quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 08


16 de março de 2014

Para ir ao Parque Nacional Torres del Plaine (http://www.torresdelpaine.com) tomamos a estrada para a cidade de Cerro Portillo. Estrada cimentada de ótima qualidade e pouco movimentada. Estamos falando do Sul do Chile, naquela ponta final, lá no Sul da América do Sul, na Patagônia Chilena, um lugar perdido no planeta Terra. Puerto Natales tem dez mil habitantes, vive do turismo e de um comércio local e, claro, de uma produção pecuária diversa: vacas e bois, carneiros e ovelhas, avestruzes e guanacos. Para que servem os guanacos?

O guanaco (Lama guanicoe) é um camelídeo nativo da América do Sul, cuja altura varia entre cento e sete a cento e vivente e dois centímetros. Pesa cerca de noventa quilogramas e apresenta uma pelagem de cor muito pouco variável, uma nuance de marrom-claro e canela, sendo mais peludo no tórax e no abdômen. A face de um guanaco tem um tom acinzentado e as orelhas, pequenas, ficam em pé. Sua característica marcante são seus grandes olhos castanhos (utilizados para se manter atento a qualquer perigo), a forma corporal equilibrada e a enorme energia. O nome guanaco vem da língua sul-americana quéchua (da palavra huanaco). O guanaco, assim como o lhama, é um mamífero ruminante. Ao contrário das outras espécies de camelídeos, este animal tem pelagem mais curta, podendo passar quatro dias sem água. No Chile e na Argentina, são mais numerosos em algumas regiões da Patagônia, em lugares como o Parque Nacional Torres del Plaine e na Ilha Grande da Terra do Fogo. Nestas zonas, existem limitações em matéria de concorrência com gado bovino. Alguns índios bolivianos ficaram conhecidos por ajudar a população de guanacos a recuperar sua estabilidade populacional. O tempo de vida normal de um Guanaco é de vinte a 25 anos (http://video.nationalgeographic.com/video/guanacos). Como a carne de guanaco não é enormemente apreciada, a convivência com esses belos e altivos animais é controversa (http://wp.clicrbs.com.br/territoriolatino/2014/10/03/caca-ao-guacano-provoca-controversia-na-terra-do-fogo/).

Voltando ao relato da viagem, a paisagem desde Puerto Natales até o Lago Grey, onde nos hospedamos, é isso que se vê. Ou melhor, até Cerro Portillo é isso que se vê, vários tipos de rebanhos, depois de Cerro Portillo praticamente só se vê guanacos. Muitos guanacos correndo livremente nos pastos ao lado da estrada e mesmo alguns na estrada. São lindos. E parecem dóceis. Fazem pose para fotografia. A paisagem varia muito pouco. A estrada até Cerro Portillo é plana, sem muitas curvas e pouquíssimos aclives e declives. Puro pasto. Uma vegetação rala e verde desbotada.

Depois de Cerro Portillo a estrada é de terra, plana no começo, depois plena pequenos de aclives e declives e muitas curvas. Sempre havia o perigo de encontrar um outro carro na curva (aconteceu algumas vezes) ou de receber uma pedrada no para brisa, pela estrada pedregosa, o que felizmente não aconteceu. O caminho é lindo, cheio de lagos e de guanacos. Não os conhecia antes dessa viagem e agora os vejo às dezenas, rebanhos inteiros nos vales e montanhas. No meio do trajeto tem a entrada do Parque, uma portaria com uma jovem bonita que nos recebe e cobra trinta e seis dólares por pessoa, ou dezoito mil pesos chilenos. A entrada de parque mais cara que já visitei. Mas paguei sem reclamar, pois valia a pena.

Mais ou menos duas horas depois de passarmos a portaria do parque, chegamos ao Hotel Lago Grey (http://www.lagogrey.com/es/). Simples por fora, construção de madeira, luxuoso por dentro. O pessoal de serviço é super gentil, sorridentes e multilíngues. O hotel é caro para os padrões normais (quase oitocentos reais o quarto de casal), mas, imagine, um hotel luxuoso em meio a essa maravilha de paisagem, quase no fim do mundo, ou no meio do nada. No quarto comemos nossa refeição comprada em Punta Arenas. Mais simples e barata e nos concedeu energia para o que viria depois.

Depois? Êxtase. O passeio de barco pelo Lago Grey é simplesmente maravilhoso. Caminhamos certa distância até o barco, bem grande e lotação completa, o trajeto até as geleiras maiores dura quase uma hora. A visão das montanhas com seus cumes gelados e pequenas geleiras desgarradas é algo surreal de tão bela. Os botões das máquinas fotográficas disparavam a todo segundo, era uma disputa pelos lugares mais interessantes para uma boa foto. Um revezamento entre as pessoas era necessário para que todos tivessem suas maravilhosas fotos para mostrar em casa.

Após o passeio de barco ainda tivemos tempo para um passeio nos arredores, banho e nos encontramos de novo no restaurante para o jantar: um filé mignon sangrando com batatas fritas e molho de pimentos, delicioso. O vinho era um Missiones del Rengo 2012, carmenère, de quinze mil e novecentos pesos chilenos (trinta e outo dólares), ótimo custo/benefício. Total do jantar, sessenta e dois mil pesos chilenos ou cento e cinquenta dólares para quatro pessoas. Preço razoável considerando a qualidade da refeição e a maravilha de local. Antes de ir dormir pedimos um lanche para levar no dia seguinte, para servir de almoço na vigem. Quatro sanduiches e mais água e suco para pegar no café da manhã antes de partir para nova viagem.

O melhor da noite ainda estava por vir. Nosso quarto tinha uma saída de vidro para uma varanda com vista para as montanhas e para o Lago Grey. Podíamos ver as montanhas e o lago sem sair do quarto. O presente do universo para nós veio em forma de uma belíssima lua cheia. Quase não dormimos. Estávamos extasiados pela beleza da noite, Fria e bela.











 


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

LONDRES PARIS - SÉTIMO DIA DE PEDAL

A CHEGADA EM PARIS

14/09/2013
O café da manhã no hotel Formule Un foi o mais barato de todos nessa viagem, quatro euros e oitenta centavos, e também o mais fraco. Pão, manteiga, geleia, mel, cereais, doces, café e leite. Como eu precisava de alimentos mais calóricos caprichei no mel. Bebi uns três ou quatro daqueles pacotinhos de mel. Às dez horas, pegamos a estrada. Claro que chovia e choveu a maior parte do dia. A meteorologia dava noventa porcento de possibilidade de chuva para o dia e a chuva caiu cheia de vontades para cima dos ciclistas. Os caminhos são muito interessantes, bem sinalizados a maior parte do tempo, e passa por lugares muito bonitos. Estávamos perto de Paris, perto de uma estação de trem, o RER C, que nos levaria ao centro de Paris em quarenta minutos. E a ciclovia tinha sessenta quilômetros de extensão, o que nos tomaria o dia inteiro de pedal. Nem a chuva nos fez pensar diferente: sessenta quilômetros até a Catedral de Notre Dâme e seguimos em frente.

Estávamos próximo do Rio Oise e nosso trajeto acompanhou as curvas do rio. O Rio Oise é afluente do Rio Sena. Chegaríamos ao Sena em algumas horas e o seguiríamos até Nanterre (http://pt.wikipedia.org/wiki/Nanterre). Seguimos em frente, direção Neuville-sur-Oise, Conflans-Ste-Honorine, e outras pequenas vilas do trajeto. O caminho entra por uma floresta maravilhosa onde encontramos com vários ciclistas, corredores, colhedores de champignons, caminhadores. É a floresta de Saint-Germain-em-Laye. Atravessamos o Sena em Sartrouville e o acompanhamos por uma boa distância, ou ele nos acompanhou, não sei. O Sena é lindo, a ciclovia o margeia em paralelo, em vias arborizadas e exclusivas. Em Saint-Germain-em-Laye o Château de Saint-Germain e o Château de Monte-Cristo nos fizeram parar para fotos.

E a chuva continuou, fininha por enquanto. Em Chatou atravessamos o Sena e passamos ao lado da Ilha dos Impressionistas, onde tem o belo Jardim de Monet. Tivemos vontade de parar, maior era a vontade de chegar. Em Collombe a ciclovia deixa de ser exclusiva, dividindo caminhos com automóveis até o destino final, afinal estávamos já na região metropolitana de Paris, superpovoado. Ali paramos para o nosso almoço, sanduíches feitos na hora em uma padaria, chá preto e água. Evian, claro.

Collombe ficando para trás, chegamos a Gennevilliers e Saint Denis. Em Saint Denis fica a parte mais difícil de todo o trajeto desde Londres. Eram dezessete horas, havia muita gente na rua e foi o único lugar em todo o trajeto em que as pessoas, a pé ou motorizadas, não nos dão passagem. Dividimos a via com carros, tramways e pessoas. Demos uma paradinha no Stade de France, estádio onde a seleção brasileira foi derrotada para a França na final da Copa do Mundo de noventa e oito. Logo á frente chegamos ao canal que nos levaria a La Villete, primeira locação interessante em Paris, parada obrigatória para uma foto. Mais uma hora e chegaríamos ao destino. Cometemos um pequeno erro de leitura do mapa, em Paris há muitas ciclovias diferentes, a numeração delas se mistura, e uns trechos em obras com desvios nos confundiu. Ao dar a volta no desvio nos perdemos e aí valeu o meu conhecimento da cidade, dos tempos em que lá morei e andava sem rumo pela cidade, admirando suas belezas. Pegamos o Boulevard Magenta até a Place de la Republique, Rue du Temple, Rue Beaubourg atás do Centre Pompidou, e pronto: Catedral de Nôtre Dame à vista. Mais uma pequena volta e chegamos. Eram dezoito horas e quarenta e cinco minutos, chuva, muita chuva. Mesmo assim, a foto de chegada era obrigatória e a despedida de meus companheiros de jornada.

Eu ainda tinha um pequeno trajeto a fazer: ir até a Gare de Austerlitz pegar o trem que me levaria até Sainte-Généviève-des-Bois onde moram meus amigos, meus anfitriões na França.

E um viva à vida. Um viva a mim. Um encontro com as diferenças e os “diferentes” é a atividade mais enriquecedora da qual tenho participado.












quinta-feira, 27 de novembro de 2014

LONDRES-PARIS: SEXTO DIA DE PEDAL


13/09/2013

Ao acordar, não me lembrava que era sexta-feira treze, dia dos azares possíveis e inacreditáveis. Sem acreditar nos azares possíveis e inacreditáveis da vida, levantei-me, tomei uma ducha e desci para o café da manhã no Hôtel Moderne, em Gisors. E pela primeira vez não acordei com os roncos de meus colegas de viagem, tão cansado estava depois de pedalar os oitenta quilômetros do dia anterior. Chovia muito finamente e, logo, logo, tomamos a estrada, que agora seguia rumo a Cergy (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cergy). A decisão de ir até Cergy foi tomada na estrada, para dizer a verdade. Faltavam cento e vinte quilômetros para o destino final, Paris. Como estávamos em forma e a rota a partir de Gisors era de poucas subidas e descidas, refizemos nosso propósito de fazer o trajeto em três dias e resolvemos fazê-lo em dois. Sessenta quilômetros por dia era uma meta mais que viável. Foi uma boa decisão.

O caminho seguia por pistas exclusivas para bicicletas até Bray-et-Lû. Na paisagem, fazendas, vilas e castelos. Tão parecida e tão diferente das paisagens anteriores. Nas fazendas, menos criação de bovinos, mais plantações de milho, beterraba para o açúcar, e outros. Em Bray-et-Lû retomamos as estradas compartilhadas. A remarcar o Château de Villarceaux (http://villarceaux.iledefrance.fr/), um belo castelo no meio do nada. Depois de Villarceaux, Maudéton-em-Venin, Arthies, Wy-dit-Joli-Village, Gadaucont, Avernes, Théméricourt, Vigny (essa uma vila um pouco maior), Longuesse, Sagy e, finalmente, Cergy.

A etapa do dia foi tranquila, a registrar apenas o encontro com um casal que fazia o mesmo trajeto que nós. Saíram de Londres e chegavam a Paris. Na verdade, eles não chegariam a Paris de bicicleta. Ao final do dia, em Cergy, eles tomariam o trem, porque queriam estar em Paris no sábado. Pedalamos mais ou menos próximo por algumas horas e quando paramos para almoçar nossos sanduiches eles seguiram em frente. A registrar ainda o fato de que chegamos a Cergy e ninguém sabia nos informar onde haveria um hotel no centro que hospedasse ciclistas e suas bicicletas sujas. Finalmente perguntamos a um senhor montado sobre uma enorme motocicleta, dessas com potência de mil e duzentas cilindradas. Ele nos sugeriu segui-lo que ele nos conduziria a um hotel fora do centro. Nós o seguimos, e um quilômetro depois ele nos mostrou um hotel Formule Un, da rede Accord, à beira da rodovia de saída da cidade. Foi muita gentileza dele conduzir sua potente moto devagar tal que pudéssemos acompanhá-lo em bicicletas, e nos mostrar o hotel, provavelmente fora de seu trajeto habitual. Esse foi um lado extremamente positivo da viagem: o encontro com pessoas desconhecidas que se dispõem gentilmente a ajudar. Como os europeus adoram aventuras eles sempre ajudam aventureiros do mundo inteiro. E isso torna nossa viagem mais curiosa e interessante. Obrigado a todos esses ilustres desconhecidos.


O hotel Formule Un tem uma quantidade enorme de pequenos quartos. Todos iguais, com uma cama de casal e uma cama suspensa sobre a cama de casal. Pela primeira vez dormimos em dois quartos. E levamos as bicicletas para os quartos pois não havia onde colocá-las. O WC e a sala de banho (assim que os chamam na França, e são separados) ficam no corredor e são autolimpantes. Após o uso eles se lavam automaticamente. Assim estão sempre limpos. Bem em frente ao hotel havia um restaurante chinês autosserviço, com comida variada e farta, dezesseis euros por pessoa. Autorizamo-nos acompanhar de um Saint-Emillion Grand Cru 2005, trinta e um euros a garrafa, maravilhoso. Depois disso tudo, foi só cair na horizontal que o sono veio logo.

Foto 1: Roberto, eu e a garrafa de Saint-Emillion
Foto 2: A caminho de Cergy
Foto 3: Uma das muitas esquinas do caminho
Foto 4: Ainda a caminho de Cergy, trajeto pelsa fazendas de beterraba
Foto 5: A chegada em Cergy.







quinta-feira, 6 de novembro de 2014

LONDRES-PARIS: QUINTO DIA DE PEDAL


12/09/2013

Ao amanhecer o tempo estava sombrio. O serviço de meteorologia francês indicava cinquenta porcento de possibilidade de chuva na região e parecia que eles tinham razão. Já chovia quando deixamos o hotel. Organizamos as trouxas ciclísticas e fomos a um mercado de materiais esportivos. Eu comprei uma calça e uma veste impermeáveis, além de um para-lama para a bicicleta, que me protegeria um pouco mais do barro e da água jogada para cima pelas rodas. O caminho no momento era asfaltado, seguindo a antiga ferrovia, só não sabíamos até onde iria aquele bom caminho. O asfaltamento da pista era recente, em nosso marca apenas marcava pista em obras, parecia-nos que as obras estavam bem avançadas.

Depois de instalarmos os novos equipamentos, em mim e na bicicleta, tomamos o caminho de Paris. Pouco à frente, talvez menos de dois quilômetros, encontramos um grupo de vinte e quatro pessoas, ingleses e orientais habitantes da Inglaterra, seguindo para Londres, fazendo o caminho inverso ao nosso. Pelo menos até Dieppe iriam pedalando, não sei se pedalariam depois de Newhaven ou se continuariam de trem. Porque o trajeto para Londres não seria fácil para um grupo tão grande de pessoas. Ainda um pouco mais adiante ultrapassamos um pequeno grupo de jovens ciclistas, eles haviam nos ultrapassado no dia anterior, dormiram no mesmo hotel que nós, uma das bicicletas apresentava um pequeno problema. Creio que repararam rápido o defeito, pois uma hora depois eles nos ultrapassaram de novo e não os vimos mais.

A proposta de caminho a seguir era pedalar até Gisors, uma cidade de porte médio setenta e oito quilômetros depois (http://en.wikipedia.org/wiki/Gisors) e com um número de hotéis maior que em Neufchâtel-en-Bray. Por via das dúvidas, telefonamos a um dos hotéis, o Hôtel Moderne de Gisors, e fizemos uma reserva de quarto triplo (http://www.hotel-moderne-gisors.com/accueil.php). Funcionou também como um estímulo a ir tão longe, deve ter sido o dia de trajeto mais longo. Esse seria um dia de desafio e de medida de nossa capacidade de avançar mesmo com chuva. A chuva não nos parecia, naquele momento, um obstáculo tão grande. A meteorologia indicava quarenta porcento de possibilidade de chuva e isso nos parecia querer dizer que não choveria o tempo todo. Realmente, tivemos momentos nublados e momentos de sol alternando com momentos de chuva.

O que não contávamos era com o relevo ondulado. Algumas subidas eram longas, não muito inclinadas, mas longas, sendo que Gisors situa-se em um planalto. A escolha por Gisors também representava uma decisão. Nosso mapa indicava dois caminhos possíveis para se chegar a Paris: um mais longo que o outro e Gisors fica logo depois da bifurcação. Escolhemos o caminho mais curto. Talvez não o mais bonito, mas o mais curto. A ciclovia pela ferrovia continuava até Forges-les-Eaux (http://fr.wikipedia.org/wiki/Forges-les-Eaux), plano, sem traumas, com uma paisagem pouco variável e bonita, com uma pequena porção de mata ao lado do caminho, e muitas fazendas. Gados, ovelhas, plantações. A Normandia é uma região de ótimos queijos (http://www.lesfromagesdenormandie.com/fromages-aoc-normandie-i.html), o grande número de fazendas de bovinos e caprinos se justifica.

Em Forges-les-Eaux termina a ciclovia sob a antiga ferrovia, a continuação seria por estradas compartilhadas com automóveis. Na cidade compramos três sanduiches e três latas de suco para o almoço e continuamos até encontrarmos um local agradável para o lanche. Pouco à frente, em um lugar chamado La Bellière, encontramos uma fonte coberta parecendo uma antiga parada de tropeiros, onde descansamos por meia hora, tempo justo para o almoço. Hora do lanche, hora de fotos, hora de conferir o plano de viagem do dia, quando pedalamos, quanto falta para chegar ao destino. Creio que eram catorze horas.

O caminho, agora em estradas, continuava bonito, As estradas eram, na verdade, estreitas ligações entre vilarejos e fazendas, essas ainda prioritariamente de gado, com pastagens e plantações de feno que, a essa época, estava recolhido e enrolado para ser guardado em silos. Estávamos quase no outono, depois seria inverno, era preciso se preparar para alimentar o gado na ocasião mais fria. Geralmente não neva na região, mas o frio é intenso. A serra gela, as folhas das árvores caem, a vida se dificulta. Um vilarejo após o outro, La Fossé, La Bellière, Pommereux, Haussey, Mènerval, Dampierre-en-Bray, Cuy-St-Fiacre, Cité St-Clair, Gournay-en-Bray. Essa última é uma cidade de porte médio e aqui tivemos um problema. O caminho passa sobre uma ferrovia, que estava em obras, e não nos permitiram avançar. Tivemos que fazer um desvio em uma estrada muito movimentada, plena de caminhões. Seguimos em frente. Olhamos o mapa e percebemos que nossa rota seguia paralela a essa estrada e poderíamos retomá-la mais à frente. Menos mal, perdemos meia hora até compreendermos que o problema não era tão grande. A questão era a comunicação pela metade da pessoa responsável pela obra. Uma bela engenheira com um capacete na cabeça impediu nossa passagem, mandou-nos tomar o desvio, mas não deu nenhuma precisão em suas informações. Talvez tenha sido, em toda a viagem, a única pessoa que não teve boa vontade de dar a boa e correta informação para os viajantes. Ok, isso não nos abala, nossa força de vontade é maior.

Logo, logo achamos o caminho. O curioso foi que, um pouco mais à frente, no momento em que íamos atravessar a rodovia, uma jovem que seguia a pé e que também foi impedida de ultrapassar a ferrovia no mesmo local que nós, me pergunta se estava no caminho certo para Ferrière-en-Bray. Eu tinha visto nos painéis das esquinas das ruas que essa era uma cidadezinha justamente do outro lado da ferrovia e o caminho era justamente aquele no qual seguíamos. Então tive o prazer de dar a boa informação a essa jovem, francesa, que me interrogava sobre o caminho e que, por acaso, eu tinha a boa resposta. Descontei. Ensinei o caminho a uma pessoa, da terra, apenas vinte minutos depois de ficar chateado com outra pessoa, também da terra, pela sua má vontade em ensinar o caminho correto. Sorte eu saber ler mapas muito bem. Ler mapas e fazer leituras dos sinais e planos locais.

Passado esse pequeno contratempo o caminho seguiu tranquilo, por estradas compartilhadas com poucos carros, permeando vilas e fazendas. O mais interessante era as casas de fazendas todas com telhados de pedras de ardósia, belas casas, os fazendeiros não são, em geral, pessoas pobres.

Tudo tranquilo até Saint-Germer-de-Fly, onde a bifurcação entre os dois caminhos acontecia. Nossa escolha já havia sido feita, caminho mais curto da direita até Gisors, onde deveríamos chegar as dezenove horas. Em uma das raras falhas de sinalização de todo o trajeto, tomamos o caminho errado (terceira vez que isso nos acontecia) e pedalamos uns três quilômetros até percebermos o erro. Fora isso, o deslocamento decorreu tranquilo até Gisors, passado por vilarejos de nomes engraçados: Le Moulin l’Èvêque, St-Pierre-ès-Champs, Neur-Marché, Les Flamands, Le Camp à Dan, Bouchevilliers, Amécourt, Bazincourt-sur-Epte e, finalmente, a cidade de Gisors nos esperava sob chuva. Para encontrarmos o hotel em frente à estação de trem um jovem nos deu a informação correta. Hotel honesto, três camas boas, banho quente, internet, café da manhã, sem restaurante. Chegamos às dezenove horas e trinta minutos, tomamos banho rápido e saímos à procura de um restaurante, sabemos que na França os restaurantes fecham cedo, mesmo em Paris. Encontramos, a duzentos metros do hotel, com um painel informando que os pratos eram tradicionais da região, feitos à moda antiga. Meu prato: batave (carne de boi) ao molho de pimenta do reino e batatas fritas, uma salada de entrada, água mineral gasosa Badoit, vinho da casa em piché, vinte e seis euros tudo. De volta ao hotel, novidades da internet, aviso à família e fomos dormir.









sexta-feira, 24 de outubro de 2014

LONDRES - PARIS: QUARTO DIA DE PEDAL


11/09/2013

Após o café da manhã no hotel em Newhaven (eu dormi muito bem, mas meus colegas de viagem disseram não ter dormido tão bem pois suas camas não eram muito boas) pedalamos direto ao porto para pegar o ferryboat, que partiu, nesse dia, às dez horas (http://www.newhavenferryport.co.uk/). O barco é enorme e havia uma fila gigantesca de caminhões, carros e vans. Compramos os bilhetes, uma senhora loura com piercing na sobrancelha nos atendeu, e entramos na fila. Um funcionário nos chamou e nos passou à frente da fila, éramos três bicicletas. A passagem na alfândega inglesa foi sem problema, sem perguntas colocadas, então pedalamos até o navio, um caminho plano entre caminhões, ônibus, vans e carros de passeio. Quase não havia motos. Depositamos as bicicletas no fundo do barco em um local apropriado para a s bicicletas, éramos uns dez ciclistas em trânsito para a França, ao todo. Deixamos as bicicletas e subimos até o convés para as tradicionais fotos do local no horário de partida. Depois das fotos de praxe descemos até a lanchonete do ferryboat, sentamo-nos a uma mesa confortável e conversamos bastante. Quatro horas de travessia é um tempo razoável, o barco é lento.

Almoçamos no barco, um autosserviço razoável. Meu prato: fatias de atum defumado de entrada, peixe empanado com ervilha e arroz, pão e suco de laranja – dezesseis euros (caro pacas, mas era na travessia do Canal da Mancha, não é todo dia). À nossa frente na fila estavam três jovens senhoras carregando seis platôs, ou seja, compravam almoço para outras pessoas. Logo percebi que acompanhavam senhoras idosas em cadeira de rodas (confirmei depois quando as vi à mesa). Como o atendente cobrava prato por prato (dava o preço, recebia o dinheiro, dava o troco, prato a prato, mesmo sendo a mesma pessoa a pagar) o processo demorou um pouco e isso impacientou alguns fregueses. Atrás de nós havia um senhor inglês que xingava as mulheres em inglês e francês. Quando uma das senhoras pagava e catava moedas em sua bolsa o tipo infeliz jogou uma moeda no prato delas. Que calhorda! Impaciente e de uma grosseria sem tamanho. Eu nunca vi tal coisa em uma fila de restaurante.

Uma vez em Dieppe, na Normandia (França) pegamos nossas bicicletas, passamos pela alfândega francesa sem problemas, sem questões colocadas e pé no pedal. O objetivo do dia era chegar a Neufchâtel-en-Bray, trinta e seis quilômetros em direção a Paris (http://fr.wikipedia.org/wiki/Neufch%C3%A2tel-en-Bray),  mas fizemos uma parada em Dieppe para carregamento de suprimentos para viagem e conhecer um pouco a bela cidade.

De início, a rota seguia em pista paralela às ruas e estradas, pequenos cantos às vezes marcados para ciclistas, às vezes não. Os motoristas são gentis, aguardam o bom momento de nos ultrapassar, nunca nos colocando em situação de risco. Chegando em Arques-la-Bataille (http://fr.wikipedia.org/wiki/Arques-la-Bataille), oito quilômetros depois, a pista de ciclista torna-se exclusiva e segue por parques com belos pequenos lagos, para então entrar em um longo trecho construído sobre uma antiga ferrovia. A pista é plana e margeia pequenas vilas e castelos até Forges-les-Eaux (http://fr.wikipedia.org/wiki/Forges-les-Eaux). Uma ótima ideia essa de construir pistas para ciclistas sobre uma velha ferrovia. Fiquei imaginando quanto nós, em Minas, e no Brasil, perdemos com isso. Poderíamos ter belas pistas quase planas, em lugares magníficos, saindo de Belo Horizonte, passando por Ouro Preto, Mariana, Viçosa, Ubá, chegando a Juiz de Fora e Rio de Janeiro. A ferrovia que havia nesse trecho não há mais, o mato tomou conta, pessoas invadiram, e perdemos um belo passeio de bicicleta entre Belo Horizonte e essas cidades. Talvez uns trezentos quilômetros de pista sinuosa e entre montanhas, que poderiam ser percorridos em uns cinco dias.


Chegamos a Neufchâtel-en-Bray por volta de dezoito horas, procuramos por um hotel marcado no livro/mapa de La Avenue Verte. Um estava fechado, outro estava cheio. Uma senhora mal educada nos recebeu, pedimos informação de outro hotel, e ela disse: - no centro da cidade, talvez, eu não sei de nada, eu me ocupo da vida dos outros e não da vida dos outros. – Silenciamo-nos e fomos procurar outro hotel. Encontramos rapidamente, chegando ao centro da cidade, o Hôtel de Grand Cerf (http://www.hotel-grandcerf.fr/), com uma inscrição na porta: “ciclistas benvindos”, em francês e em inglês, com estacionamento para bicicletas, torneira e mangueira para lavá-las e o gerente nem nos pediu documentos. Tivemos um quarto para três com muito espaço, água quente, sabonete líquido, secador de cabelos (que no caso serviu de secador de nossas roupas), restaurante no próprio hotel (excelente cozinha da terra) e café da manhã reforçado. E tudo isso por cento e setenta e um euros para os três, mais a gentileza das pessoas, tanto os que trabalhavam quanto os outros hóspedes, isso não tem preço. E todos ficavam curiosos em perguntar o que três brasileiros, montados em bicicletas, faziam por ali.







quarta-feira, 15 de outubro de 2014

CARTA PRO MANO ZÉ

Uma carta que escrevi ao mano algum tempo atrás.

Olá Mano Zé

Eu tava fazendo janta e tomando uma cachacinha do norde minas, quando me alembrei que hoje é dia dos anos do mano Zé. Depois da janta adentrada no estômago corri para ligar meu ordenador ponhar uma mensagem para o mano, mas vi que dois outros inxiridos já o fizeram antes de mim. Tudo bem mano, chegar na frente só em caso de seleção brasileira na copa do mundo, se bem que acho que é a vez da Alemanha, a melhor seleção que vi jogar até agora. Pois bem mano, como me alembrei na hora de verter a cachacinha, aproveitei para tomar mais uma, a segunda em sua homenagem, nem deixei pro santo. É fim de semestre e cê sabe, hora de chiar para fechar os trabalhos e aguentar choradeira de uns e reclamações de outros, não dá para se alembrar muito, não. 

Tem tempos que não vejo ninguém, nem Ciça e Tete que habitam e coabitam a menos de dois km aqui de casa, quem diria os outros um tanto mais longíquos. Com mamãe falo por telefone, mesmo que eu fale uma coisa e ela responde outra. Eu finjo que é isso mesmo e a gente vai se entendendo. Com Ciça é tal qual. Tinha que ser parecida com a ancestral até na ouvilança (não ouve mas lança assim mesmo). Fim de semana vou colocar as visitações familiares em dia. Depois irei até Palmas, sobrevoarei Goiânia mas não dá para baixar de paraquedas no teu quintal, o tempo será curto. Mas mano, bom dia de anos para você e cuide bem do ânus, visite o urologista e o proctologista, deixe a vergonha em casa, já viu né, tem muita gente morrendo por causa da próstata e câncer de intestino. Se der sorte encontre um com o dedo fino.


Um abraço grande, nas muié também, uai.

domingo, 5 de outubro de 2014

LONDRES - PARIS, TERCEIRO DIA DE PEDAL


10/09/2013

Após aquele super café da manhã inglês tradicional lavamos nossas bicicletas e rumamos à East Croydon Station, ao lado do hotel, e tomamos o trem até Polegate, uma hora e dez minutos de trajeto. Claro, saltamos um trecho do trajeto original, avançamos uns vinte quilômetros, mas era absolutamente necessário para chegarmos a Newhaven nesse mesmo dia. Newhaven é onde se faz a travessia do Canal da Mancha e nosso projeto era fazer a travessia na quarta-feira, dia onze de setembro. O transporte de barco de Newhaven a Dieppe na França acontece uma vez por dia, apenas.

Em Polegate paramos em uma loja de bicicletas, para comprar um óleo para as correntes das bicicletas, que sofreram com os dois dias de chuva. Como elas molharam muito ficamos com receio delas ressecarem muito e se estragarem. Às quatorze horas saímos de Polegate para um trajeto de quase trinta quilômetros até Newhaven, o mais curto da viagem.

Sol, havia sol, e o trajeto foi magnífico. Depois de muito esforço e muita subida (com chuva) nos dias anteriores para chegar a Rotherfield, nesse dia o passeio foi mais tranquilo. Estradinhas asfaltadas, pouco movimento de carros, e boas descidas. A saída de Polegate foi um pouco confusa em função da deficiência das indicações. Único trecho na Inglaterra com algumas pequenas falhas nas indicações dos caminhos. E o caminho nos levava a trechos compartilhados com cavalos (estávamos próximos a um Haras), mas logo chegamos ao asfalto e chegamos a desenvolver até trinta quilômetros por hora nas descidas. Vento e sol na cara, pouca roupa, maravilha. Na chegada a Seaford, já no litoral, a estrada compartilhada com automóveis e caminhões estava um pouco perigosa, um tráfego intenso, talvez pelo horário, eram dezessete horas quando ali chegamos. No entanto, os motoristas são absolutamente respeitosos. Davam-nos passagem, não nos empurrava no canto da estrada e esperavam um bom momento para nos ultrapassarem. Algo que ainda não se vê no Brasil.

À beira-mar o vento quase nos derrubava da bicicleta. Chegamos finalmente a Newhaven, fim de nosso trajeto inglês. Reservamos um hotel com quarto triplo via www.booking.com,  um hotel bem ruinzinho, mas o cansaço não nos animava a procurar outro. E esse era a menos de quinhentos metros do porto onde pegaríamos o barco para a travessia do Canal da Mancha. O hotel nos cobrou o mesmo preço do hotel em Croydon, café da manhã incluído. Pelo menos isso. Saímos para jantar por volta de vinte horas, haviam poucas opções de restaurante, a maioria já havia fechado. Sobrou-nos um restaurante indiano. A pedida: Lamb Kohan (carneiro com molho de cebola). O restaurante não servia bebidas, o garçom nos recomendou comprar cervejas no mercadinho em frente e trazê-las para bebermos no restaurante dele: surpreendente. Tomamos uma Guiness (irlandesa) em lata, cerveja de temperamento forte, amarga e deliciosa. Só para bons apreciadores.

Apesar do hotel fraquinho em Newhaven, a cama era boa, dormi muito bem, acordei pronto para a travessia. O café da manhã era razoável: cereais, banana, iogurte e ovos cozidos, além de café.





O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...