Amadurecimento e envelhecimento saudáveis são possíveis. As dores e os amores ao envelhecer são temas do autor ao escrever sobre seu próprio envelhecimento, com humor e conteúdo. Sigam o “blog”. Algumas boas ideias podem aparecer.
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
CONHEÇA-TE A TI MESMO
Hoje eu li em dois livros diferentes a recomendação de "conhecer-te a ti mesmo", em duas situações diferentes. O primeiro, um filósofo (Chistopher PHILLIPS, Sócrates Café) escrevendo sobre o pensamento de Sócrates recomendando o "conheça-te a ti mesmo" considerando que o "eu" é alguma coisa do qual você não pode fugir. O segundo, em um romance de Anton TCHEKHOV (Une banale historie), seu personagem Nicolai Stépanovitch, um "velho" professor de sessenta e dois anos e deprimente figura à espera da morte filosofando sobre seu estado, chega à conclusão que "conhece-te a ti mesmo" é muito bonito e útil mas, no entanto, é lamentável que os anciões não tenham sido avisados a tempo do "modo de emprego". E no mesmo dia tive um cliente em busca do "modo de emprego" para se conhecer a si mesmo e pensar em uma carreira digna. É o "conheça-te a ti mesmo" para não ter essas dúvidas socráticas. A boa questão talvez seja, segundo Tchekhov: - o que você deseja? Quando o personagem Nicolai Stépanovitch pergunta - "o que eu desejo", ele lista uma serie de tais desejos importantes a esta altura da vida em que se vê próximo à morte e descobre que falta algo de essencial, uma ideia geral que liga todos esses desejos.
E o que liga nossos desejos? Qual a ideia geral deles?Um filósofo americano moderno e um romancista russo do século dezenove colocando-me uma questão séria de Coaching: o que liga o meu "eu" a meus desejos e que os torna tão importantes?
Como escreveu o velho astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão em seu livro A Astronomia em Camões, nossas perguntas e respostas estão na literatura. Basta ler para obtê-las.
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA X
Escrevo em um dia quinze de
outubro, dia em que se “celebra” o dia do professor. Vou dar mais um salto na
cronografia dessa autobiografia para comentar como me tornei professor e o que
penso da profissão, considerando que a exerci durante quarenta anos. Creio que
tenho certa autoridade naquilo que passo a expressar a partir de agora.
Início de março de mil novecentos
e setenta e um, não me lembro o dia, sei que era março porque as aulas
começavam em março. Eu havia sido aprovado em um vestibular de Física na
Universidade Federal de Minas Gerais, ainda em dezembro do ano anterior,
matrícula feita e esperando o início das aulas, e havia completado dezoito anos
no final do mês de fevereiro. E tinha ganhado uma carta de alforria de meu pai
acompanhado de um sermão que terminava com as seguintes palavras: - de hoje em
diante, meu filho, SE VIRA. Atrás de você tenho mais oito para criar, portanto
vai à luta. Mas ainda eram férias, eu não tinha a menor ideia do que iria
fazer, sabia apenas que tinha que começar a trabalhar. Com todas essas
preocupações eu jogava futebol todos os dias. Claro, morava ao lado do campo do
Montanhês Esporte Clube, glorioso time amador de meu bairro e, além disso,
tínhamos um pequeno campo de futebol bem no pátio do nosso território, um
espaço ao lado da subestação da Cemig, onde meu pai trabalhava. Éramos quatro
famílias morando no local e jogar futebol às tardes, principalmente no verão,
era um privilégio raro. E eu exercia sem parcimônia esse privilégio.
Bom, eu jogava futebol, era do
time sem camisas, e, em uma tarde especial, por volta das cinco e meia da
tarde, eis que para um carro na beirada do campo e dele desce uma mulher
elegante, morena, de óculos escuros. Eu a reconheci, era Júnia, amiga de minha
namorada Beatriz, professora. O que eu não sabia é que ela era diretora de uma
escola pública estadual na cidade de Rio Acima, uns quinze quilômetros depois
de Nova Lima onde eu morava e jogava tranquilo meu futebol nas tardes de verão.
Óbvio que o jogo parou. Ela me gritou pelo nome, me aproximei todo suado e
ouvi, como uma ordem: - toma um banho rápido que eu preciso que você me
acompanhe. Preciso de você para assumir umas aulas de matemática na minha
escola e as aulas começam às dezenove horas. A minha fama de bom em matemática
na escola estadual augusto de lima, onde cursei o científico e onde Júnia
lecionava Geografia valeu-me para alguma coisa.
Não titubeei. Ordens são ordens,
principalmente vindo de uma chefe morena de óculos escuros e saias mostrando os
joelhos redondos, moda da época. Banhei-me e entrei no carro sem pestanejar.
Assim entrei no mundo profissional e na carreira de professor. Chegando em Rio Acima, assumi turmas de
quinto e sexto ano, hoje equivalentes a sexto e sétimo ano do ensino
fundamental II. Na época os nomes eram outros. Foi muito engraçado de repente
eu ter que assumir ares de professor, apenas dezoito anos e tinha pela frente
duas turmas de matemática, nenhum preparo, apenas as referências inspiradoras
de alguns mestres bem capazes. Era pouco, mas foi assim que comecei.
Dessa data em diante eu me tornei
professor. E logo eu tinha quase trinta aulas por semana de matemática no
ensino fundamental e física no ensino médio. Foi um longo aprendizado, na
marra, mas as turmas eram muito boas, os alunos muito camaradas. Vários de meus
alunos desse primeiro ano de trabalho se tornaram meus amigos, alguns eu os
vejo de vez em quando até hoje. O bom da profissão é que os alunos não
envelhecem, todos anos tem a mesma idade. A profissão é que não nos satisfaz
nunca. E geralmente culpamos a ordem estabelecida, o sistema, o governo, etc.
Já compartilhei também desse discurso. Depois, com a experiência e mais
conhecimento eu acredito que os maiores culpados pelas idiossincrasias da
profissão são os próprios professores. Preferem a política do choro, da
culpabilidade alheia, que uma luta séria baseada no melhor que a profissão pode
oferecer. Como categoria os professores são uns chorões. A luta sindical se
baseia em querer colocar todos no mesmo saco e não aceitam nenhuma política de
avaliação de eficiência pessoal e sistêmica. Paguem-me mas não me cobrem. Não
funciona em nenhum lugar do mundo.
Esse período de trabalho em Rio
Acima, com viagens de carro duas noites por semana me renderão algumas páginas.
Espero que meus leitores apreciem essas páginas desautorizadas mas escritas
assim mesmo. Não quero ser politicamente correto. Quero escrever livremente
sobre o que penso que foi a minha vida e reconstruí-la, de certo modo. Análise?
Pode ser. Escrever é um processo de reinventar, não de reviver. O melhor do
passado é que ele passou. Passou e pronto. Só posso recontar minha história do
jeito que eu quiser. Por isso é desautorizada. Eu não fui um cara bonzinho, sem
maldades, bonitinho e certinho. Fui um cara do meu tempo, criado numa família
de periferia das periferias suburbanas, um pé no mato outro na cidade, cheio de
espertezas para sobreviver. Creio que fiz mais mal que bem, até hoje tem gente
muito próxima que me diz isso o tempo todo. Coisas do tipo – você é um sacana.
Minha cara de anjo barroco, meu sorriso fácil no meio da face, engana a muitos,
não engana os mais próximos. Vamos em frente.
sábado, 10 de outubro de 2015
AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA IX
Não me lembro de meu aniversário
de quinze anos. A data de meu aniversário é fevereiro, as aulas começavam
sempre em março naquele tempo. Logo cheguei ao primeiro ano do curso científico
turno da noite (só havia no turno da noite) já com quinze anos completos e
mesmo assim era dos mais jovens, talvez o mais jovem da turma. Cara de neném,
cheia de espinhas, aguentava todo tipo de gozações. A maior delas era que as
espinhas eram produtos de muita masturbação. Como eram muitas e se espalhavam
pelo meu rosto significava que a punhetagem era muita também. Brigar não
adiantava, só aumentaria a gozação.
Em março começaram as aulas.
Novos colegas, novos professores, novas responsabilidades. Disciplinas
diferentes: Física, Química e Biologia no lugar das Ciências dos tempos de
Ginásio. As demais eram as mesmas. Como eram tempos de ditadura havia também
uma disciplina com o nome de Organização Social e Política Brasileira – OSPB, que
só servia para adestrar cabeças ocas. Como eu já era politizado achava aquilo
um saco. No entanto a qualidade da disciplina dependia da qualidade do
professor. Tive bons professores dessa disciplina, que minimizavam seu caráter
adestrador e traziam boas discussões para a classe e eu, como bom aluno que
era, estudava e me saía bem, mas era dureza.
Em março comecei também a
trabalhar. Passei em um concurso para ser contínuo do Banco Mercantil e uma
nova aventura começou. Trabalhava todos os dias de oito à dezessete horas. O
trabalho era maçante, mas aprendi muito. Principalmente a fumar e beber. São as
armadilhas onde caem muitos jovens. A vigilância paterna era grande e impediu
minha degenerescência. E o tempo era pouco. Trabalhar o dia todo e ir à aula à
noite era uma tarefa árdua.
É preciso dizer que fiz quinze
anos em mil novecentos e sessenta e oito, ano de muitas ocorrências pelo mundo
afora. De muitas ocorrências no Brasil também. Temos muitos assuntos para
memorizar desse período e não fugirei deles. Talvez até me autorize a escrever
sobre pontos nebulosos dos momentos políticos da época e de minha vida
particular. Cheio de altos e baixos, de medos e de aventuras, de muitas
descobertas também, como a descoberta da mulher e do mundo feminino. Aí quem
fazia a vigilância era minha mãe.
Nessa época conheci também os
Beatles, conheci Roberto Carlos e Erasmo Carlos e toda a turma da Jovem Guarda.
Eduardo Araújo e Silvinha, Martinha com sua voz manhosa e doce, Jerry Adriani e
Wanderley Cardoso. Sergio Reis cantava rock’n roll antes de se tornar
sertanejo. E Vanderleia, claro. Minha mãe ainda cantava Orlando Dias, Nelson
Gonçalves, Francisco Alves e Ângela Maria. Nas ondas do rádio essas gerações se
misturavam e surgiu a Bossa Nova e os festivais da televisão. Com os festivais
alguns nomes se destacaram em minha mente, admiráveis nomes e tornei-me fã
incondicional: Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Os Mutantes e Gilberto Gil.
Gilberto Gil cantando Domingo no Parque acompanhado dos Mutantes foi
simplesmente um assombro.
Em minha casa não havia televisão, eu assistia às vezes na casa do vizinho (valeu Vicente e Nazinha) às
vezes na casa de meu novo amigo, Fran, onde eu passava quase todos as tardes
antes de ir para a Escola Estadual Augusto de Lima. Sua casa ficava no
zigue-zague, a caminho da escola. Lá eu pegava um rango da tarde, sanduíches
geralmente, ou sopa da mãe dele e ainda ficava olhando sua irmã, quem eu achava
linda e inteligente. Estou desautorizado a dizer qual delas, ela era mais velha
e tinha um namorado simpático, eu gostava apenas de conversar com ela. Fran
tinha vários irmãos e irmãs, não sei de
nenhum deles mais, apenas que ele morreu em um trágico e estúpido acidente de
carro. Foi em sua casa também que eu assisti alguns capítulos de Beto
Rockfeller, uma novela que inovou a linguagem dos folhetins de televisão
naquela época.
Não me lembro exatamente das
datas de todos esses acontecimentos, apenas que foram entre mil novecentos e
sessenta e oito e mil novecentos e setenta, os três anos de duração do curso
científico, atual Ensino Médio. Foram três anos profícuos em minha vida e vou
escrever muito mais sobre eles. Porque, hoje o sei, eles me formaram, deram o
tom de minha vida e, hoje, quarenta e cinco anos depois, ainda me lembro
nitidamente daqueles acontecimentos. E enquanto escrevo eles renascem em minha
memória.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA – A VOLTA
24/03/2014
A saída de El Chalten aconteceu às sete horas e quinze
minutos, um taxi veio nos pegar e levar até a Rodoviária, onde tomamos o ônibus
para El Calafate. A viagem de ônibus durou três horas e foi bem interessante.
Uma van nos esperava na Rodoviária e como tínhamos tempo até a partida do voo,
o motorista nos deixou no centre da cidade para último passeio, algumas compras
e almoço. Silvania me presenteou com uma bonita boina, parecida com a outra que
eu perdi em Uchuaia, só que em couro de capivara e mais bonita.
O voo para Buenos Aires (lotado) também durou três horas. Um
taxi nos levou até o apartamento que tínhamos alugado, muito bonito. Jantamos próximo,
em um restaurante chamado La Dorita. Comi um filé grosso mal passado, com ensalada
del campo e bebi um Pinot Noir Manos Negras muito bom.
Nos dois dias seguintes, vinte e cinco e vinte e seis de
março, passeamos bastante pela cidade de Buenos Aires, pelo centro da cidade,
pelas praças famosas, pelos museus da cidade, pela Casa rosada, La Boca. La
Boca é muito interessante para turista ver, exageram um pouco nos rituais para
chamarem a atenção. Procuramos por coisas diferentes do convencional. Claro que
sempre encontramos. O não convencional está por todo lado, às vezes escondido
em um canto de rua, em uma praça escondida, quem procura acha.
No dia vinte e sete de março era dia de voltar para casa.
Fizemos nosso café da manhã, organizamos as malas, trocamos as últimas
conversas porque Bernard e Hélène iriam direto para Paris e Silvania e eu para
São Paulo.
Toda a viagem se constituiu em um somatório de lições e
aprendizados importantes: a organização, a amizade, a disponibilidade para
fazer coisas diferentes e inusitadas. Uma grande lição foi a organização da
bagagem. O que levar em uma viagem de dez dias?
NA MALA
Três pares de meia, três cuecas, um sapato confortável para
caminhar, um tênis para correr (sem atividade física eu não fico), duas calças
jeans confortáveis (uma no corpo outra na mala), duas camisetas para ginástica,
um calção de nylon, um calção de banho para o caso de ter piscina no hotel ou
rios no trajeto, um par de sandálias, uma jaqueta para temperaturas médias e
que seja bonita, blusa de inverno se for o caso, dois T-shirts, duas camisas
dessas de manga comprida, leve e que não precisem passar, um computador pequeno
ou um tablete conforme o motivo da viagem, aparelho de telefone dependendo para
onde for. E basta apenas isso.
Assim termino esse relato de viagem à Patagônia. Tenho agora
um enorme álbum de fotos e alguns lugares na memória onde quero voltar um dia.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA – 15º DIA
23/03/2014
Esse foi o dia da caminhada ao Monte Torres e Laguna Torres:
vinte quilômetros de caminhada em quase oito horas. A caminhada foi muito
interessante. O guia Matias estava no hotel às oito horas e trinta minutos para
nos conduzir por uma trilha, uma das muitas possibilidades até as montanhas do
entorno de El Chalten. Escolhemos uma que nos pareceu mais fácil, quase dez
quilômetros até Laguna torres e Cerro Torres. Lago, geleira e montanha visíveis
à frente de quem chega lá. A escolha se baseou em nossas condições físicas
(Bernard estava com problemas no joelho direito) e no fato de que as subidas e
descidas nesse trajeto não são muito grandes. De fato, o caminho não é muito
difícil, poucas subidas e descidas mais acentuadas. O caminho é bem limpo, bem
marcado e sinalizado. Como a cidade vive do turismo eles capricham no
atendimento. O guia falava um francês carregado de erres, à moda argentina, o
que é muito engraçado de ouvir. Gente boa, tranquila, atendeu-nos muito bem
dando boas informações e, ao final, contou um pouco sobre sua vida e sobre a
vida local. Ficamos sabendo, por exemplo, que ele é escalador, que vai muito à
França por isso. Ele parece ter uns quarenta anos, disse-nos que fica em El Chalten
no verão de lá trabalhando como guia de montanha e no inverno local vai para
Chamonix, na França, trabalhar como gui de montanha lá também, ou vai para
outra cidade grande, na Argentina, trabalhar na construção civil, escalando
prédios. Os grandes prédios contratam escaladores para trabalhos mais difíceis.
A trilha passa por estepes, florestas, várzeas de rios,
belvederes diversos com vistas empolgantes da montanha e não tivemos muitas
surpresas. Não vimos uma grande quantidade de aves, os pios não se
diferenciavam muito, mas fomos brindados com um casal de pica-paus, com direito
a pose para fotos. Um da cabeça vermelha (a fêmea), outro da cabeça negra (o
macho). Eles nos deixaram aproximar até uns três ou quatro metros, facilitando
o trabalho dos fotógrafos (Bernard e eu). No trajeto de volta vimos um outro
casal, escondidos, no entanto, nas ramagens das árvores. Ainda faz parte do
caminho riachos de água muito limpa, água de montanha, deliciosa. Uma das
melhores águas minerais que já bebi. Água dos Andes que chegam aos vales
Patagônicos. E nesse quesito, cuidado com as águas, os argentinos ganham
disparado dos brasileiros.
A cada quilômetro a montanha ficava mais próxima, a luz do
sol modificava a paisagem com novas tonalidades e novos brilhos. O mais belo
nos aguardava, entretanto, quase quatro horas depois do início. Subimos o
último aclive do trajeto, naquele momento em que se chega ao fim da trilha
(será?), ao último minuto da caminhada, UAU! A visão do lago (não muito
grande), da geleira azul atrás do lago e da montanha Cerro Torres atrá da
geleira. E o Fritz Roy à direita delas. Eram doze horas e trinta minutos, o sol
brilhava, o céu com poucas nuvens, e o lago verde, calmo, lindo, com alguns
torrões de gelo boiando. Hora do emaravilhamento. Fotos, fotos e mais fotos. E
o lanche. A fome chegou bem na hora do fim de nossa trilha, a ida.
Fritz Roy é o nome do capitão do navio Beagle, o navio
descobridor do canal de Beagle no sul da Argentina e do Chile e que, em sua
segunda viagem à região trouxe a bordo o jovem Charles Darwin. Depois dessa
viagem, e com tudo que ele coletou e observou na região e em outros locais do
trajeto do navio, ele escreveu a teoria da evolução das espécies. Não sei se Darwin
esteve na região de El Chalten, creio que não, no entanto seu nome, o nome do
capitão Fritz Roy e do navio Beagle deixaram registros profuntos por lá.
Voltamos ao hotel Altas Cumbres à dezesseis horas e trinta
minutos e fomos descansar. Uma boa ducha, uns minutos de sono, outro de
leituras, visita ao correio eletrônico, uma pausa enfim. Descansar as pernas.
Combinamos sair para jantar as dezenove horas e trinta
minutos. Como é fim de rua, a cidade esvazia à noite, vários restaurantes
estavam fechados. E precisávamos de um restaurante que aceitasse euros ou cartão
de crédito, nossos pesos argentinos estavam no fim. Tivemos sorte ao entrar no
restaurante Fuegia. Linda e colorida casa e duas mulheres lindas nos atendendo.
Meu prato: biffe a la plancha, papas fritas e vegetales. Biffe vuelta, vuelta,
ou seja, sangrando. Delicioso. E o vinho? Escolhi Desierto 25, Malbec. E pelo
sorriso da atendente eu soube que a escolha era muito boa. Realmente! Um ótimo Malbec
2011, do norte da Patagônia.
Ao fim do dia meu pensamento era: Quando a gente se afasta
de uma montanha com a qual desenvolveu alguma intimidade, é como se afastar de
um ser querido. Essa foi a sensação ao ver de longe a cadeia Cerro torres e a
Fritz Roy. Probabilidade de revê-las? Sempre queremos rever os seres queridos.
Eu sou assim com minhas montanhas, as eleitas como companheiras.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 14
22/03/2014
Esse foi o dia da viagem para El Chalten. Saímos do hotel às
sete horas e trinta minutos e nos dirigimos até a estação de ônibus da Caltur
que sai oito horas , com chegada a El Chalten as onze horas, no hotel Altas
Cumbres, muito bom hotel. A cidade tem três mil habitantes e vive
exclusivamente do turismo. É uma cidade aberta, só tem casas, sem prédios e sem
muros. Aliás, não vi muros na Argentina. Deixamos nossas coisas no hotel e
saímos para comer, hora do almoço. Paramos em um bar-restaurante que anunciava
comidas vegetarianas e crepe. Pedimos crepe, chá e café.
O bar tinha uns temas xamânicos como decoração, o
proprietário era um jovem de cabelos longos, sorridente e gentil, nos atendeu
muito bem, a crepe estava deliciosas e a música era de Pink Floyd, do disco The
Dark Side of the Moon, mas em ritmo de reggae jamaicano e muito bonito. Um
pouco antes tínhamos passado por um armazém onde comprei água e dois
chocolates.
Nosso destino era ir ao escritório da Patagônia Aventura
onde, às quatorze horas, tomaríamos o barco para uma navegação no lado Vidma.
Como chovia muito, e aumentava, a viagem foi cancelada. Voltamos ao hotel sob
muita chuva e vento, eu cheguei molhado, tirei as roupas e entrei sob as cobertas
para aquecer-me. O dia foi de calma.
Terminei de ler o livro do Marc Levy “Et si c’était vrai”
(Éditions Robert Laffont AS, Paris, 2000), vou marcar umas passagens
interessantes que, creio, irão acrescentar em minha prática de Coaching. A
tradução é minha.
Páginas 207 e 208
“Todos os dias, ao acordar, você tem oitenta e seis mil e
quatrocentos reais em sua conta com a condição de gastá-los durante o dia, o
saldo não utilizado até ir dormir sendo retirados da conta, e o jogo pode
terminar a qualquer momento. A pergunta é: o que faria com esse dinheiro? Ao
acordar de novo você tem mais oitenta e seis mil e quatrocentos reais para
gastar durante o dia, e os depósitos poderão terminar a qualquer momento, sem
avido prévio.
Porque esse número mágico? Que são esses oitenta e seis mil
e quatrocentos reais, na verdade? Oitenta e seis mil e quatrocentos é o número
de segundos de vida em um dia que temos creditado em nossa conta. O “banco”
pode fechar a nossa conta a qualquer momento. Então, o que fazemos com nossos oitenta
e seis mil e quatrocentos segundos cotidianos? Os segundos de vida não são mais
importantes que o dinheiro?”
Página 187
“Nada é impossível. Só os limites de nossas almas definem
certas coisas como inconcebíveis. Precisa-se resolver sempre várias equações
para admitir um novo raciocínio. É uma questão de tempo e de limites de nossos
cérebros. Transplantar um coração, fazer voar um avião de trezentas toneladas,
caminhar na Lua, tudo isso demandou trabalho e, principalmente, de muita
imaginação. Então, quando nossos sábios mais sábios declaram ser impossível de
transplantar um cérebro, de viajar à velocidade da luz, de clonar um ser
humano, eu digo que, finalmente, eles não aprenderam nada de seus próprios
limites, ou seja, de imaginar que tudo é possível e que é uma questão de tempo,
de tempo e de compreender como isso é possível”
Página 160 – sobre a morte
“Uma vez que tenha passado um bom dia, que tenha se
levantado cedo para me acompanhar em uma pescaria, que tenha corrido,
trabalhado e que está cansado à noite e, finalmente, mesmo que não goste de
dormir, você ficará feliz de se colocar sob as cobertas e encontrar o sono.
Esta noite você não terá medo da noite e de dormir.
A vida é um pouco assim também. Se bem a viveu terá certa
tranquilidade em dizer que um dia descansará. Talvez, com o tempo, nossos
corpos nos impõem as coisas com menor facilidade, tudo é mais difícil e
fatigante, então a ideia de dormir para sempre não nos provoque mais medo como
antes”.
Páginas 117 – 118: ver o momento presente, o entorno, sentir
as coisas, a harmonia da vida.
“Quantos entre nós são capazes de esquecer num instante seus
problemas para se maravilharem com este espetáculo inesquecível? A maior
inconsciência do homem é a sua própria vida”.
Página 84 –
“Identificar a felicidade que está a seus pés, ter a coragem
de se abaixar para pegá-la em seus braços e a guardar, é a inteligência do
coração. A inteligência sem essa do coração não é nada mais que a lógica e isso
não é grande coisa”.
Finalmente fomos jantar em La Cervezaria, super merecidos cento
e quarenta e quatro reais de um belo jantar, com vinho em vez de cerveja. Muito
bem servidos, ótimo jantar.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
AUTOBIOGRAFIA DESAUTORIZADA VIII
Minha autobiografia, mesmo sendo
desautorizada, e talvez por isso mesmo, vem sendo acompanhada por alguns leitores
fieis. E eu pensei que ninguém se interessaria por memorialices desmesuradas.
Imagino que, pelo seu caráter de narrativa não autorizada, poderia ser revelador
de segredos inconfessáveis, o que, de fato, não acontece. Tenho recebido
recados de amigos e filhos de amigos perguntando se eu escreveria sobre tal ou
qual episódio com pessoas tais ou quais citados como protagonistas de algum
episódio. Pode até ser, se tal ou qual episódio se manifestar interessante, no
entender do autor, para a continuidade da narrativa, ela vai aparecer. Portanto,
aguardem.
Como eu escrevi em algum momento
anterior, eu não me lembro muito dos episódios de meus tempos de ginásio, ou
seja, meus tempos de Liceu Imaculada Conceição, em Nova Lima. O que lembro já
escrevi. Caso algumas lembranças surjam no decorrer de minha narrativa, eu os
contarei desde que necessárias para a sequência dos ocorrimentos. O fato, de
fato, é que me transferi para o Ginásio Estadual Augusto de Lima, bem na metade
do quarto ano porque, na minha imaginação, seria mais fácil ingressar no curso
científico da mesma escola. Dessa mudança tenho boas lembranças. Porque fazia
parte do currículo da nova escola a disciplina Francês como língua estrangeira.
E lá fui eu estudar francês, quem diria. Quem adivinharia que essa mudança
teria alguns efeitos futuros em minha vida?
Pois bem, comecei a estudar francês
com dois professores diferentes: uma bela professora (nos dois sentidos)
moradora da rua Chalmers e filha de um juiz de paz da cidade; e também um
senhor pouco formal que morava em uma casa grande depois do Bicame e falava
como se estivesse de boca cheia, eu o achava engraçado. Os dois eram muito bons
e me ensinavam com métodos diferentes. Um dia tive que fazer uma prova de
francês, na escola, um ditado, em que eu deveria escrever as frases ditadas pela
aplicadora da prova. Essa professora era irmã da outra, também simpática. Ao
final da prova de ditado eu fui aprovado e aceito oficialmente na Escola
Estadual Augusto de Lima.
Tenho ótimas lembranças de minha
professora de francês, eu a encontrei várias vezes em minha vida. Mais tarde,
já na Universidade, descobri que ela era professora da Faculdade de Educação. Foi
um prazer revê-la e a partir de então, sempre que nos encontrávamos conversávamos
muito. Ficamos quase amigos. E a língua francesa entrou para minha vida. Cismei
que gostava da língua e comecei a ler revistas francesas, principalmente
revistas de fotografia. Continuei estudando francês irregularmente, comecei
vários cursos, imaginei que não era muito dotado para esse tipo de aprendizagem
até que fui morar na França, muitos anos depois, e descobri que, de fato, eu
não gostava de estudar língua estrangeira, talvez por causa dos métodos
adotados no Brasil, mas quando situado no local em que se fala aquela língua,
aí sim, eu me dedico a aprendê-la.
Os anos de escola estadual, a
partir de meus quinze anos e cursando o científico, aí sim, é um recomeço de
vida. Mas isso é assunto para o próximo capítulo. Aguardem. Quanto aos
leitores, aviso que as aventuras boas de minha vida começam aos quinze anos.
Até aqui os acontecimentos foram aperitivos para o que virá em seguida.
Aguardem.
Assinar:
Postagens (Atom)
O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”
Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...
-
Na reunião do grupo IncentivArte de 03/11 percebi minha falha em um quesito colocado pelo edital do programa, justamente o de tornar público...
-
Uma senhora idosa aproximou-se do balcão do banco com passos lentos, mas firmes. Estendeu o cartão bancário ao caixa e, com uma voz serena, ...
-
Música “O Astronauta de Mármore”: versão do grupo Nenhum de Nós de uma música de David Bowie (Star Man) [1] . “Eu não vendo li...