domingo, 10 de novembro de 2013

DISTÂNCIAS E PROXIMIDADES ***


Distâncias são sempre relativas. E sempre que nos afastamos há algo que nos aproxima do ponto de origem, mesmo que distante. Minas Gerais nunca esteve tão próximo de mim que quando morei no exterior. Dizem os mineiros que levamos a terra junto em nossas viagens. Uma terra que gruda no fundo dos bolsos.

Levamos os sabores, por exemplo. Do pão de queijo e da broa de fubá, sem dúvida. Também a música. Levamos o Clube da Esquina inteiro na mochila. Levamos a viola caipira e a moda de viola dos mucuris e jequitinhonhas das gerais. Levamos os congados e os candombes. Mineiro é assim, talvez sejamos todos assim. Viajamos e levamos nos bolsos nossa ancestralidade, nossa cultura. É quando o longe fica perto. E vamos agregando outros valores. Uma coisa que fazemos bem também é degustar a cultura alheia e nos apropriarmos dela. É a nossa antropofagicidade, elemento presente na cultura brasileira.

Certa vez um jovem franco-libanês habitante de Marseille, no sul da França, veio ao Brasil encontrar e conhecer seus primos brasileiros-libaneses. Assustou-o o fato de que seus primos não falavam árabe. Eram mais brasileiros que libaneses. Nossa antropofágica cultura se alimenta das outras culturas. Nesse movimento inverso a distância os afastou em vez de aproximar.


Distâncias e proximidades são relativas.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

ESCOLHAS


Ok, temos sempre que fazer escolhas. No entanto, criar é muito mais que fazer as escolhas certas. Criar é fruto de um processo que nos individualiza no mundo. Criar é o contraponto a um outro processo, que também envolve escolhas, o de pertencimento ao mundo. Pertencimento a um lugar, pertencimento a um grupo ou clã, pertencimento a um modo de vida, pertencimento a uma ideologia. Pertencimento e individualização carregam aquela tensão polarizada que nos define como parte de alguma coisa, mas uma parte muito particular daquela coisa. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

DESENTENDIMENTOS


Desentendimentos com familiares sempre são desagradáveis e pesam muito, principalmente quando você já tem mais de sessenta e acha que o tempo de recuperação é sempre menor que antes. Pior ainda quando você acha que tem suas razões e não adianta fazer muita coisa porque qualquer coisa que fizer estará errado, por princípio. Principalmente quando a outra parte faz julgamentos passionais de processos que podem ser nominados de normais e simples. E a pressão sobe. A minha arterial hoje pulou para cento e setenta por cento e um. Minha pressão sempre foi baixa, cento e dez por setenta, máximo de cento e vinte por oitenta. O estresse dos últimos tempos a fez subir gradativamente chegando a esse ápice hoje. Mudei de patamar estatístico. Cardiologista à vista, consulta para segunda próxima.
Hora, então, de me recolher ao silêncio, de esperar que outras luzes me iluminem, pois as atuais encontram-se um pouco ofuscadas. Hora de me preparar para pequenas e grandes perdas, quando eu achava que ser avô compensaria todos as demais perdas da vida, tipo um que se vai, outro que ocupa seu lugar. Mas não é assim. A vida não é tão direta, as respostas nunca estão na ponta da língua, as frustrações contidas nos fazem explodir. E a pressão sobe.
O ativista ambientalista John Francis ficou dezessete anos em silêncio, sem pronunciar uma palavra com ninguém. O dia em que resolveu voltar a falar assustou-se com a própria voz. Não falou nem mesmo com seus familiares e disse que aprendeu muito. Aprendeu o verdadeiro sentido da comunicação, por exemplo. Eu não conseguiria ficar sem falar, acho a fala fundamental, mas bem que eu gostaria de falar menos. E passo, de agora em diante, a me empenhar para isso. Que o silêncio me regenere de alguma coisa. Psiu.


terça-feira, 5 de novembro de 2013

CINCO MINUTOS


Cinco minutos no jardim, em completo silêncio, sem pensar em absolutamente nada, respirando fundo. De uns tempos para cá, começo meus dias assim. Apenas escuto. Pios de pássaros, passos de lagartos, canto de cigarras, ruídos de ventos, barulho de carros nas ruas. Nenhum vizinho ligou o rádio ou colocou para tocar aquele CD novinho de música sertaneja, ou funck, ou axé, ou pagode. Maravilha! Agora estou pronto. Primeiro, relato esse fato acontecido, depois vou ver quem ousou me enviar um e-mail durante a noite. Ninguém. Maravilha de novo!

As portas do dia se abrem para que eu deixe entrar o que eu queira, ou quem eu queira que entre. Embora a agenda só cresça, o dia tem apenas dezoito horas (seis horas de sono não contam). Considerando os tempos de pausa, umas três a quatro horas distribuídas nestas dezoito, sobram-me quatorze a quinze horas para as atividades propostas e outras que por ventura surjam fora da agenda e que seja imprescindível que eu as execute. Então, mãos à obra, uma hora de pausa já se foi.

Em tempo, escrever uma crônica estava na agenda.


SURDOS DE TANTO FALAR


Pode ser engraçado, mas parece que pessoas que falam demais ficam surdas. De tanto escutarem a própria voz deixam de ouvir os ruídos da vizinhança, os barulhos da rua, os sons do jardim. Deixam de ouvir a torneira pingando e as vozes de outras pessoas. Tenho parentes assim. Acreditam que não escutam mais, visitam otorrinos que lhes vendem aparelhos de audição bem caros e eles continuam não ouvindo. Reclamam do aparelho, trocam por outro teoricamente mais performante (e mais caro) e continuam não ouvindo. Finalmente admitem que são surdos e desistem de ouvir.
Fiz um teste com um desses parentes dias atrás. Ele estava aflito, cheio de angústias. Eu o sentei no banco do jardim, exigi que se calasse por cinco minutos e que respirasse fundo e devagar. À medida que ele foi respirando pedi que fechasse os olhos e escutasse os sons do jardim. Um sabiá e uma cambaxirra cantavam nos arvoredos não muito longe. Perguntei se ele escutava o som dos dois pássaros, ele disse que sim. Pedi que me apontasse com o dedo a direção de onde vinha os cantos dos dois e ele apontou corretamente. Ele abriu os olhos e confirmou visualmente a presença dos dois pássaros e perguntou o que eu tinha feito para ele escutar de novo pois estava sem o aparelho auditivo. Quando eu respondi que ele não era surdo, apenas não parava de falar e não prestava atenção no entorno, ele se surpreendeu.

Tudo que precisamos para nos encontrarmos no mundo é escutar a nós mesmos e escutar nosso entorno. Saber onde estamos e para onde vamos. Escutar é o mais importante sentido para aprendermos e comunicarmos com o mundo. A boa comunicação depende de uma boa escuta mútua. 

sábado, 2 de novembro de 2013

CENTROAVANTES E CRAQUES



O futebol está tão medíocre que é difícil encontrar um novo craque nesse lamaçal de cabeças de bagre. Os times continuam fazendo gols, claro. Os jogadores tem preparo físico, correm como loucos, dão cacetadas como se estivessem em guerra e o adversário quisessem lhes comer as tripas fritas no jantar. Um festival de horrores! 

Onde está aquela cadência, aquela malemolência do belo da arte? A ginga, o drible, e o mais importante, a percepção do lance antes que ele aconteça? Onde está aquele centroavante que se antecipa ao lançamento e a bola chega mansamente a seus pés e a ele basta empurrá-la com sutileza e doçura para o gol? 

Citarei aqueles que vi jogar e, claro, deixarei fora de minha lista alguns. Não vou falar de Pelé e Tostão, dois fora de série que não eram centroavantes, eram pontas de lança (para usar uma denominação de meus tempos de garoto). Hoje os denominamos meias-armadores. Mas centroavantes como Vavá, que fez muitos gols pelos clubes e pela seleção brasileira, foram poucos. Outro era Claudio Adão, que sabia se colocar na área como ninguém. Dario Maravilha não tinha doçura, mas muita sutileza. Reinaldo foi o maior deles. Se tivesse físico teria assombrado o mundo. Seus joelhos não aguentaram. Hoje teria feito muita musculação e talvez aguentasse mais um pouco. Depois dele apenas Romário, o último dos mohicanos, e mais ninguém. Careca quase chegou lá, Ronaldo Fenômeno aliava inteligência e força e também chegou perto. Faltou-lhe a doçura de Romário. Recentemente vi lampejos de vivacidade em Fred, já maduro. No entanto, bobagens dele camuflam seus bons momentos. Estamos, pois, à espera desse centroavante. Alguém diferente e que faça toda a diferença. 

FAZER DIFERENTE


Eu quero apenas fazer diferente. Nunca fui especialista em seguir regras, de fato. Quando eu escuto os discursos de pessoas que se dizem especialistas em sucesso, penso logo que se tratam de pessoas sem talento que seguem as regras e ganham muito dinheiro para isso. Porque basta seguir as regras para se ganhar dinheiro. Não é o dinheiro que me interessa. Nem as regras. O que me interessa é fazer diferente. Se eu tiver que ser reconhecido por alguma coisa algum dia, gostaria que fosse por fazer diferente.

Talvez eu tenha seguido regras demais e tenha ficado no meio do caminho. Talvez eu não tenha sido ou feito diferente nos momentos em que deveria sê-lo ou fazê-lo. Talvez tenha me faltado aquele bom nariz para sentir o momento exato para ser ou fazer diferente. E tenha sido apenas meio diferente, não o suficiente para ser marcado como o diferente. Bom, o tempo passou, embora eu não pense que tenha perdido tempo, tempo não se perde, apenas passou. Agora eu tenho todas as possibilidades do mundo para ser ou fazer diferente. Minha hora está chegando?


Levo a sério uma frase de um filósofo francês, Serge Feaucheraud, que, quando vê uma obra de arte, pensa: eu poderia ter feito isso, só que eu faria diferente. Eu diria, parafraseando Feaucheraud: tenho talento para fazer qualquer coisa, mas faria diferente, tão diferente que ninguém acreditaria. Hora de mostrar minhas diferenças. Sou e faço diferente.

O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...