sábado, 22 de agosto de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA VII


Podem rir à vontade, aqueles que o quiserem fazer diante de minha revelação: quando garoto fui coroinha. Sim, coroinha, esse é, ou era, o nome dos meninos que ajudavam o padre na hora da missa. Havia um sacristão que nos ensinava os rituais daquela operação, vestíamos uma batina branca com uma faixa vermelha, e fazíamos parte do ritual da missa. Claro que eu não entendia nada daquilo, nem queria entender, era como uma obrigação a mais. Meus pais tentavam que seus filhos adquirissem uma cultura religiosa, creio que meu pai mais que minha mãe. Íamos à igreja aos domingos de manhã, vestíamos nossas melhores roupas, era uma festa. Eu ia para a sacristia, aprendia umas frases em latim, decoradas, eu não sabia o que significavam, e nem o padre nem o sacristão tinham interesse em nos ensinar latim, esperavam apenas que repetíssemos como papagaios aquele palavrório todo.

Claro que isso não durou muito tempo. Imagino que o padre logo percebeu meu completo desinteresse pela ação litúrgica e me despediu. Eu tive meu primeiro desempregamento, sem aviso prévio, aos dez anos de idade. Fiquei feliz da vida. E nunca mais participei da vida religiosa. Continuávamos indo à Igreja de Santo Antônio aos domingos de manhã, o ritual era obrigatório a ser seguido, mas eu sempre dava um jeito de ficar do lado de fora da igreja. Era minha rebeldia solitária e silenciosa. Óbvio que já fui à igreja outras vezes: casamentos, batizados e até no meu casamento religioso eu compareci. Se eu não casasse na igreja eu não teria a permissão do sogro e da sogra para casar e creio que minha avó ficaria muito desiludida se eu não estivesse presente na cerimônia religiosa do meu primeiro casamento. Mas o ritual não tinha importância para mim. Hoje eu sei da importância dos rituais na vida das pessoas, eu até afirmo para alguns interlocutores que uma forma de organizarmos nossa vida é ritualizarmos nossas atividades e ações mais corriqueiras. Acredito mesmo nisso. Mas o ritual espiritual não me diz grande coisa.

Eu não sei o pensamento de meus irmãos a esse respeito, mas penso que os velhos desistiram, com o passar do tempo, de catequizar-nos. Eu e meus irmãos fomos desistindo das igrejas e eles também passaram a não frequentar os rituais religiosos. Alguns até voltaram a fazê-lo mais tarde, por razões outras que os ensinamentos paternos. Sempre vi meus pais fazerem suas orações, silenciosas e em seus quartos, se forçar a presença de seguidores. Depois de algum tempo, também desistiram dos rituais religiosos. Minha mãe ainda diz que tem sua fé e sua crença, no entanto pensa na morte como o fim da existência e pronto. Ela não acredita em vida após a morte. “Morreu, acabou”, ela diz. Ela não viu o sepultamento de meu pai e se recusa a visitar cemitério ou carolar no dia de finados. Eu também não vou. Não me interessa ver uma plaquinha no gramado do cemitério com o nome do velho, interessam-me as memórias que guardo.


Claro que eu sou um cara com grande espiritualidade. Isso nada tem a ver com religião. Tem a ver com sua conexão com o mundo e sua conexão com as pessoas e demais seres vivos. Eu sinto a presença das pessoas, eu gosto de perceber a alma delas, o pensamento delas. A diferença é que eu não personalizo esses pensamentos em uma figura divina humanizada. A humanidade cria seus deuses à sua imagem e semelhança e não o contrário. O mito da criação está presente em todas as culturas, lógico, mas não passa de mito. Mitificamos aquilo que não compreendemos, fica mais fácil de lidar com nossas dúvidas e nossas ignorâncias se nos ancoramos no mito, no divino. Até eu faço isso, porque não? A figura de deus é confortadora. O que não consigo compreender é a necessidade das religiões e dos religiosos em exigir que todos tenham as mesmas crenças. As religiões não respeitam as diferenças. Na Colômbia tem uma pastora protestante que catequiza as tribos indígenas. E faz isso com tanta eficiência que os próprios índios matam os outros, da mesma tribo, que não aceitam se evangelizar. E a única santa católica da Colômbia fez a mesma coisa. Horrorizou os índios que não se converteram. E hoje é santa. Santa da igreja católica. E querem que eu acredite e tenha fé! Cruz credo! 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA VI


Estudei no Liceu Imaculada Conceição, em Nova Lima, cursando o antigo Ginásio, hoje Ensino Fundamental II. Uma colega daqueles tempos lembrou-se de mim e procurou meu nome entre os formandos de lá, do ano de um mil novecentos e sessenta e sete. Não encontrou. Ao chegar à metade do quarto ano eu me mudei para a Escola Estadual Augusto de Lima onde, de fato, me diplomei no ginásio. Eu queria fazer o curso científico e achei que se mudasse para a outra escola eu seria aceito mais facilmente. Bobagem. Havia vagas, mas foi a decisão da época. Lembro-me muito pouco desses tempos. Eu era um dos mais jovens da classe e um dos mais pobres também. Como diziam meus colegas, eu era pequeno, feio, pé grande, pobre, cabeça grande e morava longe. Era a maneira deles dizerem-me que eu era também o mais inteligente, quem tirava as melhores notas, nem assim o favorecido dos professores e professores, porque esses, em minha memória, favoreciam os alunos mais ricos. Não custa lembrar que a escola era paga, e era um sacrifício grande para meus pais pagarem as mensalidades.

Estávamos em plena época de ditadura militar, antes do AI5, mas a vida era dura. Amigos de nossas famílias foram cassados, como o deputado da cidade, o Dazinho, amigo de meu pai. E em Nova Lima havia também o outro lado da política. Pessoas alinhadas com a ditadura e que denunciavam quem eles imaginavam ser “subversivos”, comunistas e perigosos à nação. Mas esses eram conceitos subjetivos, voláteis, mas era o que valia. Bastava uma denúncia. E entre meus colegas haviam vários cujos pais eram solidários com a política estabelecida, não eram lá grandes coisas, mas se sentiam grandes. E os jovens também se sentiam grandes a ponto de não quererem a minha companhia nos momentos de recreio, grandes a ponto de não me permitirem jogar futebol junto com eles nas aulas de educação física, grandes a ponto de só sentarem a meu lado nas cadeiras duplas usadas em classe nos dias de prova, para colarem de mim. É comum guardarmos os amigos da época. Em geral os amigos dos tempos de escola permanecem amigos por muitos e muitos anos. E eu não guardei nenhum deles como amigos, apenas alguma amigas. Depois que deixei o Liceu, nem sequer me encontrei com eles, a não ser ocasionalmente. Não eram meus amigos. Os tempos mudaram e, mais tarde, vi que muitos deles levavam uma vida de merda, alguns ainda hoje mamam nas tetas dos governos e não construíram muita coisa importante na vida. Outros estão bem, não os vejo, no entanto.

Não há muito que falar, ou escrever, desses anos de ginásio. Minha vida continuava do mesmo jeito: escola, trabalho, campo de futebol; escola, trabalho, campo de futebol, nessa ordem mesmo. A escola era pela manhã, chegava em casa ao meio dia, almoçava, fazia os deveres de casa, ajudava a olhar os irmãos mais novos, trabalhava na horta do quintal, ganhava umas porradas quando não trabalhava direito, e, ao fim de tarde, campo de futebol com os vizinhos. No verão era ótimo porque havia luz do sol até mais tarde. Eu continuava lendo muito, ouvíamos o rádio da família e nas ondas do rádio, as mais ouvidas já eram a Inconfidência, a Itatiaia e a Guarani (essa não existe mais, infelizmente), AM na época. E havia também a rádio Cultura e as de outros estados, como a Nacional do Rio de Janeiro, a Tupi, a Record. Não eram muitas, não se rezava pela rádio, essa febre só existe nos tempos modernos, como uma imposição em ondas médias.

Nosso rádio não tinha marca, era um rádio de fabricação caseira. Meu pai fez um curso de rádio por correspondência e recebia as peças aos poucos para serem montadas à medida que ele aprendia o uso e a importância de cada peça no conjunto. Um dia o rádio ficou pronto e funcionava. Era um rádio à válvula, bonito, grande. Todos nós aprendemos um pouco sobre a montagem do mesmo. E o aparelho ficou sendo de todo mundo, com a primazia o velho. As válvulas deixaram de existir e o rádio ainda funcionou até que não se encontrava mais peças de reposição. Um dia ele teve um fim, merecido, por tantos serviços prestados à família, que escutava O Direito de Nascer e Jerônimo, o Heroi do Sertão, todos os dias, reunidos ao pé do rádio. Pena que não tínhamos fogão de lenha. Já usávamos fogão elétrico, com direitos à uns choques de vez em quando. Talvez por isso alguns de nós somos insanos, outros modestamente desconectados. Todos saudáveis, com exceção daqueles que batem pino, e de outros que tomam Sertralina.

sábado, 8 de agosto de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA V


Amanhã é dia dos pais, o que me trouxe a lembrança, óbvia, de meu falecido pai. Isso porque uma irmã me ligou tocando no assunto, afirmando que ela não tinha se lembrado da data. Não está ligada nos comerciais de rádio e televisão, portanto a data lhe passou despercebida. Eu respondi que eu também não me lembrava, uma vez que meus filhos estão fisicamente distantes e não são de ficarem me ligando para dar ou receber notícias minhas. Nunca foram disso. Culpa minha também ao não cultivar essas comemorações. Eles ficam na deles e eu na minha. E como eu também não ligo televisão não sou metralhado com propagandas consumistas. Melhor assim.

Não sei se já escrevi sobre isso em outro momento, acho que sim, eu não sofri a morte de meu pai. Eu sofri a sua decadência, sua morrência, não sua morte. Essa aconteceu em momento esperado, até adivinhado por mim. Com isso eu o matei dentro de mim antes que ele fechasse os olhos. E com isso eu tive a tranquilidade de cuidar de seus últimos suspiros, de assistir seu último olhar e captar seu último sorriso. Meses antes eu o perguntei se ele estava preparado para morrer, ele disse que sim, que já tinha vivido tudo que poderia ter vivido, e tinha orgulho de sua vida. Eu lhe respondi que se ele estava preparado eu também estava e não choraria em seu enterro. Não chorei. Deixei-o ir em sua magreza para o além, seja lá o que isso significa.

As lembranças que ele me traz são várias e de várias nuances, porque em vida ele foi o que um pai, crescido na roça e malhado nas vivências e sofrências do cotidiano, calejado no labor da sobrevivência, poderia ter sido. Severo, porradeiro quando era criança, amigo quando me tornei adulto. E bastante amigo. Toda aquela violência masculina que eu via nele quando menino eu não vi mais. Eu vi sua elegância, seu poder de sedução com as outras mulheres, porque a violência machista dele com a minha mãe continuou existindo. Foi o protótipo do marido mandão e machista que não deixou saudades em minha mãe. Deixou muitas mágoas nela, ao mesmo tempo que deixou boas e más lembranças para os filhos. Cada um tem histórias alegres e tristes para contar sobre essa figura ao qual chamávamos de pai.

Algumas coisas ele fazia questão que tivéssemos: educação em todos os sentidos, coragem para enfrentar os medos, fartura na mesa, saúde e livros. Se eu queria um livro ele comprava, independente do esforço que ele teria que fazer para conseguir nos dar o livro de presente. Com isso eu aprendi a amar livros e esse talvez seja um de seus grandes legados na minha vida. Os livros. Lembro-me de tê-lo presenteado com Grande Sertão Veredas, que eu não compreendi na época e, para minha surpresa, ele conhecia os termos e palavras complexas de Guimarães Rosa. Porque o autor escrevia sobre um mundo que ele conhecia. Seu pai, meu avô, poderia ter sido um personagem daquele livro, uma vez que, jovem, exerceu o ofício de tropeiro. Então, quando, mais tarde, eu li os contos de Sagarana eu o perguntava o significado das palavras difíceis que me pareciam inventadas pelo autor e ele conhecia a maioria delas. Eram linguagens dos tropeiros, boiadeiros, cavaleiros, homens forjados na lida da roça, como ele foi quando criança e quando jovem. Depois veio para a cidade e trouxe muitas das imagens que tinha em sua mente e nos passou algumas delas.


Com o tempo eu aprendi a lidar com ele, a mostrar minha identidade, meus desejos e minhas vontades. E tenho, hoje, a certeza que sou um pai pior do que ele foi. Creio que algumas coisas eu não aprendi, o melhor dele eu não aprendi. Não consegui de meus filhos a amizade que ele cativou de mim, principalmente a dos últimos dez anos de sua vida. Que meus filhos me perdoem por isso. 

domingo, 2 de agosto de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA IV


Eu escrevo uma autobiografia, não uma cronografia. E sendo desautorizada, não tenho nenhum compromisso com os tempos dos acontecimentos, principalmente porque não tenho nenhum controle com a temporalidade e muito menos controle sobre a memória do autor, que sou eu mesmo. Não uso nenhum coautor, nem daqueles escritores pagos para escrever como se fosse eu, esqueci o nome deles em português, o que aumenta meu descompromisso, é desautorizado mesmo! Assim, se alguém se sentir ofendido com minhas palavras, eu tenho a resposta na ponta da língua: não foi autorizada. Se o Rei Roberto Carlos pode fazer isso, eu creio que também posso. Entro na justiça contra mim mesmo. Ou contra meu personagem. Personagens não são reais. Esta obra autobiográfica pode muito bem ser uma ficção. Se alguém se sentir encarnado em algum personagem eu digo que é mera coincidência. Como Dias Gomes, o grande dramaturgo dos anos oitenta, afirmou que os gregos já disseram e escreveram tudo sobre todas as tragédias e comédias humanas e o que escrevemos hoje é mera reprodução (talvez até cópia deslavada) de casos comentados por Sófocles, Homero e companhia, sinto-me à vontade para derramar em letras minhas observações sobre a vida. Se alguém se sentir ofendido, reclame com Platão, Aristóteles, Sófocles, Pitágoras (se o assunto for aplicação do teorema do mesmo), etc.

Hoje, (e hoje é hoje mesmo, o famoso Agora) eu estou chateado porque o primo Branco (tinha esse codinome por ser branco em uma família de morenos) se foi. Partiu, mudou de esfera, desencarnou, transferiu para o andar de cima, virou espírito, foi se encontrar com Caronte às margens do rio Aqueronte para que este o transportasse até o outro lado do rio para se encontrar com Hades, o deus da terra dos mortos. Ou, mais simplesmente, bateu as botas. Acontece que o Branco é (era) um ano e seis meses mais novo que eu e furou fila muito apressadamente. Ainda não era hora de partir. Fez uma viagem uma semana antes, riu, conversou muito e, numa bela manhã de terça-feira foi encontrado caído semimorto, em casa. Não teve jeito, não mais abriu os olhos.

Quando éramos crianças seu pai, o Zé Buzina, trazia todos os filhos para nossa casa em Nova Lima. Ele tinha um carro, punha não sei quantos filhos dentro do mesmo, e viajava os cento e vinte quilômetros que nos separava numa boa. Era uma farra. Ou o contrário. Meu pai nos colocava no trem que parava em frente à fazenda do nosso avô em Rio Piracicaba e dias depois, Zé Buzina aparecia com a família para que nós, as crianças, pudéssemos brincar e eles, os adultos, pudessem tagarelar. Ou, às vezes, íamos para a casa deles em Carneirinhos e lá ficávamos uns dias. De vez em quando meu pai me deixava na casa deles para que os primos ficassem juntos e brincassem. Confesso que eu não gostava muito, não por causa dos primos, mas por causa do tio. O tio era ainda mais bravo e porradeiro que meu pai, e eu achava tudo aquilo meio injusto. E como de vez em quando ele partia para cima de mim também, eu amuava e ficava torcendo para que meu pai me buscasse logo. Mais tarde eu me vinguei grandiosamente de meu tio, mas essa eu não conto nem que a vaca tussa, nem por decreto da presidenta, nem na tortura. Foi minha vingança pessoal, e pessoal é pessoal, não me venham com aquela conversa fiada de “conta, ele já morreu mesmo”! Mas eu estou vivo e respeito os primos, então não conto. Mas não é uma autobiografia desautorizada? Sim, mas o autor (eu mesmo) já se esqueceu, não se lembra mais e eu não vou esquentar a memória dele. Depois que eu também me for, e um dia eu me vou dessa, aí eu conto. Em memórias psicografadas.

Assim a vida transcorreu. Eu e o Branco nos encontramos até a maioridade. Aí seguimos caminhos diferentes. Eu casei prematuramente e fui morar em Viçosa-MG, ele se formou e foi para o Maranhão. Também casado. A maioridade nos traz responsabilidade que nos afastam, responsabilidades que talvez nem quiséssemos ou tivéssemos condições de assumir, mas fingimos que somos homens maduros e levamos em frente. Os ritos de passagem são impiedosos. De repente somos homens, temos filhos, emprego de carteira assinada, RG, CPF, Título de Eleitor, CNH, dívida no BNH, IPTU, IPVA, DPVAT, trabalhamos o dia inteiro e trocamos fraldas à noite. Dormir? Só nas férias. De repente, nos tornamos idosos (maiores de sessenta). E o Branco sequer aproveitou os tempos de idoso, de furar fila, de entrar na frente no avião, de brincar com os netos.


Sacanagem, Branco. Na melhor hora da vida você tira o plantel do gramado! Ou queria chegar na frente do outro lado do rio Aqueronte? Fico lhe devendo um beliscão por isso. 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA III


A maior vergonha de apanhar e ficar calado, senão apanhava mais, é a modelagem de um caráter medroso. Custei a me dar conta disso. Um moleque da vizinhança, bem maior que eu, corria para me dar umas porradas sempre que me via. Até hoje não entendi porque aquele moleque tinha tanta vontade de me bater. Eu corria, lógico. Porque aprendi a apanhar, não a bater. Ele tinha o dobro de meu tamanho, claro. Mas seria uma honra muito grande enfrentá-lo. E eu corria. Depois que cresci, nunca mais o vi. Eu o via sempre metido em confusão, é bem provável que numa dessas ele tenha se ferrado. Depois fiz amizade com um grandão de minha escola e que morava perto de minha casa. Ele era muito grande para sua idade e negro. Não sei por qual das duas razões os outros moleques se afastavam dele. Então eu me grudei. Ele era manso, mas como ninguém se atrevia a mexer com ele, eu ficava sempre por perto. Outra razão do distanciamento dos colegas é que eu já sabia ler, escrever e contar quando cheguei à escola primária aos sete anos. Isso me fazia o queridinho das professoras e era mais uma razão de ter uma turma querendo me pegar lá fora. Mas logo eu descobri outra razão para os meninos da escola quererem me socar: tornei-me o queridinho das meninas. Descobri cedo que as meninas gostam de meninos inteligentes e que posam de tímido. Eu era tímido de fato, desses de corar de vergonha por qualquer motivo. No entanto, venci a timidez para ficar perto das meninas e do meu amigo grandão (Roberto era seu nome). Grande time: um menino tímido inteligente, metade das meninas não tímidas da classe e Roberto, o preterido pelo resto da turma. O medo acabou totalmente no dia em que um desses grandões me pegou do lado de fora da escola, junto à cerca. Eu esperava minha irmã Zália sair para irmos juntos para casa e um dos meus “inimigos” me encurralou na cerca de tela e começou a me bater com seu cinto. Eu reagi. Tomei o cinto de suas mãos e o usei do mesmo jeito que ele havia começado. Dei-lhe cintadas, tantas quanto eu consegui antes de adultos aparecerem para nos separar. Foi então que eles repararam que era um mirradinho batendo em um grandão. Na verdade eu não era tão mirradinho assim. Tamanho normal, magro e comprido. Mas os demais eram maiores e tinham mais idade. Ganhei respeito. Deixaram-me em paz depois dessa. Mas continuei amigo do Roberto grandão e das meninas da escola. Tive até uma namoradinha que saia de seu lugar na sala de aula e vinha me beijar quando a professora saia da classe. Até que um dia a professora, Dona Laila (linda Laila) nos pegou de namorico e nos deu uma bronca daquelas.

Outra grande descoberta dessa época foi o futebol. Nem sei quando nem quem me deu a primeira bola, mas foi paixão ao primeiro chute. O problema era a falta de parceiros da bola. Eu era o mais velho dos garotos da turma da Cemig. Meu irmão Zé Ricardo era dois anos mais novo e não era nada chegado na redondinha. Eu tinha sempre que negociar com ele para podermos fazer um bate bola de dois. Logo descobri um campo de futebol nas redondezas, uns quinhentos metros de minha casa, o campo do Montanhês. O problema era driblar a vigilância do pai e ir até o campo na hora da pelada. Foi assim também que eu descobri os meninos da vizinhança do condomínio, moradores do lado de fora da placa “atenção, alta tensão, perigo de morte”. E eles descobriram que a placa só assustava, mas o perigo era controlado. E esses meninos de fora começaram a ser quase de dentro, só para bater uma bola comigo e outros que iam crescendo e também começaram a gostar da redondinha. Essa paixão pela bola foi sempre um dos capítulos interessantes de minha vida e irá, sem dúvida, aparecer mais tarde, autorizadamente, nesta autobiografia desautorizada.

As notas sempre foram muito boas. Isso me dava algumas vantagens na organização doméstica. Eu tinha que trabalhar na horta, ajudar minha mãe no trato com os menores, e estudar. E gostava de estudar. Estava sempre na frente nas lições e lia muito. Lia tudo que aparecia na minha frente. Com isso, meu velho me comprava livros, me ajudava nas lições, mas me dava umas porradas se eu não cuidava direito de seus pés de couve, ou se atazanava os irmãos. Eu aprendi a lidar com essas coisas e não levava tudo a ferro e fogo. Não cresci nem revoltado nem carrancudo. Moleque, brincalhão, feliz. Os brinquedos preferidos eram colocar o arco para girar, fincar espetos de ferro no chão formando figuras, de motorista de caminhão (esse era para agradar o irmão e ele bater uma bolinha comigo), bater bola, lógico, correr pelos pastos da redondeza, ouvir o rádio, ouvir a mãe cantar enquanto trabalhava e outras coisas mais.


E assim seguia a vida. Cheia de brincadeiras, cheia de pequenas surpresas, cheia de trabalho, cheia estudos e aprendizados, cheia de luz. 

terça-feira, 28 de julho de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA - II


Antes que eu completasse cinco anos minha família (pai, mãe, eu, uma irmã e um irmão, a mãe grávida de uma menina) mudou-se para Nova Lima, Bairro Cabeceiras, Vila Madeira. Meu pai foi trabalhar na Cemig, em um local que chamam até hoje de subestação da Cemig. Se é sub é porque deve ter uma estação acima da sub na hierarquia, nunca entendi porque tem esse nome. Sei que é um local chave, ou nó, de uma rede de distribuição de energia elétrica do sistema brasileiro, hoje todos os pontos de distribuição são conectados, na época esse conceito nem existia. Morávamos a um quilômetro de distância do local de trabalho de meu pai, em uma casa que, até onde me lembro, tinha um quintal razoável, uma área na saída da cozinha com uma gangorra, ou balanço. Um dia caí do balanço, com a cabeça no chão, fiquei todo grogue e fui parar no serviço de saúde. Lembro-me de um médico olhando meus olhos com um fósforo aceso nas mãos pedindo que eu revirasse os olhinhos de um lado a outro para ver se eu tinha uma convulsão ou algo assim. Não tinha, só susto e medo. Mas criança adorava ir a hospitais, era uma forma de sair de casa e de todos lhe darem atenção, mais atenção que de costume, ô dó.

Depois de certo tempo nessa casa, já com mais uma irmã na família, mudamos para uma casa com quintal dentro da tal subestação. A casa era boa, com muros baixos, em uma região cercada tendo um portão com uma placa ameaçadora: “não entre, alta tensão, perigo de morte”. E nós lá dentro, junto com mais três famílias que foram chegando aos poucos. Cada família com algumas crianças que foram nascendo ao longo dos anos, até formarem grandes famílias com consideráveis proles. É a saga dessas famílias que vai aparecer na parte jovem dessa autobiografia desautorizada, na narrativa de minha juventude.

Fiz meu aniversário de cinco anos já nessa casa. Um momento engraçado dos meus cinco anos foi o presente que ganhei de aniversário: um jogo de copos azuis com uma jarra azul de vidro. Não achei nada engraçado. Criança de cinco anos quer ganhar carrinho, no máximo uma roupa, um par de meias, mas, um jogo de copos para beber água! Muito bizarro! Era um presente para os pais da criança, claro. Tive que engolir isso a vida inteira. Minha vingança é que, mais tarde, levei comigo os dois copos azuis que sobraram com o tempo. Eu os tenho até hoje. Cada vez que os pego para beber água, lembro-me desse presente de grego. De Sr. Vicente e D. Nazinha. Como era linda a D. Nazinha. Teve filhos (meus amigos até hoje), engordou enormidade e foi, a vida inteira, minha grande amiga. Ela tinha medo de dormir sozinha e, quando o marido viajava eu ia dormir na casa dela. Sempre me tratou como um filho e a vida inteira reclamou de minha ausência e das poucas visitas que eu fazia. Lembrar-me-ei dela sempre com um enorme carinho. Só não a perdoo pelos copos azuis de presente que, no entanto, são hoje os registros memoriais de seus olhos azuis. Beber nos copos azuis é um pouco como beber na fonte de seus olhos azuis.

A vida nessa nova casa não foi nada fácil. Fiz cinco anos e ganhei responsabilidades: molhar a horta e arrancar ervas daninhas dos canteiros de couve e de tomates. E tinha que ser bem feito senão... Porrada na orelha. Não sei como não tenho as orelhas tortas de tanto levar porrada. E como eu era o irmão mais velho, descontava neles. Estava sempre em desvantagem, claro. Porque para cada porrada que eu dava em um dos irmãos, ganhava mais duas. Descobri duramente que o melhor era ser gentil. Em geral, eu era. De vez em quando eu, inadvertidamente, dava umas porradinhas e vestia duas a três calças para doer menos, mas as porradas de meu pai sempre acertavam fora dos glúteos e doíam mais. Não adiantava o artifício. Cresci de porrada em porrada. Apanhei da vida muito menos, eu creio. As porradas da vida doeram menos porque eu já estava acostumado.

Outra responsabilidade adquirida foi aprender a ler e a fazer contas. Quem era o professor? O porradeiro mor da casa, óbvio. Se demorava a aprender, porrada. Se cometia muitos erros, porrada. Se errava nas contas, porrada. Minha cabeça que já era avantajada, cresceu mais. Fiquei cabeçudo de tanto levar porrada. Minha sorte é que eu aprendia rápido. Penso que por malandragem. Melhor aprender rápido e demonstrar destreza pelas matemáticas e leituras para me livrar das porradas. Meu pai me dava carinho também. Lembro pouco dos carinhos, porque era a hora do silêncio. Foi aí que comecei a amar o silêncio. Coisa boa era o silêncio, o melhor carinho que já recebi.

Entre os cinco e sete anos vaguei pela redondeza. Cumpria minhas responsabilidades, ganhava minhas porradas e ia brincar. Casa de muros baixos e portão aberto, tinha muito espaço para brincar. Numa casa vizinha morava uma família com uma garota da minha idade. Eu ia brincar com ela em sua casa, ou à frente de sua casa, já que os espaços eram grandes, ficávamos de namoricos infantis. Mas ela tinha uma vó que era uma megera. Tocava-me de casa, chamava a garota para dentro. Ela fazia suas maldades comigo. Descascava cana para os netos e me dava os nós duros da cana para comer. Sacanagem. E eu, besta que era, ficava mastigando com meus dentes de leite os nós duros da cana. Foi, creio, minha primeira ideia do que significa discriminação. O mestiço aqui não podia ficar muito tempo com as vizinhas louras que a vovozinha vinha logo atazanar. Filha da mãe. Essa família se mudou um ano depois e nunca mais tive notícias deles. Nem me lembro do nome da loirinha que brincava com o mulato aqui. Azar o deles.


Aos sete anos fui para a escola, aí já começa outra história.

domingo, 28 de junho de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA - I



Nasci magro e feio em um hospital de empresa no Vale do Aço, Minas Gerais. Magro e feio é a própria descrição de minha mãe. Embora magro e feio fui bastante visitado no hospital, também segundo minha mãe. No mesmo dia estava internado no mesmo hospital uma figura importante, tipo deputado, algo assim, e que ficava no quarto ao lado. Então muitas pessoas que visitavam tal deputado, por tabela, me visitavam também. Rico tem dessas coisas, quando visitam um parente no hospital, visitam também os pobres vizinhos dos leitos ao lado. Espírito de caridade. Pobre sempre serviu para isso, para os ricos católicos fazerem caridade. Por isso, talvez, a pobreza não pode acabar. Como os ricos católicos, ou ricos religiosos de outras religiões, fariam sua sagrada caridade, aquela que lhes garante uma entrada na porta do céu, com direito a entrevista do próprio porteiro (santo quem?). Hoje, também, não existe mais essa possibilidade. Claro, em que hospital dos dias de hoje o rico e o pobre convivem em quartos vizinhos? Não existe, claro. Onde já se viu pobre no mesmo hospital que rico? A segregação, hoje, não é maior, é diferente.

Como os tempos eram outros, nasci em berço de prata. Berço de ouro seria muito eufemismo, né? Berço de prata é uma boa descrição. Hoje eu durmo em cama de ouro, com a mulher que eu escolhi, e nem precisei ir para Passárgada, como o poeta, mas essa história é exatamente a que eu quero contar, nessa minha autobiografia desautorizada. Tentarei ser o mais objetivo possível, antes que o autobiografado desista de desautorizar o feito e não terei aquela emoção de escrever minha biografia sem o meu consentimento.

Depois de meu nascimento, talvez por uma questão puramente geográfica, meu pai se demitiu da empresa e lá fomos nós pelo mundo afora. Caímos na estrada, nas rodas dos caminhões e a vida continuou nos caminhos da rodovia em construção. Excesso de confiança de meu pai? Irresponsabilidade? Sei lá, o que me contaram é que, por não ter conseguido onde morar, em casa da empresa, ele se mandou, por pura teimosia. Teimosia era sua marca. Ô velho teimoso! E aí, a poeira das estradas em construção passou a ser uma presença em nossas narinas. E vidas. De Belo Horizonte a Teófilo Otoni.

A primeira lembrança de minha memória é um lance em um aeroporto (pista de pouso) gramado em TO. Morávamos ao lado dessa pista de pouso, lembro de correr para a varanda da casa toda vez que um pequeno avião pousava naquelas paragens. Uma bela tarde passeávamos pela pista de pouso quando uma teco-teco queria pousar. Estávamos bem no meio da pista, bem onde o bichinho queria descer, e tivemos que correr para fora do gramado, com o risco de sermos atropelados. Minha mãe afirma que seria impossível uma lembrança dessa porque eu não tinha nem dois anos de idade. Isso só me faz valorizar minha memória, eu sei que ela é poderosa. Lembro-me do não lembrável. Fazer o quê, né? Eu apenas gostaria de ter essa memória memorável ainda hoje. Por isso desautorizo minha autobiografia. Não sei se tudo que vou escrever aqui é fruto de minha imaginação.

O fato é que a gente nunca sabe como foram nossos primeiros anos, apenas aquilo que nossa mãe e tias contam nos cafés familiares. E como gostam de falar de nossas vidas de bebês, como éramos fofos, espertos, arteiros. Todos os pequenos são assim, o problema é que depois de alguns poucos anos já se transformam em pequenos diabos. A fofurice deles dura muito pouco tempo. Claro que comigo também foi assim. Irmãos aparecem um a cada ano, as famílias antigas fabricavam filhos como brincadeiras de verão. Com oito anos eu já tinha cinco irmãos. Hoje eles são todos belos, coroas e belos, mas naquele tempo eu, como o mais velho, deveria cuidar, acompanhar, dar bons exemplos, ser bom filho e, às vezes, limpar a bunda deles.  Imaginem.

Ao que me lembro nossa vida era mais na estrada que em uma casa. Meu pai trabalhava em construção de estradas e viajava com o avanço da mesma. Em três anos tivemos vários endereços: Sabará, Nova União, Teófilo Otoni, Timóteo e várias vezes em Rio Piracicaba, na Fazenda Potreiro, casa de meu avô, onde passávamos férias e para onde meu pai nos levava quando estávamos de mudança, ou quando mudava de emprego também, o que aconteceu algumas vezes até chegar à cidade de Nova Lima quando eu tinha já meus cinco anos. Aí entramos na fase dois. Ou capítulo dois.
 


O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...