terça-feira, 8 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 03

11 de março de 2014

De pé às seis horas de novo. É a hora que nos acostumamos a despertar. Uau, tão cedo por quê? Mesmo em férias nossos hábitos permanecem. Com isso arrumamos nossa bagagem com calma, tomamos uma boa ducha e fomos ao café da manhã. Que não era no hotel. Foi um café da manhã em um café vizinho ao hotel, que se chama Hotel Pop. Pop mas sem restaurante ou bar. O café em questão abriu às 08h5min, às oito já estávamos à espera na porta, sem problemas, não somos estressados, embora sabíamos que o taxi nos pegaria às oito e meia para nos levar ao aeroporto. O serviço do café nos surpreendeu: um suco de laranja, duas torradas de pão de forma, frutas à vontade (banana, melão, maçã e pera descascadas e picadas), um croissant (aqui chamam de média luna), marmelada e creme de queijo, café com leite e água mineral com gás. Maravilha. Voltamos ao hotel, eram exatas oito e meia e o taxi nos esperava. Descemos as malas e já para o aeroporto. Que se localiza às margens do Rio do Prata, em meio ao trânsito. Buenos Aires é enorme, as distâncias são longas, tudo é muito longe, como São Paulo.

O aeroporto Aeroparque se parece com todos os aeroportos: gente apressada, gente relaxada, serviço de companhias aéreas razoável, desde que não haja nenhum incidente, claro, senão as pessoas entram em pânico e os funcionários não estão preparados para atender pessoas em pânico, isso também é normal no mundo todo. Além de pessoas em pânico, os aeroportos são ótimos locais de encontro de pessoas que se acham melhores que os outros e exigem atendimento vip, ou que o pânico delas deve ser resolvido em primeiro lugar. Aeroportos são lugares de encontro de vaidades de todos os matizes. E tem lojas, vende-se de tudo nos aeroportos e com preços maiores que em outros lugares.

E lá vamos nós para Ushuaia, com escala em El Calafate. Hora do voo, 10h50min; hora da partida, 11h10min; tempo de voo, 3h20min até El Calafate; tempo de espera em El Calafate, 35min; tempo de voo de El Calafate até Ushuaia, 1h. Voo lotado, metade dos passageiros desce em El Calafate, e lá enche de novo. Chegada a Ushuaia, 16h20min; tempo de espera das malas, 20min.

Tínhamos um carro já alugado no aeroporto, pegamos um Ecosport e partimos ruma à Estância Rolito, onde passamos a noite. Temperatura externa de cinco graus (que frio), nevava ligeiramente e o vento era cortante. As orelhas gelaram imediatamente. Entramos no carro, esse logo se aqueceu e, estrada que te quero.
Uma vez no carro passamos a cidade de Ushuaia pelo caminho beira-mar. O porto estava pleno de navios, inclusive um muito grande, de cruzeiro. Na saída da cidade a polícia rodoviária nos parou e pediu passaporte, anotou nossos nomes e para onde íamos. Não sei se era rotina ou se foi chatice mesmo. No entanto, o policial tinha uma cara simpática e foi muito gentil conosco. Depois ficamos sabendo que eles sempre param todos que tomam o caminho.

Continuamos. A estrada é belíssima, passamos entre montanhas muito altas e com vistas belíssimas para vales e lagos. Muitos e grandes lagos. No caminho nos demos conta que não tínhamos nada para comer. Almoçamos apenas biscoitinhos de voo, mesma coisa das companhias aéreas brasileiras. E, à medida que avançávamos na estrada, percebemos que entrávamos em regiões despovoadas, sem nada, absolutamente nada, às margens da estrada. Só encontramos alguma coisa na cidade de Tolhuin, a cem quilômetros de Ushuaia. Entramos na cidade e encontramos uma padaria muito boa e barata. Comemos pouco, uma vez que faltava apenas mais quarenta quilômetros para nosso destino e éramos esperados para jantar. Estávamos chegando à Estância Rolito, a cento e quarenta quilômetros de Ushuaia, para passar a noite e conhecer uma autêntica fazenda da Patagônia. Chegamos por volta de 19h e fomos recebidos pela família proprietária da estância: Annie, Pepê, e os filhos Luiz e Ana, com uma surpresa: todos falam francês. Imaginei como isso é possível? Fazendeiros lá da Terra do Fogo falando fluentemente o francês. Para Hélène e Bernard, nossos amigos e companheiros de viagem, franceses foi muito bom. Para nós também, não precisaríamos traduzir do espanhol para o francês.

Ocupamos os nossos quartos e nos preparamos para ouvir histórias. E foram muitas histórias. Passo a contar algumas delas.


segunda-feira, 7 de abril de 2014

LONDRES-PARIS EM BICICLETA - DIA 01


A PARTIDA DE BELO HORIZONTE
03/09/2013

A viagem começa em Confins, nosso aeroporto internacional onde tomamos um voo para Lisboa, escala para chegar a Paris. Tinha em mãos o livro de Maria Augusta, Porque ler Oswald de Andrade, meu livro de cabeceira naquele momento e que ficou esquecido dentro do avião nessa viagem. Passear, pedalar, rever amigos e conhecer outros eram objetivos da ocasião. Lendo Oswald de Andrade veio a ideia para um possível título de um livro de poesias que pretendo publicar um dia: SEMENTEIRA. Porque? É algo que quero plantar, e plantar sempre começa com as sementes, e espero fazer desse livro sementes para outros livros que gostaria de escrever. Minha primeira ideia é publicar os CURTAS e os OBJETOS. O primeiro são cenas curtas, como cenários possíveis de serem filmados como curtas-metragens. Não sou cineasta, então escrevo. Também não são roteiros, são crônicas-poemas. Posso classificar como poesias crônicas, apelando para o duplo sentido da expressão? Particularmente a ambiguidade da palavra crônica, como uma doença sem cura. Poesias crônicas refletiria um aspecto de minha vida, em que escrever é um mal sem cura: crônico. SEMENTEIRA DE POESIAS CRÔNICAS. A tentar.
A chegada a Lisboa aconteceu às 05h40min, e fizemos uma caminhada de dois quilômetros até a porta vinte que nos leva a Paris-Orly. O voo para Paris estava com meia hora de atraso, o que nos facilitaria a vida, não precisaríamos correr. O dia amanhece em Lisboa às sete horas, nessa época do ano (outono na Europa). No café do aeroporto um velho atendente nos serve um café e nos pede moedas para facilitar o troco. Acabávamos de entrar na zona do Euro e não tínhamos moedas. Sua primeira demonstração facial foi de desapontamento, depois se tranquilizou e nos serviu calmamente.
O voo para Paris saiu com uma hora de atraso. Pousar em atraso na Europa não estava em minha cabeça, no entanto, na Europa como no Brasil, voos atrasam. Isso nos permitiu chegar calmamente à porta vinte, onde se entra no avião para Paris. Em Paris-Orly ainda ficamos meia hora dentro do avião à espera do ônibus que nos levaria à sala de retirada de bagagens. A comissária de bordo nos dizia que o serviço do aeroporto estava prejudicado, naquele dia, pela chegada do presidente da França de sua viagem ao Egito, e isso ocupava o pessoal de serviço térreo com sua segurança.
Em Orly nos esperavam Hélène e Bernard Richoux, nossos anfitriões, e nossos amigos na França há mais de quinze anos. São tão gentis que nos parecem amigos de infância. É exatamente isso, encontrei novos amigos de infância, uma raridade. Sempre que podemos nos encontramos, e isso acontece pelo menos a cada dois anos. Desde que voltamos de nossa temporada morando na França, em 1999, já nos encontramos sete ou oito vezes, na França e no Brasil. Conversamos pela Internet, pelo telefone, e programamos viagens em conjunto. Dessa vez eu usaria a casa deles nas proximidades de Paris como pouso, o projeto do momento era ir a Londres e pedalar de volta a Paris, passando uns dias na casa deles. Não posso deixar de registrar a presença deles em nossas vidas. Os dois são professores de Física no nível de ensino que chamamos, no Brasil, de Ensino Médio. Como nós também somos professores de Física, formamos um quarteto com a mesma profissão. Por isso também trocamos impressões, conhecimento, além do prazer de conviver e beber vinhos.
E assim foi nossa chegada a Paris, recebidos por amigos queridos. Em seguida, os preparativos iniciais da viagem a Londres e a pedalada Londres-Paris.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 02


10 de março de 2014

“Seis horas. Salto do leito”. Assim inicia um poema daqueles autores que a gente lê na infância, na escola primária, hoje ensino fundamental. Não foi esse autor que me fez gostar de poesia. Quem teve esse mérito foi Kipling, que eu lia na coleção Tesouro da Juventude, comprada por meu pai, até hoje presente na estante na sala de visitas de sua casa, hoje casa de minha mãe.

Levantei-me às seis. Café da manhã naquele hotel perto do aeroporto de Guarulhos, com um serviço muito ruim pelo preço cobrado, fechamento de malas e rumo ao aeroporto. Buenos Aires nos espera. O voo de São Paulo a Buenos Aires foi exatamente entre 11h20min e 14h20min, ou seja, na hora do almoço. Ou melhor, na hora daquele lanchinho mixuruca da companhia aérea. Tradicional. Chegamos ao Hotel Pop às 16h e fomos comer alguma coisa às 18h. Ficamos próximo a Palermo, bairro tradicional de Buenos Aires, que alterna prédios e casas muito antigas com construções modernas. Não é uma região de prédios muito altos, é bem arborizada de grandes e velhas árvores. No hotel encontramos Bernard e Hélène, nossos grandes amigos franceses e já saímos juntos para lanchar e fazer pequenas compras. O câmbio estava a 1 x 3,6, melhor estava na semana anterior, disseram-nos. Os preços são altos, provavelmente por ser Palermo. Numa lanchonete ao lado do hotel pedimos dois tostados com presunto e queijo, enormes, por quarenta pesos. E tomamos a cerveja Quilmes, argentina, que agora é da Brahma. Boa cerveja.

Depois das primeiras andanças pela cidade para pequenas compras necessárias para a continuação de nossa viagem, fomos jantar. Salada e frango com batatas fritas e molho de limão. Parece simples, não é? Estava maravilhoso nosso jantar. A cantina, típica de Buenos Aires, se chama exatamente La Cantina. Cheia de camisas de times de futebol nas paredes e em painéis pelo teto, de clubes argentinos e estrangeiros (não tinha nenhuma camisa de times brasileiros), e uma enorme bandeira da Argentina em uma das paredes, com uma foto do Papa Francisco no meio da bandeira. E muitos quadros nas paredes, em uma bela mistura de cores e de motivos. Um restaurante interessante. O garçom falava muito alto e era gentil, a comunicação com ele fluiu facilmente, sem problemas.


O vinho escolhido foi um Trapiche Cabernet Sauvignon, 2011, de Mendonza, bom vinho de frutas negras maduras, notas de especiarias e taninos macios, deixam na boca o sabor das frutas negras. A conta, foi de quatrocentos e dezessete pesos, ou cento e vinte reais para quatro pessoas. Barato. Mas como nos disseram que os preços em Buenos Aires eram uma maravilha, esperávamos pagar menos que isso. No entanto, trinta reais por pessoa pagamos por um tira-gosto com uma cervejinha depois de uma corrida na Lagoa da Pampulha, em um bar de fim de tarde. Acho que nossos preços é que estão muito caros.

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 01


09 de março de 2014

Nova viagem, novos relatos. Primeiro dia, apenas São Paulo. Às onze horas já estava no Aeroporto de Confins esperando o voo de 12h02min que me levou ao Aeroporto de Congonhas em São Paulo. É o primeiro ponto de parada de uma viagem de quase vinte dias. Passei a noite em São Paulo, em um hotel ao lado do Aeroporto de Guarulhos, ponto de saída do Brasil. Demos início, Silvania e eu (ela já estava em SP e eu a encontrei no hotel), a uma viagem para cidades da Argentina e Chile, começando, obviamente, por Buenos Aires. Maravilha. Para mim é um prêmio por quarenta anos de trabalho, junto com a notícia de minha aposentadoria. Fui para cidades e montanhas frias. Adoro cidades e montanhas frias.

Primeiro, Confins, com partida de ônibus na Pampulha, Belo Horizonte. No ponto de ônibus tinha um senhor fazendo terrorismo com os passageiros, dizia que ônibus para o terminal de Confins sofreram seis assaltos em dois meses: um absurdo aterrorizante. A violência urbana degenera a vida das pessoas, no entanto, em um domingo as 09h da manhã, seria o cúmulo do azar. Um assalto hoje, meu primeiro dia de férias, nem pensar! Tinha um Iphone e um Ipad e dois mil reais em minha mochila. Não poderia perdê-los. Levava dinheiro porque a recomendação era trocar reais por pesos argentinos nos câmbios paralelos de Buenos Aires que pagam mais que a relação um peso igual a vinte e oito centavos de real. Onde chegamos com planos econômicos desastrosos. Histórias de nossas nefastas políticas econômicas. A troca de dinheiro nos câmbios paralelos locais se justificam por duas razões: moedas estrangeiras em falta na Argentina, com os controles cambiais do governo de lá; as altas taxas de impostos que pagamos ao governo de cá em casos de compras e pagamentos com cartões de crédito no exterior. Dois países que exploram em demasia suas classes médias, aquelas que movimentam o dinheiro. São ordenamentos na contramão de uma famosa lei da natureza: faça o dinheiro circular que ele volta para você. Não sei se a lei vale quando os governos cobram altas comissões, à nossa revelia. 

Voltando a Confins, o aeroporto está um caos. O movimento é grande. Hoje, as pessoas viajam de avião e o aeroporto se encontra em período de obras que nos parecem intermináveis. Sujeira, poeira, gente perdida, informações desencontradas, imagino como os usuários não habituadas se sentem, principalmente aqueles que chegam a BH, ou melhor, nos Confins, e não encontram indicações que lhes mostrem a saída. E se não falam nossa língua? Horas depois, em Congonhas, tomei o ônibus para Guarulhos.

As histórias me perseguem, parece. Ao pousar, todos os viajantes se levantam apressadamente como quem quer sair logo dali, daquela lata de sardinha chamada aeronave. Em um banco logo atrás do meu levantaram um casal com uma criança, tipo espertinha, e o menino se põe a falar. – Pai, estou com fome. Quero comer. E eu quero comer ovo. Tem muito tempo que não como ovo. Mas eu quero daquele ovo deitado. – Que ovo deitado, menino? Como é isso? – Adoro aquele ovo deitado no prato. – Essa eu nunca havia escutado.

Domingo, trânsito tranquilo, a viagem para Guarulhos durou cinquenta minutos. Olhei a paisagem, não cochilei. Na saída do terminal dois, caminhando para o ponto da van que me levaria ao hotel, fui abordado por um senhor ruivo, uma senhora morena e uma jovem branca, que se diziam família, e me pediram dinheiro. Choramingavam por um irmão doente em Ribeirão Preto e que deveriam visita-lo e faltava oitenta e nove reais para a compra das passagens. Disseram ser de Guaxupé, tinham a cara chorosa e prometeram depositar em minha conta assim que pudessem. Posso ter caído no maior conto do vigário da paróquia, eles podem ter me achado com uma cara de otário, mas tirei cem reais do bolso e entreguei a eles, junto com os dados de minha conta para que eles depositassem de fato. Veremos. Se a história for verdadeira, terei colocado o dinheiro para circular e ele voltará a meu bolso no futuro. Agora é esquecer os cem reais e dá-lo como perdido. A van do hotel chegou e entrei nela.


Hotel próximo ao aeroporto é um pouso em lugar nenhum, apenas um hotel perto do aeroporto. E eu que vou para a Terra do Fim do Mundo, em Ushuaia, tive a impressão de já ter chegado. A lugar nenhum. Subi ao quarto, passei uma mensagem à minha mulher – cheguei. No hotel havia uma nata de pesquisadores em Ensino de Física. O primeiro que encontrei foi o Demétrio, grande figura de Florianópolis, amigo de longa data e grande papo. Depois foram saindo outros da sala em que se reuniam, a maioria eu conhecia, outros fiquei conhecendo naquele momento. E o São Paulo ganhou do Corinthians por três a dois. Depois que todos se foram, jantamos e saboreamos um La Nina, Chardonay, Argentina, para entrar no clima.

La Niña 2011, Chardonay


                
Nuvens de pipoca na chegada a São Paulo

sexta-feira, 28 de março de 2014

O SUMIÇO DA BOINA


23/03/2014

Viajei para Ushuaia, Argentina, depois de uma parada de um dia em Buenos Aires, e tinha a boina na cabeça. O clima frio convidava a seu uso. Em Ushuaia nevava e/ou chovia quando saí do aeroporto e peguei um carro alugado para ir direto a Estância Rolito, a 150 km, onde passaríamos a noite. Na Estância estava muito frio e ventava muito. Troquei a boina quase vermelha por uma outro de lã, mais quente, que me protegia as orelhas. Para não perdê-la coloquei na mala. Guardei-a.
Não mais me preocupei com a boina. Quando se viaja todos os dias para diferentes lugares quanto menos se mexe na mala, melhor. Acumulamos roupas sujas num canto da mala separando-as das roupas limpas de forma mais ou menos organizada em função do que se vai usar nos dias seguintes. Os tempos de pausa sendo curtos o melhor a fazer é aproveitar o melhor possível os caminhos, novos caminhos. Um dia são os pinguins, outro é caminhada no parque da Terra do Fogo, depois a visita a outra estância, e a boina guardada na mala era certeza, a ventania era verdade, melhor tê-la lá.
Um dia sem vento aguçou-me a vontade de colocar na cabeça minha querida boina. Abro a mala e ... onde está? Reviro tudo, misturo sujas com limpas, cuecas com camisas, meias com calças, e cadê minha boina? Esvazio a mala, organizo-a de novo, e nada de encontrá-la. Como desapareceu? Para evitar perdas, sempre que deixo um quarto de hotel eu faço uma checagem de abandono. Com as malas do lado de fora, volto lá e verifico tudo de novo para certificar-me não ter deixado nada para trás. E porque alguém roubaria a boina se dentro da mala havia dois blusões de couro mais bonitos e caros?
Eu a comprei em Montevidéu uns cinco anos atrás. Estava frio e ela me aquecia a cabeça cada vez com menos cabelos. Em Belo Horizonte o frio é curto e eu a usava no inverno quando visitava cidades de temperaturas mais baixas. E foi assim que, em um passeio com meu pai, careca de todo, em uma cidade fria, eu a coloquei na cabeça dele. Ele reclamou o esquecimento de seu boné, aceitou minha boina de bom grado. Gostou tanto dela que eu deixei-a em sua cabeça pelo tempo que quisesse. – Não vai fazer falta não, filho? – Quando você não precisar mais dela eu a pego de volta. – Exatamente como aconteceu.
Nos últimos meses, doente, meu pai não a tirava da cabeça. Sentia muito frio. Nova Lima, sua cidade, é fria e ele, em sua fraqueza crônica e ampliada progressivamente, agasalhava-se sempre. Ao sair do banho precisava ficar um tempo debaixo dos cobertores para se aquecer. Levantava já com a boina. Em suas últimas fotos ela era presença constante. Com sua magreza evolutiva ela parecia maior que sua cabeça.
E eu a peguei de volta quando ele não precisou mais dela. Não sem impor minha condição de proprietário. Muitos a queriam como lembrança. A boina já era parte dele, como uma prótese. A boina e a bolsa de colostomia, depois de sua cirurgia.


E a boina desapareceu, misteriosamente, de minha mala, em algum lugar entre Ushuaia e El Calafate, na Argentina, tendo no caminho Punta Arenas e Puerto Natales, no Chile. Levada por um condor? Talvez eu não fosse mais o proprietário. Talvez ele tenha se apropriado dela de vez. Que a guarde bem, então.


sábado, 8 de março de 2014

A MORTE E A MORTE DE FRANCISCO


Escrevi que não mais escreveria sobre a morte e a morte de meu pai. Furo a promessa só por uma razão: sua imagem deixou de aparecer em meus sonhos. Ele aparece em meus sonhos como névoa fugidia. Pergunto, no sonho, à minha mãe: - onde está papai? Ela responde: - está lá na frente. Eu olho "lá na frente" e vejo apenas uma luz e uma sombra desaparecendo na curva. São a luz e a sombra que o acompanham, reconheço os traços no chão. Agora sim, escrevo novamente que não mais escreverei sobre a morte e a morte de meu pai. E mais: creio que não sonharei mais com ele.

( O título é uma paródia - homenagem ao título de uma novela de José Saramago - A morte e a morte de Ricardo Reis. Ricardo Reis é um dos pseudônimos de Fernando Pessoa).

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

CONHECIMENTOS E RESIGNIFICAÇÕES

06/02/2014

Conhecer, saber, informar-se, compreender, entender, capacitar-se, habilitar-se: são muitas as nuances do aprendizado e muitos verbos com significados próximos, e diferentes, sobre essas nuances. Lembrei-me de um artigo que li em uma revista científica sobre a cultura indígena: afirmava que tribos amazonenses tem trinta e duas palavras diferentes para distinguir diversos tons de verde. Contei isso para uma amiga chinesa, como quem conta vantagens, ela me disse que os povos habitantes dos desertos gelados do norte da China também tem trinta e duas palavras diferentes para distinguir os diversos tons de branco. Chamou-nos atenção o fato do número ser o mesmo: trinta e duas palavras. Trinta e dois tons de cores, para as diversas cores? Existiriam trinta e duas palavras diferentes para distinguir “tonalidades” de conhecimento? Iniciemos uma lista. Sete palavras já foram escritas no início desta crônica, quem quiser ajudar a fazer crescer a lista enviem-me as palavras, com seus significados. Eu já passei por vários desses estágios e, recentemente, acrescentei uma palavra por minha conta e risco: resignificar, palavra que o dicionário online de meu editor de texto se recusa a validar. Preciso resignificar isso.
Mas o que seria resignificar? O conhecimento é como uma bola de neve montanha abaixo: vai crescendo à medida que a bola rola. Vai se acumulando, se acrescentando aqui e ali. Todas as teorias do conhecimento, de Rousseau a Paulo Freire, passando por Piaget, Vigotsky, Vallon e Maturana, são unânimes em dizer que conhecimento não brota em árvores. É preciso conhecer, para conhecer mais. É preciso ter conhecimentos prévios para se apropriar de conhecimentos novos, e para que esses conhecimentos novos tenham significados. Essa é a base, por exemplo, da Aprendizagem Significativa, de Ausubel. E resignificar? O que seria uma Aprendizagem Resignificativa?
Arrisco dizer que resignificar conhecimentos é tirar lições positivas de conhecimentos acumulados mesmo que a experiência inicial em sua primeira, ou anterior, apropriação tenha sido negativa. Resignificar é eliminar traumas transformando-os em lições de vida. Resignificar é aumentar a bola de neve e ver seu potencial de energia crescente à medida que desce o morro, é ver seu potencial transformador e não seu potencial destruidor.
Ernest Heminguay perdeu os originais de seu romance em um naufrágio no Mediterrâneo e foi para Paris choramingar com Gertrude Stein. A escritora americana deu-lhe o melhor conselho que poderia dar: - “Escreva de novo, certamente sairá melhor”. Por quem os sinos dobram não é apenas, provavelmente, melhor que os originais afogados. É uma obra prima, merecedora do Nobel. Isso é resignificar. Transformar o conhecimento, ou qualquer outra das trinta e duas palavras (considerando que teremos trinta e duas palavras para isso), em novo e mais positivo conhecimento.



O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...