quarta-feira, 21 de outubro de 2015

CONHEÇA-TE A TI MESMO


Hoje eu li em dois livros diferentes a recomendação de "conhecer-te a ti mesmo", em duas situações diferentes. O primeiro, um filósofo (Chistopher PHILLIPS, Sócrates Café) escrevendo sobre o pensamento de Sócrates recomendando o "conheça-te a ti mesmo" considerando que o "eu" é alguma coisa do qual você não pode fugir. O segundo, em um romance de Anton TCHEKHOV (Une banale historie), seu personagem Nicolai Stépanovitch, um "velho" professor de sessenta e dois anos e deprimente figura à espera da morte filosofando sobre seu estado, chega à conclusão que "conhece-te a ti mesmo" é muito bonito e útil mas, no entanto, é lamentável que os anciões não tenham sido avisados a tempo do "modo de emprego". E no mesmo dia tive um cliente em busca do "modo de emprego" para se conhecer a si mesmo e pensar em uma carreira digna. É o "conheça-te a ti mesmo" para não ter essas dúvidas socráticas. A boa questão talvez seja, segundo Tchekhov: - o que você deseja? Quando o personagem Nicolai Stépanovitch pergunta - "o que eu desejo", ele lista uma serie de tais desejos importantes a esta altura da vida em que se vê próximo à morte e descobre que falta algo de essencial, uma ideia geral que liga todos esses desejos. 

E o que liga nossos desejos? Qual a ideia geral deles?Um filósofo americano moderno e um romancista russo do século dezenove colocando-me uma questão séria de Coaching: o que liga o meu "eu" a meus desejos e que os torna tão importantes? 

Como escreveu o velho astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão em seu livro A Astronomia em Camões, nossas perguntas e respostas estão na literatura. Basta ler para obtê-las.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA X


Escrevo em um dia quinze de outubro, dia em que se “celebra” o dia do professor. Vou dar mais um salto na cronografia dessa autobiografia para comentar como me tornei professor e o que penso da profissão, considerando que a exerci durante quarenta anos. Creio que tenho certa autoridade naquilo que passo a expressar a partir de agora.

Início de março de mil novecentos e setenta e um, não me lembro o dia, sei que era março porque as aulas começavam em março. Eu havia sido aprovado em um vestibular de Física na Universidade Federal de Minas Gerais, ainda em dezembro do ano anterior, matrícula feita e esperando o início das aulas, e havia completado dezoito anos no final do mês de fevereiro. E tinha ganhado uma carta de alforria de meu pai acompanhado de um sermão que terminava com as seguintes palavras: - de hoje em diante, meu filho, SE VIRA. Atrás de você tenho mais oito para criar, portanto vai à luta. Mas ainda eram férias, eu não tinha a menor ideia do que iria fazer, sabia apenas que tinha que começar a trabalhar. Com todas essas preocupações eu jogava futebol todos os dias. Claro, morava ao lado do campo do Montanhês Esporte Clube, glorioso time amador de meu bairro e, além disso, tínhamos um pequeno campo de futebol bem no pátio do nosso território, um espaço ao lado da subestação da Cemig, onde meu pai trabalhava. Éramos quatro famílias morando no local e jogar futebol às tardes, principalmente no verão, era um privilégio raro. E eu exercia sem parcimônia esse privilégio.

Bom, eu jogava futebol, era do time sem camisas, e, em uma tarde especial, por volta das cinco e meia da tarde, eis que para um carro na beirada do campo e dele desce uma mulher elegante, morena, de óculos escuros. Eu a reconheci, era Júnia, amiga de minha namorada Beatriz, professora. O que eu não sabia é que ela era diretora de uma escola pública estadual na cidade de Rio Acima, uns quinze quilômetros depois de Nova Lima onde eu morava e jogava tranquilo meu futebol nas tardes de verão. Óbvio que o jogo parou. Ela me gritou pelo nome, me aproximei todo suado e ouvi, como uma ordem: - toma um banho rápido que eu preciso que você me acompanhe. Preciso de você para assumir umas aulas de matemática na minha escola e as aulas começam às dezenove horas. A minha fama de bom em matemática na escola estadual augusto de lima, onde cursei o científico e onde Júnia lecionava Geografia valeu-me para alguma coisa.

Não titubeei. Ordens são ordens, principalmente vindo de uma chefe morena de óculos escuros e saias mostrando os joelhos redondos, moda da época. Banhei-me e entrei no carro sem pestanejar. Assim entrei no mundo profissional e na carreira de professor.  Chegando em Rio Acima, assumi turmas de quinto e sexto ano, hoje equivalentes a sexto e sétimo ano do ensino fundamental II. Na época os nomes eram outros. Foi muito engraçado de repente eu ter que assumir ares de professor, apenas dezoito anos e tinha pela frente duas turmas de matemática, nenhum preparo, apenas as referências inspiradoras de alguns mestres bem capazes. Era pouco, mas foi assim que comecei.

Dessa data em diante eu me tornei professor. E logo eu tinha quase trinta aulas por semana de matemática no ensino fundamental e física no ensino médio. Foi um longo aprendizado, na marra, mas as turmas eram muito boas, os alunos muito camaradas. Vários de meus alunos desse primeiro ano de trabalho se tornaram meus amigos, alguns eu os vejo de vez em quando até hoje. O bom da profissão é que os alunos não envelhecem, todos anos tem a mesma idade. A profissão é que não nos satisfaz nunca. E geralmente culpamos a ordem estabelecida, o sistema, o governo, etc. Já compartilhei também desse discurso. Depois, com a experiência e mais conhecimento eu acredito que os maiores culpados pelas idiossincrasias da profissão são os próprios professores. Preferem a política do choro, da culpabilidade alheia, que uma luta séria baseada no melhor que a profissão pode oferecer. Como categoria os professores são uns chorões. A luta sindical se baseia em querer colocar todos no mesmo saco e não aceitam nenhuma política de avaliação de eficiência pessoal e sistêmica. Paguem-me mas não me cobrem. Não funciona em nenhum lugar do mundo.

Esse período de trabalho em Rio Acima, com viagens de carro duas noites por semana me renderão algumas páginas. Espero que meus leitores apreciem essas páginas desautorizadas mas escritas assim mesmo. Não quero ser politicamente correto. Quero escrever livremente sobre o que penso que foi a minha vida e reconstruí-la, de certo modo. Análise? Pode ser. Escrever é um processo de reinventar, não de reviver. O melhor do passado é que ele passou. Passou e pronto. Só posso recontar minha história do jeito que eu quiser. Por isso é desautorizada. Eu não fui um cara bonzinho, sem maldades, bonitinho e certinho. Fui um cara do meu tempo, criado numa família de periferia das periferias suburbanas, um pé no mato outro na cidade, cheio de espertezas para sobreviver. Creio que fiz mais mal que bem, até hoje tem gente muito próxima que me diz isso o tempo todo. Coisas do tipo – você é um sacana. Minha cara de anjo barroco, meu sorriso fácil no meio da face, engana a muitos, não engana os mais próximos. Vamos em frente.


sábado, 10 de outubro de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA IX


Não me lembro de meu aniversário de quinze anos. A data de meu aniversário é fevereiro, as aulas começavam sempre em março naquele tempo. Logo cheguei ao primeiro ano do curso científico turno da noite (só havia no turno da noite) já com quinze anos completos e mesmo assim era dos mais jovens, talvez o mais jovem da turma. Cara de neném, cheia de espinhas, aguentava todo tipo de gozações. A maior delas era que as espinhas eram produtos de muita masturbação. Como eram muitas e se espalhavam pelo meu rosto significava que a punhetagem era muita também. Brigar não adiantava, só aumentaria a gozação.

Em março começaram as aulas. Novos colegas, novos professores, novas responsabilidades. Disciplinas diferentes: Física, Química e Biologia no lugar das Ciências dos tempos de Ginásio. As demais eram as mesmas. Como eram tempos de ditadura havia também uma disciplina com o nome de Organização Social e Política Brasileira – OSPB, que só servia para adestrar cabeças ocas. Como eu já era politizado achava aquilo um saco. No entanto a qualidade da disciplina dependia da qualidade do professor. Tive bons professores dessa disciplina, que minimizavam seu caráter adestrador e traziam boas discussões para a classe e eu, como bom aluno que era, estudava e me saía bem, mas era dureza.

Em março comecei também a trabalhar. Passei em um concurso para ser contínuo do Banco Mercantil e uma nova aventura começou. Trabalhava todos os dias de oito à dezessete horas. O trabalho era maçante, mas aprendi muito. Principalmente a fumar e beber. São as armadilhas onde caem muitos jovens. A vigilância paterna era grande e impediu minha degenerescência. E o tempo era pouco. Trabalhar o dia todo e ir à aula à noite era uma tarefa árdua.

É preciso dizer que fiz quinze anos em mil novecentos e sessenta e oito, ano de muitas ocorrências pelo mundo afora. De muitas ocorrências no Brasil também. Temos muitos assuntos para memorizar desse período e não fugirei deles. Talvez até me autorize a escrever sobre pontos nebulosos dos momentos políticos da época e de minha vida particular. Cheio de altos e baixos, de medos e de aventuras, de muitas descobertas também, como a descoberta da mulher e do mundo feminino. Aí quem fazia a vigilância era minha mãe.

Nessa época conheci também os Beatles, conheci Roberto Carlos e Erasmo Carlos e toda a turma da Jovem Guarda. Eduardo Araújo e Silvinha, Martinha com sua voz manhosa e doce, Jerry Adriani e Wanderley Cardoso. Sergio Reis cantava rock’n roll antes de se tornar sertanejo. E Vanderleia, claro. Minha mãe ainda cantava Orlando Dias, Nelson Gonçalves, Francisco Alves e Ângela Maria. Nas ondas do rádio essas gerações se misturavam e surgiu a Bossa Nova e os festivais da televisão. Com os festivais alguns nomes se destacaram em minha mente, admiráveis nomes e tornei-me fã incondicional: Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Os Mutantes e Gilberto Gil. Gilberto Gil cantando Domingo no Parque acompanhado dos Mutantes foi simplesmente um assombro.

Em minha casa não havia televisão, eu assistia às vezes na casa do vizinho (valeu Vicente e Nazinha) às vezes na casa de meu novo amigo, Fran, onde eu passava quase todos as tardes antes de ir para a Escola Estadual Augusto de Lima. Sua casa ficava no zigue-zague, a caminho da escola. Lá eu pegava um rango da tarde, sanduíches geralmente, ou sopa da mãe dele e ainda ficava olhando sua irmã, quem eu achava linda e inteligente. Estou desautorizado a dizer qual delas, ela era mais velha e tinha um namorado simpático, eu gostava apenas de conversar com ela. Fran tinha vários  irmãos e irmãs, não sei de nenhum deles mais, apenas que ele morreu em um trágico e estúpido acidente de carro. Foi em sua casa também que eu assisti alguns capítulos de Beto Rockfeller, uma novela que inovou a linguagem dos folhetins de televisão naquela época.


Não me lembro exatamente das datas de todos esses acontecimentos, apenas que foram entre mil novecentos e sessenta e oito e mil novecentos e setenta, os três anos de duração do curso científico, atual Ensino Médio. Foram três anos profícuos em minha vida e vou escrever muito mais sobre eles. Porque, hoje o sei, eles me formaram, deram o tom de minha vida e, hoje, quarenta e cinco anos depois, ainda me lembro nitidamente daqueles acontecimentos. E enquanto escrevo eles renascem em minha memória.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA – A VOLTA


24/03/2014

A saída de El Chalten aconteceu às sete horas e quinze minutos, um taxi veio nos pegar e levar até a Rodoviária, onde tomamos o ônibus para El Calafate. A viagem de ônibus durou três horas e foi bem interessante. Uma van nos esperava na Rodoviária e como tínhamos tempo até a partida do voo, o motorista nos deixou no centre da cidade para último passeio, algumas compras e almoço. Silvania me presenteou com uma bonita boina, parecida com a outra que eu perdi em Uchuaia, só que em couro de capivara e mais bonita.

O voo para Buenos Aires (lotado) também durou três horas. Um taxi nos levou até o apartamento que tínhamos alugado, muito bonito. Jantamos próximo, em um restaurante chamado La Dorita. Comi um filé grosso mal passado, com ensalada del campo e bebi um Pinot Noir Manos Negras muito bom.

Nos dois dias seguintes, vinte e cinco e vinte e seis de março, passeamos bastante pela cidade de Buenos Aires, pelo centro da cidade, pelas praças famosas, pelos museus da cidade, pela Casa rosada, La Boca. La Boca é muito interessante para turista ver, exageram um pouco nos rituais para chamarem a atenção. Procuramos por coisas diferentes do convencional. Claro que sempre encontramos. O não convencional está por todo lado, às vezes escondido em um canto de rua, em uma praça escondida, quem procura acha.

No dia vinte e sete de março era dia de voltar para casa. Fizemos nosso café da manhã, organizamos as malas, trocamos as últimas conversas porque Bernard e Hélène iriam direto para Paris e Silvania e eu para São Paulo.

Toda a viagem se constituiu em um somatório de lições e aprendizados importantes: a organização, a amizade, a disponibilidade para fazer coisas diferentes e inusitadas. Uma grande lição foi a organização da bagagem. O que levar em uma viagem de dez dias?

NA MALA

Três pares de meia, três cuecas, um sapato confortável para caminhar, um tênis para correr (sem atividade física eu não fico), duas calças jeans confortáveis (uma no corpo outra na mala), duas camisetas para ginástica, um calção de nylon, um calção de banho para o caso de ter piscina no hotel ou rios no trajeto, um par de sandálias, uma jaqueta para temperaturas médias e que seja bonita, blusa de inverno se for o caso, dois T-shirts, duas camisas dessas de manga comprida, leve e que não precisem passar, um computador pequeno ou um tablete conforme o motivo da viagem, aparelho de telefone dependendo para onde for. E basta apenas isso.


Assim termino esse relato de viagem à Patagônia. Tenho agora um enorme álbum de fotos e alguns lugares na memória onde quero voltar um dia. 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA – 15º DIA


23/03/2014

Esse foi o dia da caminhada ao Monte Torres e Laguna Torres: vinte quilômetros de caminhada em quase oito horas. A caminhada foi muito interessante. O guia Matias estava no hotel às oito horas e trinta minutos para nos conduzir por uma trilha, uma das muitas possibilidades até as montanhas do entorno de El Chalten. Escolhemos uma que nos pareceu mais fácil, quase dez quilômetros até Laguna torres e Cerro Torres. Lago, geleira e montanha visíveis à frente de quem chega lá. A escolha se baseou em nossas condições físicas (Bernard estava com problemas no joelho direito) e no fato de que as subidas e descidas nesse trajeto não são muito grandes. De fato, o caminho não é muito difícil, poucas subidas e descidas mais acentuadas. O caminho é bem limpo, bem marcado e sinalizado. Como a cidade vive do turismo eles capricham no atendimento. O guia falava um francês carregado de erres, à moda argentina, o que é muito engraçado de ouvir. Gente boa, tranquila, atendeu-nos muito bem dando boas informações e, ao final, contou um pouco sobre sua vida e sobre a vida local. Ficamos sabendo, por exemplo, que ele é escalador, que vai muito à França por isso. Ele parece ter uns quarenta anos, disse-nos que fica em El Chalten no verão de lá trabalhando como guia de montanha e no inverno local vai para Chamonix, na França, trabalhar como gui de montanha lá também, ou vai para outra cidade grande, na Argentina, trabalhar na construção civil, escalando prédios. Os grandes prédios contratam escaladores para trabalhos mais difíceis.

A trilha passa por estepes, florestas, várzeas de rios, belvederes diversos com vistas empolgantes da montanha e não tivemos muitas surpresas. Não vimos uma grande quantidade de aves, os pios não se diferenciavam muito, mas fomos brindados com um casal de pica-paus, com direito a pose para fotos. Um da cabeça vermelha (a fêmea), outro da cabeça negra (o macho). Eles nos deixaram aproximar até uns três ou quatro metros, facilitando o trabalho dos fotógrafos (Bernard e eu). No trajeto de volta vimos um outro casal, escondidos, no entanto, nas ramagens das árvores. Ainda faz parte do caminho riachos de água muito limpa, água de montanha, deliciosa. Uma das melhores águas minerais que já bebi. Água dos Andes que chegam aos vales Patagônicos. E nesse quesito, cuidado com as águas, os argentinos ganham disparado dos brasileiros.

A cada quilômetro a montanha ficava mais próxima, a luz do sol modificava a paisagem com novas tonalidades e novos brilhos. O mais belo nos aguardava, entretanto, quase quatro horas depois do início. Subimos o último aclive do trajeto, naquele momento em que se chega ao fim da trilha (será?), ao último minuto da caminhada, UAU! A visão do lago (não muito grande), da geleira azul atrás do lago e da montanha Cerro Torres atrá da geleira. E o Fritz Roy à direita delas. Eram doze horas e trinta minutos, o sol brilhava, o céu com poucas nuvens, e o lago verde, calmo, lindo, com alguns torrões de gelo boiando. Hora do emaravilhamento. Fotos, fotos e mais fotos. E o lanche. A fome chegou bem na hora do fim de nossa trilha, a ida.

Fritz Roy é o nome do capitão do navio Beagle, o navio descobridor do canal de Beagle no sul da Argentina e do Chile e que, em sua segunda viagem à região trouxe a bordo o jovem Charles Darwin. Depois dessa viagem, e com tudo que ele coletou e observou na região e em outros locais do trajeto do navio, ele escreveu a teoria da evolução das espécies. Não sei se Darwin esteve na região de El Chalten, creio que não, no entanto seu nome, o nome do capitão Fritz Roy e do navio Beagle deixaram registros profuntos por lá.

Voltamos ao hotel Altas Cumbres à dezesseis horas e trinta minutos e fomos descansar. Uma boa ducha, uns minutos de sono, outro de leituras, visita ao correio eletrônico, uma pausa enfim. Descansar as pernas.

Combinamos sair para jantar as dezenove horas e trinta minutos. Como é fim de rua, a cidade esvazia à noite, vários restaurantes estavam fechados. E precisávamos de um restaurante que aceitasse euros ou cartão de crédito, nossos pesos argentinos estavam no fim. Tivemos sorte ao entrar no restaurante Fuegia. Linda e colorida casa e duas mulheres lindas nos atendendo. Meu prato: biffe a la plancha, papas fritas e vegetales. Biffe vuelta, vuelta, ou seja, sangrando. Delicioso. E o vinho? Escolhi Desierto 25, Malbec. E pelo sorriso da atendente eu soube que a escolha era muito boa. Realmente! Um ótimo Malbec 2011, do norte da Patagônia.

Ao fim do dia meu pensamento era: Quando a gente se afasta de uma montanha com a qual desenvolveu alguma intimidade, é como se afastar de um ser querido. Essa foi a sensação ao ver de longe a cadeia Cerro torres e a Fritz Roy. Probabilidade de revê-las? Sempre queremos rever os seres queridos. Eu sou assim com minhas montanhas, as eleitas como companheiras.



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 14


22/03/2014

Esse foi o dia da viagem para El Chalten. Saímos do hotel às sete horas e trinta minutos e nos dirigimos até a estação de ônibus da Caltur que sai oito horas , com chegada a El Chalten as onze horas, no hotel Altas Cumbres, muito bom hotel. A cidade tem três mil habitantes e vive exclusivamente do turismo. É uma cidade aberta, só tem casas, sem prédios e sem muros. Aliás, não vi muros na Argentina. Deixamos nossas coisas no hotel e saímos para comer, hora do almoço. Paramos em um bar-restaurante que anunciava comidas vegetarianas e crepe. Pedimos crepe, chá e café.

O bar tinha uns temas xamânicos como decoração, o proprietário era um jovem de cabelos longos, sorridente e gentil, nos atendeu muito bem, a crepe estava deliciosas e a música era de Pink Floyd, do disco The Dark Side of the Moon, mas em ritmo de reggae jamaicano e muito bonito. Um pouco antes tínhamos passado por um armazém onde comprei água e dois chocolates.

Nosso destino era ir ao escritório da Patagônia Aventura onde, às quatorze horas, tomaríamos o barco para uma navegação no lado Vidma. Como chovia muito, e aumentava, a viagem foi cancelada. Voltamos ao hotel sob muita chuva e vento, eu cheguei molhado, tirei as roupas e entrei sob as cobertas para aquecer-me. O dia foi de calma.

Terminei de ler o livro do Marc Levy “Et si c’était vrai” (Éditions Robert Laffont AS, Paris, 2000), vou marcar umas passagens interessantes que, creio, irão acrescentar em minha prática de Coaching. A tradução é minha.

Páginas 207 e 208
“Todos os dias, ao acordar, você tem oitenta e seis mil e quatrocentos reais em sua conta com a condição de gastá-los durante o dia, o saldo não utilizado até ir dormir sendo retirados da conta, e o jogo pode terminar a qualquer momento. A pergunta é: o que faria com esse dinheiro? Ao acordar de novo você tem mais oitenta e seis mil e quatrocentos reais para gastar durante o dia, e os depósitos poderão terminar a qualquer momento, sem avido prévio.
Porque esse número mágico? Que são esses oitenta e seis mil e quatrocentos reais, na verdade? Oitenta e seis mil e quatrocentos é o número de segundos de vida em um dia que temos creditado em nossa conta. O “banco” pode fechar a nossa conta a qualquer momento. Então, o que fazemos com nossos oitenta e seis mil e quatrocentos segundos cotidianos? Os segundos de vida não são mais importantes que o dinheiro?”

Página 187
“Nada é impossível. Só os limites de nossas almas definem certas coisas como inconcebíveis. Precisa-se resolver sempre várias equações para admitir um novo raciocínio. É uma questão de tempo e de limites de nossos cérebros. Transplantar um coração, fazer voar um avião de trezentas toneladas, caminhar na Lua, tudo isso demandou trabalho e, principalmente, de muita imaginação. Então, quando nossos sábios mais sábios declaram ser impossível de transplantar um cérebro, de viajar à velocidade da luz, de clonar um ser humano, eu digo que, finalmente, eles não aprenderam nada de seus próprios limites, ou seja, de imaginar que tudo é possível e que é uma questão de tempo, de tempo e de compreender como isso é possível”

Página 160 – sobre a morte
“Uma vez que tenha passado um bom dia, que tenha se levantado cedo para me acompanhar em uma pescaria, que tenha corrido, trabalhado e que está cansado à noite e, finalmente, mesmo que não goste de dormir, você ficará feliz de se colocar sob as cobertas e encontrar o sono. Esta noite você não terá medo da noite e de dormir.
A vida é um pouco assim também. Se bem a viveu terá certa tranquilidade em dizer que um dia descansará. Talvez, com o tempo, nossos corpos nos impõem as coisas com menor facilidade, tudo é mais difícil e fatigante, então a ideia de dormir para sempre não nos provoque mais medo como antes”.

Páginas 117 – 118: ver o momento presente, o entorno, sentir as coisas, a harmonia da vida.
“Quantos entre nós são capazes de esquecer num instante seus problemas para se maravilharem com este espetáculo inesquecível? A maior inconsciência do homem é a sua própria vida”.

Página 84 –
“Identificar a felicidade que está a seus pés, ter a coragem de se abaixar para pegá-la em seus braços e a guardar, é a inteligência do coração. A inteligência sem essa do coração não é nada mais que a lógica e isso não é grande coisa”.

Finalmente fomos jantar em La Cervezaria, super merecidos cento e quarenta e quatro reais de um belo jantar, com vinho em vez de cerveja. Muito bem servidos, ótimo jantar.


terça-feira, 8 de setembro de 2015

AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA VIII


Minha autobiografia, mesmo sendo desautorizada, e talvez por isso mesmo, vem sendo acompanhada por alguns leitores fieis. E eu pensei que ninguém se interessaria por memorialices desmesuradas. Imagino que, pelo seu caráter de narrativa não autorizada, poderia ser revelador de segredos inconfessáveis, o que, de fato, não acontece. Tenho recebido recados de amigos e filhos de amigos perguntando se eu escreveria sobre tal ou qual episódio com pessoas tais ou quais citados como protagonistas de algum episódio. Pode até ser, se tal ou qual episódio se manifestar interessante, no entender do autor, para a continuidade da narrativa, ela vai aparecer. Portanto, aguardem.

Como eu escrevi em algum momento anterior, eu não me lembro muito dos episódios de meus tempos de ginásio, ou seja, meus tempos de Liceu Imaculada Conceição, em Nova Lima. O que lembro já escrevi. Caso algumas lembranças surjam no decorrer de minha narrativa, eu os contarei desde que necessárias para a sequência dos ocorrimentos. O fato, de fato, é que me transferi para o Ginásio Estadual Augusto de Lima, bem na metade do quarto ano porque, na minha imaginação, seria mais fácil ingressar no curso científico da mesma escola. Dessa mudança tenho boas lembranças. Porque fazia parte do currículo da nova escola a disciplina Francês como língua estrangeira. E lá fui eu estudar francês, quem diria. Quem adivinharia que essa mudança teria alguns efeitos futuros em minha vida?

Pois bem, comecei a estudar francês com dois professores diferentes: uma bela professora (nos dois sentidos) moradora da rua Chalmers e filha de um juiz de paz da cidade; e também um senhor pouco formal que morava em uma casa grande depois do Bicame e falava como se estivesse de boca cheia, eu o achava engraçado. Os dois eram muito bons e me ensinavam com métodos diferentes. Um dia tive que fazer uma prova de francês, na escola, um ditado, em que eu deveria escrever as frases ditadas pela aplicadora da prova. Essa professora era irmã da outra, também simpática. Ao final da prova de ditado eu fui aprovado e aceito oficialmente na Escola Estadual Augusto de Lima.

Tenho ótimas lembranças de minha professora de francês, eu a encontrei várias vezes em minha vida. Mais tarde, já na Universidade, descobri que ela era professora da Faculdade de Educação. Foi um prazer revê-la e a partir de então, sempre que nos encontrávamos conversávamos muito. Ficamos quase amigos. E a língua francesa entrou para minha vida. Cismei que gostava da língua e comecei a ler revistas francesas, principalmente revistas de fotografia. Continuei estudando francês irregularmente, comecei vários cursos, imaginei que não era muito dotado para esse tipo de aprendizagem até que fui morar na França, muitos anos depois, e descobri que, de fato, eu não gostava de estudar língua estrangeira, talvez por causa dos métodos adotados no Brasil, mas quando situado no local em que se fala aquela língua, aí sim, eu me dedico a aprendê-la.


Os anos de escola estadual, a partir de meus quinze anos e cursando o científico, aí sim, é um recomeço de vida. Mas isso é assunto para o próximo capítulo. Aguardem. Quanto aos leitores, aviso que as aventuras boas de minha vida começam aos quinze anos. Até aqui os acontecimentos foram aperitivos para o que virá em seguida. Aguardem.

O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...