quinta-feira, 27 de novembro de 2014

LONDRES-PARIS: SEXTO DIA DE PEDAL


13/09/2013

Ao acordar, não me lembrava que era sexta-feira treze, dia dos azares possíveis e inacreditáveis. Sem acreditar nos azares possíveis e inacreditáveis da vida, levantei-me, tomei uma ducha e desci para o café da manhã no Hôtel Moderne, em Gisors. E pela primeira vez não acordei com os roncos de meus colegas de viagem, tão cansado estava depois de pedalar os oitenta quilômetros do dia anterior. Chovia muito finamente e, logo, logo, tomamos a estrada, que agora seguia rumo a Cergy (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cergy). A decisão de ir até Cergy foi tomada na estrada, para dizer a verdade. Faltavam cento e vinte quilômetros para o destino final, Paris. Como estávamos em forma e a rota a partir de Gisors era de poucas subidas e descidas, refizemos nosso propósito de fazer o trajeto em três dias e resolvemos fazê-lo em dois. Sessenta quilômetros por dia era uma meta mais que viável. Foi uma boa decisão.

O caminho seguia por pistas exclusivas para bicicletas até Bray-et-Lû. Na paisagem, fazendas, vilas e castelos. Tão parecida e tão diferente das paisagens anteriores. Nas fazendas, menos criação de bovinos, mais plantações de milho, beterraba para o açúcar, e outros. Em Bray-et-Lû retomamos as estradas compartilhadas. A remarcar o Château de Villarceaux (http://villarceaux.iledefrance.fr/), um belo castelo no meio do nada. Depois de Villarceaux, Maudéton-em-Venin, Arthies, Wy-dit-Joli-Village, Gadaucont, Avernes, Théméricourt, Vigny (essa uma vila um pouco maior), Longuesse, Sagy e, finalmente, Cergy.

A etapa do dia foi tranquila, a registrar apenas o encontro com um casal que fazia o mesmo trajeto que nós. Saíram de Londres e chegavam a Paris. Na verdade, eles não chegariam a Paris de bicicleta. Ao final do dia, em Cergy, eles tomariam o trem, porque queriam estar em Paris no sábado. Pedalamos mais ou menos próximo por algumas horas e quando paramos para almoçar nossos sanduiches eles seguiram em frente. A registrar ainda o fato de que chegamos a Cergy e ninguém sabia nos informar onde haveria um hotel no centro que hospedasse ciclistas e suas bicicletas sujas. Finalmente perguntamos a um senhor montado sobre uma enorme motocicleta, dessas com potência de mil e duzentas cilindradas. Ele nos sugeriu segui-lo que ele nos conduziria a um hotel fora do centro. Nós o seguimos, e um quilômetro depois ele nos mostrou um hotel Formule Un, da rede Accord, à beira da rodovia de saída da cidade. Foi muita gentileza dele conduzir sua potente moto devagar tal que pudéssemos acompanhá-lo em bicicletas, e nos mostrar o hotel, provavelmente fora de seu trajeto habitual. Esse foi um lado extremamente positivo da viagem: o encontro com pessoas desconhecidas que se dispõem gentilmente a ajudar. Como os europeus adoram aventuras eles sempre ajudam aventureiros do mundo inteiro. E isso torna nossa viagem mais curiosa e interessante. Obrigado a todos esses ilustres desconhecidos.


O hotel Formule Un tem uma quantidade enorme de pequenos quartos. Todos iguais, com uma cama de casal e uma cama suspensa sobre a cama de casal. Pela primeira vez dormimos em dois quartos. E levamos as bicicletas para os quartos pois não havia onde colocá-las. O WC e a sala de banho (assim que os chamam na França, e são separados) ficam no corredor e são autolimpantes. Após o uso eles se lavam automaticamente. Assim estão sempre limpos. Bem em frente ao hotel havia um restaurante chinês autosserviço, com comida variada e farta, dezesseis euros por pessoa. Autorizamo-nos acompanhar de um Saint-Emillion Grand Cru 2005, trinta e um euros a garrafa, maravilhoso. Depois disso tudo, foi só cair na horizontal que o sono veio logo.

Foto 1: Roberto, eu e a garrafa de Saint-Emillion
Foto 2: A caminho de Cergy
Foto 3: Uma das muitas esquinas do caminho
Foto 4: Ainda a caminho de Cergy, trajeto pelsa fazendas de beterraba
Foto 5: A chegada em Cergy.







quinta-feira, 6 de novembro de 2014

LONDRES-PARIS: QUINTO DIA DE PEDAL


12/09/2013

Ao amanhecer o tempo estava sombrio. O serviço de meteorologia francês indicava cinquenta porcento de possibilidade de chuva na região e parecia que eles tinham razão. Já chovia quando deixamos o hotel. Organizamos as trouxas ciclísticas e fomos a um mercado de materiais esportivos. Eu comprei uma calça e uma veste impermeáveis, além de um para-lama para a bicicleta, que me protegeria um pouco mais do barro e da água jogada para cima pelas rodas. O caminho no momento era asfaltado, seguindo a antiga ferrovia, só não sabíamos até onde iria aquele bom caminho. O asfaltamento da pista era recente, em nosso marca apenas marcava pista em obras, parecia-nos que as obras estavam bem avançadas.

Depois de instalarmos os novos equipamentos, em mim e na bicicleta, tomamos o caminho de Paris. Pouco à frente, talvez menos de dois quilômetros, encontramos um grupo de vinte e quatro pessoas, ingleses e orientais habitantes da Inglaterra, seguindo para Londres, fazendo o caminho inverso ao nosso. Pelo menos até Dieppe iriam pedalando, não sei se pedalariam depois de Newhaven ou se continuariam de trem. Porque o trajeto para Londres não seria fácil para um grupo tão grande de pessoas. Ainda um pouco mais adiante ultrapassamos um pequeno grupo de jovens ciclistas, eles haviam nos ultrapassado no dia anterior, dormiram no mesmo hotel que nós, uma das bicicletas apresentava um pequeno problema. Creio que repararam rápido o defeito, pois uma hora depois eles nos ultrapassaram de novo e não os vimos mais.

A proposta de caminho a seguir era pedalar até Gisors, uma cidade de porte médio setenta e oito quilômetros depois (http://en.wikipedia.org/wiki/Gisors) e com um número de hotéis maior que em Neufchâtel-en-Bray. Por via das dúvidas, telefonamos a um dos hotéis, o Hôtel Moderne de Gisors, e fizemos uma reserva de quarto triplo (http://www.hotel-moderne-gisors.com/accueil.php). Funcionou também como um estímulo a ir tão longe, deve ter sido o dia de trajeto mais longo. Esse seria um dia de desafio e de medida de nossa capacidade de avançar mesmo com chuva. A chuva não nos parecia, naquele momento, um obstáculo tão grande. A meteorologia indicava quarenta porcento de possibilidade de chuva e isso nos parecia querer dizer que não choveria o tempo todo. Realmente, tivemos momentos nublados e momentos de sol alternando com momentos de chuva.

O que não contávamos era com o relevo ondulado. Algumas subidas eram longas, não muito inclinadas, mas longas, sendo que Gisors situa-se em um planalto. A escolha por Gisors também representava uma decisão. Nosso mapa indicava dois caminhos possíveis para se chegar a Paris: um mais longo que o outro e Gisors fica logo depois da bifurcação. Escolhemos o caminho mais curto. Talvez não o mais bonito, mas o mais curto. A ciclovia pela ferrovia continuava até Forges-les-Eaux (http://fr.wikipedia.org/wiki/Forges-les-Eaux), plano, sem traumas, com uma paisagem pouco variável e bonita, com uma pequena porção de mata ao lado do caminho, e muitas fazendas. Gados, ovelhas, plantações. A Normandia é uma região de ótimos queijos (http://www.lesfromagesdenormandie.com/fromages-aoc-normandie-i.html), o grande número de fazendas de bovinos e caprinos se justifica.

Em Forges-les-Eaux termina a ciclovia sob a antiga ferrovia, a continuação seria por estradas compartilhadas com automóveis. Na cidade compramos três sanduiches e três latas de suco para o almoço e continuamos até encontrarmos um local agradável para o lanche. Pouco à frente, em um lugar chamado La Bellière, encontramos uma fonte coberta parecendo uma antiga parada de tropeiros, onde descansamos por meia hora, tempo justo para o almoço. Hora do lanche, hora de fotos, hora de conferir o plano de viagem do dia, quando pedalamos, quanto falta para chegar ao destino. Creio que eram catorze horas.

O caminho, agora em estradas, continuava bonito, As estradas eram, na verdade, estreitas ligações entre vilarejos e fazendas, essas ainda prioritariamente de gado, com pastagens e plantações de feno que, a essa época, estava recolhido e enrolado para ser guardado em silos. Estávamos quase no outono, depois seria inverno, era preciso se preparar para alimentar o gado na ocasião mais fria. Geralmente não neva na região, mas o frio é intenso. A serra gela, as folhas das árvores caem, a vida se dificulta. Um vilarejo após o outro, La Fossé, La Bellière, Pommereux, Haussey, Mènerval, Dampierre-en-Bray, Cuy-St-Fiacre, Cité St-Clair, Gournay-en-Bray. Essa última é uma cidade de porte médio e aqui tivemos um problema. O caminho passa sobre uma ferrovia, que estava em obras, e não nos permitiram avançar. Tivemos que fazer um desvio em uma estrada muito movimentada, plena de caminhões. Seguimos em frente. Olhamos o mapa e percebemos que nossa rota seguia paralela a essa estrada e poderíamos retomá-la mais à frente. Menos mal, perdemos meia hora até compreendermos que o problema não era tão grande. A questão era a comunicação pela metade da pessoa responsável pela obra. Uma bela engenheira com um capacete na cabeça impediu nossa passagem, mandou-nos tomar o desvio, mas não deu nenhuma precisão em suas informações. Talvez tenha sido, em toda a viagem, a única pessoa que não teve boa vontade de dar a boa e correta informação para os viajantes. Ok, isso não nos abala, nossa força de vontade é maior.

Logo, logo achamos o caminho. O curioso foi que, um pouco mais à frente, no momento em que íamos atravessar a rodovia, uma jovem que seguia a pé e que também foi impedida de ultrapassar a ferrovia no mesmo local que nós, me pergunta se estava no caminho certo para Ferrière-en-Bray. Eu tinha visto nos painéis das esquinas das ruas que essa era uma cidadezinha justamente do outro lado da ferrovia e o caminho era justamente aquele no qual seguíamos. Então tive o prazer de dar a boa informação a essa jovem, francesa, que me interrogava sobre o caminho e que, por acaso, eu tinha a boa resposta. Descontei. Ensinei o caminho a uma pessoa, da terra, apenas vinte minutos depois de ficar chateado com outra pessoa, também da terra, pela sua má vontade em ensinar o caminho correto. Sorte eu saber ler mapas muito bem. Ler mapas e fazer leituras dos sinais e planos locais.

Passado esse pequeno contratempo o caminho seguiu tranquilo, por estradas compartilhadas com poucos carros, permeando vilas e fazendas. O mais interessante era as casas de fazendas todas com telhados de pedras de ardósia, belas casas, os fazendeiros não são, em geral, pessoas pobres.

Tudo tranquilo até Saint-Germer-de-Fly, onde a bifurcação entre os dois caminhos acontecia. Nossa escolha já havia sido feita, caminho mais curto da direita até Gisors, onde deveríamos chegar as dezenove horas. Em uma das raras falhas de sinalização de todo o trajeto, tomamos o caminho errado (terceira vez que isso nos acontecia) e pedalamos uns três quilômetros até percebermos o erro. Fora isso, o deslocamento decorreu tranquilo até Gisors, passado por vilarejos de nomes engraçados: Le Moulin l’Èvêque, St-Pierre-ès-Champs, Neur-Marché, Les Flamands, Le Camp à Dan, Bouchevilliers, Amécourt, Bazincourt-sur-Epte e, finalmente, a cidade de Gisors nos esperava sob chuva. Para encontrarmos o hotel em frente à estação de trem um jovem nos deu a informação correta. Hotel honesto, três camas boas, banho quente, internet, café da manhã, sem restaurante. Chegamos às dezenove horas e trinta minutos, tomamos banho rápido e saímos à procura de um restaurante, sabemos que na França os restaurantes fecham cedo, mesmo em Paris. Encontramos, a duzentos metros do hotel, com um painel informando que os pratos eram tradicionais da região, feitos à moda antiga. Meu prato: batave (carne de boi) ao molho de pimenta do reino e batatas fritas, uma salada de entrada, água mineral gasosa Badoit, vinho da casa em piché, vinte e seis euros tudo. De volta ao hotel, novidades da internet, aviso à família e fomos dormir.









sexta-feira, 24 de outubro de 2014

LONDRES - PARIS: QUARTO DIA DE PEDAL


11/09/2013

Após o café da manhã no hotel em Newhaven (eu dormi muito bem, mas meus colegas de viagem disseram não ter dormido tão bem pois suas camas não eram muito boas) pedalamos direto ao porto para pegar o ferryboat, que partiu, nesse dia, às dez horas (http://www.newhavenferryport.co.uk/). O barco é enorme e havia uma fila gigantesca de caminhões, carros e vans. Compramos os bilhetes, uma senhora loura com piercing na sobrancelha nos atendeu, e entramos na fila. Um funcionário nos chamou e nos passou à frente da fila, éramos três bicicletas. A passagem na alfândega inglesa foi sem problema, sem perguntas colocadas, então pedalamos até o navio, um caminho plano entre caminhões, ônibus, vans e carros de passeio. Quase não havia motos. Depositamos as bicicletas no fundo do barco em um local apropriado para a s bicicletas, éramos uns dez ciclistas em trânsito para a França, ao todo. Deixamos as bicicletas e subimos até o convés para as tradicionais fotos do local no horário de partida. Depois das fotos de praxe descemos até a lanchonete do ferryboat, sentamo-nos a uma mesa confortável e conversamos bastante. Quatro horas de travessia é um tempo razoável, o barco é lento.

Almoçamos no barco, um autosserviço razoável. Meu prato: fatias de atum defumado de entrada, peixe empanado com ervilha e arroz, pão e suco de laranja – dezesseis euros (caro pacas, mas era na travessia do Canal da Mancha, não é todo dia). À nossa frente na fila estavam três jovens senhoras carregando seis platôs, ou seja, compravam almoço para outras pessoas. Logo percebi que acompanhavam senhoras idosas em cadeira de rodas (confirmei depois quando as vi à mesa). Como o atendente cobrava prato por prato (dava o preço, recebia o dinheiro, dava o troco, prato a prato, mesmo sendo a mesma pessoa a pagar) o processo demorou um pouco e isso impacientou alguns fregueses. Atrás de nós havia um senhor inglês que xingava as mulheres em inglês e francês. Quando uma das senhoras pagava e catava moedas em sua bolsa o tipo infeliz jogou uma moeda no prato delas. Que calhorda! Impaciente e de uma grosseria sem tamanho. Eu nunca vi tal coisa em uma fila de restaurante.

Uma vez em Dieppe, na Normandia (França) pegamos nossas bicicletas, passamos pela alfândega francesa sem problemas, sem questões colocadas e pé no pedal. O objetivo do dia era chegar a Neufchâtel-en-Bray, trinta e seis quilômetros em direção a Paris (http://fr.wikipedia.org/wiki/Neufch%C3%A2tel-en-Bray),  mas fizemos uma parada em Dieppe para carregamento de suprimentos para viagem e conhecer um pouco a bela cidade.

De início, a rota seguia em pista paralela às ruas e estradas, pequenos cantos às vezes marcados para ciclistas, às vezes não. Os motoristas são gentis, aguardam o bom momento de nos ultrapassar, nunca nos colocando em situação de risco. Chegando em Arques-la-Bataille (http://fr.wikipedia.org/wiki/Arques-la-Bataille), oito quilômetros depois, a pista de ciclista torna-se exclusiva e segue por parques com belos pequenos lagos, para então entrar em um longo trecho construído sobre uma antiga ferrovia. A pista é plana e margeia pequenas vilas e castelos até Forges-les-Eaux (http://fr.wikipedia.org/wiki/Forges-les-Eaux). Uma ótima ideia essa de construir pistas para ciclistas sobre uma velha ferrovia. Fiquei imaginando quanto nós, em Minas, e no Brasil, perdemos com isso. Poderíamos ter belas pistas quase planas, em lugares magníficos, saindo de Belo Horizonte, passando por Ouro Preto, Mariana, Viçosa, Ubá, chegando a Juiz de Fora e Rio de Janeiro. A ferrovia que havia nesse trecho não há mais, o mato tomou conta, pessoas invadiram, e perdemos um belo passeio de bicicleta entre Belo Horizonte e essas cidades. Talvez uns trezentos quilômetros de pista sinuosa e entre montanhas, que poderiam ser percorridos em uns cinco dias.


Chegamos a Neufchâtel-en-Bray por volta de dezoito horas, procuramos por um hotel marcado no livro/mapa de La Avenue Verte. Um estava fechado, outro estava cheio. Uma senhora mal educada nos recebeu, pedimos informação de outro hotel, e ela disse: - no centro da cidade, talvez, eu não sei de nada, eu me ocupo da vida dos outros e não da vida dos outros. – Silenciamo-nos e fomos procurar outro hotel. Encontramos rapidamente, chegando ao centro da cidade, o Hôtel de Grand Cerf (http://www.hotel-grandcerf.fr/), com uma inscrição na porta: “ciclistas benvindos”, em francês e em inglês, com estacionamento para bicicletas, torneira e mangueira para lavá-las e o gerente nem nos pediu documentos. Tivemos um quarto para três com muito espaço, água quente, sabonete líquido, secador de cabelos (que no caso serviu de secador de nossas roupas), restaurante no próprio hotel (excelente cozinha da terra) e café da manhã reforçado. E tudo isso por cento e setenta e um euros para os três, mais a gentileza das pessoas, tanto os que trabalhavam quanto os outros hóspedes, isso não tem preço. E todos ficavam curiosos em perguntar o que três brasileiros, montados em bicicletas, faziam por ali.







quarta-feira, 15 de outubro de 2014

CARTA PRO MANO ZÉ

Uma carta que escrevi ao mano algum tempo atrás.

Olá Mano Zé

Eu tava fazendo janta e tomando uma cachacinha do norde minas, quando me alembrei que hoje é dia dos anos do mano Zé. Depois da janta adentrada no estômago corri para ligar meu ordenador ponhar uma mensagem para o mano, mas vi que dois outros inxiridos já o fizeram antes de mim. Tudo bem mano, chegar na frente só em caso de seleção brasileira na copa do mundo, se bem que acho que é a vez da Alemanha, a melhor seleção que vi jogar até agora. Pois bem mano, como me alembrei na hora de verter a cachacinha, aproveitei para tomar mais uma, a segunda em sua homenagem, nem deixei pro santo. É fim de semestre e cê sabe, hora de chiar para fechar os trabalhos e aguentar choradeira de uns e reclamações de outros, não dá para se alembrar muito, não. 

Tem tempos que não vejo ninguém, nem Ciça e Tete que habitam e coabitam a menos de dois km aqui de casa, quem diria os outros um tanto mais longíquos. Com mamãe falo por telefone, mesmo que eu fale uma coisa e ela responde outra. Eu finjo que é isso mesmo e a gente vai se entendendo. Com Ciça é tal qual. Tinha que ser parecida com a ancestral até na ouvilança (não ouve mas lança assim mesmo). Fim de semana vou colocar as visitações familiares em dia. Depois irei até Palmas, sobrevoarei Goiânia mas não dá para baixar de paraquedas no teu quintal, o tempo será curto. Mas mano, bom dia de anos para você e cuide bem do ânus, visite o urologista e o proctologista, deixe a vergonha em casa, já viu né, tem muita gente morrendo por causa da próstata e câncer de intestino. Se der sorte encontre um com o dedo fino.


Um abraço grande, nas muié também, uai.

domingo, 5 de outubro de 2014

LONDRES - PARIS, TERCEIRO DIA DE PEDAL


10/09/2013

Após aquele super café da manhã inglês tradicional lavamos nossas bicicletas e rumamos à East Croydon Station, ao lado do hotel, e tomamos o trem até Polegate, uma hora e dez minutos de trajeto. Claro, saltamos um trecho do trajeto original, avançamos uns vinte quilômetros, mas era absolutamente necessário para chegarmos a Newhaven nesse mesmo dia. Newhaven é onde se faz a travessia do Canal da Mancha e nosso projeto era fazer a travessia na quarta-feira, dia onze de setembro. O transporte de barco de Newhaven a Dieppe na França acontece uma vez por dia, apenas.

Em Polegate paramos em uma loja de bicicletas, para comprar um óleo para as correntes das bicicletas, que sofreram com os dois dias de chuva. Como elas molharam muito ficamos com receio delas ressecarem muito e se estragarem. Às quatorze horas saímos de Polegate para um trajeto de quase trinta quilômetros até Newhaven, o mais curto da viagem.

Sol, havia sol, e o trajeto foi magnífico. Depois de muito esforço e muita subida (com chuva) nos dias anteriores para chegar a Rotherfield, nesse dia o passeio foi mais tranquilo. Estradinhas asfaltadas, pouco movimento de carros, e boas descidas. A saída de Polegate foi um pouco confusa em função da deficiência das indicações. Único trecho na Inglaterra com algumas pequenas falhas nas indicações dos caminhos. E o caminho nos levava a trechos compartilhados com cavalos (estávamos próximos a um Haras), mas logo chegamos ao asfalto e chegamos a desenvolver até trinta quilômetros por hora nas descidas. Vento e sol na cara, pouca roupa, maravilha. Na chegada a Seaford, já no litoral, a estrada compartilhada com automóveis e caminhões estava um pouco perigosa, um tráfego intenso, talvez pelo horário, eram dezessete horas quando ali chegamos. No entanto, os motoristas são absolutamente respeitosos. Davam-nos passagem, não nos empurrava no canto da estrada e esperavam um bom momento para nos ultrapassarem. Algo que ainda não se vê no Brasil.

À beira-mar o vento quase nos derrubava da bicicleta. Chegamos finalmente a Newhaven, fim de nosso trajeto inglês. Reservamos um hotel com quarto triplo via www.booking.com,  um hotel bem ruinzinho, mas o cansaço não nos animava a procurar outro. E esse era a menos de quinhentos metros do porto onde pegaríamos o barco para a travessia do Canal da Mancha. O hotel nos cobrou o mesmo preço do hotel em Croydon, café da manhã incluído. Pelo menos isso. Saímos para jantar por volta de vinte horas, haviam poucas opções de restaurante, a maioria já havia fechado. Sobrou-nos um restaurante indiano. A pedida: Lamb Kohan (carneiro com molho de cebola). O restaurante não servia bebidas, o garçom nos recomendou comprar cervejas no mercadinho em frente e trazê-las para bebermos no restaurante dele: surpreendente. Tomamos uma Guiness (irlandesa) em lata, cerveja de temperamento forte, amarga e deliciosa. Só para bons apreciadores.

Apesar do hotel fraquinho em Newhaven, a cama era boa, dormi muito bem, acordei pronto para a travessia. O café da manhã era razoável: cereais, banana, iogurte e ovos cozidos, além de café.





LONDRES - PARIS, SEGUNDO DIA DE PEDAL


09/09/2013

O café da manhã, na pousada em Redhill, foi um típico café da manhã inglês, o que eles chamam de “traditional breakfast”: bacon, ovos fritos, tomate, salsicha, batata, pão integral, cereais diversos, yogurte, leite e café. Forte, sustenta o dia inteiro. Para uma jornada como a nossa, vale a pena comer isso tudo, é a melhor refeição do dia, Durante o trajeto nossa reposição alimentar foi boa também. Tínhamos um energético especial para atletas, frutas, bananada sem açúcar, paçoquinha (coisa de brasileiro) e muita água. Não comíamos o tempo todo, claro, mas nas paradas a cada uma ou duas horas, comíamos alguma coisa de nossos alforjes. Fome nem sede faziam parte de nosso itinerário. Eram nove horas e quinze minutos quando saímos de Redhill, a chuva era apenas um prenúncio. A meteorologia (Climatempo, aplicativo de telefones móveis) indicava cinquenta porcento de possibilidade de chuva. Durante o dia descobrimos que essa estatística era uma boa medida, tomamos chuva durante cinquenta porcento do trajeto. A saída, no entanto, foi tranquila. O caminho indicado pelo guia L’avenue verte como sempre nos conduzia a parques e condomínios típicos de subúrbio sem grandes movimentos, retirando-nos de estradas movimentadas, bons caminhos para a prática do pedal. Raras vezes compartilhamos viagem com trânsito forte, alguns trechos apenas, geralmente em saídas de cidades e até encontrarmos a rota por caminhos arborizados.

Mas a chuva chegou. Não era forte, incomodava, no entanto. Aí os caminhos dos parque se barrearam, sujando-nos as costas e o traseiro. Minha capa amarela, emprestada por Bernard, serviu como uma luva. Mesmo quando a chuva parou a capa foi útil para segurar o barro. À medida que avançamos pela zona rural inglesa, as indicações de trajetos se tornaram extremamente necessárias. Na dúvida parávamos para olhar o mapa e perguntar. Os ingleses me surpreenderam nesses momentos de dúvida. Eles foram muito gentis, sempre, e às vezes, percebiam-nos verificando o mapa meio perdidos e nos informavam sem que perguntássemos.

De Redhill seguimos para Horley e Gatwick. Pedalávamos ao lado do aeroporto de Gatwick no momento em que um grande avião pousava voando próximos de nossas cabeças, tão baixo quanto quando estamos na barragem da Pampulha ao final da pista do aeroporto e um (pequeno) avião ali pousa. Modo alternativo de viagem ao lado do modo moderno de viagem: bicicleta e avião. De um modo geral, o caminho avançava ao lado da ferrovia, passando próximo às estações ferroviárias: Horley Estation, Gatwick Airport Station, Three Bridges Station. Em Three Bridges, tivemos nossa primeira grande dúvida. O caminho se bifurcava, indicando possibilidades alternativas, a chuva nos esfriava o corpo. De repente uma senhora de meia idade, em uma cadeira rolante motorizada para seu veículo e pergunta se estávamos perdidos. Yes, we are lost, mam. Ela então pega nosso mapa, conversa com Arthur (que melhor entre nós fala inglês) e nos mostra o caminho. No, we aren’t lost. Era só uma pequena divergência de leitura de Mapas entre nós três. Ficou evidente a minha competência em leitura de mapas e sinais e o grupo passou a confiar mais em minha intuição e, a partir de então, eu e Arthur sempre conferenciávamos para decidir os caminhos. Tínhamos dois mapas, um em francês, outro em inglês, o Google Maps no celular que também ajudava na localização. Em Furnace Green o trajeto dá uma grande virada à esquerda em direção a East Grinstead, um longo caminho sob árvores, com belíssimas paisagens e chuva. Chuva e chuva, que não nos impediu nem de avançar, nem de apreciar a paisagem. Em East Grinstead, no bar da estação, tomamos um café com leite quente. Esquentamos por dentro e renovamos o ânimo.

De East Grinstead a Groombridge foram dezesseis quilômetros totalmente dentro de uma Forest Way, com muita chuva no lombo. O céu parecia cair na nossa cabeça. Se fôssemos gauleses, parentes de Asterix, teríamos tido muito medo. Eram dezesseis horas quando chegamos a uma estradinha com uma bifurcação: ou pedalar mais uns três ou quatro quilômetros e procurar albergue, ou avançar mais dez quilômetros e chegar a Rothersfield, e procurar um albergue por lá. Rapidamente chegamos a Rothersfield, mas nada de albergue, nem hotel, nem mesmo um celeiro onde passa a noite. Pedalamos então a Crowborough, uns três ou quatro quilômetros saindo da rota, o mapa nos indicava a existência de uma pousada BB (Bed and Breakfast), o garçom de um Pub em Rothersfield nos deu o número de telefone de uma BB e o Google Maps nos deu o caminho, mas, não havia lugares na pousada. A proprietária da pousada nos passou o telefone de uma outra pousada BB, mas... secretária eletrônica com uma voz masculina que dizia: - em caso de urgência ligue para ... ou seja, não tinha ninguém na pousada. Ou estava fechada ou completa. E agora, José? Solução óbvia: já para a estação. O trem que passava no local conduzia lugar nenhum no fim do mundo britânico ou de volta para Londres. Aí, apelamos para uma segunda abordagem a um cidadão britânico, alguém que esperava um transporte. O dito cidadão foi de uma simpatia e de uma gentileza surpreendente. Abriu seu telefone celular para ver possibilidades de hospedagem próxima e, nada; mostrou-nos a possibilidade de pegar o trem até outra cidade. Mais uma abordagem bem sucedida a um cidadão inglês. A disponibilidade dos ingleses em nos dar informações detalhadas e precisas foi um dos muitos pontos positivos da viagem. E ele nos apresentou uma solução, que escolhemos: tomar o trem para Croydon, subúrbio sul de Londres, voltando mais ou menos quarenta e cinco minutos de trem, para não dormirmos sujos, molhados e cansados, num lugar perdido no meio da Inglaterra rural. 

Menos de uma hora e sete libras e quarenta centavos de passagem, encontramos um grande hotel (Croydon Park Hotel - http://www.croydonparkhotel.com) com garagem para bicicleta, banho quente, quarto para três, secador de cabelo para secar nossas roupas, comida quente, etc. Na entrada do hotel havia uma marca de quatro estrelas, no entanto o preço pago foi o mesmo que os pagos anteriormente em hotéis menores: cento e quatro libras para os três. Com o café da manhã completo (típico britânico como o do hotel em Redhill), a noite ficou em cento e noventa e quatro libras para os três. E tomamos um belo vinho Bordeaux, um Chateau de l’Église 2011. Nada mal.








terça-feira, 22 de julho de 2014

RELATOS DE VIAGEM À PATAGÔNIA - DIA 07



15 de março de 2014

Às sete horas da manhã, em Punta Arenas, Chile, partimos em uma van que nos levou a um porto mais ao norte da cidade. Lá, tomamos um catamarã bem rápido conduzido por dois jovens guias (mais ou menos trinta anos), bem simpáticos e bem entendidos do assunto: Paulo, o condutor do barco, e Antônio, o guia de fato, conhece tudo sobre pinguins, animais marinhos e pássaros da região. Ele fala inglês, arranha no francês e fala português mais ou menos, o que só descobri quando ele percebeu que somos brasileiros. A viagem de catamarã dura meia hora até chegarmos à Ilha de Magdalena, o paraíso de verão dos pinguins de Magalhães, referência ao Estreito de Magalhães. Foi então que tive conhecimento das espécies de pinguins: papuas, de Magalhães, rei, imperial e outros. No caminho de ida e volta fizemos várias paradas para ver e fotografar albatrozes na água e em voo, leões-marinhos em família, camarás, gaivotas e muitos outros animais. Vimos também um bando de golfinhos em caça. Em geral os golfinhos acompanham o barco por certo tempo, então tivemos várias visões dos mesmos saindo e entrando na água, para respirar. Essa saída é tão rápida que não conseguimos fotografá-los nesse momento.

Na Ilha de Magdalena permanecem dois guardas constantemente. Eles ficam dez dias seguidos na ilha e depois folgam cinco dias, mas dois deles ficam ao mesmo tempo por cinco dias, na ilha. Então, pela lógica, deve existir três guardas se revezando no trabalho de vigilância da ilha e dos animais.

A quantidade de pinguins, de casais de pinguins, na ilha, é impressionante. No momento de nossa visita seus filhotes já tinham uns três meses e preparavam-se todos para migrar ao diminuir mais a temperatura. Nesse fim de verão as temperaturas estavam em torno de cinco a dez graus Celsius. As temperaturas diminuindo no outono e inverno, esses pinguins migram para a costa da Argentina e do sul do Brasil, de águas mais quentes.

O passeio na ilha durou uma hora, tempo suficiente para milhares de fotos. Havia na ilha uma turma grande de turistas, provenientes de um barco de cruzeiro. Demos sorte porque já saiam. Ficamos em um grupo de oito pessoas, apenas, na ilha, mais os dois guias e os dois guardas. Ao final desse tempo, antes de retornarmos ao barco, os guias nos ofereceram café e biscoitos. Muito gentis. De volta a Punta Arenas troquei oitocentos reais por cento e oitenta e quatro mil pesos chilenos. Não sei se a troca foi justa, era o que ofereciam na ocasião. Em seguida, fomos à locadora de veículos, Hertz, pegamos o carro que havíamos alugado (uma Nissan 4x4 bem potente e com bastante espaço no porta-malas), fomos em seguida ao Hotel Plaza, onde passamos a noite, pegamos nossas malas lá guardadas desde a manhã, compramos quatro empanadas (nosso almoço), três mil e duzentos pesos chilenos as quatro, e fomos comê-las à beira-mar.


Iniciamos a viagem para Puerto Natales depois de uma parada em um supermercado para compra de provisões de viagem, principalmente reservas alimentícias. Então, estrada. A viagem durou umas três horas, chegamos, abastecemos e fizemos o check in em um hotel muito acolhedor e interessante, com atendentes bilíngues simpáticas e fomos conhecer a cidade e comer. No dia seguinte, teríamos mais um bom trecho para viajar. Despesas do dia: cinquenta mil pesos chilenos.











O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...