segunda-feira, 19 de maio de 2014

VÉSPERA DE PARTIDA A LONDRES


05/09/2013

Na manhã do dia cinco, quinta-feira, por volta de dez horas e depois do café da manhã, Bernard e eu fomos até a loja DECATHLON comprar a bolsa de carregar bicicletas desmontáveis (housse, em francês). Encontramos exatamente como vimos na internet e ao preço indicado (70 Euros). Aproveitei para comprar também um calção de pedalar, não daqueles coladinhos usados pelos ciclistas, bundudo que sou, acho que fica meio esquisito em mim, mas um calção mais largo embora com uma almofada para proteger cu e testículos (12 euros).

Quase tudo pronto, faltava desmontar a bicicleta e colocá-la dentro da embalagem. Começamos a fazê-lo quando Hélène nos chamou para o almoço: peixe apenas ligeiramente cozido, legumes também cozidos (tomate, vagem, cenoura, batatas, abobrinha), um molho caseiro ao alho, delicioso, e vinho rosé (um Terre des Oms, um collioure rosé 2011, de Banyuls-sur-Mer, France). Delicioso. Claro, com queijos diferentes, iogurte e uvas como sobremesa.

Deliciado o almoço, voltamos aos arranjos para guardar a bicicleta. Retiramos os pedais, as rodas, colocamos bicicleta e acessórios dentro do envelope, da housse. Depois fui pedalar com a bicicleta de Hélène em um parque próximo, em torno de um lago. Pequeno azar, depois de uns três quilômetros de pedalada o pneu furou, meia volta, volver, empurrando a bicicleta para voltar para casa. Aproveitei para correr um pouco e cheguei em casa suando. Hora, então, de arrumar a bagagem para ir para Londres.

À noite tivemos a visita de um casal amigo de nossos anfitriões, e que eu conheci em outras viagens que fiz até a casa deles: Philippe e Janine. Não os via havia tempos, são muito simpáticos e agradáveis. Horas de calma agora.

O jantar foi muito interessante. Philippe apertou forte a minha mão, grande consideração de apreço. As pessoas não se abraçam na França, salvo se são realmente muito amigos. O aperto de mão, o sorriso, e a frase “je suis très content de te revoir, Paulo”, foram suficientes para o momento e indicadores de apreço. Ele e Bernard são amigos de muitos anos, e o máximo de intimidade entre eles é esse forte aperto de mão, o olhar e o sorriso. Philippe chegou às 19h45min e Janine, sua esposa, às 20h10min. Ela estava em um ensaio de canto, pois no fim de semana seguinte ela cantaria em algum lugar. Não é cantora profissional, participa de um movimento associativo, comum na França, todos os cidadãos fazem parte de alguma associação para fazerem coisas coletivamente, um processo muito interessante e que deveria ser copiado, com devidas adaptações, por nós, brasileiros.

Quando Janine chegou já tínhamos bebido quase uma garrafa de champagne, da casa Huré Frères, trazido por Philippe. Champagne simplesmente deliciosa, de um produtor considerado pequeno, que não vende em supermercados, apenas em algumas casas especializadas na França, ou no local de produção. A champagne é uma bebida muito particular, tem esse nome por ser produzida e engarrafada na região de Champagne, com uvas locais e com denominação controlada. Isso significa que outros fabricantes de espumantes, de outras regiões do mundo, não podem chamar seus espumantes de champagne. Questões comerciais envolvidas no processo.

Os franceses sempre comem pratos frios e pratos quentes servidos separadamente, pratos frios como entrada. No jantar desse dia o prato frio foi composta de uma tigela de chips de legumes (ainda raro no Brasil), carnes, no caso pequenos bifes de boi e porco servidos frios, maionese caseira e mostarda de Dijon, uma menos picante que as habituais a meu paladar. O prato quente foi um assado de verduras e legumes muito bom. Eram tiras finas de tomate, abóbora daquela fina e comprida, cortada em rodelas, beterraba, pimentão, todos cortados em tiras e colocados na vertical na tigela e levados ao forno por vinte minutos. O prato se chama TIEN. O vinho tinto da noite foi o Fréderic Mabileau, vinho de Saint Nicolas de Bourgueil, pequena cidade do Vale de la Loire.

A conversa foi extremamente agradável, rimos muito, o assunto rolou solto e leve. O que temos em comum é a profissão de professor, a alegria de aprender sempre e de compartilhar conhecimentos e técnicas com os amigos queridos. Um dos assuntos foi a má distribuição de renda..., na França. Vejam só. E no Brasil? Nem distribuição de renda temos, nem boa, nem má.

Depois desse jantar especial, fomos dormir para levantar cedo e viajar.





sexta-feira, 2 de maio de 2014

EM PARIS, CHEZ RICHOUX


04/09/2013

Bernard e Hélène Richoux são duas pedras preciosas encontradas em um rio de águas cristalinas. Conhecemo-nos em 1996 quando morávamos na França para nossos doutorados, Hélène foi colega de classe de minha mulher, no DEA da Universidade de Paris VII. Os primeiros contatos já foram muito amigáveis, prenúncio de longa amizade. Desde então nossos contatos foram nos aproximando cada vez mais. Mesmo depois de nosso retorno ao Brasil, estamos nos visitando pelo menos uma vez por ano. Eles moram em Sainte Genéviève sur Bois, uma pequena cidade da região metropolitana parisiense, a meia hora de trem, RER C, de Paris. A casa deles é agradável, bem mantida pelos dois, sendo Bernard amador de marcenaria, de modo que tem sempre uma inovação cada vez que os visito.

Hoje, eles estão aposentados, curtindo a vida, os filhos e os netos vem vindo aos poucos (já são quatro). Ambos eram professores de Física em Liceus de cidades vizinhas à deles, Hélène chegou a fazer doutorado em Didática de Disciplinas, e fez pesquisas e publicou artigos. Bernard coordenou a redação de um livro didático de Física e Química para o Liceu, que corresponde ao nível Ensino Médio no Brasil. Na França, o ensino de Física e Química é em conjunto, com um só professor formado nas duas disciplinas. O currículo não é tão extenso como no Brasil, é perfeitamente viável o trabalho.

Voltando ao segundo objetivo de minha passagem pela França, o dia deveria ser também dedicado aos preparativos para minha viagem entre Londres e Paris de bicicleta, e o tempo não seria longo para isso. Eu precisava: alugar uma bicicleta em Paris; verificar como transportá-la via Eurostar; comprar bilhetes de trem entre Paris e Londres; comprar roupas adequadas para pedalar. Contava com a ajuda de Bernard para isso, pois ele me levaria aos lugares certos para as compras devidas. E ele fez muito mais que isso. Primeiro, ele me emprestou sua bicicleta, uma que na França chamam de VTT (vélo tout terrain). No Brasil a chamamos de bicicleta de cross, ou montain bike, nós que não temos o hábito de procurar uma boa palavra em nossa língua portuguesa e absorvemos palavras em inglês, bestas que somos. Uma vez aceito o empréstimo passamos a limpá-la, verificar se estava tudo em ordem, verificar as ferramentas e acessórios necessários e/ou úteis para o longo trajeto, etc.

Entramos no sítio web da Eurostar (http://www.eurostar.com/) para certificar-nos das possibilidades de transporte de bicicleta no trem. Vimos que podemos coloc´-ala dentro de uma bolsa apropriada para guardar bicicletas desmontadas e, assim, transportá-la pagando uma taxa de quinze euros. Nada mal. Passo seguinte: procurar na Internet onde encontrar a tal bolsa. Encontramos uma marca a setenta euros vendida em loja da rede Decatlon (http://www.decathlon.fr/). E uma loja dessas existe a menos de dez quilômetros da casa de Bernard. Em seguida compramos o bilhete de trem para ir a Londres. Cem euros a ida para mim e cento e sessenta euros ida e volta para minha mulher que iria comigo até Londres e depois voltou de trem para Paris. Cabe aqui uma nota: foi difícil convencer a agente de plantão na alfândega inglesa que eu tinha passagem só de ida a Londres, porque voltaria de bicicleta. Ela deve ter pensado que eu era maluco.

Tudo isso feito, passamos ao jantar chez Richoux, preparado por Hélène, uma torta de tomate deliciosa, com melões e presunto Parma como entrada. E vinho tinto, um Saint Joseph, genial. Antes havíamos bebido umas cervejas deliciosas, a Lefe e a Grimberger, ambas belgas. O sono caiu pesado, pelo cansaço da viagem e pela bebida também. Somos comedidos com relação ao álcool, a viagem nos colocou com sono. Fomos dormir por volta de 22h00, acordamos as 09h00, hora local. Que sono.


Foi com essa VTT que pedalei 420 km de Londres a Paris, em setembro de 2013.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 05 À TARDE


13 de março de 2014

Ainda no dia 05 um outro passeio nos aguardava. Às 14h, após um pequeno lanche na praça em frente ao porto, estávamos no escritório da companhia que nos levou a uma visita numa ilha de pinguins, os pinguins papuas. Fomos de ônibus à Estância Haberton, onde pegamos um barco até a ilha. Meia hora de barco e descemos na praia da ilha. A visão é simplesmente surpreendente: milhares de pinguins vivem na ilha nessa época do ano. Aqui se acasalam, botam ovos e tem os filhotes. É verão no local, apesar do frio latitudinal, e quando os filhotes estiverem crescidos e puderem acompanha-los em viagem, eles migrarão para águas mais quentes nas costas do sul do Brasil e norte da Argentina e em suas ilhas. Foi um passeio incrível, os pinguins são muito engraçados e quietos, desde que não os incomodemos. Eles ficam na deles, e passeiam sob a observação do bando de turistas, imagino que muito exótico para eles, cada turista com um aparato fotográfico mais assustador que outros, e eles ainda viram os olhos para nos observarem. A imagem da tarde foi a presença de um pinguim-rei que, segundo nossa guia, era uma raridade no local.

No caminho de volta, uma passada em um museu do mar, na Estância Haberton, que pesquisa os animais marinhos da região, principalmente baleias e golfinhos, entre outros, e uma parada para ver a estranheza das árvores.

À noite, ficou por conta de uma visita a um restaurante fino da cidade de Ushuaia. O restaurante Chez Manu nos recebeu muito bem e superou todas as expectativas colocadas sobre ele, que nos foi recomendado por Annie Luna, da Estância Rolito. Comemos uma merluza negra, peixe do qual todos falam na cidade de Ushuaia, como manjar imperdível. Valeu a pena. Além do jantar, o vinho escolhido para acompanhar, recomendação do chef, foi um Luigi Bosca Sauvignon Blanc 2011, magnífico, um dos melhores vinhos bebidos na viagem.

O dia foi longo.





sexta-feira, 18 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 05


13 de março de 2014

Às sete horas estávamos alertas. Oba, uma hora a mais de sono. Café da manhã e saída de van para uma visita guiada ao Parque Nacional da Terra do Fogo, localizada no fim do mundo, como dizem os habitantes locais, terra cheia de histórias e tradições. Se não estivemos no fim do mundo, o parque é bem próximo. Estivemos no último ponto habitável do sul da América do Sul. Depois de lá, muitas ilhas com bandeiras governamentais fincadas e, mais adiante, a Antártida.

Na saída do hotel conhecemos o guia que nos conduziu por toda a manhã ao parque, ele fala inglês, francês e também o português. Como estávamos indicados por uma agência francofônica e acompanhado de amigos franceses e falando franceses ele nos tomou por franceses. Em meio caminho percebeu que falávamos português, então começou a falar em português também, e falava bem, disse ser casado com uma brasileira do Rio de Janeiro. O caminho até o Parque custou meia hora de viagem, isso porque a van parou em outros hotéis para arrebanhar outros turistas e completar a lotação da van. Eram pessoas de várias nacionalidades diferentes formando pequenos grupos, não tivemos muitas oportunidades de iniciar uma conversação. Cada qual com seu grupo.

Uma vez no parque tivemos duas opções de passeio: pegar o trem tipo maria fumaça até determinado ponto dentro do mesmo, ou continuar de van até certo ponto dentro do parque, fazer uma caminhada curta na beira de um rio até certo ponto onde encontraríamos o grupo que escolheu o trem para continuarmos a visita. Preferimos continuar na van e fazer o passeio a pé. Foi uma boa escolha, porque a visita a pé passou por lugares incrivelmente belos. Durante essa caminhada conhecemos o pé de calafate, fruta nativa na região e muito comum. Durante toda a viagem pela Patagônia o calafate esteve presente através de sucos, sorvetes, geleias e licores, além do fruto propriamente (http://pt.wikipedia.org/wiki/Calafate-da-patag%C3%B4nia).

Caminhamos ao lado do Rio Lapataia onde foi possível ver as florestas de lengas e ñires, grandes árvores da Patagônia, ver os pássaros locais que parecem não assustar com os turistas, tivemos a impressão que eles até posavam para fotografias. Outras imagens impressionantes são as das montanhas, muito altas e com neves eternas em seus cumes. Vimos também uma represa de castores, animal vindo do Canadá, introduzido por imigrantes e que se tornou uma praga na Patagônia pelo fato de não ter predadores e suas represas matarem as árvores locais, desertificando toda uma região às margens dos rios. Assim como os cães selvagens, os castores são um problema, não só do parque, mas de toda a Patagônia.

Andando mais parque a dentro, outras surpresas nos esperavam. Como um casal de raposas que brincava alegremente também sem se preocupar com os passantes, e éramos muitos turistas, em vans, ônibus e carros. E as raposas, sentindo-se seguras, talvez, transitavam em meio a nós sem sustos de nenhuma parte. A ideia de preservação da natureza, ambiente, flora e fauna, é muito grande na Patagônia. Eles destruíram totalmente os povos que habitavam aqui, e hoje declaram seu amor às histórias dos índios, suas lendas, seus mitos, tentam preservar uma memória rica de povos que não existem mais. No entanto, os argentinos foram ciosos de matarem a todos para ocuparem as terras. Mas como li em um cartaz em exposição no museu do parque, que narra um pouco da memória dos povos indígenas,

“se prestas atencíon, quizás puedas reconocer sus vocês em el sussurro del viento que las esparce por los vales, donde quizás todavia more Hännus, el gigante del bosque. Voces que, serpenteando por costas y bahias, todavia inquieten a Laküna, ele demônio marino. Voces que nos hablan de la tragédia de um Pueblo que ya no existe. Es bueno escucharlas..., es bueno tener memoria..., es bueno aprender”.

Esse texto, e outros junto com fotos no pequeno museu local são arrepiantes. Fazem-nos pensar na tragédia, na miséria humana que considerou que os índios eram animais sem alma, então poderiam mata-los, com a aprovação da igreja. Matá-los em nome de um deus. Quantos erros não são cometidos por essa ambição das terras? Quantos de nós não somos também frutos desses erros e crimes cometidos num passado tão próximo? Não precisei ir à Terra do Fogo, no Fin del Mundo, para saber disso. Nossa história, minha história, é bem parecida.  


terça-feira, 15 de abril de 2014

SÓ DEPOIS DAS ONZE


Era domingo, estava quente, bateu uma vontade de tomar uma bebida, uma cerveja gelada ou uma cachaça com gelo como se uísque fosse. Instintivamente olhei o relógio. Bebidas alcoólicas só depois das onze da manhã.

Essa história ficou como uma daquelas orientações oficiosas na família, primeiro na casa do velho Chico, depois cada um dos frequentadores da casa do velho Chico a adotou, eu inclusive, como se regra fosse. Eu não me lembrava da origem da “regra”. Lembro-me que, aos domingos, os frequentadores da casa do velho Chico, sabedores de seus conhecimentos e deleites etílicos, iam chegando aos pouquinhos, sós ou acompanhados, às vezes com uma garrafa debaixo do braço, ociosos para conhecerem a opinião balizada do velho, e todos obedeciam a famosa “regra”: o primeiro trago só depois das onze. - Porque só depois das onze? - Temos que ter domínio de nossas vontades, de nossos prazeres e de nossos vícios. Eles não podem nos dominar, nós que os dominamos. A regra ajuda a ter o controle. Uma segunda regra implícita, menos tácita, era: almoço pronto, tomamos o último trago e passamos aos prazeres da mesa.

Eu não me lembrava quem teria começado a “regra”, se o velho Chico, se os manos Júlio e Guilherme, se eu mesmo. Nós três fomos, enquanto o velho Chico vivo era, os mais habituais frequentadores da oficina etílica e dos cursos de formação de degustadores que ele oferecia a quem chegasse. E qual de nós teria sugerido a “regra” tão rapidamente seguida por todos?

Em uma conversa animada sobre esses assuntos mundanos, etilicamente regadas, claro, lembramos. Uma de nossas manas foi casada com um devorador de doses, lembrando que devorador é uma categoria mais diferenciada daquela de degustador. Os devoradores também colocam o prazer do trago como uma variante ocupacional de vida, apenas o prazer deles é mais difícil de ser atingido, a exigência volumétrica sendo um tanto mais além da exigência volumétrica dos degustadores. E a velocidade processual do trago também é bem maior no caso dos devoradores.


E a “regra” foi estabelecida anos atrás, quando o devorador era frequentador da casa dos degustadores, relações conjugais e familiares nos aproximavam. Para diminuir o volume de consumação etílica do devorador e permitir uma convivência mais racional e lúcida até a hora do almoço, em comum acordo definimos: bebida só depois das onze, o que nos dava umas duas horas de deleite absoluto das boas branquinhas, aquelas que elegíamos como as que atendiam ao alto nível de nosso controle de qualidade. E o devorador em questão vigiava o relógio e, às onze em ponto entrava correndo na varanda onde estávamos: - ô gente, já são onze horas. 

sábado, 12 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 04


12 de março de 2014

Depois do belo almoço na Estância Rolito pegamos a estrada de volta a Ushuaia, diretamente para o hotel, passando antes pela estação de serviço (nome para posto de gasolina) encher o tanque do carro para devolvê-lo à agência. A diferença, na viagem de volta, é que chovia e nevava. Nevava quando a chuva parava. Estranha paisagem, um pouco de chuva e um pouco de neve. As condições climatológicas estavam naquele limite em que a temperatura abaixa um pouco e neva, aumenta um pouco e chove. Estranho equilíbrio para quem não está acostumado. Chegamos a Ushuaia por volta de 17h30min e demos entrada no Hotel The House. De fato uma casa de três pavimentos, uns dez quartos, não mais, uma graça de hotel. Atendimento sorridente e caloroso. Deixamos as malas nos quartos e saímos para conhecer a cidade. Uma graça de cidade, parece cidade grande, totalmente voltada para o turismo.

Nossa intenção era tomar um café, ziguezaguear pelas duas ruas principais da cidade e procurar um restaurante para jantar. Tínhamos algumas indicações de restaurantes, guias comprados em livrarias de aeroporto servem para isso. No entanto chovia, e quem conhece aquela chuva fina e teimosa a cinco graus sabe que o melhor é não ficar perambulando com a água caindo na sua cabeça e entrando pelo seu cangote. Entramos num café, lotado talvez porque os outros turistas também não eram amantes de chuva fina e fria no cangote, várias línguas se falavam ali dentro. Tomei um café irlandês, com uma pequena dose de uísque dando um gosto bem particular, além de aquecer o corpo. Dali só saímos para procurar o tal restaurante.


O tal indicado pelo guia livresco estava fechado e procuramos um outro ao acaso, e demos muita sorte. Era um ótimo restaurante, de poucas mesas, não estava cheio e a comida era muita boa. Escolhemos um robalo gralhado com salada, e bebemos um vinho muito interessante: um Don Bosco, chardonnay blanc 2012, chileno, meio frutado, delicioso. Depois do jantar, de volta ao hotel bem rapidinho que chovia forte. A chuva parou quando quase chegávamos ao hotel, no alto do morro, tempo de uma parada em um mirante para vermos a cidade à noite. Bela cidade.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 03 e 04

HISTÓRIAS DE ESTÂNCIA ROLITO

11 e 12 de março de 2014

Permito-me sair um pouco da lógica cronológica que eu seguia até aqui, uma vez que no terceiro dia de viagem, ao fim de tarde, chegamos à Estância Rolito, encontramos pessoas diferentes, paisagens completamente diferentes, e um jeito de viver inusitadamente diferente.  E essa passagem pelo local merece um relato à parte. Estância é a palavra em espanhol para fazenda, e Rolito é o apelido de alguém que se chamava Rodolfo Luna e teria sido, segundo relatos, filho do primeiro proprietário da estância, Sebastian Luna, que lá se instalou em 1927. A atual proprietária, Annie Luna, filha de Rolito, e sua família, recebe os visitantes. Quem se interessar em saber onde fica esse é o mapa do local:

Quando paramos o Ford Ecosport alugado na porta da estância, Annie Luna nos esperava sorridente e foi logo nos cumprimentando em francês. Essa foi a primeira surpresa. O pai de Annie Luna era dentista em Buenos Aires, mas preferiu cuidar da estância que de bocas alheias, sua mãe era uma senhora rica de Buenos Aires e falava francês e obrigou a todos os filhos a aprender e falar francês. Pepê (José), marido de Annie, brincou, quando lhe perguntei porque ele falava francês tão bem, e ele respondeu, zombeteiro, que a sogra não permitiria que ele se aproximasse de sua filha se não aprendesse a falar francês.

Tão logo nos instalamos nos quartos, confortáveis e amplos, passamos à sala da casa grande da estância onde nos esperavam a família (Annie e Pepê, depois Ana, a filha do casal e, no dia seguinte apareceu também Luiz, o filho do casal). A conversa foi muito agradável, com a família solícita a nos entreter com sua bela conversa, cheia de histórias de família, história da estância, do trabalho e dos problemas atuais da estância, que se modifica aos poucos com o passar dos anos e com as mudanças na economia argentina e no modo de viver das pessoas nesse local distante, próximo à Terra do Fim do Mundo, como eles mesmo dizem. A conversa continuou durante todo o jantar, com boa comida e ótimo vinho, Don David Finca La Maravilla, Malbec 2012, da Bodega El Esteco.

A estância ocupa uma área enorme na Patagônia, por lá tudo é exagerado, dedicava-se à criação de ovelhas e hoje, de gado bovino, as ovelhas são apenas para consumo doméstico, uma tradição local que se perde. Perguntei porque eles estavam mudando o rebanho, sendo as ovelhas muito mais adaptadas a um ambiente bem difícil como aquele, frio a maior parte do ano e muitos meses cobertos de neve, e a resposta foi chocante. Estão perdendo grandes quantidades de ovelhas, mortas aos ataques de cães selvagens. Como assim, não são lobos? Não, lobos caçam apenas para comer, uma ovelha morta alimenta uma matilha de lobos por muitos dias. Cães selvagens matam por matar, uma matilha de cães selvagens pode matar duzentos a trezentos animais em uma noite deixando a carne apodrecer. De onde vem os cães, perguntei. São cães abandonados por seus donos, nas cidades vizinhas, quando eles mudam deixam os cães ao relento, hoje eles já formam matilhas de cães totalmente selvagens. Como combatem? Caçamos os cães a tiros, não tem outro jeito. Os cães que não são treinados, matam outros animais selvagemente, sem dó. Na Estância Rolito e em várias outras do sul da Patagônia, não se cria mais ovelhas em grande produção. Essa foi também a razão para se engajarem no turismo. Como vem um grande número de turistas estrangeiros lhes visitar, dedicam-se ao turismo e à criação extensiva de gado bovino.

Essa história sobre os cães me deixou triste. Fomos dormir no sossego da noite fria, lá fora estava uns dois graus Celcius, o aquecimento funcionava normalmente e dormimos aquecidos e embalados pelas histórias. No dia seguinte o café da manhã foi recheado de biscoitos e pães caseiros, deliciosos, geleias de calafate, uma fruta local, também deliciosas. Após o café da manhã Pepê nos levou para dar uma volta na floresta local, uma floresta de lengas, de ñires, de coihues, as árvores locais, principalmente lengas, florestas inteiras de lengas, árvore enormes e grossas, de tronco rugoso.
As lengas são muito altas, procuram o sol e, com isso, não permite o crescimento de arbustos e mato no solo, apenas gramíneas baixas o que permite o caminhar com facilidade entre as árvores. Outra curiosidade, em função das baixas temperaturas o ano todo, com neve boa parte do tempo, não há microrganismos em quantidade no local. As árvores envelhecidas e caídas ao chão não apodrecem. Sem cupins, sem formigas, sem micróbios, elas não apodrecem e o chão fica repleto de tronco de árvores e tocos velhos. Ótimo para a cozinha a lenha e para a lareira. Também não tem cobras, lagartos e outros répteis. Uma paisagem inusitada e diferente de tudo que eu conhecia como floresta. Muito bonito. Outro toque interessante são as coberturas de liquens em algumas lengas. Dão um colorido especial na floresta.

Na volta visitamos o imóvel usado para tosquiar ovelhas e para secagem das peles das ovelhas abatidas. Um galpão mecanizado, agora com pouco uso pela diminuição do rebanho e mudança de atividade pecuária. Depois um passeio para fotos locais. Annie Luna cultiva flores, algumas espécies diferentes de flores, outras conhecidas com outros nomes entre nós, a estância e suas casas de madeira formam um conjunto bem interessante de se visitar.


O almoço foi numa cozinha separada da casa, tipo cozinha de verão, com uma chaminé, uma churrasqueira, e uma mesa grande. Acomodamo-nos na mesa escutando os assuntos agradáveis de Pepê enquanto observávamos Annie e uma empregada cuidarem do assado: costela de carneiro. Uma delícia. Maravilha. A comida muito apetitosa e o vinho era bem diferente: um San Felipe 12 Uvas, de Mendoza. Doze cepagens diferentes na mesma garrafa. Não é um grande vinho, sua cotação no mercado não é grandes coisas, mas caiu bem no momento por ser diferente do que eu já havia bebido, porque oferecido por grandes anfitriões e porque a mesa era convidativa a uma boa refeição: costela de carneiro, batatas assadas, saladas. E o tempero da costela era muito bom. Depois do almoço um café, mais dois dedinhos de prosa e estrada que aqui vamos de volta a Ushuaia. Eu, condutor, apenas provei do vinho, não tinha bafômetro à vista naquela estrada deserta, chuvosa e com neves esparsas. Mas trouxe uma garrafa para beber um dia desses.


O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...