terça-feira, 31 de janeiro de 2023

APOROFOBIA: POBRE E VELHO, QUE HORROR

Paulo Cezar S. Ventura (pcventura@gmail.com - @paulocezarsventura)

O uso da palavra aporofobia é recente no Brasil. A maioria de nós teve notícia de sua existência e significado pelas intervenções do Pe. Júlio Lancellotti, de São Paulo. Em suas públicas indignações a respeito das alterações nos espaços públicos impedindo o acolhimento dos moradores de rua, ele imprimia o termo “aporofobia” nas fotografias desses locais. Ele fazia uma antipublicidade das marcas das lojas e instituições e poder público que colocaram pedras e pontas nos espaços de rua evitando, assim, a presença de moradores de rua. Nas cidades brasileiras, a aporofobia aparece principalmente no uso de grades, lanças e muros para impedir a aproximação de moradores de rua de residências e estabelecimentos.

De onde vem a expressão “aporofobia”? Situações muitas vezes classificadas como "racismo" ou "xenofobia" deveriam ter, na verdade, outro nome: "aporofobia". Este é o argumento da inventora da palavra, a filósofa espanhola Adela Cortina, que a criou nos anos 1990. De acordo com ela, há casos onde o ódio a imigrantes ou refugiados, por exemplo, não decorre da condição de estrangeiros, mas, sim, da situação de miséria em que essas pessoas se encontram. Em uma entrevista, Adela Cortina afirmou que criou o termo justamente para “dar visibilidade a essa patologia social que existe no mundo todo”. A filósofa afirma que “é comum tratar bem quem pode nos fazer favor ou dar algo em troca e abandonar aqueles que não podem nos dar nada disso”.

 

Por que há tantos pobres no Brasil?

Por que a maioria dos pobres são pretos?

 

Esta é uma questão mais política que econômica. E sua origem está lá no Império. Em mil oitocentos e cinquenta (1850) o Congresso brasileiro aprovou dois projetos de lei que colocaram as primeiras pedras pontudas para impedir a distribuição da riqueza no Brasil. O primeiro deles proibia a entrada de novos escravos no Brasil, mas, simultaneamente, impedia que os escravos e imigrantes pobres europeus fossem donos de terras no Brasil.  Na época a marinha inglesa pirateava os navios negreiros e libertava os negros que vinham para o Brasil como escravos. O governo inglês fazia enorme pressão para a libertação dos escravos. Com isso, os donos de terras e de escravos arriscavam ficar sem mão de obra e pressionaram os congressistas na elaboração de leis que impediriam o enriquecimento dos seus antigos escravos quando viesse a abolição da escravatura. Essa famigerada lei só perdeu a validade com a morte dos antigos escravos após a abolição em mil oitocentos e oitenta e oito.

O segundo projeto de lei foi ainda pior.  Em dezoito de setembro de mil oitocentos e cinquenta (18/09/1850) Dom Pedro II sancionou a lei que dividia a zona rural em latifúndios, em vez de pequenas propriedades rurais. As terras brasileiras eram tidas com pertencentes ao Império (na verdade, sabemos serem dos indígenas) e as terras rurais eram ocupadas por posseiros, ricos e pobres. A narrativa de argumentação dos congressistas era que os posseiros pobres não teriam condições de lutar e expulsar os indígenas (chamados de gentios) das terras e, ao mesmo tempo, cuidar da agricultura e pecuária. Dois crimes cometidos simultaneamente: contra os indígenas e contra os posseiros pobres. Os indígenas foram expulsos, muitos morreram e suas muitas de suas mulheres trazidas à força para os ambientes domésticos. Os posseiros pobres ficaram com trabalhadores rurais mal pagos ou vieram engrossar os nascentes aglomerados nos morros das cidades.

Meus antepassados indígenas, da tribo dos botocudos, viviam às margens do Rio Piracicaba, em Minas Gerais. A terra deles se chamava Itajuru, a pedra do papagaio. Coincidentemente, a primeira escritura da ainda hoje denominada Fazenda Itajuru data de mil oitocentos e cinquenta (1850), lavrada por um cidadão de origem portuguesa de nome João Batista de Figueiredo. Ou seja, sancionada a lei, um rico cidadão foi ao cartório e registrou a terra. Um parente desse senhor, um tal de Miguel de Figueiredo, trabalhava no gabinete de ninguém menos que o Sr. Bonifácio de Andrada. Minha bisavó e minha avó, de fortes traços fisionômicos indígenas, carregavam esse sobrenome. E a Fazenda Itajuru ainda está sob os cuidados de um Figueiredo, primo distante.

O resultado dessa legislação está gravado no retrato do Brasil, ainda hoje.

Muita terra para poucos donos e pouca terra para muitos donos.

Tamanho da propriedade

Percentual de ocupação da zona rural

Percentual de propriedades e proprietários

Maior que 2 mil hectares

50 % da zona rural

0,7% dos proprietários

Menor que 25 hectares

0,5 % da zona rural

60% dos proprietários


 

Nada mudou desde então. Entra governo e sai governo, muda o Congresso a cada quatro anos e nada muda. A pobreza aumenta, os pobres ficam isolados nos aglomerados, novos nomes para as favelas.

Já sobrevoaram uma grande cidade brasileira durante uma tarde ensolarada? As cidades são símbolos vivos da aporofobia. Aporofobia urbana, com crueldade da arquitetura e urbanismo. Os bairros ricos são menores e em algumas cidades são ilhas de riqueza e beleza em um mar de pobreza. Ilhas são uma metáfora ruim: elas podem ser tomadas. Nossas ilhas de riqueza são protegidas pelo poder público e cercadas por grandes avenidas que separam os bairros de classe média alta dos aglomerados. Esses dois mundos não se misturam.

Quando você for convidado pra subir no adro da fundação
Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados...

(Caetano Veloso e Gilberto Gil)

 

Não se misturam, mas ambos envelhecem. Só que ricos e pobres envelhecem diferentemente. Em artigo anterior no Portal do Envelhecimento (https://www.portaldoenvelhecimento.com.br/o-brasil-e-negro-mas-o-envelhecimento-e-branco/) destaquei as diferenças de tratamentos, em diversas esferas, a pessoas pretas e brancas idosas. O recorte não é muito diferente se focalizarmos as diferenças entre as pessoas idosas pobres e as ricas. Pessoas idosas pobres vivem menos sendo negligenciadas nos atendimentos pelos vários órgãos do poder público. A legislação pertinente, o Estatuto da Pessoa Idosa, já fez vinte anos e poucas coisas mudaram. Porque não se muda a distribuição de riqueza e consequente diminuição das desigualdades sociais apenas com uma legislação de proteção à pessoa idosa. Velhos e pobres continuam velhos e pobres. Ao aposentarem, as pessoas pobres têm seus salários diminuídos, quase sempre. As pessoas ricas, além da previdência social, geralmente têm um acréscimo pela previdência privada.

Há formas de combater as desigualdades? Sim, há. Várias. Todas dependem de mudanças nas legislações do trabalho, da previdência social e de mudanças culturais profundas. Porque a aporofobia está enraizada em nossa população, até mesmo nas mentes da população mais pobre. Sair da pobreza não significa que terão ações de auxílio aos parentes pobres. E aqueles quem colocamos no Congresso não parecem estar dispostos a lutar por essas mudanças.

Mesmo o crescimento econômico de uma nação não é remédio para a diminuição das desigualdades sociais. Com os programas de crescimento econômico e diminuição do desemprego devem seguir os programas de distribuição de renda. No Brasil, programas como o Bolsa Família são pífios. O gasto com a distribuição de renda no Brasil ainda é muito menor que os gastos dos países desenvolvidos. A França, por exemplo, gasta quase dois porcento do PIB com distribuição de renda. Outros investimentos sociais em Saúde e Educação são os principais remédios para a diminuição da pobreza, o resto é placebo.

Além de pobre, envelheceu? Que horror.

Só não temos mais velhos pobres porque eles morrem antes que os velhos ricos.

 

"Envelhecemos para fazermos coisas que nunca fizemos,

é também isso que significa a velhice".

(Valter Hugo Mãe - @valterhugomae)

 

 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

O IDADISMO NOSSO DE CADA DIA

 

“A idade é uma das primeiras coisas que percebemos nas outras pessoas. O idadismo surge quando a idade é usada para categorizar e dividir as pessoas de maneira a causar prejuízos, desvantagens e injustiças, e para arruinar a solidariedade entre as gerações.”[1] Anoto aqui alguns exemplos que vi ou vivi.

Sou uma pessoa de setenta anos e estive no Centro de Referência da Pessoa Idosa (CRI) de minha cidade para tirar uma carteira que me permite passar nas roletas dos ônibus sem pagar. Setenta pessoas idosas compunham a enorme fila. Pessoas de vários bairros da cidade e de várias categorias sociais. Dois exemplos de idadismo simultâneos: uma atendente perdia a paciência ao atender as pessoas de raciocínio mais lento; outra tratava-as como se fossem crianças e se autovangloriava de sua postura. Fechei a cara para as duas. Muitas pessoas, mesmo as do serviço público de atendimento às pessoas idosas, não sabem como lidar com elas, conosco.

Os bailes populares de carnaval são famosos em minha cidade. No domingo de carnaval temos o Bloco dos Sujos, onde cada um sai com a fantasia que lhe apetece. Ano passado usei uma fantasia de indiano. Divertia-me solitariamente acompanhando a banda pelas ruas da cidade quando fui abordado por um jovem que me interrogou: você não está muito velho para isso, não? Dei uma resposta malcriada à altura da pergunta idiota.

Em uma casa de repouso para pessoas idosas de uma cidade da qual não me lembro no momento, um grupo de moradores, de ambos os sexos, resolveu realizar uma festa diferente a noite, longe dos olhares dos cuidadores. Promoveram uma festa sexual, totalmente consensual. Pegos no pulo, suas famílias foram convidadas a transferi-los, separadamente, para outras casas. Afinal, pessoas idosas não praticam sexo, nem qualquer outro tipo de ato libidinoso.

O idadismo não é um desrespeito somente às pessoas idosas. É comum aos jovens também. Algo do tipo: você está muito jovem para isso. A menos nos casos onde a idade seja uma barreira importante, como algumas coisas proibidas para menores para protegê-los, em geral “você está muito jovem” ou “muito velho para isso” revela um enorme preconceito e uma afronta ao livre arbítrio de cada um.

O idadismo pode se revelar também por uma autocrítica exagerada e sem fundamento. Quando pensamos de nós mesmos que estamos velhos demais para fazer isso ou aquilo, geralmente estamos sendo preconceituosos conosco.

Gosto de dançar. É muito comum convidar alguém e ouvir a terrível frase: estou velho para isso. E a dança é tão útil para as pessoas idosas! Um dos exercícios considerados importantes para a saúde cerebral é exatamente o que produz movimentos diferentes de sua rotina cinestésica. Quer coisa melhor que a dança para executar movimentos diferentes? Em lugar do tradicional dois para lá, dois para cá, que tal circular e rebolar bastante? O que melhor que o rock’n roll, dança de nossa geração, para esta fuga da rotina cinestésica?

O idadismo, no entanto, é estudado no mundo inteiro, com pesquisas universitárias, inclusive, para podermos combatê-lo. Conhecer para combater. Só conhecendo o inimigo para melhor lutar contra. Porque o idadismo deprime, corrói as vontades, destrói o livre-arbítrio invadindo as mentes das pessoas. Não pode ser naturalizado. Nenhum tipo de preconceito pode ser naturalizado, ou banalizado. A naturalização conduz às tragédias humanitárias, como as produzidas pelo fascismo, pelo racismo e tantos outros ismos.

Durante a pandemia, principalmente em seu início, quando a maioria dos falecidos por covid-19 eras pessoas idosas, o idadismo aflorou no Brasil e, creio, em outros países também. Quantas vezes ouvi, muitas delas de jovens próximos a mim, que não havia problemas, pois eram os mais velhos os que morriam. Total falta de empatia. Mais que isso, as pessoas idosas estampam nos mais jovens o medo da morte. Uma pessoa idosa nos lembra de nossa finitude e vulnerabilidade. O que nos coloca, muitas vezes, em posição de negação. Negamos, e escondemos, aquilo que somos ou que podemos ser[2].

Os exemplos são muitos, mas, o que fazer para este duro combate ser bem-sucedido? O Relatório Mundial do Idadismo aponta três estratégias possíveis e importantes que devem ser aplicadas em conjunto.

1 – Elaboração de políticas e promulgação de leis que combatam o idadismo.

As políticas incentivam o combate assegurando o respeito à dignidade de todas as pessoas independentemente da idade e de leis de direitos humanos. Já as leis abordam e punem a discriminação com base na idade e na desigualdade.

2 - Intervenções educacionais incluem instruções que transmitem informações, conhecimentos e habilidades.

As intervenções educacionais introduzem atividades que melhorem a empatia por meio da encenação, da simulação e da realidade virtual. As pesquisas revelam que as intervenções educacionais estão entre as estratégias mais eficazes para reduzir o idadismo dirigido às pessoas idosas. As intervenções educacionais têm um papel central a desempenhar em qualquer esforço para reduzir o idadismo. E as pesquisas sobre como essas intervenções reduzam o idadismo relacionado a pessoas jovens continua em aberto.

3 – Intervenções de contato intergeracional que buscam o contato entre pessoas de gerações diferentes.

Segundo as pesquisas, o contato entre as gerações e as intervenções educacionais estão entre as mais eficientes para reduzir o idadismo direcionado às pessoas idosas, e são promissoras para reduzir o idadismo contra as pessoas mais jovens.

Essas intervenções devem ser colocadas em prática conjuntamente para serem bem sucedidas. Reduzir o idadismo é fundamental para uma convivência harmoniosa entre as gerações, com cada uma oferecendo e aproveitando o que há de melhor na vida: a troca de conhecimentos e saberes e uma vida saudável física e mental.

O Relatório Mundial sobre o Idadismo pode ser baixado clicando no link a seguir: https://iris.paho.org/handle/10665.2/55872. Ele está disponível para leitura, uso e compartilhamentos. Dê o primeiro passo para combater o idadismo. Apresente e estude o Relatório junto com pessoas de todas as idades. Será uma atividade de interatividade intergeracional bem interessante.



[1] Primeira frase do Relatório Mundial Sobre o Idadismo, publicado pela Organização Pan-Americana da Saúde, em 2022.

 

[2] Vale a pena ler o pequeno texto de Sigmund Freud, com esse título: A Negação. Pode ser encontrado em formato PDF na Internet.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

APOSENTADO, COM A CHAMA AINDA ACESA

 

Quando decidi me aposentar, tracei uma estratégia para isso. Comecei a aceitar serviços de consultoria para outras empresas, em assuntos sobre os quais eu desenvolvera competência e aos quais me dedicaria após a aposentadoria. Pensei com meus botões: quando o trabalho começar a atrapalhar a consultoria, é hora de me distanciar dele. E assim aconteceu: o trabalho extra deixou de ser apenas um trabalho extra, dediquei-me apenas a ele.

Com isso minha aposentadoria não foi nenhum trauma. Foi apenas uma mudança saudável. Acontece que a consultoria terminou um dia, alguém começou a fazer meu serviço mais barato. Sem problemas, afirmei a mim mesmo. Eu já me dedicava a outro labor. Havia decidido me dedicar à escrita. Já tinha mais de um livro pronto, publiquei-os. Veio a pandemia e escrevi mais ainda. Só que o mercado de livros não é para amadores. Aprendi isso na carne. Todos gostavam do meu texto, mas não compravam meus livros. Sem problemas, voltei a afirmar. Tenho que aprender. Escrevi mais e mais, reescrevi mais ainda. Burilei, aperfeiçoei, aprendi com alguns mestres da escrita, penso estar pronto. Minha chama me diz: não desista.

Dois anos depois voltei a meu antigo local de trabalho: um centro de formação de técnicos e tecnólogos, engenheiros, editores, professores, etc. Passeei pelos corredores, parei na biblioteca, tomei um demorado café na cantina. Avistei inúmeros ex-colegas. Quase ninguém se lembrou de mim. Um dos que se lembrou, perguntou-me: está sumido, por onde anda. Ele não sabia que eu havia me aposentado. Lição do dia — todos somos substituíveis. Em nosso lugar há alguém que pode até ser melhor que nós. Precisamos estar preparados para isso.

Outra lição: trabalhamos para servir aos outros, não porque somos necessários. Somos úteis, não necessários. Tudo que fizemos, o nosso trabalho, fica apenas para nós mesmos. Fica para nossa história, não para as histórias alheias. Devemos fazê-lo bem feito para podermos contar boas histórias, nossas histórias. Se, por acaso, aparecemos em histórias alheias, ótimo. O que conta, no entanto, é nossa alegria com o nosso trabalho bem feito. Ponto.

Estar aposentado, não significa estar acabado, quase morto, sem eira, nem beira, nem mesmo a caminho do cemitério. Deste local, embora ele esteja lá no fim da luz, quero distância. Antes, eu visitava muitos cemitérios. Quando comecei a imaginar que um dia estaria ali, desapareci do lugar. Vou a velórios, não a enterros. Quando meu dia chegar, irei contrariado.

A chama ainda está acesa. Curto meus afetos, escrevo meus diários, dou palestras e conselhos aos amigos, artigos meus são publicados. Escrevia poesia para as amadas. Continuo fazendo isso, a amada está aqui ao lado, mas escrevo também para pessoas idosas como eu. Escrevo a elas com a intenção de dizer que somos pessoas idosas, não velhas. Acredite e viva. Com vontade e força.

Para manter a chama acesa e continuar a ser útil de alguma maneira, coloco foco em meus propósitos traçados e guardados em papel. Sim, gravei na nuvem, mas sou do tempo do papel. Preciso levantar e lê-los com as mãos, além dos olhos. E lá está escrito minhas palavras mágicas: contar, escrever, publicar e vender minhas histórias, disseminar meus conhecimentos e saberes, porque tudo isso poderá ser útil para alguém. Quem? Para alguém que poderá crescer com meus conhecimentos e saberes, mesmo sem me acrescentar nas referências. Enquanto isso, eu continuarei a contar minhas histórias.

Um viva aos aposentados, hoje, dia dos aposentados, vinte e quatro de janeiro.

Paulo Cezar S. Ventura (pcventura@gmail.com - @paulocezarsventura)

 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

O HOMEM DE TCHEKOV

  

“Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão de dólares, volta para casa e se suicida” (Anton Tchekov)

O cara se chamava Charles de Gaulle, o mesmo nome de um conhecido estadista francês, herói da Segunda Guerra Mundial. Seu pai, um professor de história fanático pela biografia do dito cujo, pensou que, assim, dava uma chance a seu filho de se empolgar pela história de seu homônimo e realizar grandes feitos na vida.

Ledo engano. O Charles de Gaulle da história francesa liderou a resistência contra os nazistas e se tornou o líder da reconstrução do país logo após a guerra. Foi presidente do governo provisório do pós-guerra, quando liderou a redação da nova constituição da república, foi primeiro-ministro e presidente da república eleito em dois mandatos.

No entanto, teve contra ele o fato de ser o presidente da república no famoso movimento de maio de sessenta e oito, promovido pela juventude francesa, que protagonizou a maior mudança de costumes no mundo ocidental. Esse movimento trouxe a popularização do indigo blues e do rock’n roll. Foi um movimento tão forte na França que brigou o presidente Charles de Gaulle a renunciar ao mandato devido a sua posição contra os jovens ávidos por mudanças na sociedade.

Pois o nosso Charles estava do lado dos jovens “rebeldes”, para desgosto total da família, que tinham adoração pelo presidente. Sua foto empunhando um enorme cartaz contra a república saiu na primeira página do Le Monde e do Libération, com a chamada de reportagem que se perpetuou como se fosse uma enorme gozação: um De Gaulle contre l’autre (um De Gaulle contra o outro).

A vida de nosso herói marginal se tornou um inferno depois disso. Foi promovido a herói pelos seus pares, os jovens da Place de la République, e a um símbolo anti-herói pelos velhos da família e pelos fiéis à República Francesa. Não é que o nosso Charles, o nosso Charlito, detestava as duas posições? Repudiado pelo forças estabelecidas, teve algumas passagens pela prisão para se explicar. Recusou também a posição de herói e liderança dos jovens por não ter o mesmo posicionamento ideológico daqueles que protestavam. Afinal, ele explicava a sua presença nas passeatas e manifestações apenas como repúdio a seu nome. Seu protesto era contra seu pai que o nomeara Charles De Gaulle, nome do famoso herói presidente do país.

Isso o livrou de um processo judicial, mas não o livrou da chacota geral, que agora era nacional. Os mesmos jornais que o elegeram símbolo do movimento de maio de sessenta e oito, agora o ridicularizavam. Ele queria se esconder do mundo. Procurava um buraco onde enfiar a cabeça, como um avestruz. Não encontrou um que lhe fosse conveniente, então foi trabalhar em um cassino em Monte Carlo, como ajudante geral, da cozinha, da faxina, das reformas gerais nos prédios. Tinha seus momentos de sossego até alguém descobrir que seu sobrenome era De Gaulle. E o inferno, seu inferno particular, se incendiava novamente.

Monte Carlo é uma cidade de Mônaco, um principado independente situado no sul da França, próximo à fronteira com a Itália. É uma cidade voltada para o turismo, devido a seu encanto, seus cassinos, e a famosa corrida de Fórmula Um. Um verdadeiro paraíso fiscal para milionários do mundo inteiro. Foi lá que o nosso Charles de Gaulle foi parar. Tornou-se um anônimo funcionário em meio aos turistas ricos do mundo inteiro, alguns famosos. A maioria de seus novos amigos funcionários eram estrangeiros, muitos deles portugueses. Ali conheceu Carlos Silva, e se tornou seu melhor amigo, exatamente por terem o mesmo prenome. Minorou um pouco sua ojeriza pelo nome e pensava sempre em trocar sua identidade.

Por vezes a sorte aparece para alguns. Encontrou uma ficha perdida durante suas faxinas e resolveu tentar. Chegou timidamente à mesa de jogo, colocou a ficha no quatro-vermelho. Não custava nada verificar se o inferno ainda estava quente para ele. O vento soprou no inferno e veio a brisa: quatro-vermelho. A bolada estava alta, um milhão de dólares.

Charles de Gaulle voltou para casa, vestiu seu melhor terno e pôs fogo no apartamento. Quando os bombeiros chegaram, já era tarde. Encontraram um corpo carbonizado com os documentos protegidos. Os jornais noticiaram, em tom jocoso, a segunda morte de Charles de Gaulle. A família ficou consternada. Seu pai arrependido de ter dado aquele nome a seu filho, não pode nem ver o rosto do mesmo, tão desfigurado estava.

Um tempo se passou e as pessoas se esqueceram do episódio. Ninguém mais falava do assunto, que rendera apenas um tempo, três dias no máximo. Afinal, não era notícia que mudaria a vida das pessoas no mundo, nem mesmo de sua família. Charles estava alienado dos parentes havia algum tempo.

Poucos meses depois desse evento, em um navio saindo de Lisboa e vindo para o Rio de Janeiro, embarcaram dois amigos portugueses: um nascido em Espinho, cidade ao lado de Porto, de nome Carlos da Silva; outro nascido em Nice, cidade do sul da França e vizinha a Monte Carlo, de nome Carlos Santos. Ter nascido e vivido em Nice justiçava seu forte acento francês. Afinal, um milhão de portugueses vivem na França, para onde iam em busca de melhores condições de trabalho. Os dois amigos se instalaram no Rio de Janeiro e inauguraram mais um restaurante português na cidade, onde ainda vivem com suas novas famílias. O nome Charles De Gaulle continua sendo lembrado no mundo, mas apenas por ser herói da resistência francesa ao nazismo e presidente da França.


domingo, 22 de janeiro de 2023

SEGURANÇA OU AVENTURA, VOVÔ

Uma boa e capciosa pergunta, essa! Segurança e aventura não são, necessariamente, antagônicas. Imagino, no entanto, que quando a pergunta foi formulada à minha pessoa, meu entrevistador deve ter considerado a minha idade. Sou um senhor de setenta anos e já vivi muitas aventuras na vida, além daquele usual chavão que nos diz que a vida é uma aventura. “Viver é muito perigoso”, dizia Riobaldo, personagem do livro Grande Sertão: Veredas, do mestre João Guimarães Rosa.

Em minhas sete décadas de vida, realmente vivi muitas aventuras. Minha própria vida pode ser enquadrada na categoria de vida aventurosa. Nasci em uma cidade do Vale do Aço em Minas Gerais, passei os primeiros anos nômade à beira da estrada, cresci tendo uma floresta como quintal de casa, morei na periferia de uma cidade da periferia da capital mineira e consegui fazer uma faculdade. Mais que isso, defendi uma tese de doutorado na França, em uma Faculdade de Letras, mesmo sendo graduado em Física, justamente na mesa e na sala de trabalho do filósofo Gaston Bachelard. É ou não uma vida de aventuras?

Além dessas aventuras pela sobrevivência, realizei outras, consideradas pelos amigos como mais cheias de adrenalina: joguei futebol de campo e de salão durante mais de quarenta anos: escalei montanhas em minha montanhosa cidade, e também na Serra do Cipó e no Chile; caminhei longas distâncias durante vários dias dormindo pelo caminho; pedalei mais de quatrocentos quilômetros em uma semana mais de uma vez; nadei em mar bravio; fui professor durante quarenta e três anos; namorei muito; casei três vezes.

Imagino que a pergunta foi formulada com uma intenção: — “Será que aos setenta anos você levará uma vida mais sossegada, com menos riscos?” — Não sei o que seria uma vida sossegada. Se for ficar parado na frente da TV, digo que não. Se for encerrar o prazer de uma vida em boa companhia, também digo que não. Se for parar de caminhar e pedalar, com ou sem destino, a resposta também é não. Se for parar de apreciar as belas-artes das pessoas capazes de produzi-las, também digo que não. Se for levar uma vida sem a alegria e bom humor, sem a eterna busca da felicidade, claro que ouvirá um não bem grande e alto.

Evidentemente, aos setenta anos, as aventuras precisam ser planejadas com segurança. Aventurar-me não é mergulhar de cabeça sem antes verificar a profundidade da piscina. Nem é mais viajar sem saber o destino. Não dá mais para dormir no banco da praça, como já fiz várias vezes, ou no cemitério, como fiz uma vez. Não é pedir carona na estrada com uma mochila nas costas, como na juventude. Mas ainda posso me dar o prazer de subir algumas montanhas, de caminhar boas distâncias, de pedalar bons caminhos, de pegar um ônibus à noite para tomar um banho de mar pela manhã. Segurança não é viver na bolha, é ter um mínimo de planejamento das aventuras a seguir. Principalmente por a aventura ser também um alongamento de meu sobrenome.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

DUAS MUSAS

Eu a conheci aos vinte e dois anos. Recém graduado na Universidade, comecei a lecionar em um colégio tradicional da capital mineira. Ela era bela, grande, com mãos grandes e um sorriso encantador. Um charme em pessoa.

Haviam dois problemas naquele clima de sedução e intimidade pairando no ar quando estávamos próximos um do outro, a ponto de os colegas notarem. Dois nada, vários. Éramos casados, ela dez anos mais velha e com três filhos e um marido muito simpático.

Descobri cedo, cedo demais, que meu casamento fora precipitado. Esse não fora por amor, apenas por simpatia. Aquele sorriso mostrou-me isso tão logo.

Foi assim que cresceu uma amizade duradoura, uma cumplicidade perturbadora entre nossa dupla. No ar havia sempre aquele risco iminente de transformação da amizade em outro tipo de relação, mais íntima: um desafio constante.

Mudei de cidade por razões de trabalho, mas nos visitávamos mensalmente. Escrevíamos cartas. Ela jogava peteca e participava de campeonatos em vários níveis. Às vezes, eu a acompanhava. Para isso aprendi a jogar também e cheguei a ser razoavelmente bom e competitivo no esporte. Desloquei o ombro direito e me descobri ambidestro. Passei a petecar com a mão esquerda. Todo esforço para não a perder de vista.

Tive filhos, os dela cresceram, os encontros rarearam, o fluxo das cartas aumentou consideravelmente. Foi então que descobri sua sósia, quase idêntica, apenas um pouco mais velha que minha musa jogadora de peteca e professora. No cinema, para ser exato. Entrei na sala de cinema para assistir a um faroeste, cinegrafia obrigatória dos jovens de minha idade, àquela época. A semelhança entre as duas fez meu coração disparar. Até o sorriso era o mesmo.

Não troquei de pessoa, acrescentei-a em meus sonhos. Aprendi com Yoko Ono que “se precisar de um quarto, arrume outra pessoa, em vez de outro quarto”. Pessoas a gente guarda dentro, quartos não.

Guardei as duas comigo. Com a primeira eu encontrava sempre que podia. Com a segunda os encontros eram mais raros, pois só podia ser no cinema, na sala escura, onde eu absorvia suas falas, memorizava seus movimentos e saia com lágrimas nos olhos ao final do filme. Essa também era casada, mas eu não me importava com seus casamentos sucessivos.

Com a primeira trocava cartas, jogava peteca, compartilhava sorrisos e abraços e longas conversas ao nos encontrarmos. Por telefone também. Com a segunda os filmes foram rareando, ela deixou de aparecer nos cinemas, as salas foram fechando, envelhecemos.

A primeira desapareceu de minha vida. Aliás, desapareceu da face da Terra. Suas cartas deixaram de ser escritas exatamente quando me faziam muito bem, pois eu residia fora do Brasil. Procurei-a, em meu retorno, e descobri seu falecimento, silencioso, “antes do combinado” como sempre diz Rolando Boldrim quando fala de alguém falecido jovem.

A segunda ainda vive. Hoje, só consigo vê-la no YouTube. Não há nenhum filme dela na Netflix, infelizmente.

O tempo passou, meus dois amores do passado, grandes amores, são apenas belas lembranças. Não tenho comigo nenhuma foto da primeira. Lembro-me dela, nas imagens da segunda. Assim posso imaginar como ela seria se viva ainda estivesse. Ao envelhecermos, pelo menos ficamos com as memórias, mesmo que brigando com elas para não desaparecerem. 


A VIDA IDEAL DE UM ESCRIBA


Certa vez ouvi de uma amiga querida, lá nos anos oitenta do século passado, exatos quarenta anos atrás, que “o ideal é sempre o real”. Traduzindo para um português menos filosófico, o ideal é aquilo que está nos limites de nossas possibilidades de realizações. Ela se referia a seu interesse em ter um relacionamento amoroso comigo e na minha impossibilidade de atendê-la.

Hoje, diante da interrogação de um amigo, desbravador quixoteano das (im) possibilidades literárias e artísticas, com os pés no pedal de sua Rocinante de fibras de carbono (ou seria ainda alumínio?), sou convidado a ressignificar a frase de minha amiga ao tentar respondê-lo: qual a vida ideal desse escriba que vos rabisca essas mal traçadas linhas?

Se há, qual o limite entre o ideal e o real? Poderia me recorrer aos filósofos, há os que afirmam a inexistência da realidade, sendo ela uma ilusão de nosso pensamento; ou a alguns místicos que afirmam ser a própria realidade uma construção de nosso pensamento. Basta a gente pensar que ela se cria?

Eu, na minha condição de leitor do mundo e usuário da vida ofertada pelo Planeta Água, creio que a realidade, concreta ou abstrata, é aquilo que carrego comigo na fronteira entre os fatos e a imaginação. Como esta fronteira é fluida, às vezes posso empurrá-la um pouco mais para o plano da imaginação. Para que os outros acreditem ou, pelo menos, sonhem, escrevo o que leio do mundo, tanto o possível quanto o imaginado. Doso bem a mistura dos dois para aumentar a credibilidade das narrativas imaginadas, ou colocar os fatos acontecidos no plano do imaginário.

Então, o que é ideal para esse escriba? O escriba gosta de xeretar a vida alheia, sutilmente, e espiritualmente para não ser pego em flagrante, para romanceá-la e parecer até ao próprio xeretado que sua vida é maravilhosa, mesmo sem ser. Entenderam onde fica a fronteira? Por que ela pode transitar entre mais para lá e mais para cá? Por isso sou poeta. Porque escrevo em cima desta fronteira. O ideal é estar me equilibrando nesta linha que se serpenteia mais que jararaca em movimento, entre o causo e a história, entre o fato e o imaginário, entre o que é e o que poderia ser, entre o que vejo e o que eu narro. Podem, por isso, me chamar de poeta.

PODEM ME CHAMAR DE POETA

   Quando alguém quiser me xingar
pode me chamar de poeta:
ou vagabundo, ou idiota letrado
ou mercador de prosopopeias
ou batráquio de palavras
ou empacotador de metáforas
ou escritor de frases sem nexo nem plexo
ou amante de divas da verborreia
ou sonhador de inconveniências
ou filósofo de adegas envinagradas
ou escrutinador de pleitos impossíveis.
Tanto faz
dá tudo no mesmo.
Mas o que sou de fato?
Criador de calangos
colecionador virtual de assobios de pássaros livres
observador das fendas do cotidiano.
Preguiçoso nato.
Trabalho apenas para manutenção do ócio.


O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO “SABERES OCULTOS ENTRE MONTANHAS”

Escrevo poesias desde meus quinze anos. O mote para começar foi a leitura que fiz do poema Se, de Rudyard Kipling e pensei que poderia escre...