem, no entanto, que a vida média do cidadão romano era em torno de quarenta anos. A vida mais longa era privilégio de quem vivia na riqueza e tinha escravos para o serviço pesado. As guerras eram constantes e as tubulações de água eram feitas de chumbo, metal pesado que adoecia a maioria das pessoas.

Hoje temos vários exemplos de pessoas longevas, passando dos noventa anos e chegando aos cem com vida ativa. Faltam-lhes a força, a memória os engana, mas ainda conseguem muitos feitos. Sobretudo se amados pelas pessoas que os cercam.

O que é preciso para ter uma vida ativa? Difícil dizer, mas Niemeyer desenvolveu alguns projetos arquitetônicos com quase 100 anos. Tenho uma vizinha com 96 anos que está bem, lúcida e ainda comanda sua casa. O corpo humano é um mistério, a vida é um mistério. Não há regras, mas muitos conseguem, hoje, ter uma mais vida longa e mais ativa que antes.

       2. A velhice enfraqueceria nossos corpos.

Cícero escreveu sobre a velhice com 59/60 anos (no calendário atual) e já se considerava um velho. Ele mesmo afirma isso em seu livro “Saber Envelhecer”. Vale lembrar que teve morte trágica, sendo decapitado aos 61 anos, a mando de Marco Antônio, cuja tirania ele combatia ferozmente com seus discursos. É considerado um dos mais influentes escritores e oradores romanos, deixando um enorme legado para o latim e todas as línguas europeias surgidas posteriormente.

É evidente que ficamos mais fracos com o tempo. Sinto isso na pele. Do futebolista amador que fui até os 50 anos, treinando durante a semana e jogando aos domingos, fui sendo obrigado a mudar de esporte, praticando outros com menos exigência de vigor físico. Passei ao remo, depois às corridas de rua, hoje contento-me com caminhadas e pedaladas e exercícios de solo. Mas como disse Cícero “se tu lamentas a perda dos bíceps, não são eles o problema, mas tu mesmo”.

“É preciso servir-se daquilo que se tem e, não importa o que se faça, fazê-lo em função de seus meios” (Cícero).

Já ouvi uma frase parecida durante uma palestra em um ginásio para uma plateia de aproximadamente mil pessoas.

“Para fazer tudo que quero fazer, primeiro procuro os meios e recursos que tenho à minha volta e os adapto às minhas necessidades” (Marcos Rossi).

Só que Marcos Rossi não tem braços nem pernas. E se ele consegue fazer o que quer, por que eu não conseguiria só porque sou pessoa idosa? Sem desculpas, meu velho. Olhe em volta e siga em frente.

Cícero já nos dizia, há 2070 anos, que “o exercício físico e a temperança permitem conservar, até a velhice, um pouco da resistência de outrora”, acrescentando ainda: “mas não basta estar atento ao corpo; é preciso ainda mais ocupar-se do espírito e da alma”.

Ele também nos brinda com uma receita infalível, segundo ele, para exercitar a memória. “Aplico o método caro aos pitagóricos: toda noite, procuro me lembrar de tudo o que fiz, disse e ouvi na jornada”.

       3. A velhice nos privaria dos melhores prazeres

Este é um ponto polêmico porque, afinal de contas, o que é o prazer? Cícero considerava como prazerosa a boa conversação, à mesa, com os amigos, ao trabalho na agricultura, ao prestígio que ele mesmo possuía como orador, ao debate intelectual. Em suas considerações não incluía o amor e o sexo, e dizia que a paixão seria uma obsessão sem controle. Mas, ao mesmo tempo, “se a velhice não os aproveita da mesma maneira, ela não está totalmente privada deles”.

Ah, os prazeres! Como são cantados e contados pelo mundo afora! Como são bons! É bom ser aberto a sentir os prazeres da vida e não se envergonhar de senti-los! Quem tem prazer na vida, e pela vida, não sofre dos males ligados à tristeza. Depressão? Angústia? Ansiedades? São todos sintomas da falta de prazer.

O prazer é sempre simples e direto. Não tem meias-palavras, nem segue meias verdades. É preciso estar conectado com o presente, com a vida hoje, com as alegrias do cotidiano. No último Dia dos Pais tive o privilégio de ter, a meu lado, filhos e netos, que vieram de longe para estar comigo. Meu último grande prazer deste ano.

“Deuses gregos, romanos, africanos, brasileiros, budas, escambo mil vidas por esses momentos mágicos de convivência, amor e prazer”

(Paulo Cezar S. Ventura).

 

       4. A velhice nos aproximaria da morte

A morte, ela, é incontestável. “Mas como é lastimável o velho que, após ter vivido tanto tempo, não aprendeu a olhar a morte de cima!” Com essa frase aforística, Cícero inicia seus comentários sobre a morte e eu, e qualquer um como eu, com muito mais passado que futuro, só posso concordar, depois de alguma reflexão. Na verdade, quem está seguro, mesmo sendo jovem, que não irá encontrá-la antes do anoitecer, na volta para casa com o trânsito maluco das cidades?

“Os frutos verdes devem ser arrancados à força da árvore que os carrega; quando estão maduros, ao contrário, eles caem naturalmente” (Cícero).

Contentemo-nos, então, com o tempo que nos for dado para viver, sem nos preocuparmos com o tempo passado. Perdido ou bem vivido, ele não tem retorno. Esse tempo que nos resta é sempre suficiente para vivê-lo com sabedoria, serenidade e honra. E se conseguimos assumir os encargos das funções que nos são ofertadas na vida, viveremos bem, sem nos preocuparmos com os pensamentos e ações alheias. A serenidade só possível com uma grande preparação.

Lembro-me perfeitamente bem da serenidade alcançada por meu pai em seus últimos momentos, após meses de dor e sofrimento. Eu estava a seu lado, sabíamos, os dois, que era chegado o momento de ele partir, e sua última palavra foi meu nome, com um sorriso. Assim também quero morrer, com sorriso nos olhos, mesmo com dor.

 

Finalmente

Não há uma espécie de tratado sobre a arte de envelhecer, cada um desenha sua tela como lhe aprouver. Como toda arte, essa também requer estudo, pesquisa, solução de problemas, desenvolvimento, técnica e muito trabalho. O trabalho de uma vida inteira, que exige conhecimento e cada vez mais sabedoria. Rabugice, mau-humor, chatice, mau-caratismo existem em todas as idades, não são defeitos inerentes às pessoas idosas. As características antônimas a essas, também, precisam ser lapidadas. Portanto, a arte de envelhecer com prazer é uma sabedoria (uma técnica) desenvolvida desde a infância. Quem tem prazer na juventude tem mais chances de envelhecer com prazer. Ou algo muito forte e importante precisa acontecer em algum momento de sua vida para uma ruptura comportamental acontecer. O prazer é, portanto, uma busca com criatividade.

Pessoas criativas são aquelas que se desprenderam de preconceitos instituídos, em qualquer domínio: ciência, arte, cozinha, relacionamentos, envelhecimento!

(Paulo Cezar S. Ventura)

sábado, 19 de agosto de 2023

JOÃO AMBRÓSIO, UMA VIDA, UM DESTINO

Elisa Augusta de Andrade Farina.

Presidente da Academia de Letras de Teófilo Otoni


João Ambrósio, um nome, uma história, uma vida. Quem o conheceu, não o reconhece como aquele homem distinto, amoroso, cavaleiro, sempre disposto a celebrar a vida.

Viúvo, foi depositado pela família, como objeto inútil, num asilo "O Lar Feliz", que destoava de todo efeito que se entendia por felicidade. 

Na sua viuvez não perdeu só a mulher, perdeu também, a si mesmo. Talvez tenha perdido o próprio nome. Já não sabe quem é: o homem que julgava ser não passa, quem sabe, de um sonho, agora perdido para sempre. Um sonho sonhado por ele e pela mulher, agora não dispõe de um sonhador. Tudo o que lhe resta de vivo, está no passado. O presente não existe. Um fosso enorme separa passado do presente. O passado de alegrias, o presente de restos, sobras. O futuro de incertezas. Mesmo assim, insiste em (sobre) viver.

Escuta o companheiro de quarto e desditas que o adverte: "não seja bobo João Ambrósio, eles aqui estão esperando que não pensemos, mas se isso acontecer e deixarmos de pensar estamos enterrados. É no pensamento, com e através dele, que permanecemos vivos. Temos que resistir, para existir".

João parecia nem escutar o que seu companheiro de infortúnios lhe dizia, continuava apático, alheio a tudo.

Dia de visitas. Todos ansiosos, menos o João que continuava deitado, absorto, olhar perdido...

De repente, uma menina aproxima-se da sua cama e chama-o: "vovô João, vim contar para o senhor uma história legal que aprendi nesta semana, na Escola. O senhor quer ouvir? Lembra-se de mim? Sou a Mariana, filha da Henriqueta que trabalhou em sua casa. O senhor gostava um tanto de mim. Dava-me muita atenção, brincava comigo. Lembra das nossas brincadeiras? Uma vez me deu um cachorrinho, o Pirralho. Ele manda lembranças...

João Ambrósio abriu um sorriso e com lágrimas, abraçou a menina.

A mãe da garota se aproximou e disse: "senhor João, estamos aqui para alegrar os seus dias, o senhor foi tão bondoso para conosco, quando foi meu patrão. Não é porque foi abandonado pelos seus que será esquecido por quem só recebeu e não teve tempo de retribuir o carinho que nos dispensou. O amor não pode se separar da gratidão. Apesar das circunstâncias, a vida continua a valer a pena.

Em todos os dias de visitas, o João Ambrósio, ficava inquieto esperando a doce Mariana, que com sua alegria e inocência, mudava o rumo de sua triste existência. Estava mais animado, corado, até conseguia sorrir. A sua vida tomou outro rumo. A neta "do coração" , substituiu os netos, filhos dos seus filhos, que nunca vieram vê-lo, nem sequer seus filhos se fizeram presentes para escutá-lo e sanar as suas dificuldades.

E o tempo passava... Cada dia sobreponha as tristezas com a alegria que a pequena Mariana e sua mãe lhe proporcionavam.

Gostava de ficar pensando em todas as coisas boas que a vida lhe dera. Agora tudo tinha se esvaído, como bolhas de sabão soltas só vento. Não conseguia entender o abandono que sofrera. Isso doía tanto nele que foi abandonado...

Será que repercutiu nos filhos que o abandonaram naquele asilo triste e frio? Se isso acontecesse de fato, será um peso imensurável nas costas dos filhos por toda uma vida. Isto se tiverem sentimentos e aquilatassem o mal que lhe fizeram. Por mais que pensasse, não via justificativa sobre os motivos para o abandono definitivo e irrestrito. 

Essas reflexões consumiam a sua alma e entristecia o seu pobre e fraco coração. Não sabia até quando iria resistir... Isto não importava...

Este é o triste e avassalador cenário vivenciado pelos idosos, tratados como trastes inúteis por aqueles que devotaram o melhor de suas vidas e eles não conseguiram dar-lhes amor, por mais ínfimo que fosse...





sexta-feira, 11 de agosto de 2023

MEMÓRIAS DILUÍDAS, MEMÓRIAS RECUPERADAS



Nossa memória nos prende no tempo de hoje. Às vezes gostaríamos de ter o poder de ir à frente do relógio, ou de retroceder, nos momentos que assim o quisermos. Mas, o dia de hoje é sempre o definidor de nossas histórias. Até onde lembramos? O que lembramos se passou em que tempo e em que local?

A demência é definida como ausência ou perda constante e progressiva da memória, chegando a comprometer o pensamento, o senso ou a capacidade de se adaptar às ocasiões comuns e/ou sociais. Mais propriamente, a demência é o declínio geral e persistente das habilidades mentais, como linguagem e raciocínio, além da memória, e pode interferir nas atividades normais da pessoa e seus relacionamentos.

No entanto, fico a imaginar o envelhecimento como uma possibilidade de viajar no tempo e no espaço, o que nos permite colocar nossas imagens, memórias de vivências, quando e onde quisermos. E isso depende de como conduzimos a comunicação com nossos velhos e velhas. Tenho dois causos a narrar sobre essa versão pessoal e, talvez, intransferível.

Jordelina tem 96 anos e viveu, até o seu casamento, aos 26, em uma pequena cidade do Vale do Aço, em Minas Gerais. Menos um período de uns três anos, depois da segunda guerra mundial, quando residiu em Belo Horizonte. Ela devia ter uns vinte e poucos anos quando isso aconteceu. Hoje parece que todos os casos que ela conta aconteceram nesse período e no entorno do bairro onde ela residiu, àquela época, ou no bairro onde hoje reside, na região metropolitana de Belo Horizonte. Ou seja, sua memória recuperada indica que ela consegue viajar no tempo e no espaço, e suas histórias são remontagens de memórias, como uma colagem ou um fuxico de retalhos.

Sempre que a visito provoco-a com perguntas que lhe trazem à mente algumas imagens de sua vida, e ela as conta em uma nova narrativa, antes desconhecida. Como sua imaginação e inteligência são enormes, sempre foram, cada vez que conta um mesmo fato sai um novo roteiro. Em um desses momentos ela contou estar presente na inauguração do Edifício Acaiaca, conhecido prédio no centro de BH. E foi convidada a cortar a fita colocada à entrada do prédio.

O famoso Edifício Acaiaca foi inaugurado durante a segunda guerra, em 1943, anos antes de sua estadia na cidade em fins da década de quarenta e início dos anos cinquenta. Como o edifício é icônico e tem uma arquitetura muito típica da época, e nele havia um cinema muito visitado, não surpreende que faça parte de seu imaginário.

Outra memória de Jordelina ouvida nos últimos tempos, e que estava guardada no fundo do seu baú de lembranças, foi muito indicativa da viagem afetiva aos tempos passados. Segundo ela, esteve presente em programas da rádio Itatiaia, tendo sido convidada para cantar e fez muito sucesso, claro. E que havia um locutor na rádio que se chamava Álvaro Francisco, de quem ela gostava muito. Queria que seu primeiro filho tivesse esse nome, o que não aconteceu devido ao ciúme de seu marido, que também se chamava Francisco. O que descobri, depois de tantos anos de escuta, é que naquele tempo e naquele lugar ela viveu os momentos mais felizes de sua vida.

Quando conheci Suzana ela já estava com oitenta anos. Visitei-a acompanhado de amigos em comum e ela demonstrou simpatia à minha pessoa. As visitas continuaram, sempre acompanhado dos amigos, até que um dia a presenteei com um livro de poemas, quando ela confessou seu apreço à Poesia e que gostaria que eu aparecesse mais à sua casa para ler para ela. A partir de então passei a visitá-la só, para ouvi-la contar suas histórias e para ler poemas. Um belo dia ela me disse que teve um namorado na juventude que se parecia comigo e que também gostava de Poesia. A sua família, no entanto, não consentia o namoro e a obrigou a se casar com outro homem. Memórias afetivas, sem tempo e sem lugar definidos.

Suzana viveu mais de cem anos, mas passou os últimos dez em sua cama, depois de uma queda e outros problemas de saúde. Sua memória foi diminuindo a ponto de não se lembrar mais das próprias filhas, mas se lembrava de mim (ou do seu antigo namorado?). O fato é que quando eu me inclinava para beijá-la ela dava um jeito de beijar-me nos lábios, tipo selinho. Durante minha última visita, sua filha estava presente e, para sua enorme surpresa e indignação, Suzana disse meu nome.

— Como ela se lembrou de você se não se lembra de mais ninguém há muito tempo?

Minha hipótese, não muito forte, evidentemente, baseada nas histórias dessas duas personagens, cujos nomes reais omiti neste relato, é que elas guardam por mais tempo histórias vividas ou criadas em momentos e lugares nos quais elas foram felizes, transportando-as para momentos atemporais e lugares meta-espaciais. Lembranças e esquecimentos são estratégias de defesa da mente e do pensamento. Minha expectativa é que minha última lembrança seja aquela de um tempo e um lugar, não importa qual nem onde, mas de grande felicidade. Quero morrer sorrindo, mesmo se a morte vier acompanhada da dor.

(pcventura@gmail.com — @paulocezarsventura)

O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...