terça-feira, 15 de março de 2022

32 PALAVRAS

Conhecer, saber, informar-se, compreender, entender, capacitar-se, habilitar-se: são muitas as nuances do aprendizado e muitos verbos com significados próximos, e diferentes, sobre essas nuances. Lembrei-me de um artigo que li em uma revista científica francesa sobre a cultura indígena: afirmava que tribos amazonenses têm trinta e duas palavras diferentes para distinguir diversos tons de verde. Contei isso para uma amiga chinesa, como quem conta vantagens, ela me disse que os povos habitantes dos desertos gelados do norte da China também têm trinta e duas palavras diferentes para distinguir os diversos tons de branco. Chamou-nos atenção o fato de o número ser o mesmo: trinta e duas palavras. Trinta e dois tons de cores, para as diversas cores? Existiriam trinta e duas palavras diferentes para distinguir “tonalidades” de conhecimento? Iniciemos uma lista. Sete palavras já foram escritas no início desta crônica, quem quiser ajudar a fazer crescer a lista enviem-nos as palavras, com seus significados. Eu já passei por vários desses estágios e, recentemente, acrescentei uma palavra por minha conta e risco: ressignificar, palavra que o dicionário online de meu editor de texto se recusa a validar. Preciso ressignificar isso.

Mas o que seria ressignificar? O conhecimento é como uma bola de neve montanha abaixo: vai crescendo à medida que a bola rola. Vai se acumulando, se acrescentando aqui e ali. Todas as teorias do conhecimento, de Rousseau a Paulo Freire, passando por Piaget, Vigotsky, Vallon e Maturana, são unânimes em dizer que conhecimento não brota em árvores. É preciso conhecer e reconhecer para conhecer mais. É preciso ter conhecimentos prévios para se apropriar de conhecimentos novos, para que esses tenham significados. Essa é a base, por exemplo, da Aprendizagem Significativa, de Ausubel. E ressignificar? O que seria uma Aprendizagem Ressignificativa?

Arrisco dizer que ressignificar conhecimentos é tirar lições positivas de conhecimentos acumulados mesmo que a experiência inicial em sua primeira, ou anterior, apropriação tenha sido negativa. Ressignificar é eliminar traumas transformando-os em lições de vida. Ressignificar é aumentar a bola de neve e ver seu potencial de energia crescente à medida que desce o morro, levando conhecimento transformador e não destruidor.

Ernest Heminguay perdeu os originais de seu romance em um naufrágio no Mediterrâneo e foi para Paris choramingar com Gertrude Stein. A escritora americana deu-lhe o melhor conselho que poderia dar: - “Escreva de novo, certamente sairá melhor”. “Por Quem os Sinos Dobram” não é apenas, provavelmente, melhor que os originais afogados. É uma obra prima, merecedora do Nobel. Isso é ressignificar. Transformar o conhecimento, ou qualquer outra das trinta e duas palavras (considerando que teremos trinta e duas palavras para isso), em novo (mais positivo, melhor?) conhecimento.

 

terça-feira, 8 de março de 2022

MÃE, MULHER OUTRA


Mãe não é mulher.
Mãe é uma imagem de mulher
que se destrói
ao nos tornarmos homem.
Aí, mãe se refaz mulher.
Distante.
Mais próxima que antes.

 — Os filhos crescem, geralmente nos esquecem. Um dia se mandam e não voltam nem para uma visita. Nem parece serem filhos da mãe. Ainda bem que ficou um para me ajudar em minha velhice.

Com essa frase, que pode parecer carregada de ressentimentos, Zara começa a contar um pouco de sua vida ao jornalista que fora entrevistá-la. Ela completaria noventa anos naquela semana e o jornal da cidade tinha em pauta reportar um pouco da vida das mulheres idosas e suas histórias. Porque a história das mulheres idosas é mais de luta e sofrimento que de alegrias. No entanto, Zara trazia um sorriso ainda encantador em seu rosto marcado pelas rugas da idade. Entre um sorriso e outro, vai repassando a trama de sua existência, relembrada em impulsos de sua memória já estremecida.

Zara veio ainda jovem do sertão de Minas Gerais, lá dos gerais de Guimarães Rosa, onde o Urucuia serpenteia, às vezes raso, às vezes profundo. Pegou a estrada já com um filho na barriga, fruto dos avanços forçados do filho do dono da fazenda. A própria família a mandara embora. A mulher ser sempre suspeita é coisa antiga e mudou muito pouco. Nem a pós-modernidade conseguiu tirar-lhes essa culpa.

Chegou à capital sem saber para onde ir. Não queria que com ela acontecesse o mesmo que a muitas mulheres na mesma situação: cair na prostituição. Como era de boa conversa, pediu ajuda às pessoas, sonhando encontrar uma boa alma. Afinal, ela sabia cozinhar bem. Comida da roça, claro. E aprendia a dar uns alinhavos nas roupas quando precisou pegar a estrada. Medo e vergonha de trabalhar não tinha. Assim, pergunta aqui, conversa ali, conta história acolá, Zara foi convidada por uma senhora para trabalhar em sua casa, como doméstica.

Ficou por lá uns tempos, teve seu filho e a vida foi se conduzindo no automático das horas. Os patrões, gente boa, tinham filhos homens que, infelizmente, começaram a assediá-la.

— Muitos homens não conseguem ver uma mulher sozinha que se acham no direito de importuná-la. Levá-la para a cama para depois sair contando vantagem, conta Zara. São uns bobocas.

— E o que fez a senhora quando isso aconteceu? — Pergunta o jornalista.

— Fiz minhas trouxas e fugi. Foi aí que vim para Nova Lima. Para trabalhar e criar meus filhos. Tive mais dois, mesmo sem me casar. Porque queria ter filhos, não maridos. Eu já sabia que maridos costumam ser um atraso na vida da gente. Eles querem ser nossos donos, não nossos companheiros.

— A vida é muito dura com as mulheres solteiras e mães. Como se ter filhos sem marido fosse um atestado de ruindade, ou de incompetência. E pais que não são maridos desaparecem e os deixam crescer sozinhos, Zara continua relatando.

— E como a senhora conseguiu criar seus filhos? — Pergunta de novo o jornalista que, na verdade, preferia deixá-la falar à vontade que ficar provocando-a com perguntas.

— Aluguei uma casinha simples e comprei uma máquina de costura. Os móveis e utensílios da casa fui ganhando das pessoas. Existem pessoas bondosas, a maioria é. Rapidamente consegui trabalho. O problema maior é que os moleques ficavam muito soltos e iam para a rua. A rua é uma escola complicada. Ensina coisas boas e ruins.

— Um de meus filhos foi pego pelo lado ruim da rua. Meteu-se em encrenca com as gangues do bairro e, certo dia, apareceu morto com um tiro no peito.

As lágrimas veem aos olhos de Zara ao comentar isso. Pode-se perceber que a dor ainda é muito grande, embora um tempo longo tenha se transcorrido.

— Depois disso, o segundo filho preferiu ir embora. Não queria ter o mesmo destino de seu irmão. Nunca mais voltou. Pelo menos sei que está vivo. Até me envia dinheiro ocasionalmente. Não preciso, então o guardo no banco, em uma caderneta de poupança. Se ele voltar um dia e precisar da grana, ela está lá no banco, à disposição.

Nesse momento entra Mauro, seu terceiro filho. Um mulato bonito, forte, ainda jovem, chega com Saulo que veio visitar a avó. Saulo é filho de Mauro, neto de Zara, carrega uma mochila com seus apetrechos. Veio direto da faculdade e entrou para ver o que estava acontecendo. Curiosidade de neto que mora vizinho à avó.

A tristeza nos olhos da vó Zara dá lugar ao sorriso escancarado, mostrando os dentes ainda bem cuidados. Zara é um exemplo no bairro. Muitos da vizinhança demandam seus conselhos e sua benção de benzedeira de boas rezas, que sabe curar mau-olhado, tristezas do coração. Quem a vê, hoje, nem imagina o quanto de dor e sofrimento pelo qual ela passou na vida. Com certeza, será uma bela reportagem.  


sábado, 5 de março de 2022

AINDA ESCREVO CARTAS

Neide me escrevia cartas quando eu morava na França. Era ótimo chegar em casa e encontrar cartas na caixa do correio (La Poste, lá): cartas dos familiares, carta de amigos e carta da Neide. Era especial. Porque ela me contava de sua vida e sempre me perguntava sobre mim, mas sobre minhas verdades. Neide era atleta, praticava um esporte do agrado dos mineiros: peteca. Tinha, por isso, as mãos grossas e calejadas. Sempre que podia eu a acompanhava em alguns jogos. Aprendi esse esporte com ela.

Em uma vinda ao Brasil, naquele período de vida na França, a visitei em sua casa. Estava triste e sozinha. Seu marido havia arrumado outra pessoa para dividir sua vida e isso a magoara. Ela não sabia o que fazer com aquela novidade e sofria. Curioso é que eu não conhecia ninguém de sua família. Havíamo-nos conhecido no trabalho e ficamos amigos, assim, sem mais nem menos. Nos encontrávamos para um cafezinho, uma conversa sem compromisso e para eu assistir seus jogos de peteca. Chegou a ser campeã municipal e estadual em sua categoria.

Um dia parei de receber suas cartas, e as minhas foram devolvidas. Que poderia ter acontecido? Em minha volta ao Brasil a procurei pelos caminhos onde pisamos juntos e ninguém sabia dela. Desaparecera sem deixar pegadas que eu pudesse encontrar. Algum tempo depois, uns anos depois para ser correto, encontrei, ao acaso, uma pessoa que trabalhara conosco no mesmo local onde nos conhecemos e que era sua amiga. Perguntei por ela e a resposta, surpresa, foi: — Neide faleceu, de câncer. E vocês eram tão amigos, como não soube?

Ela não quis que eu soubesse. Por isso publico esta crônica/carta. Minha primeira carta a ser mostrada no novo espaço (#aindaescrevocartas[i]) seria para ela. Vinte anos depois. Como não conhecemos os endereços de nossos queridos que se foram, impossível enviar uma carta. Penso também que lá não deva ter uma agência dos correios e a correspondência deve ser por pensamento, telepatia, algo assim. Se for assim, então, carta enviada.



[i] https://www.facebook.com/groups/1629135930765971

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

CHEGUEI AOS 69. E AGORA?

Cheguei aos sessenta e nove anos. Até aqui a estrada foi árdua, com pedregulhos e poças d’água, mas também com alegrias, emoções, muitas emoções, e trabalho. Muito trabalho. Durante mais de quarenta anos fui professor. Há exatos oito anos deixei de sê-lo. Não que não amasse a profissão, apenas porque pensei ser hora de fazer outras coisas na vida.

Esta transição para “fazer outras coisas na vida” não é fácil. Primeiramente, comecei a trabalhar com consultorias para instituições escolares. Uma consultoria para uma instituição em Juiz de Fora, Minas Gerais, permitiu-me bons ganhos, bons relacionamentos que passaram a barreira do profissional e muitas viagens. O que é bom, no entanto, chega ao final, diz o ditado.

Por mais que me preocupasse com essa transição e tivesse oportunidade de escolher o caminho a seguir, a profissão exercida por muito tempo gruda na gente como carrapicho. Uma vez professor, sempre professor. Voltar à sala de aula, no entanto, estava fora de questão. Como tudo em minha vida aconteceu por acaso, mais um se tornou realidade. Passei a escrever livros e produzir outros.

Na verdade, agora conto histórias, uma forma diferente de ser professor. Ser escritor era um sonho de juventude. Sempre gostei de escrever. Faltava, no entanto, a disponibilidade para isso e, principalmente, o talento. Que vem com a prática, com muita escrita jogada fora. Não há talento no mundo que se adquire sem muito trabalho, sem muito treino. Hoje, tenho a coragem e audácia de dizer que faço isso bem, e continuo treinando. Escrevo todos os dias simplesmente para escrever melhor. Como um atleta que treina diariamente para competir no fim de semana. Como o músico, que treina uns quatro meses para um concerto. Quer ser bom em algo? Treine muito. Porque histórias para contar, temos muitas, contá-las bem, é outra história. Sou um eterno aprendiz.

Estou naquela idade em que as pessoas perguntam: - o que você fez para chegar tão bem nesta idade? Tem algum segredo? Há, sim, alguns segredos. Quem quiser uma mentoria sobre como envelhecer bem, entrem em contato e me contratem. Segredos dados, de graça, não têm valor. Conto um só, como um bônus: o bom humor. Fundamental. Sem bom humor, não se chega a lugar nenhum.

Meu projeto agora é chegar aos noventa e seis. Com bom humor e com muitos amigos. Ter amigos é outro segredo. Acabei contando mais um. Claro que não é fácil manter o bom humor e ter muitos amigos. Comece treinando o sorriso, este é de graça e faz um bem enorme para quem o recebe. Abre muitos caminhos. E prepare-se para “fazer outras coisas na vida”. Com amor!


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

UM POUCO DE MINHA HISTÓRIA

Nasci grande, magrelo e feio, segundo minha própria mãe. Estava todo enrugado e minha pele só se desenrugou depois de uns dias. A gente já nasce perdendo e ganhando. Sim, perdendo o calor do útero, perdendo a alimentação fácil, perdendo a atenção das pessoas àquela barriga bonita e redonda da mãe. Por isso nascemos chorando e provavelmente assustados? Por outro lado, ganhamos os olhares carinhosos e felizes dos familiares, o amor das pessoas. E eu nasci em um hospital de cidade de interior, bem cuidado. E saí para o mundo, pus os pequenos pés na estrada.

O inquieto do meu pai pediu demissão na empresa onde trabalhava quando eu tinha apenas um mês. E foi trabalhar em uma construtora de estradas no interior de Minas Gerais. Pé na estrada por aí a fora. Em quatro anos eu provavelmente andei alguns milhares de quilômetros. Por onde as máquinas iam, a gente ia atrás. De Belo Horizonte a Teófilo Otoni fomos e voltamos várias vezes. Com algumas paradas em Rio Piracicaba (MG), onde meu avô tinha uma pequena fazenda. Entre uma casa e outra pelos caminhos, parávamos lá por vários dias, semanas, até por meses. Tenho boas memórias dessa época, desde que um pequeno consiga se lembrar. E minha memória vai até os dois anos, quando me lembro de uma casa perto de um aeroporto em Teófilo Otoni. Isso porque, um dia, tivemos que correr da pista gramada onde um pequeno avião iria pousar.

Aos quatro anos, quase cinco, chegamos em Nova Lima (Minas Gerais), quando finalmente meu pai parou de viajar. Eu nem havia completado cinco anos, e nascera o quarto filho da família: uma menina. Foi quando moramos em uma casa com quintal grande, por alguns meses, e depois mudamos para outra, onde morei dos cinco aos vinte anos. E assim começa minha vida de perdas e ganhos. Aos cinco anos, começo a trabalhar. É quando meu pai começa a me ensinar a ler e fazer contas e a cuidar da horta e do jardim de nossa casa.

Esta é uma ótica interessante, creio eu, sobre como encarar sua história de vida: enumerando perdas e ganhos ao longo do tempo. As perdas e os ganhos acontecem todos os dias. Pequenas e grandes perdas e pequenos e grandes ganhos, muitas vezes variando de posição conforme o olhar, dependendo do foco. Algumas perdas se transformam em ganhos dias depois. O contrário também acontece: quantas vezes pensamos que saímos ganhando em alguma empreitada, em algum jogo, para depois percebermos que aquele ganho de ontem se transformou em uma grande perda. Neste jogo da vida tudo acontece.

Aos cinco anos aprendi a ler. Isso me custou algumas horas por dia sem brincar, algum tempo tendo que pousar os olhos naquelas letras cabulosas e decifrar significados naquelas palavras que, naquele momento, podiam não fazer sentido nenhum. “Eu me chamo Lili” era meu martírio. Mas, saber ler tinha algumas vantagens. Quando chegava visitas em casa, meu orgulhoso pai me pedia para ler para as visitas. E isso acabava em afagos das senhoras visitantes. Aprendi a gostar cedo daquele carinho de seios das mulheres roçando meu rosto. Perdas e ganhos.

Quando completei sete anos e fui para a escola primária, os cartazes da sala que devíamos ler até cansar, traziam as frases: “Eu me chamo Lili”, que meus colegas suavam para soletrar até aprenderem a decorar as palavras. Não sei se aprendiam assim. Novamente, que martírio! Pelo menos a professora percebeu minhas qualidades de leitor e pediu-me que ensinasse os colegas a ler os cartazes. Isso me valeu a admiração das meninas e ganhei uma namorada. De nome Eliane. E que saia de sua posição do outro lado da sala e vinha me dar um beijo quando a professora, por algum motivo, saia de cena. Novos ganhos.

E o trabalho na horta de nosso quintal era outra atividade que me tirava o tempo de brincar. Eu devia me agachar nos canteiros e arrancar com as mãos todos os matinhos que insistiam em nascer ao lado dos pés de couve, alface e outras verduras. E molhava as plantas também uma vez por dia. E se fazia errado ganhava as tradicionais porradas e cascudos que os pais daquela geração insistiam em dizer que eram preventivas e corretivas. Esses cascudos são uma perda total. Perda de afeto, perda de identidade, perda de autoestima, que tem um custo altíssimo em nossas vidas. Só com análise, bem mais tarde, quando a gente descobre o quanto de mal aquilo nos fez. Essa perda não tem recuperação fácil. Ganhei, no entanto, um apego à natureza, um conhecimento do gesto e do ofício de plantar, coisa que sempre fiz na vida. Grandes perdas, grandes ganhos.

A vida, no entanto, me levou a viver as grandes mudanças do século XX e cheguei na infância do século XXI justamente com o advento de minha maturidade. E como eu tive a oportunidade de fazer um curso superior na área de Ciências (graduei-me em Física) eu pude, também, acompanhar os grandes avanços científicos e tecnológicos dos últimos tempos. Como professor de Física trabalhei em cursos de Engenharia e de formação de professores em várias instituições. E como Doutor em Ciências da Comunicação e Informação participei de inúmeros projetos de pesquisa em cursos de Mestrado em Educação Tecnológica e de Estudos de Linguagem. Coordenei mais de cinquenta projetos de pesquisa na área de Ciências Humanas e mais de mil projetos de produtos tecnológicos em Engenharia. Isso me deu uma experiência enorme na gestão de projetos. Grandes ganhos. Mas a idade avança e um dia a gente resolve mudar de ares. É onde a vida pessoal e profissional se embaralham. Perdas ou ganhos?

Esse relato inicial é só mesmo para falar de perdas e ganhos na vida, que começam logo cedo. Para irmos aprendendo que

                 "viver é muito perigoso"[1].

E a gente precisa ganhar um bom jogo de cintura logo cedo para não sair só perdendo. Cresci assim.

                “Vivendo e aprendendo a jogar”[2].

Nunca ganhei grandes coisas na vida, em termos materiais, mas ganhei muita experiência, muita sabedoria. E é essa sabedoria que me ajuda a viver hoje. É com ele que eu vou.

 


[1] Frase de Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas

[2] Letra de música de Guilherme Arantes (Aprendendo a jogar)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

QUEM TEM MEDO DE ENVELHECER?

Medo de envelhecer, quem não tem? Até os cinquenta e poucos anos nem me passava pela cabeça que envelheceria. Meu tempo era totalmente ocupado pelo trabalho, pelas relações familiares e relações pessoais. Não havia espaço em minha agenda para pensar no óbvio: o tempo passa.

O baque veio aos sessenta anos, com a aposentadoria. E depois com um divórcio e a solidão típica de quem, de repente, vê seu futuro se encher de hoje e ser obrigado a dar conta dele. Só então percebi que o futuro era só aparência e que o único tempo que existe é o presente.

E então, o medo de envelhecer nos assola ao acordar e não ter ninguém a seu lado, os filhos moram longe e cada um cuida de sua vida (ainda bem), e você tem mais vinte e quatro horas para fazer o seu melhor.

Claro, tudo isso passa. O que precisa é aproveitar que o passado ficou para trás e o futuro, de fato, não existe. Agora, o que vale é ter um bom projeto para viver o seu presente da melhor maneira possível. Foi assim que fiz. Escrevi meu projeto de vida para chegar aos cem anos saudável e lúcido.

Quer conhecer um pouco deste projeto? Ele já está em curso. Você pode acompanhar lá no meu canal Youtube (www.youtube.com/MrPcventura), e aqui neste meu blog. Podemos manter este diálogo nos muitos anos que ainda temos pela frente. Venha! 

NOVOS MEDOS


A pandemia nos trouxe medos diferentes, além do natural medo da morte, que todos temos. Veio o medo da perda de pessoas queridas. Nesses dois anos de pandemia perdi uns cinco amigos diretos e muitos conhecidos, amigos e parentes de amigos. Nem foi possível chorar por eles. Não tiveram aquele velório com vigília noturna e café quente (até mesmo uma cachacinha) para nos esquentar durante a madrugada. Velório é aquele em que a gente encontra velhos amigos e parentes há muito não vistos e ficamos nos falando sobre os velhos tempos.

Agora temos medo da tosse do vizinho, do abraço apertado da amiga que nos abraçava sempre que nos via e do chamego gostoso de primos e primas. Este medo moderno, contemporâneo, é assustador. Veio para ficar? O que temos a aprender com ele? Será que aprendemos?

Alguns dizem que trouxe a solidariedade. Será? A solidariedade existe onde sempre existiu: entre os iguais na dor. A pandemia não nos trouxe a solidariedade social, organizacional, institucional. Se aqueles que deveriam divulgar, difundir e espalhar a solidariedade pelos quatro cantos e, com exemplos, dar atenção e apoio aos que mais necessitam, sonegam vacinas a crianças e afirmam que cloroquina, condenada no mundo inteiro, é melhor que vacina, quem nos acudiria?

Aumentaram as desigualdades sociais, os preços foram às alturas em nome de uma internacionalização de custos, o desmatamento aumentou em demasia, mortes de indígenas, negros e população LGTBQ+ bateram recordes, violência doméstica cresceu, o custo do sistema político antidemocrático mais que duplicou, o agronegócio acumula lucros enquanto a fome aumenta. A boiada passa, enfim, como sugeriu o ex-ministro.

O que aprendemos, então? Aprendemos que a dor continua solitária.

O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...